Diga Adeus à Inocência
47 15.
*MALIC*
Mordisco a unha de meu indicador e olho de relance para a minha mãe.
– Posso te contar uma estória?
Ela me encara e enxuga a mão no pano.
– Claro. – senta à mesa e repousa os braços no vidro.
– Havia um menino chamado Matheus e sua irmã, Heloisa. Os dois não eram muito chegados e mal se falavam dentro de casa. Um dia, Heloisa perece por um motivo clínico e Matheus se culpa por nunca ter tido um relacionamento afetivo saudável com a irmã, esse sentimento se enraíza dentro dele. Alguns anos depois ele conhece Beatriz e se apaixona, há um ponto peculiar nela que o chamou a atenção: ela é a cópia de sua irmã. – olho para a foto de Helena mais uma vez – O que você acha que o Matheus sente de verdade? Acha que ele se apaixonou pela Beatriz por causa da irmã?
Ela me encara por um momento, com seus olhos castanhos me analisando e talvez, pensando um pouco na história.
– Talvez o amor dele pela Heloisa seja tão doentio que transpassou para a Beatriz e talvez ele não ame a Beatriz de verdade, ele ama a Heloisa. – ela dá de ombros – Você não contou a estória toda para eu tirar uma conclusão de verdade.
Não sei a estória toda, mãe, ela ainda não acabou.
– Você acha que ele não ama a Beatriz?
– O que falei é apenas uma hipótese. – ela levanta – Claro que ele pode amar a Beatriz como Beatriz.
Uma notificação anuncia a mensagem do Malic:
*Ñ sei oq falar*
Não respondo.
*Vcs podem ser parecidas, mas sei que são pessoas diferentes. *
*Helena ou Bianca?*
*Oq?*
*Responda*
*Ñ vou responder isso!*
*Pq? Ñ tem resposta?*
*É ridículo*
Suspiro. Talvez eu esteja sendo ridícula mesmo, é ilógico acusá-lo de amar Helena, ela é irmã dele. Ele precisa amá-la.
*Prefiro vc, a Helena me irritava ás vezes*
Reviro os olhos.
*Ñ precisa me agradar*
*Poxa... Tentativa falha, então?*
*S*
*Amo as duas, td bem? Cada uma tem um tipo de amor e desfecho*
*Desfecho?*
*Estou dizendo q você ñ irá acabar como ela*
Não respondo.
“A jovem foi encontrada no beco por um sem teto morador da cidade. ” ; “ A família não quis gravar entrevista e não pronunciou nada sobre o caso. ” ;" É o primeiro caso de assassinato da pacata cidade, os moradores estão assustados com tamanha violência. ” ;“Parentes e amigos estão inconformados (...) “ ;“ A polícia está empenhada em encontrar seus assassinos “ ; “ O ex-namorado foi detido “ ;“ Nada foi encontrado para incriminar o ex-namorado da jovem, muito menos seus amigos “; “ O caso continua sem suspeito”;“Infelizmente, os investigadores foram obrigados a arquivar o caso “; “ O assassinato continua sem seu principal constituinte: o assassino “; “ Quem é o assassino da jovem Bragatti? “
***
Julho
Acabei de entrar de férias e faltam duas semanas para o aniversário de minha vó. Minha mãe está planejando uma festa com meus parentes distantes enquanto minha vó quer apenas um bolo. Por falta do que fazer, resolvi voltar para Villa Lobos um pouco antes da festa e fazer as pazes com a minha vó, além de rever o pessoal.
– Mas você já está chegando? – minha mãe pergunta.
– Estou na entrada da cidade. – troco o celular de ouvido – Não dá pra dirigir e falar com você.
– Tudo bem, avise quando chegar. – ela desliga.
Dez minutos depois que cheguei na cidade, já estou em frente à casa da vovó. Ela está cuidando de suas flores e Israel parece estar aqui, espero que Felipe não. Saio do carro e me aproximo do portão, bato palma. Ela olha em minha direção.
– Tem pão duro? – grito, sorrindo.
Ela larga as luvas e as pás e vem andando apressadamente em minha direção.
– Que surpresa! – destranca o portão.
– Presente de aniversário antecipado. – abraço-a – Me desculpe por ter ido embora daquele jeito e de ter feito tudo o que fiz, fUi idiota, eu sei. Me desculpe mesmo.
