Difficile

2 #02 Não estrague o momento


Notas iniciais
Tão estranho ver sentimentos antigos encaixados nessa história...

"Tudo bem, isso é um pouco estranho. Dias atrás eu saberia o que te escrever ou o que te falar e agora me faltam palavras ou um estranho e nunca antes sentido frio na barriga me invade... Seb, eu não sei como te falar. Você sempre me disse que nunca gostou de drama, mas meu único dom é saber as corretas palavras a usar e me expressar por um grande e dramático texto. Precisamos conversar, não acha? Isso tudo é muito confuso pra mim, como assim não me ama mais? Nós vivemos anos juntos, é como se você jogasse tudo para o ar, você não quer isso, não é mesmo? E eu mandei meu cérebro diversas vezes se manter forte, para não te digitar essa mensagem, mas eu simplesmente não consigo. Você é tudo o que eu tenho, eu..."

– O que você tá escrevendo? ­- Blaine abriu os olhos sonolentos devido à luz vinda do celular do amiga. Nesse momento sua mãe estava dirigindo (ela havia trocado há alguns quilômetros com Andrew pois estavam fazendo um rodízio).

Kurt estava com os olhos vermelhos iluminados pela tela do celular. A noite era escura e sem estrelas, por mais que tivessem acabado de deixar a cidade de Tampah, que era conhecida como a cidade das estrelas. A estrada vazia, como se todos os motoristas tivessem entrado em um acordo.

– Nada. ­- Respondeu Kurt com a voz embargada, continuando a digitar silenciosamente pelo touch screen, desejando que Blaine aceitasse sua resposta e voltasse a dormir, porém no fundo sabia que isso nunca aconteceria.

– Você está escrevendo uma mensagem para Sebastian...? — Perguntou.

Kurt ficou em silêncio. Apenas ouviam o motor do carro e os dedos de Kurt contra o vidro de seu celular de última geração que o garoto havia ganhado do pai de aniversário.

– Você está escrevendo uma mensagem para Sebastian! — Afirmou ao se aproximar de Kurt e conseguir ler o que o garoto estava escrevendo. -­ Ah, Kurt... Você costumava ser mais forte! — Suspirou cansado dessa história.

– Só estou resolvendo algumas coisas pra resolver as coisas quando voltar para Lima, nada de mais. ­- Dizia ainda com a voz machucada.

Kurt antes que pudesse pensar na próxima frase para escrever, seu celular fora arrancado de sua mão e jogado pela janela do carro. Se pode ouvir o barulho do impacto do aparelho telefônico com o asfalto frio.

–­ BLAINE! O que você fez?! -­ Gritou incrédulo.

– O melhor pra você. -­ O moreno sorriu como quem tivesse feito à Kurt o melhor favor de sua vida e voltou ao seu lugar, fechando os olhos e insinuando dormir.

– Você jogou meu celular na estrada, você é louco?! -­ Kurt gritava, sem se importar com o Sr. Anderson acordando no banco da frente. -­ Eu tinha fotos naquele celular, meus contatos... E se meu pai me ligar? Você é idiota?!

– Se seu pai quiser falar com você e não conseguir, ele vai nos ligar. A única ligação que você estava esperando naquele celular era a de Sebastian, e graças à mim ele não vai te incomodar nessa viagem. ­- Blaine sorriu de olhos fechados. -­ Fica frio. Quando chegarmos à Lima te dou outro, mas até lá, sem comunicação com o mundo exterior.

– Eu poderia te bater agora. -­ Kurt estava realmente irritado.

– Você pode tentar. -­ Blaine tinha um sorriso enorme no rosto, como quem estivesse se divertindo horrores com o fato de ter feito aquela travessura com o amigo, o que fez Kurt ficar mais irritado ainda. A mensagem estava ficando perfeita e provavelmente Sebastian acordaria e veria que Kurt era o seu amor.

Ignorou o amigo gargalhar baixo ao seu lado e tentou dormir também... Estavam perto do Arizona e mais algumas horas chegariam ao deserto.

Esperando o sono chegar, Kurt pensava nos diálogos que teria com o ex. Nas frases que falaria e em como conseguiria persuadí-lo a voltar a serem namorados. O Hummel tinha confiança de que aquilo era apenas um obstáculo diante de todo o caminho que percorreria junto ao Smithe, e que assim que chegasse em Lima, Sebastian teria esfriado a cabeça e pensado melhor em toda essa história de terminar.

E com pensamentos assim, Kurt acabou caindo no sono.

[...]

– Blaine, acorde. -­ A mãe do moreno o chamava.

