Diga Adeus à Inocência
56 24.
Notas iniciais
Minha mãe não foi me procurar em meu quarto e agradeço por isso, não saberia explicar o que aconteceu comigo ou porquê agi daquela forma. Uma parte de mim sente remorso pelos meus atos e quer se redimir – como Matthew disse, as pessoas tem suas próprias vidas -, e há um outro lado meu, que não se arrepende e crê que essas pessoas mereceram isso e até mais. Não sei para qual lado pendo e me decido, então resolvo continuar afogada em meus pensamentos e ações futuras.
Isso tudo é como uma unha encravada, dói quando cutucamos, mas precisa ser arrancada.
O mais difícil de estar do lado de fora é aguentar meus pensamentos, antes estava sob o efeito de tantos remédios que não conseguia nem falar, muito menos pensar em alguma coisa. Era como estar em coma em um estado consciente. Mas aqui preciso sobreviver aos meus pensamentos e memórias, não só pela minha mãe, por mim também. Tenho que voltar a ser o meu eu de antes, talvez não precisar chegar tão perto, mas preciso me levantar da queda e continuar – minha vó não irá mais voltar, não irei mais ser salva do estupro, o Lobo não será evitado de entrar na casa aquela noite, não poderei negar a janta que tive.
Saio da cama e passo as mãos pelo cabelo. Minha vida nova começa aqui e agora. Pego meu prato de bolo e destranco a porta.
A casa está toda apagada, o que me leva a pensar que minha mãe já se recolheu ao quarto. Dou uma garfada no bolo e cruzo o hall, indo parar na porta do seu quarto. Devo atormentá-la ainda mais? Ela não deve estar querendo olhar na minha cara depois do que aconteceu.
Giro a maçaneta e a porta está destrancada – o que, acho eu, parece ser um bom sinal. Abro-a por inteiro e contemplo o escuro, ainda sim posso notar a protuberância do corpo de minha mãe em cima da cama coberta. Fecho a porta e solto o ar com força.
— O que foi? – sua voz rompe o silêncio e me assusta. Acordei ela?
— Estava dormindo? – hesito em me aproximar.
— Só estava pensando. – sua voz está lenta e pesada, o que denuncia que ela chorou.
— Trouxe um pedaço de bolo. – informo, sem jeito de puxar conversa.
Ela solta o ar dissonante e senta na cama, ascendendo a luz. A claridade fere meus olhos já acostumados com o escuro.
— Sente aqui. – ela bate no lugar ao seu lado.
Sorrio e me aproximo hesitante, reparando em cada alteração em sua face. Sim, ela chorou.
— É um bolo muito bom. – comento sentando ao seu lado.
— Fico feliz que tenha gostado. – ela pega o prato de minha mão.
— Primeiro pedaço. – forço um sorriso.
Felizmente, ela sorri também e dá uma garfada no seu ilustre primeiro pedaço.
— Você me perdoa? – balbucio.
Ela para por uns instantes e volta a me encarar.
— Nunca estive chateada com você. – franze o cenho.
— Não estou pedindo perdão por alguma chateação, estou pedindo por tudo o que já te fiz passar durante esses longos dois anos e hoje. – murmuro.
Ela segura minha mão e aperta.
— Sei que não fui a melhor para você e sinto muito por isso, você não me merece como filha e nem como pessoa. Por que ainda continuo do meu lado? Não sei, mas agradeço de corpo e alma, se não fosse você, acho que nunca iria sair de lá. – continuo.
— Nunca iria desistir da minha menininha. – ela declara.
Meus olhos se enchem de lágrimas.
— Prometo tentar ser melhor agora, eu juro. – passo a mão em meus olhos – Vou superar tudo isso e me libertar dessa maldição, estou agindo como se estivesse morta.
Ela larga o prato por cima do edredom e vira, me abraçando. Afundo meu rosto em seus cabelos e aspiro, aperto meus dedos em suas costas e seguro o soluço. É claro que estava errada, vou fazer isso mais por ela do que por mim.
— Não importe o que você fizer, sei que será bom e terei orgulho de você. – ela sussurra acariciando minha cabeça.