– Não tenho ressentimento. – ela esfrega minhas costas – Você teve seus motivos e eu não respeitei.
– Fico feliz que possamos esquecer isso.
– Vamos esquecer. – ela se afasta – Tenho uma torta salgada pronta, quer?
– Por favor. – sorrio.
Caminhamos para dentro da casa, onde encontro Israel vendo t.v.
– Olá. – me aproximo – Quanto tempo.
– Ô filha – ele segura minha mão -, que bom que está de volta, vai ficar?
– Só para as férias. – sorrio.
– Sua vó sentia sua falta. – ele confessa – Falava de você todo dia.
– Também senti a dela.
– Bianca, a torta! – ela grita da cozinha.
Despeço-me dele rapidamente e corro até a cozinha, sento à mesa e aguardo o pedaço esquentar no micro-ondas. Vovó enche um copo com suco de melancia e pega o pedaço quando o aparelho apita, anunciando o final do ciclo.
– Então, como anda as coisas? – ela senta na cadeira a minha frente e desliza o pedaço na minha direção.
– Bom – corto um pedaço com o garfo -, reencontrei a Clarice, lembra dela?
– Menina vulgar. – ela revira os olhos.
Sorrio e concordo com um meneio de cabeça.
– Nossa amizade não é mais a mesma, não tenho mais paciência para os papos nojentos dela. – como – Conheci um menino, Heitor, mas não gostei muito dele.
– Ainda gosta do tatuado? – ela apoia a bochecha na mão.
– Então – corto outro pedaço -, ele desistiu do casamento e foi me procurar. – sorrio – Acabamos voltando.
Ela solta o ar dissonante.
– Logo porque achei que vocês não tinha mais chances juntos.
– Você sabia que ele tem uma irmã? Quer dizer, tinha.
Ela estreita os olhos.
– Vou lá saber da vida dele.
– É que ela foi assassinada aqui. – como outro pedaço – Achei que você iria conhecer.
– Tantas já morreram aqui. – ela divaga olhando para a madeira da mesa.
– Mas ela parece ter sido o primeiro caso de assassinato. – insisto – Há uns dois anos atrás.
Ela sorri.
– Estou velha, querida, acha mesmo que irei lembrar de uma jovem morta há dois anos? – ela ergue uma sobrancelha – Que bom que pudesse.
Dou de ombros. É bom eu também esquecer isso.
– Deixei seu quarto do jeito que você deixou. – ela comenta – Já pode colocar suas coisas lá.
– Mais tarde coloco, estou cansada.
– Quer me ajudar com o jardim?
Odeio jardinagem. Fico com dor nas costas, irritada com o sol e com os espinhos, a terra é dura para cavar e as raízes nunca entram de primeira, mas foi minha vó que pediu.
– Claro.
Ficamos o dia todo refazendo o jardim de minha vó e plantando algumas mudas novas que o Israel trouxe de uma viagem que fez para fora do país. As meninas me mandaram mensagem falando que queriam me encontrar hoje à noite.
– Vai voltar tarde ou posso te esperar? – ela me encara da porta.
– Acho melhor a senhora dormir. – sorrio para ela pelo espelho.
– Gostei do seu cabelo assim, favoreceu as linhas do seu rosto.
– Existem mudanças para melhor. – pego a bolsa que arrumei e ando em direção a porta – Está boa a roupa?
– Ótima. – ela toca na barra de minha blusa – Tome cuidado.
Engulo seco. Não sei o porquê da sensação estranha que toma o meu corpo; Uma ânsia ácida corrói até meu esôfago. Sorrio para espantá-la.
– Já vou indo. – passo por ela, dou um beijo em sua bochecha e desço a escadas. Pego a chave do carro e da casa.
O bar está cheio – é o que se espera de um bar nas férias -, tenho que parar umas ruas antes e ir a pé, passar sem respirar pelas mesas na calçada por causa da falta de espaço e entrar espremida no lugar. A música é abafada pela falação e pelo “campeonato” de sinuca. Avisto a mesa. Aceno.
– Minha bebê – Monique abre os braços e vem em minha direção -, você me abandonou.
Sorrio e abraço-a.