Os olhos de Blaine se abriram lentamente e logo se fecharam de novo por conta dos raios de sol que acertavam seu rosto. Alguns segundos depois Blaine tentava novamente. O carro estava parado no meio do deserto, era lindo o poente do sol ao longe nas montanhas de areia. Blaine poderia ficar olhando para aquelas colinas para sempre. Lembrava-se de passar todas as férias de verão acampando com sua irmã e seus pais no deserto, antes de todos eles virarem ocupados demais com o casamento de sua irmã ou o nascimento de sua sobrinha... Blaine sentia falta daquilo.

– Continua lindo. -­ Sussurrou com a mão um pouco acima da testa para evitar o sol de irritar seus olhos.

Kurt saiu do carro bocejando e ficou deslumbrado com a visão, era incrível. Se não estivesse tão magoado com o amigo, o daria um abraço bem apertado e o agradeceria por o ter tirado daquele quarto para um lugar deslumbrante como esse.

O garoto de sobrancelhas triangulares virou para seus pais com os olhos brilhantes. -­ Vocês deveriam ficar também! – Disse esperançoso de receber uma resposta afirmativa.

– Embora adoraríamos, não podemos. Eu e sua mãe temos que chegar à cidade antes do anoitecer para pegarmos o vestido de sua irmã. Pam ainda acha uma ideia horrível deixar dois adolescentes acamparem aqui sozinhos por causa dos lobos... -­ Blaine sorriu. -­ Mas vocês vão ficar bem, não vão?

– Claro. -­ Blaine respondeu antes de Kurt.

– Já tirei do porta-­malas as coisas que precisarão para passar a noite. ­- A mulher abraçou o filho. -­ Estarei aqui assim que amanhecer, tudo bem?

– Mãe, você está me sufocando. ­- Blaine gargalhou, recebendo um olhar agradável de Kurt pela primeira vez em horas.

– Oh, desculpe. ­- A mulher abaixou a cabeça.

– Ainda não acredito que vou dormir sob as estrelas do deserto depois de tanto tempo! ­- Aquele sorriso no rosto do amigo fazia Kurt agradecer pelo pé na bunda do namorado. Blaine estava perceptivelmente feliz. -­ Não acredito que vocês deixaram, que confiaram em mim. – O garoto soltaria fogos de artifício de tanta felicidade se pudesse.

– Bom, confiamos no Kurt. ­- O pai sorriu.

–­ Vocês vão ficar bem? – Perguntou Pam.

– Sim. -­ Blaine sorriu feito criança.

– Venha, Kurt. Vou lhe mostrar o lugar onde costumávamos acampar... Tem a areia um pouco mais macia para colocar os sacos de dormir. -­ A mulher passou os braços pelo ombro do adolescente e caminhou com ele até uma parte do deserto aberto.

Blaine ainda tinha os olhos fascinados na cor da areia quando o sol batia. Além das lembranças maravilhosas vindas daquele local, o garoto era fascinado por aventuras. Acampar com seu melhor amigo no meio do nada poderia parecer assustador para qualquer um, menos pra ele.

– Blaine? ­- Chamou Andrew chamando a atenção do filho.

– D-­desculpa, pai. Mas é que eu sinto tanta falta daqui...

– Tudo bem, só me escute. -­ Blaine se virou e encarou o pai que não tinha mais uma feição muito amigável. ­- Estamos confiando nos dois, você e Kurt sempre foram melhores amigos... Só isso, amigos, certo?

– O quê? Eu e Kurt? Sim! -­ Afirmou como se fosse óbvio. ­- Ele é como se fosse meu irmão, pai. -­ Tentou ignorar o desconforto que sentiu quando pensou em se envolver com Kurt. Conhecia o amigo há anos.

– Sua mãe estava meio desconfiada de vocês. — Sorriu. -­ E o fato de você não querer que Sebastian fosse ao casamento... Não que eu tenha alguma coisa contra à garotos que... Gostam de garotos... Só que... -­ Andrew se atrapalhava.

– Pai, eu entendi. -­ Blaine sorriu sem graça.

– Você nunca levou uma garota lá em casa.

– Pai.

– Ou um garoto...

– Pai!

Depois de alguns minutos, Andrew e Pam seguiam caminho para o Arizona pegar o vestido de casamento de Clara, deixando dois adolescentes sozinhos em um deserto um tanto assustador. Por mais que os garotos tivessem tranquilos com tudo isso, Pam era mãe e se sentia desconfiada, e prometeu voltar antes do combinado.