Qualquer coisa que eu fizer?
Continuamos abraçados por longos segundos ou minutos, não me importei com o tempo de ficar perto dela, era como se meu corpo estivesse precisando disso e foi ainda melhor abraçá-la.
Finalmente, ela se afasta e pega o prato, liga a T.V e coloca em algum canal de culinária. Deito e me aninho ao seu corpo – como fazia quando era criança e tinha pesadelos, mas, agora, esses pesadelos são a realidade que vivo.
***
A minha maior ocupação do momento é ver televisão, principalmente desenhos infantis – os poucos que sobreviveram desde a minha infância. Minha mãe ainda teima que preciso frequentar um psicólogo e eu teimo que só preciso ficar um pouco em casa, ver filmes e ler livros. Para que falar com mais deles? Já fiz dois anos disso e já estou enfarada, parece até que não resolve mais nada falar com eles, estou imune a qualquer tentativa de cura.
Minha nova obra para leitura é uma história baseada na minha. Para a minha surpresa foi aquela mesma repórter que foi na casa da minha vó, além da reportagem, ela tem um livro sobre mim. Na dedicatória há apenas duas palavras: Para Bianca. Pelo o que sei, já vendeu milhares de exemplares pelo Brasil e até posso arriscar dizer que fico feliz por ela.
— Vai querer almoçar o que? – mamãe grita da cozinha.
— Você não ia pedir comida japonesa? – questiono, fechando o livro e o marcando com o polegar.
— Ah, tinha me esquecido. – escuto-a remexer nas gavetas, obviamente, procurando pelo telefone do restaurante.
Volto a minha leitura e ao fundo, escuto minha mãe conversando com a atendente e debatendo sobre o que pede ou deixa de pedir.
A parte mais legal do livro é que, além do romance policial, há fatos jornalísticos verídicos. O nome da protagonista também é Bianca, o que fica bem engraçado, é como ler minha própria história – até as pessoas que fazem parte de minha vida estão aqui, com identidades trocadas, mas sei reconhecê-las sem dificuldades.
— Pedi! – minha mãe avisa da cozinha.
— Ótima, já estou indo lá! – digo e nem sei bem o que falei, meu cérebro está concentrado na leitura.
A campainha tocou na exata hora em que larguei o livro e voltei para os programas sem assunto e conteúdo do canal a cabo. Minha mãe passou apressada por mim, resmungando alguma coisa. Continuei de bruços, pendendo o braço para o tapete.
Ela demora lá fora e posso escutar conversar com alguém.
— Precisa de ajuda? – grito.
Não há resposta. Sinto um aperto no peito.
— Mãe! – grito de novo, erguendo o corpo.
Meu coração dispara. Por que ela não está respondendo? É meio impossível não ter me escutado gritar.
— Mãe! – grito mais alto ainda e sento por cima de meus joelhos.
Responde, por favor, responde.
A porta abre de repente e quase me faz ter um infarto. Ela está sorridente e meio animada demais para minutos atrás.
— Por que não me respondeu? – pergunto, séria. Volto a deitar de bruços.
— Nem te escutei gritar.
— Como não?! Quase esperneei aqui. – admiro-me.
Ela dá de ombros.
— Você tem visita, dá um jeito nesse cabelo. – ela avisa indo para a cozinha.
Visita? Quem iria me visitar depois do escândalo da minha festa de trinta segundos? A não ser que... Malic.
Escuto passos vindo do lado de fora. Sento novamente e encaro a porta fixamente, até ele entrar.
Sorrio.
— Eu prometi. – ele relembra.
— Achei que não ia vir mais, demorou. – comento, me levantando.
— Tenho palavra quando quero. – ele sorri.
Está bonito. Mais alto do que me lembrava e mais forte também. Será que andou malhando? Sua barba está dando sinal de vida e seu cabelo está maior e mais rebelde, jogado para qualquer lado. Seu maxilar está mais rígido e quadrado – talvez ele tenha emagrecido. Seus olhos estão mais vivos.
— Desculpa não ter vindo na sua festa surpresa. – ele comenta – Mas eu tinha uma consulta e minha mãe não permitiu que eu faltasse dessa vez.
