Diga Adeus à Inocência
55 23.
Dois anos depois...
— Vamos, Bianca. – mamãe estende a mão para mim – Está na hora de ir embora.
Dou mais uma rápida passada de olhos pela sala de entrada e cruzo os braços. A questão não é que quero ficar aqui para sempre, mas sim que me acostumei a morar aqui durante esses dois anos. Virou um pedaço que não pode ser apagado de minha história, entrou para a minha ficha suja. Além de que gosto de ficar aqui, ser louca e não precisar mais lidar com a realidade, faz tanto tempo que não vejo o mundo por detrás dos muros que me esqueci de como é viver a minha vida sem os remédios, enfermeiras, banho de sol e socialização. Me esqueci de como é viver sã. Se eu sair daqui, terei que lembrar do que me aconteceu durante todos os dias.
Gostaria de poder pedir para ficar aqui, fugida. De que minha mãe, sem querer, me esqueça aqui para sempre e vá construir outra família – ela tem todo o direito de não querer ser mais minha mãe assim como tenho o direito de não querer sair daqui. Posso renunciar de tudo. Porém, quando olho para seus olhos castanhos brilhantes de ansiedade em sair daqui comigo, perco a coragem de dizer que quero ficar.
— Filha. – ela segura meu braço – Parei em um lugar proibido, não quero levar multa.
Me deixe ficar aqui.
— Desculpa, só estava olhando. – dou de ombros.
— Olhar isso pra quê? – ela franze o cenho – Está livre agora.
Se você soubesse o que vai acontecer quando eu pegar essa liberdade com as duas mãos, irá me mandar ficar aqui.
— Tem razão. – limpo a garganta – Está na hora de sair.
Ela sorri abertamente e passa o braço pelo meu, guiando-me até a porta. Aceno para algumas enfermeiras e saio sem olhar para trás.
— Sabe que dia é hoje? – ela me encara segurando o sorriso.
Estreito os olhos. Espero não ser o aniversário de ninguém...
— Não.
— É o seu aniversário. – ela sorri – Se esqueceu?
Meu aniversário? Claro que não, faz muito tempo que ele passou.
— Já comemoramos meu aniversário. – discordo.
— Aí dentro, mas agora você está fora e podemos fazer uma festa de verdade.
Quem disse que quero uma festa? Reviro os olhos.
— Não estou com ânimo para festas.
— Claro que está.
Odeio isso em minha mãe, ela sempre escuta o que quer escutar.
Nos aproximamos no carro, desvencilho meu braço do seu e abro a porta. Encaro o prédio azul enquanto ela dá a volta no carro, suspiro. Espero que depois do que pretendo fazer não precise voltar aqui, espero não ser punida por nada, estarei fazendo um bem para a humanidade.
Minha mãe dá a partida no carro e, aos poucos, o prédio azul vira um ponto azul no horizonte atrás de nós. Encosto a cabeça no vidro e ligo o rádio. Por que não estou feliz? Finalmente, saí daquele lugar e isso era o que sempre quis há dois anos atrás. Talvez isso seja o costume, logo me acostumo a ficar em casa de novo.
O carro para em frente à casa, mamãe desce e começa a pegar algumas coisas no banco de trás. Permito-me ficar apenas observando e relembrando de algumas coisas da minha infância – ainda posso me ver correr nesse pequeno jardim da frente com meu falecido cachorro. É estranho voltar para cá depois de tanto tempo, depois de tantas coisas. Abro a porta e coloco um pé para fora. Noto que a rua está cheia de outros carros.
— Está tendo festa na vizinha? – questiono.
— Talvez. – minha mãe dá de ombros – Essa velha parece nunca estar em casa.
O hospício era azul; minha casa é azul.
Encosto na árvore em frente ao nosso portão e respiro fundo.
— Vai ficar aí? – ela me encara da porta.
Ah, esqueci que tenho que entrar em casa agora.
Entro e fecho o portão, caminhando vagarosamente até a porta. Minha mãe entra e começa a largar as coisas em cima do sofá e a bolsa na escada. O ar aqui é fresco e me sinto bem em estar aqui, o que não esperava sentir quando saí de lá. Talvez não seja tão ruim assim.
— Preparei uma comida ótima para você, venha! – ela vai para a sala de jantar.
Retiro meus sapatos e os jogo escada abaixo – onde fica a sapateira. Faço um coque em meu cabelo e me aproximo da sala jantar quando sou surpreendida por todos os meus “amigos”. Desde os de Villa Lobos até os de minha faculdade daqui, também há alguns parentes e o meu pai. Um bolo em cima da mesa com a vela 20, doces e salgados.
Eles cantam parabéns e eu quero que todos vão embora.
O que essas pessoas estão fazendo aqui? Como tem a cara de pau de aparecer aqui? Nenhuma delas foi me visitar quando era louca e agora aparecem para festejar? Prefiro festejar com os mortos do que com elas. É assim que descobrimos a enfermidade do ser humano. Só aparecerem agora porque acham que estou bem e assim não precisam tratar com meu pior lado, com minha dor. Mas, na verdade, ninguém sabe como me sinto até acontecer com elas.
O mundo é assim, você não quer saber da dor até que ela aconteça com você e Villa Lobos sabe muito bem como é isso. Todas as vítimas já foram hipócritas com a dor dos outros um dia e é assim que seguimos com o ciclo. Enquanto houver hipocrisia haverá vítimas dela.
