Diga Adeus à Inocência
44 12.
– Ainda bem que você me ama.
Ele fecha os olhos e dá um rápido sorriso, sem mostrar seus dentes. Me aproximo o bastante para poder apoiar minha bochecha em sua testa e enroscar minhas pernas nas dele. Seu corpo continua mais quente que o meu.
– Você é quente. – comento, acariciando os cabelos em sua nuca.
– Muito quente. – concorda, começando a acariciar toda a extensão das minhas costas com a ponta dos dedos.
A ideia dele ser um assassino não passa pela minha cabeça nem se eu sofrer lavagem cerebral sobre isso. Talvez eu seja apaixonada o suficiente para acreditar que ele é a pessoa mais pura do mundo – mesmo com seus hábitos e ações contraditórios a esse pensamento-, Malic não passa de uma criança perdida para mim, um pequeno menininho precisando de amor e carinho. Se alguém me falar que ele matou alguém ou que fez algo terrível para alguma pessoa negarei até a minha morte, ele não é capaz disso, mesmo tendo esses olhos de psicopata selvagem – ele não é capaz de fazer jus a eles. Só acreditaria na parte negra dos olhos amarelos se eu ver com meus próprios olhos, se for uma testemunha.
Por alguma brincadeira de mau gosto de minha cabeça, volto para a noite do beco e sou capaz de escutar os gritos da mulher. Estou olhando para o capuz profundo e sentindo seu olhar pesado. Não posso fazer nada, apenas encará-lo e rezar para que ele não se aproxime. O rosto dentro do capuz vai tomando linhas, forma e, aos poucos, passa de uma silhueta para um rosto. Ainda não consigo identificá-lo com qualquer pessoa e então os olhos são ressaltados: amarelos.
Levanto em um sobressalto e saio da cama. Malic senta e me encara com o cenho franzido.
– O que foi? – coloca os pés para fora da cama e passa a mão no cabelo – Acha que seus pais chegaram?
– Não chegue perto de mim! – abraço o meu corpo.
– Bianca, você está me assustando. – ele levanta.
– Não! – grito.
Assim como o dia do beco, não consigo me mexer.
– O que está acontecendo? – suas mãos alcançam meus ombros.
Afasto-as com tapas e saio correndo para a porta. Tento abri-la com tanto desespero que arranco a maçaneta.
– Você a trancou. – ele diz, atrás de mim.
Merda. Bato com o objeto de metal na madeira da porta. Nunca dê as costas para o inimigo.
Viro e encosto na porta.
– Se der mais um passo, vou gritar. – ameaço.
Ele ergue a sobrancelha.
– O que deu em você?
– Eu sei quem você é. – falo, entre dentes – Não acredito que nunca vi isso antes.
Ele cruza os braços e estreita os olhos.
– Quem eu sou?
– Você é o Lobo. – aponto a maçaneta para ele – Esteve sempre embaixo do meu nariz e fui nunca incapaz de reparar isso.
– Por favor. – ele revira os olhos.
Minhas pernas começam a fraquejar e a necessidade absurda de sair daqui me desespera. A maçaneta...
Em um impulso de adrenalina, tento acertá-lo com a maçaneta, mas seu tamanho e reflexo é o dobro do meu. Sua mão agarra meu pulso e me joga contra a parede, seus olhos queimam os meus, assim como os do beco.
– Por favor, não me mate. – as lágrimas borram minha visão – Prometo não contar para ninguém quem você é, eu juro.
A maçaneta cai de minha mão assim como a força de minhas pernas me abandonam, escorrego pela parede e não consigo controlar o choro. Vou morrer.
– Pelo amor de Deus. – ele estreita os olhos – Acha mesmo que sou o assassino?
Encaro-o e tento controlar o choro.
– Se eu fosse o Lobo, você não estaria mais viva. – ele pega a maçaneta – Da onde tirou isso?
Passo a mão no meu cabelo. O que está acontecendo com a minha cabeça?!
– Deve ser difícil pra você, entendo. – ele coloca a mão em meu joelho – Mas você tem que tentar se controlar, deixar esses surtos controlarem sua cabeça só vai te enlouquecer.
Seguro o soluço.