— Não perdeu nada. – dou de ombros e fico a uma distância de um toque de seu corpo – Quer me dar sua jaqueta?
Seus olhos me analisam, buscando alguma falha ou ameaça.
— Tudo bem. – ele se dá por vencido.
Aproximo-me e passo a mão por seus ombros, fazendo o couro deslizar para baixo. Seus olhos não abandonam os meus nem por um segundo.
Meu corpo é aceso de novo.
Pego a jaqueta e a levo até meu escritório, largando-a na cadeira.
— Minha mãe pediu comida japonesa, está servido?
— Já almocei.
— Não quer nem me fazer companhia? – ergo uma sobrancelha, fingindo estar desapontada com sua resposta.
— Não disse que não faria. – ele devolve, sorrindo – Posso fumar antes?
Reviro os olhos. Ele não seria ele sem os malditos cigarros.
— Vamos para a sacada.
Caminhamos até as portas de vidro.
— Estamos na sacada! – aviso minha mãe e fecho a porta.
Encosto no ferro do parapeito e o observo ascender o cigarro.
— Como você está? – ele diz enrolado por conta do ajudante da morte nos lábios.
— Estou melhorando e você?
— Estou melhor.
Umedeço meus lábios. É estranho ficar ao lado dele agora.
— Já aceitou tudo o que tinha que aceitar daquela noite? – ele ergue uma sobrancelha e traga o cigarro.
— Está sendo mais fácil do que imaginava.
Não vou cair no seu jogo de palavra.
Ficamos em silêncio. Nosso sublime momento sem palavras.
— Durante esse tempo que você ficou internada, pude pensar na minha vida e no que quero. – ele comenta – Continuei com minha faculdade e faço alguns serviços na empresa do meu pai, estou até que pegando o jeito das coisas. – um sorriso satisfeito enfeita seu rosto – Mas, para a minha surpresa, senti mais sua falta do que achei que sentiria.
— É fácil sentir falta de um corpo para te animar a noite. – replico – Por que não procurou uma de suas garotas? Está cheio delas.
— O quê? – ri – Não estou falando desse tipo de saudade. Foi uma saudade emotiva e chata pra caralho, qualquer coisa me lembrava você ou eu queria falar algo engraçado que aconteceu comigo pra você, compartilhar minhas coisas, entende? Nada carnal.
Encaro-o. O que ele está fazendo comigo?
— Às vezes tenho a impressão que você tem uma ideia errada sobre mim. – ele me encara de canto de olho – Que tipo de cretino eu seria se pensasse em sexo depois do que aconteceu com você?
Sinto uma dor no peito junto com uma forte vontade de vomitar.
Seria o tipo de cretino que acabou com a minha vida.
— Tem razão. – murmuro – Tenho tido impressões erradas sobre todo mundo, não fique ofendido.
Ele não responde, apenas devolve um olhar analisador e terno.
— A comida! – minha mãe informa.
— Vamos. – caminho para as portas de vidro e entro, aguardando-o apagar o cigarro.
Sentamos à mesa em silêncio enquanto mamãe termina de desembrulhar as coisas, talvez por respeito ou até medo, Malic prefere sentar de frente comigo. Mantenho o contato visual a todo instante e reparo que seus olhos podem se transformar nos olhos de vidro perfeitamente.
Que tipo de ironia é essa? Fui apaixonada pelo meu assassino esse tempo todo, dei confiança a ele e me entreguei de corpo alma, deixando sempre tudo fácil demais, fazendo minha morte ser mais cruel e fria possível.
— Gostaria de perguntar uma coisa a vocês. – ele desvia o olhar para a minha mãe.
Paro de comer e o analiso. O que ele tem a perguntar?
— Meus pais tem uma casa de campo e eu gostaria de saber se a Bianca não pode passar esse feriado prolongado comigo lá. – seu polegar toca em todos os dedos de sua mão, inquieto – Sei que ela ainda está sob vigilância da senhora, por isso você também está convidada a ir.
Estreito os olhos singelamente. Casa de campo... Sozinha com ele. Que tipo de jogo ele está jogando afinal?
