Diga

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Boa leitura!

-Você deveria ter me contado. – ela disse em tom de acusação. Embora não pudesse vê-la, soube que me olhava fixamente, pois senti seu olhar queimar sobre mim.

-Você não entenderia. – respondi. Minha voz saiu abafada e trêmula, não sei nem se ela conseguiu ouvir o que eu disse. Eu estava e com o meu corpo curvado e com a cabeça entre as pernas, na tentativa de evitar um ataque de pânico. Aprendi isso com o meu psiquiatra. Sim, eu tenho problemas neurológicos. Isso é uma merda, me faz me sentir ainda mais deslocada na sociedade do que eu já sou.

-Queria ter podido ao menos ter a chance de tentar entender. – rebateu no mesmo volume. A cada palavra que dizia, parecia se engasgar. Com certeza estava sentindo o mesmo nó na garganta que eu sentia.

-Não adianta, ninguém nunca entendeu. – eu não falava para ela somente, aquilo era praticamente uma lembrança, algo que eu repetia todo dia para não criar esperanças e sofrer uma decepção ainda maior.

-Claro que não entenderam, Mari. Você nunca nos permitiu.

Levantei a cabeça e olhei para ela. Minhas sobrancelhas se uniram em minha testa, formando uma expressão séria.

-Não é verdade. Eu contei à minha mãe, mas a primeira coisa que ela fez foi me dar uma surra e depois me mandou embora. Também não adiantou muito o pessoal todo saber disso, pois só souberam me julgar. – comentei com pesar.

-Sinto muito por isso.

-Não sinta, não vale a pena. Já esqueci. – dei de ombros.

Me levantei e comecei a andar em círculos pela sala.

-Ah Mariana, você mente tão bem! Se eu não te conhecesse há tanto tempo, até acreditaria que você não está nem aí pra opiniões alheias.

Parei de andar e olhei para ela.

-Eu não estou. – insisti.

-Está mentindo pra mim ou pra si mesma?

Desviei o olhar e voltei a andar, ignorando a pergunta. Passamos alguns minutos sem dizer nada, apenas aproveitando o silêncio para pôr nossos pensamentos em ordem. Olhei pela janela, chovia lá fora. Chuva me deixava triste. Engraçado como o tempo muda o meu humor.

-Por que você está aqui? – perguntei de repente. Ela me olhou e franziu o cenho.

-Eu... – balançou a cabeça e passou a língua pelos lábios. – não sei te dizer ao certo pra quê vim. Só sei que queria ver você. Senti saudade.

Meu peito se encheu de alegria naquele momento. Não quis dizer mais nada, com medo de que ela esclarecesse que aquela saudade era de nossa amizade. Nossa, eu a amei por tanto tempo que nem me lembro quando começou. Às vezes parece que já nasci lhe amando.

Cansei de ficar andando – na verdade, já estava tonta – e me sentei no braço da poltrona, um pouco mais afastada dela.

-Agora é a minha vez de perguntar, Mari: por quê?

-Por que o que? – sim, eu sabia a que ela se referia, mas preferi me fazer de desentendida. Se eu dificultasse, talvez ela não quisesse mais falar sobre o assunto.

Lara me olhou e respirou fundo, como se estivesse criando coragem para perguntar o que queria.

-Por que escondeu por tanto tempo a sua homossexualidade? Por que não me contou?

Suspirei pesadamente. Não queria falar sobre isso.

-Como eu já te disse, você não entenderia.

-Não vem com essa que comigo não cola! Alguma coisa te fez mentir pra mim, alguma coisa mais profunda. – ela girou os olhos para o alto, puxando algo no fundo da memória. Sua expressão entristeceu em seguida e ela me olhou decepcionada. – Você não confia em mim, não é?

Sua carinha desolada estava me matando, eu não podia estar sofrendo mais. Vê-la magoada era a coisa que mais me deixava mal. E o pior era tudo culpa minha. Burra, burra!

-Não é isso...

-É o que, então? É sim! Assume! Você teve medo de que eu espalhasse para todo mundo que você é lésbica.

Ela achava que eu não confiava nela, mas havia entendido tudo errado. O problema não era exatamente a sua pessoa.

-Não é que eu não confie em você, entende? Eu não confio é em mim.

Lara me olhou confusa. Se estivesse em seu lugar, também não entenderia. Eu sou provavelmente a pior em falar sobre os próprios sentimentos. Mas eu preciso fazer isso, nem que seja a última coisa que eu faça.