– Acho que já estou louca. – sorrio em meio as lágrimas. Talvez esteja condenada a ter isso para o resto da minha vida.
Malic dá um leve aperto em meu joelho como um consolo.
– Sinto muito em não poder fazer nada para ajudá-la. – ele encosta na parede.
É tão assustador pensar que tudo isso é feito pela minha própria cabeça, que ela faz ser tão real que consegue distorcer o real e no que acredito. Não vi o rosto dele naquele beco e não posso distorcer isso para o Malic, até porque não acredito que ele possa ser um assassino, muito menos o Lobo.
– Me desculpa. Eu só não consigo controlar, acabo confundindo a realidade com o imaginário e nada mais na minha cabeça faz sentido. Sinto muito mesmo.
– Só prometa que não vai fazer isso de novo. – ele dá um sorriso fraco – Me assustou de verdade.
– Prometo. – minto.
Ficamos em silêncio enquanto tento controlar o excesso de lágrimas borrando minha visão.
– Quer tomar um banho? – ele levanta – Vamos relaxar um pouco do susto.
Não digo nada, apenas levanto e abro a porta do banheiro. Ascendo a luz e paro em frente ao espelho. Malic passa atrás de mim e abre o registro do chuveiro, continuo me encarando no espelho. Não sou mais confiável, nem sei o que é realidade e o que é inventado pela minha cabeça.
– Vem. – ele estende a mão para mim. Hesito por alguns instantes, ele suspira – O que tenho que fazer pra provar que não sou o Lobo?
Encaro-o.
– Nada. – forço um sorriso – Acredito em você.
É tão doentio não poder mais confiar em suas convicções e depender da sua confiança nos outros.
A água está tão quente quanto o corpo dele, fico bem embaixo da queda d’água; imóvel. Malic pega o sabonete e passa na bucha, passando por minhas costas logo em seguida.
– Esse tipo de reação está ficando cada vez mais frequente. – comento – Não consigo mais controlar minha cabeça.
Ele não diz nada.
– É tão real que – minha frase morre no fundo de minha garganta -, me descontrolo.
– Não tem tratamento? – ele esfrega meus ombros.
– Tomo calmantes. – dou de ombros – O outro tratamento é me internar.
Ele aproxima o corpo do meu e passa sabão na bucha novamente, passando pelo meu busto e pescoço. Desce para minha barriga e sobe novamente.
– Vai lavar a cabeça? – ele coloca a bucha no lugar novamente.
– Sim.
Fecho os olhos e continuo no mesmo lugar, apenas sentindo seu corpo esbarrar no meu às vezes.
– Aqui, vai escovando. – ele me entrega a escova de dente, obedeço.
Malic espreme o tubo do shampoo na palma da mão e deixa o excesso cair por minhas costas.
– Desculpa. – ele passa mão para pegá-lo novamente – É só esfregar?
Meneio a cabeça positivamente.
Não sei se é a primeira vez que ele lava a cabeça de uma mulher, mas ele faz isso muito bem. Gentil e cauteloso, tomando cuidado para não puxar os fios e nem fazer muita força.
– Você podia lavar minha cabeça sempre. – sorrio.
– Será um prazer. – ele termina de passar o condicionador.
– Agora deixa eu lavar você enquanto faz efeito. – puxo-o para debaixo do chuveiro e pego a bucha.
Passo o sabonete por ela e molho um pouco, indo direto para o tórax dele. Esfrego fazendo pressão, mas tomo cuidado para não marcá-lo. Passo-a por todo o seu corpo, sempre repondo o sabonete e fazendo espuma, até que chego em suas costas e noto as marcas de arranhão – parece que minhas bochechas vão explodir de tão quentes. Posso fazer isso para sempre.
– Toma. – pego minha escova e coloco a pasta – Pode usar a minha.
Coloco shampoo em minha mão e massageio seu couro cabeludo, fazendo muita espuma. Tenho que ficar nas pontas do pé para executar o trabalho direito.
– Vou colocar o condicionador no seu e aí podemos tirar o meu. – aviso.
Ele dá um passo à frente e encosta os corpos.
– Podemos voltar a namorar?
