Difficile
5 #05 Você e sua teia de mentiras
A festa já estava no fim e Andrew conversava com o dono do local, gostara tanto do lugar que provavelmente contrataria os serviços novamente para o aniversario de 18 anos do filho. Ou talvez fosse melhor esperar o rombo no seu bolso se recuperar, afinal, quem foi que havia inventado essa ideia de que o pai da noiva pagaria o casamento inteiro?
Pam conversava com os Hummel entusiasmada sobre os filhos estarem namorando e recebia a mesma empolgação vinda de Carole, embora Burt não estivesse com uma cara muito boa durante a conversa. O mais velho olhava várias vezes para Kurt e Blaine, que estavam sentados à mesa esperando os últimos detalhes serem acertados para finalmente poderem ir para casa.
– Sua irmã já deve ter embarcado para Paris nesse momento, que sorte! — Kurt falava animado, como se a lua de mel fosse dele, porém Blaine apenas deu de ombros. Não é como se o moreno nunca tivesse ido à cidade das cores. — Seus pais devem estar muito cansados depois desse dia corrido, o que você acha de ir lá pra casa depois? Podemos colocar em dia os episódios de Downton Abbey, ou fazer o trabalho de Cinematografia, é extracurricular mas vale pontos extras nas matérias da Srta. Burns. — Sugeriu o castanho.
– Ou talvez pudéssemos sentar com Burt e contar que tudo isso foi uma grande mentira para Sebastian se sentir mal por ter terminado com você. Que tal? — Kurt encarou o amigo. — Você viu, seu pai está me fuzilando com os olhos, Kurt.
– Não podemos contar, Blaine! Você sabe como meu pai é, todo politicamente correto e todo aquele blá sobre mentir... Ele contaria para os Smythes na mesma hora! — Blaine revirou os olhos, como se aquela reação fosse a mesma que o moreno queria. — E não é como se seu status de relacionamento te atrapalhasse em alguma coisa pessoal. Você nunca se interessou por ninguém desde a oitava série quando Matt o convidou para o trabalho da aula de jardinagem e todos aqueles sentimentos voltaram. — O castanho pausou o discurso, mas continuou quando viu que Blaine não falaria nada. — Aliás, por onde anda Matt?
– Você está sugerindo que? — Blaine imediatamente mudou de assunto.
– Vamos continuar com esse namoro de mentira. Uma hora todos esquecem isso, você vai ver. Vai ser exatamente como sempre, mãos dadas, conversas, você na minha casa e eu na sua... — Blaine revirou os olhos e abriu a boca para falar alguma coisa, porém Kurt foi mais rápido. — Quando Sebastian perceber que foi um tremendo bobo com o término, ou caso você se interessar por alguém, eu juro que terminamos.
– Você sabe que seu pai vai me matar, não sabe?
– Sei.
Kurt gargalhou e encarou rápido o pai, que tinha os olhos frisado na mesa dos rapazes como quem protegesse o filho indefeso de algum animal selvagem. Blaine tentou se manter calmo com toda aquela história, mas aquele assunto era ridículo demais para ser tratado seriamente. Parecia coisa de filme, de história de adolescente.
– Temos um trato? — Insistiu o castanho.
Blaine tentou desviar o olhar, mas Kurt continuava o olhando com um sorriso que podia convencê-lo a quilômetros de distância. Blaine se desabou em um pequeno sorriso no canto da boca assentindo com aquela história maluca. Kurt bateu palmas rapidamente e sorriu para o namorado.
– Se vamos fingir de verdade, temos que combinar algumas coisas para não sermos pegos de surpresa. Quinn e Tina vão querer saber todos os detalhes de como isso começou e como elas nunca souberam de nada. — Blaine suspirou. As amigas estavam na festa e o único motivo de não terem enchido os amigos de perguntas era porque estavam ocupadas demais procurando alguém para formar um par. — Primeiro beijo, quando percebemos que estávamos apaixonados, primeira vez... — Blaine falou a última parte um pouco mais baixo, como um sussurro.