-Escuta – pedi e me sentei ao lado. Ela se virou para mim e me olhou atentamente, atendendo ao meu pedido. – o meu problema é mais complexo do que você pensa. Não é como se eu fosse gay e saísse pegando várias mulheres na balada. Isso até acontecia às vezes, mas era algo vazio, não tinha sentido, era puro instinto. Na verdade, a única pessoa com quem eu queria estar não poderia estar comigo. Tem algo pior do que isso? Talvez, mas pra mim era a morte. Morte em vida, saca? Não tinha jeito. A garota que eu gostava nunca me olharia, ainda que eu fizesse milhares de coisas por ela todo santo dia. Ela simplesmente não me notava e eu sofri tanto, mas tanto...

-Mas quem é essa garota?! – ela perguntou inconformada. Não sei se ria ou se chorava. Lara sempre foi um pouco lenta para perceber as coisas. Isso costumava ser adorável, mas naquela situação não estava me ajudando muito.

-É você, idiota! – praticamente berrei, perdendo a paciência.

Depois disso nada foi dito. Lara me olhava pasmada, com os olhos arregalados e a boca levemente entreaberta. O silêncio era desconfortável. Eu queria cavar um buraco e me jogar dentro, talvez nunca mais sair. Se ela não me mandou para o inferno quando descobriu que eu era lésbica, agora ela mandaria. Com toda certeza.

-Você deveria ter me contado.

-Você já disse isso antes. – tentei brincar para quebrar a tensão, mas não funcionou. Ela não sorriu. Ela iria me matar ou ir embora. Qualquer alternativa era péssima. Eu sou uma idiota, não deveria ter aberto minha boca. – Desculpe.

Não sei pelo quê me desculpei exatamente. Na verdade só tenho dado mancadas com ela nesses últimos anos. As minhas mentiras, minhas fugas... eu fui completamente babaca com Lara. Eu não a merecia, nunca mereci.

-Já disso que odeio quando tomam decisões por mim? Eu deveria ter sabido logo disso, Mariana! Porra!

Legal, agora ela estava irritada. Primeiro ficou magoada, depois surpresa, desacreditada e, por fim, com raiva de mim. Mas ainda não me mandou pra puta que pariu. Não entendo essa mulher.

-Desculpa? – meio perguntei, meio afirmei, sem ter certeza se ela me jogaria um vaso na cara ou me daria um abraço. Acho improvável esse último, mas se tem algo que aprendi com o tempo e com os meus pseudorelacionamentos, foi que mulheres são imprevisíveis.

Lara se aproximou de mim e sentou ao meu lado. Sua cara não era muito boa, mas também não havia traço de raiva, somente decepção. Preferi que ela sentisse raiva, porque magoá-la me deixava tão atordoada. Mas o que eu podia fazer? Meu coração era dela e ponto final. Não era uma escolha, afinal, que gay escolheria se apaixonar por um hetero? Eu posso ser estúpida, mas não sou masoquista.

-Eu deveria te bater, sabia? Você foi tão babaca. – comentou e apontou o dedo para mim. Suspirei. Era verdade.

-As pessoas erram, Lara.

-Esporadicamente. Mas você cometeu um erro atrás do outro, parece até que fez de propósito e...

-Não fala isso nem brincando! Você não tem o direito, nunca passou pelo sofrimento que passei. Não sabe o que é viver querendo ser outra pessoa. Sempre foi tão perfeita, sempre tão adorada por todos, enquanto eu era praticamente escarrada todos os dias pela minha mãe, tudo porque eu a lembrava o meu pai, que não aguentou a chatice dela e se mandou. Não sabe o que é passar a maior parte da sua vida pensando que não era pra ter nascido, que fora um erro de cálculo, que é o câncer da sua família. – as lágrimas já teimavam em descer, mas eu teimei mais ainda em não chorar, pois não queria me sentir mais fraca do que já estava me sentindo. Ela me olhava em um misto de incredulidade e pena. – Não sabe o quanto eu rezei todos os dias para que Deus me desse uma razão para viver. E ele me deu: você entrou na vida. A amiga que eu nunca tive, a atenção que eu sempre mereci, mas sempre achei que não era digna de ter. Mas aí eu fui confundindo tudo... a grande amiga se tornou algo mais profundo. Eu tentei ignorar, sabe? Naquela época em que eu comecei a sair com o Fabinho. Mas não deu, não era a minha praia. E a minha paixão por você a cada dia ficava mais latente. Doeu e sangrou a cada vez que vi você com algum carinha. Tu sempre foi tão linda e o que não faltou foram garotos na sua porta. E a raiva que me dava por não ser um deles, por talvez ter nascido de um modo errado...