A questão é tão repentina que me deixa sem fala. Franzo o cenho e volto o frasco de condicionador no lugar, sem tirar os olhos do seus. Depois do que eu fiz ele ainda quer namorar comigo? Ele é algum tipo de louco não identificado? Era para ele estar fugindo de mim.
Beijo-o por falta de reação e sou prontamente correspondida.
Acabamos não seguindo os cinco minutos para o condicionador no cabelo dele e molhamos tudo. Fecho o chuveiro e tiro o excesso de água do cabelo.
– Vou pegar uma toalha pra você. – saio do boxe e me enrolo na toalha.
Malic fica com a toalha enrolada na cintura por falta de muda de roupa e eu enrolo a minha no cabelo.
– Gostaria de ver você tirar a roupa e não colocar. – ele comenta, sorrindo.
Ergo uma sobrancelha.
– Podemos experimentar isso mais tarde. – sorrio.
– Eu iria adorar.
– Eu também.
Ele ergue uma sobrancelha.
– Vamos pegar uma roupa para você.
Após várias tentativas de tentar colocar a maçaneta, finalmente conseguimos sair do quarto e descer.
Trombo com minha mãe no final da escada.
– Ô inferno, que susto. – ela coloca a mão no peito – Achei estavam dormindo.
– Tomando banho. – corrijo-a.
– Estão com fome? – ela ascende a luz da escada e nos encara, dando uma ótima olhada para a toalha do Malic.
– Sim. – respondo por nós dois – Só vamos pegar as roupas dele.
– Tudo bem. – ela dá um ótimo sorriso.
– Mãe da Bianca. – ele a cumprimenta enquanto terminamos de descer a escada.
Aguardo-o encostada no portão enquanto ele retira a mala do carro. De fato, ele estava decidido a não casar. Aproveita e já coloca a camisa aqui mesmo.
– Colocaria a calça também – ele comenta se aproximando -, mas não quero ser preso por atentado ao pudor.
Rio.
– Tente se conter em ficar nu só no meu quarto. – fecho o portão.
– Só se você prometer não atacar a gostosura aqui. – ele ri.
– Você é tão tentador que não prometo nada.
– Sua safada.
Rio.
– Entra. – empurro-o para dentro.
Ele termina de se vestir no banheiro enquanto minha mãe começa a fazer a janta. Tiro a toalha do cabelo e a estendo no corrimão junto com a do Malic.
– Se não é pedir muito, gostaria de fumar. – ele sai do banheiro.
Reviro os olhos.
– Vamos para a sacada. – aponto para a porta de vidro da sala.
– Obrigado. – ele retira o maço de cigarros do bolso da calça e posso apostar que ele o pegou junto com a mala.
Caminhamos rapidamente e ele esconde o maço enquanto passa por meu pai na sala.
– Estamos na sacada! – aviso minha mãe enquanto fecho a porta.
– Não precisa gritar, sei onde vocês estão. — meu pai resmunga.
– Desculpa.
Sentamos no pequeno sofá. Observo ele ascender o cigarro e de sua expressão de êxtase em dar a primeira tragada. Qual será o gosto disso? Deve ser saboroso para tantas pessoas usarem ou nem tanto, vai ver é só o vício mesmo, como a cerveja.
– Nem pense nisso. – ele me encara de canto de olho.
Arregalo os olhos com o susto.
– O quê?
– Você nunca vai fumar.
Sorrio.
– Quem disse que quero?
– Seu jeito seco de encarar. – ele replica, sorrindo com o cigarro nos lábios.
Reviro os olhos.
– Credo, continuo achando nojento.
– Que ótimo. – ele coloca a mão em minha coxa e aperta – Você é inocente demais pra isso.
– Só pra isso?
Um sorriso lascivo se forma no lugar do gentil.
– No outro quesito você já está bem experimente.
Rio timidamente e posso apostar que estou ruborizada.
– Era só saudade. – encosto a cabeça em seu ombro.
– Vou deixar você com saudade sempre.
– Não faça isso. – passo os braços por sua barriga – Sério.
Ele respira fundo e passa o braço por meu ombro, deixando cair por minhas costas.
– Minha inocente Angel. – sussurra.

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