– Tudo bem, temos tempo até Carole terminar de conversar com Pam, eu suponho. — Kurt deduziu por conhecer a madrasta e a mãe do melhor amigo, então cruzou os braços na altura do peito e se inclinou na cadeira branca. — Você pode começar dando algumas ideias.
– Sem chances! — Blaine tinha um sorriso divertido nos lábios. — Já que você me colocou nessa, você começa, espertinho.
– Tudo bem. — Kurt cerrou os olhos em desistência e Blaine apenas sorriu, se inclinando e esperando as idiotices que sairiam da boca do amigo. Kurt era um romântico apaixonado e nas horas vagas até escrevia algumas histórias de amor em um site de fãs de Downton Abbey, não seria difícil para o castanho bolar alguma coisa. — Mês passado fomos ao parque de diversão com o pessoal do coral, certo? — O amigo assentiu com a cabeça. — Eu ainda estava com Sebastian, mas tínhamos brigado na noite passada. Te liguei de madrugada e você ficou conversando comigo até a amanhecer. Passamos a manhã juntos ouvindo músicas dos Beatles... — Blaine tentou esconder o sorriso. Kurt se lembrava de todos os detalhes de Blaine, até os CDs velhos de Beatles no fundo de sua bolsa que o moreno levava para todos os lugares. O conhecia como ninguém. — Estava tocando Something, estávamos sentados no chão da sala escolhendo algumas fotos para o vídeo do casamento da sua irmã e nossas mãos se tocaram. Isso sempre havia acontecido antes, mas por algum motivo, daquela vez era diferente. Você olhou pra mim e sorriu com aquele sorriso lindo que costuma dar quando está com vergonha, que cerra seus olhos e tenta esconder os dentes... — Blaine sentiu as bochechas corarem. -...Ignoramos esse fato e continuamos. A tarde fomos ao parque com um verdadeiro casal, já que Seb ainda se recusava a fazer as pazes, repartimos um algodão doce e fomos no carrinho de bate-bate juntos, tudo como um bom romance de filme. Você me ganhou um bichinho de pelúcia na barraquinha de tiro ao alvo e rimos a tarde inteira.
A história não era inventada, o que deixava Blaine ainda mais corado. Tudo aquilo, até agora, realmente tinha acontecido na semana anterior e apenas deixava o moreno mais assustado. Estava indiretamente flertando com Kurt? Afinal, era isso que ele sempre fazia com o castanho, mas era coisa de melhores amigos, bom, pelo menos ele achava até hoje. Então Kurt continuou:
–...Quando escureceu, fomos na roda gigante do parque em uma gôndola diferente do resto dos nossos amigos. Finn e Rachel foram em uma, Quinn e Puck foram logo em seguida, nenhum deles não tinha visão de nós. O sol se punha atrás dos pequenos prédios de Lima e a roda gigante havia parado para alguns adolescentes embarcarem lá em baixo. Eu olhei em seus olhos por alguns instantes e você olhou nos meus e me deu um sorriso apaixonado. Desviamos o olhar, mas ficamos de mãos dadas. — Kurt suspirou, como se contasse a história qual sempre havia sonhado conhecer seu namorado, porém ignorou seus sentimentos àquela cena conhecida e continuou. — E foi assim que eu caí de amores por Blaine Anderson, meu melhor amigo e agora, meu namorado. — Terminou com um sorriso fraco.
– Uau! — Blaine realmente estava surpreso. — Isso foi bom.
– Minhas fanfics não são recomendadas à toa. — Piscou convencido para o amigo que apenas gargalhou. Kurt parou e pensou por alguns segundos que a história perfeita havia se encaixado com o dia que tivera com Blaine no parque, exceto a parte do se apaixonar. Não é? – Sua vez. — Kurt ordenou.
– Minha vez? — Perguntou confuso.
– Sim. Conte-me quando percebeu que estava apaixonado pelo seu melhor amigo. — Kurt tinha um olhar curioso no rosto, tentando adivinhar como Blaine montaria a história.
– Eu não sou bom com histórias, Kurt.
– Tente. — Insistiu.