Todos silenciam e então reparo que está na hora de apagar a vela. Começo a bater palmas.
Para a hipocrisia;
Arrogância;
Esnobismo;
Todos me encaram surpresos ou com o cenho franzido, posso ler a dúvida em suas caras e sorrio.
Mentira;
Falsidade;
Conformo passo, todos abrem caminho e murmuram coisas que eu já sei.
“Será que ainda está louca? ”
“Acho que nunca irá se recuperar. ”
Minhas palmas fazem eco no silêncio mortal da sala. Umedeço meus lábios e sorrio.
“ Isso é tudo fingimento, quer chamar a atenção. ”
“ Deviam voltar ela para o hospício, ela nunca mais irá ser a mesma. “
Fico atrás do bolo e observo a chama queimar o fino pavio. Curvo o corpo e passo o dedo pelo glacê que enfeita as bordas do bolo, levo o dedo a boca e chupo-o.
“ Sinto pena, era uma moça tão inteligente. Está um trapo. ”
“ Tudo o que aconteceu foi culpa dela. “
A chama chega na cera da vela.
“ Desgraçou a família. ”
“ A mãe ainda tem esperanças que ela volte ao normal, coitada”
É uma pena não poder arrancar a boca de todos aqui.
“ Ela tem força de vontade. “
“ Dizem que ela fez aborto. ”
A cera derrete e a chama apaga. Encaro todos.
“ Ela era uma moça tão doce e inocente. ”
— Onde está a faca para o primeiro pedaço?
Há certos momentos, Inocência, que a melhor saída é a loucura e o ato de praticá-la.
Minha mãe se aproxima sorridente e me entrega o prato e a faca. Deslizo a lâmina pela massa e passo o pedaço para o prato, endireito o corpo.
— Quem será que merece o pedaço? – passo os olhos por todos – Quando era pequena costumava revezar entre meu pai, minha mãe e minha vó; não tenho mais pai e vó, por sorte, ainda tenho minha mãe. Ela merece mais que um medíocre pedaço de bolo; uma filha nova.
Subo na cadeira e passo para a mesa. Todos exclamam e cochicham.
— Bianca.- meu pai agarra minha perna – Desça daí.
— Me solta. – digo entre dentes e puxo minha perna.
Caminho pela mesa e desvio das comidas. Sorrio.
— Mas a pergunta é: o que vocês merecem? – paro e respiro fundo – Com certeza, o prêmio de maior falsidade do século. Não sou mais idiota o suficiente pra acreditar que todos aqui gostam de mim, pois quando precisei nenhum desgraçado apareceu, era até mais fácil o Lobo me visitar do que vocês, seus merdas. – dou meia volta – Deviam ter vergonha de aparecer aqui, de dar as caras.
Eles estão assustados, não mexem um musculo.
— Você teve boa vontade, mamãe. – encaro-a ternamente – Mas não estou mais necessitada disso. Então – jogo o prato na parede e algumas mulheres gritam em reação -, saiam da minha casa agora!
Imobilidade; estão paralisados.
— O que estão esperando?! – grito – Quero vocês fora agora! Nunca mais quero trombar com nenhuma cara de bosta e espero que vocês tenham a sorte de não me encontrar. Saiam da minha casa!
Assustados, eles começam a esvaziar a sala de jantar depressa e recolher seus pertences. Rio.
Enquanto minha mãe os acompanha para fora, desço da mesa e pego outro pedaço de bolo, um garfo e sento para comer. Sozinha.
— Você está sendo egoísta.
Ergo o olhar e encontro Matthew.
— Você foi me visitar? – estreito os olhos.
— Tenho uma vida e não podia pará-la por você. – ele responde, ríspido.
— Pois é – concordo -, eu também tinha uma vida e Ele não pensou nisso quando me atacou aquela noite.
— Mas você percebe como está agindo? – ele ergue uma sobrancelha – Está presa naquela noite.
— E você está preso na morte da Helena. – passo os dentes pelo meu lábio inferior – Acho que estamos quites, não?
Ele balança a cabeça negativamente bem lentamente e suspira.
— De qualquer forma, todos nós temos o que merecemos. – ele diz e começa a se retirar.
Trinco o maxilar e levanto.
— Engraçado dizer isso. – apoio minhas mãos na mesa – Me leva até pensar que você merece a solidão, visto que todas as suas namoradas são mortas.
Ele para e me encara por cima dos ombros.
— O que está insinuando com isso?
Ergo as mãos na defensiva e rio.
— É apenas um comentário. – pego meu prato e me aproximo – E sabe o que é mais engraçado? Elas são mortas pelo mesmo cara.
Os olhos verdes ardem. Passo o dedo pelo glacê de meu pedaço e sorrio.
— Entende o que estou insinuando agora? – ergo uma sobrancelha e dou as costas, indo até a escada.
Entro em meu quarto e tranco a porta. Deixo meu prato em cima da escrivaninha e deito na cama, estico os braços e solto o ar com força.
Posso escutar os cachorros da vizinhança latirem e até, em um chute, uivarem. Dessa vez eles não estão avisando a morte de alguém – como dizem os antigos -, ou lamentando. Seus uivos estão anunciando a minha ascensão e a queda do Lobo. Rio.
Quem tem medo do Lobo Mau agora?

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