– Estava com saudades.
Amiony entra no abraço.
– Sua desgraça, nem se dignou a dar tchau. – resmunga.
– Foi de última hora. – explico.
– Ué, mesmo assim, o que custa avisar as amigas? – ela estreita os olhos já pequenos – Achei que você tinha morrido, ou melhor, tinha sido morta.
Sinto um calafrio.
– Credo. – faço uma careta – Não brinque com isso.
– Que bom que voltou. – ela aperta minha bochecha.
– Isso merece mais uma rodada! – Juliana ergue o copo – Garçom! Onde está o garçom?
– É bom te ver também. – sorrio e sento ao seu lado, na cadeira vaga – Michaela não veio?
– Está passando um tempo com os pais na praia. – ela comenta – Achou melhor não me levar, os pais ainda não estão à vontade.
– Você sabia que ia ser difícil. – aperto sua mão e ela dá um gole na sua cerveja.
– Só não achei que seria tanto assim. – ela confessa com um sorriso triste.
Coraline surge no fundo do salão, saindo do banheiro e assim que me vê, acena.
Aceno de volta.
– Estava sentindo sua falta. – ela senta.
– Também senti. – sorrio.
Então o assunto é retomado, me bombardeando de informação e a mais importante é: o diretor da universidade está sendo investigado.
– Por que?
– Porque acham que ele pode ter ligação com o Lobo. – Coraline dá de ombros – Parece que todo mundo tem ligação com o Lobo agora, mas ninguém descobre quem é. Já estou cansada.
Nós estamos.
– Conseguiram provar?
– Que nada. – Monique ri – Acha que eles iam descobrir? A polícia é uma merda atualmente. Ele já foi liberado, mas ainda está sendo vigiado.
– Não acho que ele seja o Lobo. – Juliana comenta – Ele é só um velho machista atrasado.
– Verdade. – meneio a cabeça concordando, porém ainda nutro alguma suspeita sobre ele ser o Lobo. Qualquer um pode ser o Lobo e a pergunta certa a se fazer não é o “por que ele seria o Lobo? ” e sim, “ por que não seria? ”
– Não. – Amiony bate o copo na mesa, assustando-nos – Precisamos contar para ela.
Contar o que? Meu coração acelera.
– O Rafael nos traiu. – ela diz, amargurada.
Respiro aliviada. É isso.
– Como assim? – passo os olhos por todas.
– Ele não quer mais fazer a campanha com a gente. – Coraline dá de ombros – Contratou modelos profissionais e abriu meio que um estúdio.
O que um toque de ambição não faz.
– O pior não é nos descartar – Monique diz, mexendo em seu copo distraidamente -, é que ele está pagando as modelos até com hora extra e o Matthew disse que ele está montado na grana.
Não sabia que ele estava tão poderoso assim.
– Não podemos entrar com um processo ou sei lá? Ele ganhou dinheiro em nossas costas. – pergunto.
– Falei com minha mãe e ela vai entrar com um recurso. – Amiony informa – Pelo menos ele tem que devolver alguma coisa.
Claro que tem.
– Ele deve mais a Camila. – Juliana comenta – O sucesso que ele conseguiu foi em cima da morte dela.
Contraio os lábios. Gente ambiciosa cai rápido. Assim espero, ele está merecendo uma boa e dura queda.
– Ah! – Monique arregala os olhos – Estava esquecendo da melhor parte.
– Qual é? – sorrio.
– A Helen sendo deixada no altar. – Juliana diz com um sorrio de lado, tentando disfarçar a graça.
– Foi maldoso. – Amiony comenta – Mas hilário.
Abaixo o olhar para a mesa. É lógico que foi maldoso, nem quero pensar no que ela sentiu em saber que ele tinha ido embora. Posso me colocar no lugar dela, olhando para a porta da igreja com a esperança de que ele irá chegar, é um atraso, e então descobrir que ele nunca vai chegar porque ele não quer chegar.
– Bata na madeira. – Monique dá três tapas na mesa – Que isso nunca aconteça comigo.
– Ela fez escândalo?
– Não. – Coraline dá um gole em sua bebida – Primeiro teve uma hora de atraso por causa dela, mas já estava estranho porque o Malic não estava no altar, até comentei com a Juliana se havia acontecido alguma coisa com o bebê para nenhum dos noivos estarem.