Blaine franziu o cenho, não sabendo se aquela seria uma boa ideia. Com o canto do olho pôde ver Burt o encarando furiosamente enquanto Carole e Pam ainda conversavam. Estalou os dedos por alguns segundos e pôs-se a pensar em alguma história besta que pudesse inventar sobre perceber que estava apaixonado por Kurt. Era besta, não? Porque não estava apaixonado pelo melhor amigo... Bom. Não estava.
– Ok, hm. — Desistente, Blaine estava ficando vermelho com a dificuldade que era para concluir algo concreto em sua mente. Definitivamente não era bom com palavras. — Estávamos na minha casa assistindo um filme, nos olhamos e percebi que era você quem eu queria passar o resto da vida juntos. Então nos beijamos. — Deu de ombros. — Viu? Não ficou bom.
– Você nem tentou! — Kurt gargalhou.
– Tudo bem. — Blaine suspirou fundo após a tentativa falha de tentar enganar o melhor amigo, limpou a garganta e desviou dos olhos azuis de Kurt que tinham certa curiosidade na história que o amigo iria bolar. — Faz algumas semanas, v-você, hurm... Você estava gripado. — Blaine se atrapalhava nas palavras, estava corando sabendo que o olhar de Kurt estava sobre si, então fechou os olhos e continuou. — Você estava gripado e não pôde ir ao colégio e acabou perdendo aulas importantes. Eu tinha que ir todos os dias à sua casa levar a matéria do dia porque você simplesmente parecia não melhorar. — Kurt se apoiou na mão esquerda, interessado em saber mais. — Naquele dia você havia ido ao médico e ele havia lhe receitado um remédio ótimo, que acabaria com seu resfriado, mas te apagaria por horas. Então fiz como todas as outras vezes e fui até sua casa te levar a matéria. Seu pai me informou que você provavelmente estaria dormindo, mas eu poderia subir e te acordar para estudarmos. Você realmente estava dormindo, deitado na cama com aquele pijama cinza que te dei de amigo secreto do coral. Tinha
um pequeno sorriso nos lábios e parecia estar tendo um sonho bom, achei errado te acordar pra te passar aquela matéria horrível de química...
Kurt estava fascinado com as mentiras que o amigo havia contado sobre si até hoje: Blaine era um baita de um escritor e sabia sabiamente usar as palavras. Assim como o castanho, o Anderson havia se inspirado em algo que realmente havia acontecido e tentava transformar aquilo em uma cena próspera para o namoro. Blaine continuava corando conforme contava a história, porém quanto maiores os rubores em suas bochechas ficavam, melhor a trama ia se desenvolvendo. Então continuou:
– Copiei a matéria pra você em seu caderno, com algumas notas em post-its explicando a matéria. Primeiro química, depois Inglês e por fim Francês, mas essa você já deveria saber... — Blaine sorriu ao se lembrar de como Kurt era estranhamente bom em Frances e em como talvez precisasse de algumas aulas particulares com o amigo. — Terminei depois de alguns minutos. Guardei tudo, você detestava bagunça de qualquer jeito. Então minha intenção era te deixar sozinho. Desliguei a televisão que fazia um pouco de barulho e fechei as cortinas, mas antes de caminhar até a porta fui até a cama te desejar uma boa noite. — Blaine ainda desviava o olhar. Só Deus sabia como aquilo era constrangedor. Era como ler uma fanfic em voz alta com a pessoa que você ficaria na história e ainda era mais assustador pois os escritores seriam os mesmos personagens naquele momento. — Tirei seu cabelo da testa querendo ver se ainda estava com febre, e senti sua pele quente, a febre ainda não tinha ido embora mas estava melhor que nos dias anteriores e eu fiquei feliz ao saber que logo você estaria bem. Me inclinei para beijar sua testa e bem quando eu fiz, você se mexeu na cama.
– Mexi? — Perguntou curioso com a história, sem saber ao certo onde começariam as partes inventadas e onde estava a realidade.