— Parece ótimo. – minha mãe me assusta ao tocar em minha mão – Bianca está precisando sair de casa mesmo.
Não estou não.
— Mas não vou poder viajar agora, tenho que passar alguns e-mails para o meu trabalho e terminar algumas coisinhas. – ela retira a mão da minha e busca o copo.
Ele contrai os lábios.
— Semana que vem tenho que voltar para Villa Lobos e não sei quando vou poder voltar para vê-la. – ele volta a me encarar.
— Podemos ficar aqui em casa, então. – inclino a cabeça e devolvo a mesma intensidade do olhar.
Até onde ele vai?
— Ai, Bianca, que coisa mais broxante. – mamãe comenta – Bom, preciso enviar tudo amanhã para o meu serviço, que tal fazermos assim? Vocês vão amanhã de manhã e eu encontro com vocês sábado.
— Por mim está ótimo. – posso notar que ele estreita os olhos – Está bom para você, Bianca?
Bom para mim? Nada está bom para mim ultimamente e isso me parece a pior ideia que minha mãe já aceitou em participar, mas a melhor oportunidade para mim. É como uma revanche, você me derrotou no desafio anterior, só que agora tenho a chance de revidar a altura.
— Sim. – Eu aceito o desafio, é claro.
***
— Vou ligar para você mais tarde. – mamãe se apoia na janela – Tem certeza que sua empregada estará lá?
— Ela sempre está. – ele entra no carro – Já te passei os telefones, né?
— Sim.
Não se preocupe, mamãe, sei me cuidar agora.
— Te espero lá amanhã. – seguro sua mão. Espero estar bem até lá.
— Vou sentir sua falta. – ela acaricia minha bochecha.
Ainda estou me perguntando o porquê de minha mãe me deixar sair. Ela deve estar tão traumatizada quanto eu depois de tudo o que aconteceu e mesmo assim irá me deixar viajar para não-sei-onde junto com um homem – mesmo depois de ter sofrido o que sofri por um desse gênero. Talvez ela esteja arriscando em minha felicidade, já que ainda acha que sou apaixonada por ele. Não a culpo.
Malic liga o carro.
— Tchau, mamãe. – sorrio.
— Tchau. – ela beija minha bochecha – Cuide de minha menina, Malic.
— Pode deixar. – ele dá um sorriso de lado.
Respiro fundo. Foque. Você tem um objetivo agora, Bianca.
Três horas e meia; mais ou menos o tempo que levamos para chegar a sua casa de campo. Não posso negar que é um lugar lindo e silencioso, fica dentro de um condômino de umas sete fazendas, sendo quase espremida pelas grandes propriedades. É um casarão branco com varandas que dão a volta na casa e trepadeiras escalando as paredes. A jardinagem é impecável, assim como tudo aqui.
— Fizeram boa viajem? – uma senhora caminha até o carro.
— Ótima. – Malic sai do carro e eu o acompanho – Maísa, essa é minha namorada. – ele caminha em minha direção – Bianca.
Forço um sorriso.
— Prazer. – cumprimento-a estendendo a mão.
— Moça bonita. – ela aperta minha mão e sorri.
— Obrigada.
— Tenho muito bom gosto, se esqueceu disso? – ele ri e destrava o porta-malas.
Ela ri.
— Deixei o almoço de vocês preparados. – ela informa – Precisam de alguma coisa?
— Não, estamos bem. – caminho para pegar minha mala.
Maísa some para dentro da casa e liga o aspirador – noto isso pelo barulho peculiar do objeto -, Malic e eu deixamos as malas na sala.
— Quer ir na piscina? – ele me encara – Pra refrescar um pouco.
— Tudo bem. – dou de ombros.
Abro minha mala e busco pelo biquíni enquanto Malic entra de cueca mesmo. Troco-me no banheiro e antes de ir para piscina, dou uma olhada geral nesse andar na casa. Nada perigoso demais se não contar com a coleção de facas na cozinha.
Saio para a área externa e me aproximo devagar da piscina, ele está apoiado na borda paralela a que estou, de costas.
— Está muito gelada? – pergunto me sentando.