Kurt e Blaine passaram a parte da manhã inteira arrumando o lugar onde acampariam por algumas horas. Armaram uma pequena tenda com os sacos de dormir embaixo, o pequeno fogão improvisado com "lenha" que encontraram aos arredores do acampamento, a caixa de isopor com as bebidas, as cadeiras de praia para aproveitarem o calor de um inverno... Tudo estava ajeitado, menos o fato de que Kurt não havia trocado uma palavra com o moreno.

O Hummel estava sentado em sua cadeira lendo um livro por cima de seus óculos de sol, ignorando a paisagem linda ao seu redor. Blaine se aproximou de fininho e logo se sentou ao lado do amigo.

– Ainda bravo comigo? – Perguntou o óbvio.

– Você jogou meu celular no meio da rodovia. -­ Kurt cuspiu as palavras, virando a página do livro com um tanto de raiva. -­ Bem quando eu estava prestes a voltar com Sebastian.

– Estava? – Perguntou Blaine um tanto curioso pela resposta.

– Bom... E­u ainda não tinha mandado a mensagem, mas...

– Kurt. – O interrompeu.

– Blaine, vá cuidar da sua vida. -­ Kurt fechou o livro, finalmente assumindo que não estava lendo, apenas fazendo mais um rito do seu estimado drama de ignorar o amigo. -­ Aliás, vá cuidar do almoço. Estou morrendo de fome.

– Se eu soubesse como você fica chato no deserto, nunca teria te trazido comigo. -­ Blaine brincou e saiu, deixando Kurt tentar segurar um sorriso.

.:.

A tarde estava passando dolorosamente lenta. Desde o almoço Blaine e Kurt não trocavam uma palavra e por mais que Blaine adorasse ver o amigo irritado, começou a odiar essa distância entre os dois. Havia jogado o celular dele pela janela do carro, e daí? É isso que amigos fazem quando tentam afastar ex­-namorados.

Kurt estava apoiado em um cacto velho sem espinhos olhando para o horizonte laranja e Blaine poderia jurar que ele estava chorando. O Hummel jogava algumas pedras longe e esse clima de faroeste não agradava Blaine, que suspirou e caminhou com passos firmes até o amigo, ficando em sua frente e cruzando os braços.

– É melhor você sair daí, ao menos que queira ser acertado por uma pedra. ­- Kurt falou seco, sem se importar muito com o amigo obviamente irritado à sua frente.

– Pronto, é isso! Chega!

Blaine falou com um tom de voz irritado que assustou Kurt. Ele nunca havia visto o amigo assim antes. Na verdade, Kurt nunca havia visto Blaine irritado. Enquanto Kurt parecia perdido em devaneios, o moreno o pegou pelo braço e o arrastou de volta ao acampamento, sem se importar em estar ou não machucando o castanho.

– O que foi isso?! -­ Perguntou assustado com a brutalidade de Blaine.

– Kurt, você precisa acordar! ­- Colocou os braços no ombro do Hummel como se fosse chacoalhá-­lo. ­- Sebastian é um merda perto de qualquer outro cara desse mundo, por que você ainda insiste nele? Você está percebendo que estamos brigando por causa dele, logo a gente que nunca nem discute? Ele não te ama mais, e daí? Ele nunca foi bom com você! — Cuspiu o que vinha guardando desde Lima, não se importando mais.

– Mas eu... -­ Blaine o interrompeu.

– Se você me falar que precisa dele eu te jogo em um cacto com espinhos que fará o maior estrago. -­ Blaine falava seriamente, mas Kurt tinha vontade de rir do rosto sério do amigo. -­ Você precisa de um cara que faça por você o mesmo que você fazia por Sebastian, e cá entre nós, esse namoro acabou há anos.

– Você não entende. ­- Kurt cuspiu as palavras sem medir as consequências. ­- Você nunca teve uma namorada, ou um namorado, você não entende como é o mundo de um namoro! — Tratava Blaine ingenuamente.

– Você está certo, eu nunca namorei, mas se isso que você estava fazendo com aquele cara era namorar, eu não quero mesmo. -­ Blaine agora estava mais calmo. -­ Você quer mesmo saber por que eu nunca gostei do Sebastian? Ou você acreditava naquela história de "não fui com a cara dele"?

– O quê você está falando...? -­ Kurt perguntou um pouco magoado.

Blaine soltou o ombro do amigo e caminhou pra longe, se arrependendo de ter estourado desse jeito e falado coisas que não deveria. Ele não podia simplesmente contar para o amigo. Havia jurado que não contaria.

