Difficile Et Charmante Jeune Anne Holmes
1 Difficile et Charmante jeune Anne Holmes
Notas iniciais
Difficile et Charmante jeune Anne Holmes
Faz apenas um ano que nos casamos. Um ano que descobri o quanto a amo e o quanto minha vida não seria a mesma se ela não existisse. Às vezes me pergunto, como seria Baker Street se ela não tivesse vindo morar aqui? Resolver os casos teria a mesma emoção e divertimento? Afinal, assistir a disposição dela ao tentar resolvê-los sem que eu soubesse sempre foi divertido. Irritá-la e observar como aqueles olhos castanhos ficavam obscuros ao passo que ela tornava-se mais zangada... Mesmo quando não estava. Era prazeroso olhar para os olhos dela.
“Anne Bergerac”. Havia momentos em que pronunciar este nome me trazia raiva, confusão e dor. Ela nunca foi uma mulher fácil de estudar, exceto quando estava ocupada demais lendo Edgar Allan Poe e sempre se deixava levar pelas minhas perguntas, sem perceber no jogo em que estava se metendo. Contudo, o tempo tornou-a mais esperta e atenta. Já não caía mais no jogo da dedução e se caía... nunca me deixava ganhar. Aprendi a conviver com isso. Aprendi e ainda estou aprendendo a amar isso nela. Não tenho vergonha, mas sim orgulho de perder para minha esposa.
“Anne Holmes”. Esta é uma mulher totalmente diferente. Todavia, não pensem que ela mudou muito da anterior para a que é agora. Jamais. A única diferença, é que não teme mais troçar de mim, quanto a ser mais inteligente. Não tenho dúvidas sobre isso. Afinal, ela conseguiu capturar a verdadeira afeição de um homem que jurou jamais se apaixonar e só precisou ser a mais irritante das parceiras de caso. Isso ela ainda é... moderadamente. Durante alguns dias da semana, insisti em tocar o violino pela madrugada, a fim de vingar-se de mim quando eu mesmo o fazia.
E como o faz divinamente. Um dos tantos motivos pelos quais a admiro é ela superar-me nessa arte. Além de saber cuidar-se muito bem sozinha... como tantos já tiveram o privilégio de presenciar. Lembro-me de quando quase a perdi... e recuperei durante o mesmo caso. Este que jamais foi esquecido nesta casa, pois foi a carta final a ser lançada para que eu admitisse amá-la ardentemente. Confesso que achei irônico como o amor da parte dela, veio a tona... da boca de uma cortesã... Senti que ela estava envergonhada e tudo o que eu queria fazer naquele momento era dizer que não precisava passar por tudo aquilo, mas ainda tínhamos um caso a resolver.
Lamento muito por Watson não poder ter feito um relato sobre este caso em particular. Adoraria saber qual seria o título. Tenho certeza de que para minha querida esposa deveria envolver o nome “O Pomposo Detetive”, criado por ela e devidamente merecido, admito. Mas fico satisfeito, já que ele poderia ser usado para chantagens futuras, nas quais a senhora Holmes é muito boa. E mesmo com tudo isso... eu a amo. Eu a adoro. Ela sempre será a minha Difficile et charmante jeune fille.
_ Sherlock? – sempre na hora certa minha cara. Parada a porta do laboratório, com a sua perfeita expressão inocente. – Não vai descer para o chá? Eu não vou trazer nada para cá, você ficou mofando aqui o dia todo. – isso não era a maneira como ela reclamava. Ela nunca o fez. Este era apenas a maneira dela me tentar.
_ Minha querida, eu já estava indo. – fechei meu caderno de anotações rapidamente, para que ela não percebesse que já parara de trabalhar a muito tempo. – Sei o quanto gosta da minha companhia, perdoe-me por privá-la durante todo um dia. – ela riu. O riso melodioso que dava, quando percebia que eu estava sendo sarcástico.
_ Não se preocupe, eu estive suficientemente ocupada com a casa. Mas... Holmes... o que?... – ela viu o caderno. Mas não veria o que eu havia escrito... nem mesmo a senhora Holmes deve saber o quanto eu a amo. – Você estava apenas fazendo anotações nesta coisa? Pensei que estava trabalhando em algum caso que não me contara... ainda.