– Mexeu. — Blaine assentiu. — Você estava tão vulnerável, parecia que precisava de mim naquele momento. Sua pele estava pálida e eu senti como se meu coração estivesse quebrado só por ter ver doente. Ali comecei a questionar se o que sentia por você era apenas amizade. Então meus olhos foram... M-meus olhos foram até sua boca... E-estávamos com o rosto perto.... E-e eu... Droga, Kurt, você vai mesmo me fazer falar isso? — O amigo assentiu divertido com a confusão no rosto do amigo e Blaine revirou os olhos. — ...E-então eu te beijei... Era pra ser só um selinho, algo pra te fazer bem, e era pra você estar dormindo, m-mas você correspondeu o beijo...
– E então eu te joguei no chão e nos beijamos loucamente.
– Qual é, Kurt. Você acabou de estragar a história! — Blaine fingiu ficar ofendido enquanto Kurt gargalhava por ter quebrado a tensão da história do Anderson, por mais que ele tivesse razão, Kurt havia arruinado o clima bom do momento. O amigo havia contado a história com força, como se aquilo realmente tivesse acontecido. Mas não havia. Não. Ou... Não.
– Tudo bem, agora precisamos acertar os detalhes da nossa primeira vez e... — O castanho foi interrompido por sua madrasta. Carole provavelmente havia ouvido a frase que Kurt havia falado, mas resolveu ignorar.
– Estamos indo pra casa, Kurt, seu pai pediu para te chamar. Blaine janta conosco hoje? Primeira janta oficial como namorado de Kurt... — Disse com um sorriso grande nos lábios. Carole sempre achou que os amigos fossem mais do que simples amigos.
– N-não, eu tenho que... — Kurt o interrompeu.
– Sim, ele vai. Aliás, ele vai com a gente.
O castanho arrastou o novo namorado até o carro sem dar tempo do moreno se despedir da própria família. O Anderson apenas acenou para os pais, que entenderam ao ver o moreno saindo com Carole e Kurt da festa, e então foi puxado para entro do carro. A viagem de volta até Lima foi silenciosa, Burt dirigia e trocava olhares com Blaine pelo espelho retrovisor superior. O moreno torcia para que alguém falasse alguma coisa para quebrar o gelo.
– Que frio, não acham? — Carole tentou e recebeu apenas barulhos disfarçados de respostas. E então continuaram na rodovia em silêncio.
Kurt poderia gargalhar alto naquele momento, mas estava se controlando para que o melhor amigo não surtasse. Tudo aquilo era uma loucura e não imaginava que um namoro com Blaine poderia causar tanta mudança em sua vida em poucas horas, mas estava adorando ver o amigo confuso e irritado ao mesmo tempo. Segurava a mão de Blaine tentando tranquilizá-lo, mas o moreno suava frio do mesmo jeito.
Burt não era tão possessivo e protetor do jeito que Blaine fazia parecer. Bom, talvez fosse. Lembrou-se de quando Sebastian fora jantar a primeira vez na sua casa, o tanto de perguntas que Burt havia feito para o ex-namorado... Sim, talvez Blaine estivesse um pouco encrencado.
Quando chegaram ainda era cedo, o jantar poderia ser preparado sem pressa. Kurt subiu as escadas para seu quarto com um pouco de pressa, Blaine foi atrás sem hesitar.
– Portas abertas. — Burt gritou do andar de baixo, fazendo os adolescentes caírem na gargalhada já no andar de cima. — O que está acontecendo com eles? — Perguntou Burt tentando achar a graça.
– Deixe-os um pouco em paz, homem! — Carole sorriu e foi até a cozinha preparar os legumes, deixando Burt falando sozinho na sala.
Finn veio logo depois com Rachel e ficaram na sala conversando sobre o novo reality show de um canal qualquer. Kurt e Blaine estavam no andar de cima tentando assistir a algum filme, mas estavam mais interessados em comentarem sobre as roupas das pessoas do casamento. Claro, como deixariam passar Tia Frankie com aquele vestido branco parecendo a própria noiva? Ou talvez primo Watson vestindo suas velhas bermudas de caça.
– Meninos, jantar! — Carole gritou do andar de baixo.