Deixei a frase morrer, pois nessa hora as lembranças me invadiram. Sempre me perguntei se eu tinha problemas hormonais ou psicológicos. Irritei tanto a minha mãe falando sobre isso – omitindo a questão da minha homossexualidade, é claro – que ela acabou me levando a um neurologista. Acabou que eu tinha um problema mesmo, mas não tinha nada a ver com o fato de eu gostar de garotas. Depois de várias conversas com um psiquiatra – é, meu problema está a níveis psiquiátricos –, concluímos o que todo mundo já sabe, mas se recusa a aceitar: eu era homossexual simplesmente porque nasci assim. Nada de místico, nada de vontade própria. Era como ser míope. Você não escolhe ser, mas você pode escolher demonstrar ou não, porém, se você não o fizer, vai se sentir agoniado. Só que ninguém descrimina míopes, eu acho.

-Você não nasceu errada. – ela disse baixinho. Não sei se era uma afirmação ou não, mas de qualquer forma eu sorri.

-Conforme o tempo foi passando, eu me senti a cada dia mais triste. Não queria viver em uma mentira, mas a verdade seria dolorida e talvez me afastasse pra sempre das pessoas que eu mais amo. Eu tinha medo de que as pessoas as quais eu amo não me amassem de volta a ponto de me dispensarem por um pequeno detalhe, o qual eu não tinha culpa. Mas eu cansei e decidi contar, só que antes de dizer pra todo mundo, resolvi contar primeiro para a minha mãe. Nunca apanhei tanto na minha vida. Tenho certeza de que se a denunciasse, ela seria presa, porque eu estava muito marcada das suas porradas.

Mordi o lábio. Talvez eu errei em não denunciá-la, porque aquilo era desumano, mas ela ainda era a minha mãe.

Lara me olhava atentamente. Seus olhos estavam vermelhos e algumas lágrimas escorriam pelo seu rosto. Se ela estava emocionada com a história, imagina eu, que fiz parte dela.

-Ela me chamou de aberração e de monstro. Falou que aquilo era contra a “Lei de Deus”. Mas espancar, à toa, a própria filha pode, né? – ri sarcasticamente – Fiquei tão abalada que pensei que a sua reação também seria assim. Quer dizer, você não ia me espancar, mas ia ser algo negativo, que talvez me marcasse mais do que qualquer tapa. Então eu fugi. Não aguentei saber que você me odiaria.

Abaixei a cabeça e funguei, deixando uma lágrima escorrer.

-Mari, meu anjo, olha pra mim. – ergueu meu rosto com a ponta dos dedos – Eu nunca te odiaria ou deixaria, em qualquer circunstância. Não sei como pôde pensar que eu iria ser tão ignorante a ponto. Sabe que nunca tive problema com isso, fui criada com um primo gay.

-Não é a mesma coisa. Você não frequenta o mesmo banheiro ou vestiário que ele, por exemplo. Não vai achar que ele vai dar em cima de você, enquanto você só o olha como amigo.

Ela estreitou os olhos.

-Eu te conheço. Não era só isso que te afligia.

Sorri amarelo. Droga, a filha da mãe sabia me ler.

-Tive medo de que você me rejeitasse. – sendo sincera, nunca soube levar um toco. Tenho amigos que cantam mais de dez mulheres na mesma noite, e levam fora de todas, mas não ligam. Não sou assim.

-Você é covarde.

Mas com que direito ela saía assim falando a verdade? Tá certo que não era um equívoco, mas não precisava jogar na cara.

-Como eu já disse, as pessoas erram. – respondi entredentes, irritada.

-Também não deveria ter ido embora.

-Você só me diz o que devo fazer, garota, mas tu mesmo nunca faz nada!

E para a minha surpresa, após eu falar aquilo, Lara encerrou a discussão, me dando um beijo de tirar o fôlego. Quando me dei conta do que estava acontecendo, reagi e agarrei sua nuca, puxando-lhe de leve os cabelos. Sua língua se enroscou na minha e ela tombou de leve a sua cabeça para o lado, aproveitando aquela posição para explorar melhor o beijo. Experimentei cada canto de sua boca. Infelizmente, o ar se fez necessário e precisamos nos separar para poder respirar.

-O que... o que você disse mesmo? – perguntou irônica e ofegante, sorrindo com a boca toda manchada de batom. A visão mais linda que eu já tive a honra de ter.

-Não me pergunte isso. Nesse momento não lembro nem o meu nome.

Sorrimos e voltamos a nos beijar, e assim seguiu pelo resto do dia.

Notas finais
Bom, eu normalmente escrevo poucas histórias originais, porque me sinto mais à vontade em escrever fics camren, mas acho que essa ficou bacana. Leiam e formem sua opinião, sou toda ouvidos. Mas sejam educados, sou delicadinha -qq
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!