Mordisco a unha de meu dedo, tentando disfarçar o nervosismo.
– Depois ela chegou. – Monique continua – Só que ficou do lado de fora porque o noivo não estava lá e foi aí que o pessoal começou a comentar e a desgraça estava feita.
Mordo o lábio inferior.
– Eles resistiram ao máximo a ideia de que Malic a havia deixada, no entanto foi inevitável e o pai dela teve que anunciar o cancelamento. – Monique conclui – Quando estávamos saindo da igreja eu a vi sentada na escadaria lateral, não parecia estar chorando.
– Sabem onde ela está? – questiono.
– Parece que ela vai morar um tempo aí no apartamento dele. – Juliana comenta – A mãe do Malic não confia nela para cuidar do bebê depois do que aconteceu. Está meio depressiva.
Em quem aquela mulher asquerosa confia? Nem no próprio filho.
– Acho que ela já foi embora. – Monique encara Juliana.
Dou de ombros. Não me importo com isso, a vida dela não diz respeito a minha.
– Garçom! – Juliana levanta da mesa erguendo a mão assim que vê um passar.
Sorrio. Quanto desespero...
Já passa da uma da madrugada e as meninas ainda não consideraram a ideia de ir embora. Parei de beber a duas horas atrás- mesmo que não tenha bebido muito para ficar presa-, tenho que dirigir e ter responsabilidade de não morrer na estrada.
– Minha nossa. – Juliana fecha os olhos – Já estou tontinha.
– Acho que já vou embora. – comento.
– Pode me dar carona?
– Claro.
Nos despedimos das meninas e saímos, tenho que dar apoio para Juliana não cair de cara no chão e ajudá-la a dar um passo sem trocar os pés. Quando chegamos no carro, tenho que auxiliá-la a entrar sem bater a cabeça.
Sigo em uma velocidade acima da permitida e passo em alguns faróis vermelhos por medo de ficar parada e ser assaltada.
– Vá devagar, tem um monte de bêbado igual você andando a solta hoje. – Juliana comenta.
Sorrio.
– Não estou bêbada.
Diminuo um pouco e me preparo para virar na rua de sua república quando um vulto passa na frente do carro e some.
Atropelei o vulto?
Breco o carro e canto pneu, Juliana bate a cabeça no painel.
– Cacete! – ela coloca a mão na testa – O que deu em você?
– Atropelei alguém. – minhas pernas amolecem.
– Porra, sério? – ela olha para trás – Puta merda, é verdade.
Meu estômago revira. O vidro do carro está trincado – evidenciando que atropelei o vulto. Abro a porta do carro e pego fôlego para sair e caminhar até o corpo mole no chão. À medida que me aproximo, descubro que é uma mulher. Juliana está na minha frente.
– Matou a concorrência. – ela comenta.
Franzo o cenho.
– Você atropelou a Helen.
Arregalo os olhos e corro na direção do corpo, ajoelho ao seu lado.
O braço parece está quebrado, assim como o pé. Várias partes do corpo sangram; coxa, joelho, queixo e cotovelo estão esfolados. O lábio está inchado e um filete de sangue escorre pelo canto de sua boca. A testa está com um corte fundo.
– Liga pra emergência. – falo, exasperada.
Juliana levanta meio mole e volta para o carro. Não toco em seu corpo.
Meu Deus, matei a Helen.
Lágrimas borram minha visão e o pânico faz meu corpo amolecer mais ainda. Sou uma assassina, devia ter diminuído quando a Juliana falou. Eu... Eu... Vou ser presa. O que vão falar para o Cesar? Acabei de deixar uma criança órfão. E o Malic? Meu Deus do céu. Finco os dedos no cabelo e prendo a respiração.
Tenho uma sensação de estar sendo observado e isso me sufoca mais que o meu ato de prender a respiração. Olho para o outro lado da rua.
Há uma silhueta lá, imóvel. Está nos olhando e o seu olhar pesa.
Engulo seco.
Helen dá um gemido de dor.
– Meu Deus – volto a prestar a atenção nela -, está viva.
– O resgate já está vindo! – Juliana grita do carro.
Olho para a viela novamente e não há mais ninguém lá.

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