_ E eu estava, na verdade iremos terminar com ele amanhã pela manhã. E enquanto o amanhã não chega, eu estava apenas limpando a mente. – ela me olhou desconfiadamente. Começou a caminhar até mim, com as mãos unidas e a cabeça de lado, o que significava que estava curiosa e tentaria alguma coisa.
_ Sherlock... o que você escreveu aí? – perguntou docemente. Eu ri. Como ela conseguia mudar completamente de temperamento quando queria alguma coisa.
_ Nada interessante. Vamos descer?
_ Não até você me dizer o que está escrito neste caderno. – disse ela com um sorriso travesso. Só havia duas coisas que eu poderia fazer nessa situação. Uma: mostrar o que eu escrevi. Duas: Correr. E foi exatamente o que eu fiz. – Ah, não vai mesmo! Volte já aqui!
Parecíamos um casal de crianças correndo pela casa e rindo. Minha vantagem é que Anne vestira-se propriamente como uma dama naquela manhã. O vestido a impedia de correr muito rápido. O único problema é que eu me esquecera de que Anne Bergerac era minha esposa e seria perfeitamente capaz de levantar toda a saia do vestido com as mãos para correr atrás de mim, formando um bolinho com elas. Chegamos ao primeiro andar e começamos a correr pela mobília, assustando nossa querida senhoria.
_ SENHOR E SENHORA HOLMES PAREM JÁ COM ISSO! VÃO ACABAR SE MACHUCANDO! – não demos ouvidos como duas crianças fariam. Mas eu percebi que Anne estava determinada a ler aquele caderno. Não pude conter uma risada.
Demos várias voltas pela mesa, em um jogo de pega-pega que nenhum de nós ganharia. Anne quase conseguira segurar o caderno, mas eu puxara rapidamente das mãos dela, fazendo com que ela bufasse. Certamente poderíamos ficar o resto da noite, dando várias voltas pela sala. Mas eu desisti de fugir daquela perfeita caçadora e me sentei em uma poltrona. Ela riu de pé e veio caminhando até mim, sentando-se no meu colo e me beijou.
Os beijos dela eram sempre passionais e intensos, como na primeira vez em que nos beijamos. Eu nunca consegui pensar claramente enquanto ela o fazia e era exatamente por isso que facilitava ela não fazê-lo enquanto estávamos investigando um caso. A única sensação que eu sentia era a de querer que ela ficasse mais perto de mim e jamais deixasse os meus braços, como se tivesse nascido para estar ali. Porém, ela me deixou, sorrindo delicadamente.
_ Não queria ler mesmo. – riu ela, se levantando e se sentando na cadeira dela, que ficava de frente para mim. – Só pensei que seria um modo mais divertido de convencê-lo a descer para o chá. Nada convencional. – completou ela mostrando a aliança de casamento. Anne sempre explicara a todos que perguntavam o porquê da sua aliança ter um rubi, que a razão era nós não sermos um casal convencional.
_ Mas é claro. – sorri. Ela arrumou o meu chá e me entregou a xícara, logo em seguida de arrumar o seu. Olhava para a rua, com um olhar digno de um sonhador. Eu sabia o porquê. Ela amava viver em Londres e o fato de nossa rua ser agitada. – Anne você ainda quer saber o que eu murmurei em francês, durante o caso de Stanpleton?
A pergunta pareceu surpreendê-la. Olhou para mim com as sobrancelhas levantadas e com cara de espanto. Depois acalmou-se e encarou seu chá, voltando-se para mim com um sorriso de lado. Abriu a boca para falar alguma coisa, mas tornou a fechá-la e gargalhou alto.
_ Eu sei que talvez venha a me arrepender por isso, mas... Não. – respondeu simplesmente. – Não, não quero querido. E tenho uma razão.
_ E qual seria?
_ Saber que se fosse algo ruim, você já teria repetido isso há muito tempo, entre uma ou outra discussão. Então, tenho certeza de que fora algo bom, algum elogio. Não me preocupa... vou continuar a amá-lo da mesma forma.
_ Você é mesmo uma mulher difícil e encantadora. – murmurei, rindo. Acho que ela entenderá.
_ Obrigada Holmes. Eu entendi. – retrucou piscando. Eu não disse?
Mesmo quando ela não quer saber, consegue arrancar respostas de mim, muito facilmente. Mas esse é o jeito da minha senhora Anne Holmes e eu não acho que me casaria, se fosse outra que não “A Difficile et charmante jeune Anne Bergerac”.
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