— Não. – ele vira – Pode confiar.
Ergo a sobrancelha e coloco os pés dentro. Realmente, não está muito gelada. Pego coragem e deslizo para dentro.
— Viu. – ele sorri e se aproxima.
— Não está gelada mesmo. – sorrio e desvio de seu futuro toque – Não me leve a mal, mas se aproxime tanto, ainda não suporto esse tipo de contato.
Não suporto ficar perto de você.
Mergulho e atravesso a piscina. Apoio-me na borda e observo as vacas da fazendo ao lado.
— Elas nunca invadiram aqui? – questiono.
— Uma vez. – ele fica ao meu lado – Não estávamos aqui, foi Maísa que contou.
— Deve ter sido engraçado. – sorrio – Vacas invadindo seu jardim.
Ele solta o ar dissonante, como uma risada.
— Gosta do campo? – posso sentir seu olhar.
— Meu avô tinha uma chácara quando eu era pequena, não me lembro de detalhes, mas foi com ele que aprendi a gostar disso. – observo as gotas pingarem de meu dedo ao chão – Depois eles foram para Villa Lobos.
— Vocês vão vender a casa? – ele questiona.
— Acho que sim. – dou de ombros – Não dá mais para entrar lá, nem ao menos pensar nela.
— Acho que sei como é isso. – ele murmura – Minha mãe ia vender o apartamento depois da Helena, mas eu tinha acabado de entrar na federal e falei que ficaria lá.
— Por isso mora sozinho? – encaro-o – Era mentira que seus pais sempre estavam viajando?
— Sim. – ele suspira – Eles mudaram para a cidade vizinha e vão me visitar de vez em quando, parece meio impossível deles entrarem no apartamento e se sentirem em casa, olha que ela nem morreu lá.
— Imagina se tivesse morrido. – concluo.
Não me imagino entrando naquela casa de novo e sendo feliz lá, é impossível, como se uma barreira invisível me impedisse de pensar ou até mesmo tornar o ato verdadeiro.
— Pretende começar a vida do zero? – ele quebra o silêncio.
Respiro fundo.
— Acho que sim. – depois de fazer o que tenho em mente.
— Sabe que tem meu apoio, nê? – seu braço toca o meu.
— Claro que sim. – encaro o chão. Mas não preciso mais dele.
A mentira, Inocência, é a forma mais plena de enganar as pessoas.
Gotas de água gelada atinge meu corpo, como se estivesse chovendo. Fecho os olhos e me encolho.
— Ei! – exclamo olhando para o lado, Malic está rindo.
— O bebê vai chorar agora? – ele ergue uma sobrancelha e se afasta mais um pouco.
Não dessa vez.
— Vem me pegar, bebezinho. – ele sai da piscina e corre para a área da churrasqueira.
Saio da piscina e corro em sua direção, mas não o vejo mais. Diminuo a velocidade assim que chego perto do lugar. Meu coração está aos pulos e minha respiração ofegante. Ele não pode ter sumido.
Atrás da aérea há uma pequena aérea arborizada com alguns tocos de árvores evidenciando que elas são cortadas diariamente – reparo em um machado fincado em um dos tocos. Eles cortam lenha por aqui?
— Desistiu?
Pequeno ataque cardíaco.
No reflexo de virar e pegá-lo, acabo escorregando na grama. O chão se aproxima.
Malic tem ótimos reflexos. Sei disso pois foi usando eles que fui salva da queda, sua mão agarrou meu braço como o bote de uma cobra e me ergueu – Matthew não fez isso por mim quando cai na trilha.
— Está tudo bem? – estamos próximos, distância de um toque.
— Peguei. – toco em seu ombro, sorrindo.
Ele ri.
— Está com fome?
— Um pouco. – analiso a fome pelo ronco de meu estômago – Vocês cortam lenha aqui?
— O marido da Maísa corta. – ele informa – Por quê?
— Curiosidade.
As noites aqui são frias e agora entendo o porquê de cortar lenha. Malic ascendeu a lareira e colocou a televisão em qualquer canal. Debruço no parapeito e observo a escuridão. Não me importaria em morar aqui para sempre.