– Se você estava desconfortável com o clima no carro, talvez agora fosse um bom momento para começar a se preocupar. — Sussurrou o Hummel e Blaine apenas deu de ombros, se levantando da cama. Kurt acompanhou o amigo gargalhando baixo.
Quando chegaram ao piso inferior todos já haviam se sentado à mesa, as duas únicas cadeiras que sobravam eram lado a lado e de frente para Burt que tinha um sorriso estranho nos lábios, algo meio diabólico na opinião do Anderson. Blaine puxou a cadeira para Kurt e logo se sentou também. Rachel sabia que algo estava estranho no ar, ela era meio psíquica, podia sentir a tensão do cunhado e de Blaine.
Até metade da refeição o único som que se ouvia na casa era o som dos talheres batendo no fundo do prato. O peixe com batatas estava maravilhoso, mas Burt estava mais interessado em observar Blaine e o fazer ficar desconfortável.
– Então, Blaine... — O mais velho puxou assunto e Carole e Kurt o encararam com medo. Era a primeira interação dos dois desde que esse assunto viera à tona. — Você e Kurt namorando?
– O quê? — Rachel quase cuspiu a comida. — Blaine e Kurt estão namorando?! — Todos assentiram como se fosse óbvio, até mesmo Finn do outro lado da mesa. — Você ficou o final de semana inteiro conversando sobre coisas chatas sobre futebol, mas nunca pensou que o assunto "Kurt e Blaine namorando" fosse melhor? — Rachel repreendeu o namorado.
– Eu soube há poucas horas. Quinn me mandou uma mensagem do casamento falando que eles haviam se beijado e... — A namorada o interrompeu.
– Quinn, sempre Quinn... — Jogou os talheres sobre a mesa. — Por que eu não estou surpresa que ela tenha te enviado uma mensagem? Talvez seja porque ela adore fazer isso, quase toda a hora! — Dizia com os dentes cerrados.
– Rachel, Finn! — Carole repreendeu os adolescentes. A judia revirou os olhos e continuou comendo seu peixe com um pouco de raiva que era descontada no garfo e faca se enroscando. Finn aproveitava o silêncio para já arranjar um jeito de se desculpar com a namorada, não queria dormir no sofá por alguma besteira que havia falado novamente. — D-desculpe por isso, Burt.
– Tudo bem, meu amor. — Voltou o olhar à Blaine. — Então, namorando?
– P-pois é... — Blaine tinha as mãos suadas e uma dor de cabeça infernal começando a chegar. Ele sabia que aquela conversa seria pior do que ter que ouvir Kurt reclamando sobre Sebastian o tempo inteiro.
– E vocês pretendiam nos contar isso quando? No casamento de vocês, ou no nascimento do terceiro filho? — Falou como se fosse provável um parto gay, sem se importar com o olhar curioso de Kurt. — Porque não foi muito agradável ouvir uma conversa sua e de Kurt no telefone, às sete da manhã conversando como se fossem... Fossem... — Burt até engasgava ao pensar nessa possibilidade. -...íntimos há muito tempo.
Kurt sorriu para o chão tentando esconder sua desconexidade com a realidade. Se lembrou de acordar e bolar o plano perfeito: esperou Burt se levantar e sair de seu quarto para chamar Kurt como todas as manhãs, então ficou de costas para a porta, colocou o celular desligado na orelha e fingiu que conversava com Blaine sobre como o beijo dele era bom e como as mãos de Blaine estavam autorizadas para explorarem da próxima vez.
– N-nós estávamos esperando o casamento passar... — Blaine chutava Kurt por debaixo da mesa. O amigo merecia por estar fazendo o Anderson passar por uma situação horrorosa como esse. — Me desculpe, Sr. Hummel. Eu não faria nada que fosse desrespeitar o senhor ou qualquer um de vocês.
– Foi por isso que você dormiu no sofá ontem? — Carole interviu.
– Foi. — Blaine estava se sentindo como em uma sala interrogatória da polícia. Kurt tinha um sorriso escondido no canto dos lábios, estava adorando essa história, afinal, adorava pregar uma peça no melhor amigo. A culpa estava caindo toda sobre Blaine, bom, até agora...