— Aceita vinho? – ele para ao meu lado e oferece a taça.
— Obrigada. – pego-a – Vamos esquentar.
— Se não vamos congelar. – ele ri.
Dou um gole na bebida e sorrio. É doce e suave.
— Gostei desse. – balanço a taça.
— É um dos meus preferidos.
Uma música lenta começa no filme que passa no canal. Rio da cena.
— Que coisa mais clichê. – comento.
Ele ri.
— Quer dançar e deixar mais clichê? – ele ergue uma sobrancelha.
— Não acho que... – desvio o olhar.
— Ei, relaxa, só vamos dançar. – ele toca em meu braço – Não irei me aproximar.
Deixo a taça de lado por cima do parapeito e seguro em sua mão. Seu corpo mantém a distância de um braço do meu. Repouso minha mão em seu ombro enquanto a sua permanece na altura de minhas costelas. Passo os dentes por meu lábio inferior e sorrio, mantendo o contato visual.
O filme já acabou e o noticiário começou, mas mesmo assim continuamos dançando como se estivéssemos em nosso próprio mundo. Quebrei a distância de nós, apoiando a cabeça em seu peito.
Em algum mundo paralelo somos um casal normal e feliz, podemos ser alguma coisa juntos e eu posso amá-lo sem medo ou receio. Até posso me imaginar casando com ele, por que não? Por que você teve que ser isso? Quebrando nossa linha tênue do paralelo e do real, nos impedindo de transformar esse outro mundo em nossa realidade. Você estragou tudo por uso da insanidade. Fomos impedidos de honrar o que sentimos por pura atitude doentia de sua mente.
Podíamos ter sido felizes.
Mas como posso perdoar tudo isso? Acreditar em você novamente depois de tantas mentiras? Você nem parece se esforçar por nós. Já sei de suas mentiras e nem tenho mais vontade de sofrer por isso, porque parece que é isso que você quer de mim; tristeza e decepção. Sinto tanto em ter que fazer o que irei, em ter que buscar vingança em você.
Toda vez que penso sobre isso e fico perto de você, desisto. É como se meu corpo se negasse a acreditar que você fez isso comigo, logo você. Aceitaria isso de qualquer outra pessoa nesse mundo, menos de você.
Poderíamos ter sido felizes, mas você não permitiu isso.
Afasto-me de seu corpo como se tivesse levado um choque. Pego minha taça e entro, passo pela sala e vou para a cozinha, me apoiando na bancada. Passo a mão no rosto e respiro fundo.
Não hesite, Bianca, é tudo o que ele quer. Isso tudo não passou de um bom jogo, você só foi mais uma peça.
— O que foi? – ele se aproxima.
Meu coração dispara e minha garganta seca.
— Está passando mal? – está muito próximo, posso sentir.
A raiva cresce em meu corpo e faz meu sangue borbulhar, o medo é imperceptível.
— Bianca.
Respiro fundo.
— Até quando ia continuar fingindo? – questiono – Ia levar seu jogo até que ponto?
— Não estou entendendo...
— Ah, você é um ótimo mentiroso. – viro para encará-lo – Pena que sei disso agora.
Ele franze o cenho.
— Sei muito bem que tipo de cretino você é. – estreito os olhos – Conseguiu me enganar esse tempo todo, mas suas palavras o traíram.
— Você não sabe o que está falando. – ele discorda e continua a se aproxima.
— Sei muito bem o que e com quem estou falando!
Ele para, como se estivesse se sentindo ameaço. Seus olhos queimam os meus e dão a impressão que a revanche, finalmente, foi aceita. Se esse tipo de situação estivesse acontecendo em qualquer momento de meu passado, já teria desistido de continuar e me rendido as suas palavras, estaria acreditando nele com todas as minhas forças, me iludindo como sempre fiz. Mas não agora. Sou forte o suficiente para enfrentá-lo. Tudo o que eu podia perder fazendo isso já me foi arrancado.
Não há mais o que temer, não existe mais medo perante o Lobo.
— Com quem está falando, Bianca? – meu nome tem uma entonação forte em sua voz.
— Com o Lobo. – digo devagar e convicta.

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