– E você, Kurt... — Burt limpou a garganta. — Não vou dizer que nunca havia pensado que vocês fossem mais do que amigos, mas não faz uma semana desde que terminou com Sebastian. Eu entendo que os desejos dos jovens devem estar à flor da pele nos dias de hoje, mas desse jeito você vai ficar mal falado na cidade. Você não foi criado assim e obviamente não teve exemplos em casa para agir desse tipo. — Burt estava mais vermelho do que os adolescentes.
– Pai, eu...
– Vocês já... Fizeram... Coisas? — Burt tentava perguntar sem graça. Carole se engasgou com o suco e Finn gargalhou alto. Rachel havia se esquecido de como mastigar e Blaine ficou sem ar por alguns segundos. Todos encaravam o velho Hummel com curiosidade de como ele havia conseguido coragem de fazer aquela pergunta.
– Burt! — Carole finalmente interviu. — Isso é um assunto deles...
– Eu só quero estar certo que não está rolando essas coisas debaixo do meu teto. — Mantinha a voz firme, mas o rubor em suas bochechas entregavam que Burt estava muito desconfortável tendo aquela conversa, até mais que os próprios meninos.
– Pai! — Kurt tinha os olhos arregalados. Nem quando Sebastian viera pela primeira vez Burt havia feito perguntas tão violadoras como essa.
– Sr. Hummel, f-fique tranquilo, n-nós...
– Blaine! — Kurt encarou o amigo tentando descobrir o que o Anderson estava tentando fazer ao tentar responder aquela pergunta. Era obviamente o dia de mais constrangimento de sua vida, mas não pensou que quando ele acontecesse, seu melhor amigo e sua família inteira estariam presentes.
Finn e Rachel apenas encaravam a conversa, com os olhos imitando uma partida de pingue-pongue indo pra lá e pra cá, curiosos em onde isso iria acabar. O jantar acabou logo depois. Blaine e Kurt terminaram e pediram licença para se retirarem, logo Blaine pegava um taxi para ir para casa sem chances do moreno dormir ali hoje.
Kurt tinha uma pressão na barriga, sabia que o Anderson estava muito bravo com ele com toda essa história de namoro falso e interrogatório de sogro falso, mas conversaria com Blaine no colégio pela manhã, era um favor enorme que Kurt estava pedindo e sabia que teria que pagar quando Blaine pedisse.
Depois de deixar um Blaine irritado em um taxi e receber uma portada quase em seu rosto, deu um boa noite à todos na sala e subiu para o quarto. Se deitando na cama e tentando se lembrar do propósito dessa invenção. Uma hora estava fazendo ciúmes em Sebastian, e na outra estava sentado com sua família conversando sobre sua vida sexual. Se lembrou então do rosto vermelho de Blaine, de seus olhos desesperados encarando Kurt e esperando que o castanho falasse alguma coisa.
Essa seria uma história que adoraria contar para Sebastian, gargalhariam por horas.
Sebastian... Ai Sebastian... Tentou se lembrar do momento em que estavam juntos ainda, dos beijos e dos sorrisos, mas não conseguiu. Não se lembrava mais como era o beijo de Sebastian pois o beijo de Blaine ainda estava vivo em sua memória. Só conseguia se lembrar da boca de Blaine na dele, nas mãos do moreno puxando seu quadril e fazendo os corpos se tocarem e nas línguas se encaixando em um beijo molhado... No hálito quente de Blaine perto de seu rosto assim que terminaram o beijo... Ou talvez nos selinhos que finalizaram o beijo e... Kurt...? Kurt!
Chacoalhou a cabeça e tentou voltar a voltar em Sebastian.
Sebastian.
E ficou lutando contra seu cérebro tentando voltar ao beijo de Blaine, com um sorriso idiota no rosto. No fundo sabia que teria que admitir para si mesmo que Blaine beijava bem pra caramba, mas por enquanto tentaria se enganar e fingir que o beijo havia sido ruim, por mais que não houvesse sido.
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