– O que foi, Blaine? -­ Kurt não facilitava e caminhava atrás do amigo até uma cerca improvisada de madeira podre onde Blaine não teria saída. Estava encurralado. ­- O que ele te fez?

– Ele me enfrentou. -­ Blaine soltou enquanto colocava as mãos na cinturam e virava para encarar Kurt. Sentia um alívio no fundo do peito por finalmente contar para alguém, mas ainda estava incerto sobre isso. -­ Era o primeiro ano do ensino médio. Um pouco antes daquela semana que me afastei de você por causa das atividades extracurriculares. -­ Kurt assentiu sem entender onde isso iria chegar. -­ Eu estava pegando alguns materiais no meu armário e Sebastian provavelmente passou por lá e viu nossas fotos espalhadas por todo o lugar...­ — Blaine tinha muitas fotos de Kurt espalhadas pelo armário, do mesmo jeito que Kurt tinha dezenas de fotos do amigo em seu armário que ao tempo foram sendo substituídas por fotos de Sebastian. — Ele me enfrentou, era final das aulas então não tinha ninguém nos corredores. Ele disse que não gostava de mim e que por ele eu sumiria, que eu era um atraso na sua vida e que não passava de um cachorrinho que te seguia pelos corredores.

– Blaine... — Kurt encarava o amigo tentando entender se tudo aquilo era verdade ou era outra carta na manga para fazê-lo se afastar de Sebastian. Temia pela segunda opção.

– Eu senti medo, qual é, Kurt. O cara tem quase o dobro da minha altura. Eu entendi, tentei explicar que éramos como irmãos, mas ele não quis saber. Me fez jurar que nunca te contaria que ele havia ido atrás de mim, e que eu deveria me afastar de você aos poucos ou eu veria a fúria de um namorado ciumento. — Disse a última parte revirando os olhos.

– Mas você não se afastou. -­ Kurt deu alguns passos inseguros para perto do amigo, sem saber se Blaine ainda estava magoado consigo.

– Como eu poderia? Você é meu melhor amigo, é a única pessoa na qual eu podia conversar. Mas eu tentei, dei uma desculpa e sumi por um tempo, mas eu senti sua falta. Senti falta de Burt, de tudo. Então ao invés de me afastar de você, me afastei dele. -­ Blaine dizia sincero. -­ Comecei a sumir quando ele aparecia, a remarcar dias de visita à sua casa quando eu sabia que ele estaria lá... Eu pensei que eventualmente você descobriria o idiota que ele era, e esse dia finalmente chegou. Por isso que eu tenho raiva dele, por isso que joguei seu celular fora... Você não pode voltar com esse cara!

– Blaine... — Kurt sorriu tentando acalmar o amigo, pegando uma de suas mãos para si. -­ Eu admiro você por ter sido forte perto de Sebastian mesmo não gostando dele, mas como eu disse, namoros são complicados. Eu ainda o amo, e é obvio que ele também me ama. Vamos nos entender, você não pode ter raiva dele pra sempre.

– Tudo bem. Só que... -­ Blaine hesitou. -­ Esquece.

– O que foi? — Kurt pareceu receptivo.

– Você estava bravo comigo por causa dele, isso é ridículo. -­ O moreno descansou os ombros, encarando o chão e se escondendo nos casacos que vestia. -­ Eu não quero ser o tipo de amigo que te coloca contra outras pessoas, mas eu precisava tirar o seu celular. Me desculpa. — Finalmente soou culpado.

– Blaine, você é a unica pessoa que consegue ser totalmente chata e adorável ao mesmo tempo, sabia? -­ Kurt gargalhou e deu um cafuné rápido em Blaine antes que o amigo pudesse reclamar sobre isso estragar seu gel.

– Uau. — Soltou Kurt.

– O quê?

– O anoitecer daqui é lindo. -­ Kurt apontou com a cabeça para o norte, onde o dia sumia atrás das montanhas de areia. Blaine sorriu ao ver o encanto nos olhos do amigo, lembrava de admirar o pôr-­do-­sol várias vezes quando acampava ali.

– Vem, senta aqui. ­- Blaine chamou Kurt para se sentar na cerca velha. Ficaram admirando a escuridão tomar conta do céu alaranjado do deserto.

– Obrigado por me trazer nessa viagem com você. ­- Kurt assumiu.

– Obrigado por ser meu amigo, e por estar aqui comigo.

– Melhor amigo. ­- Kurt corrigiu.

– Você está estragado o momento! — Blaine fez uma careta.

– Oh, desculpe. -­ Kurt fingiu que estava ofendido, mas Blaine não deu bola. Apenas passou seu braço por volta de Kurt e puxou o amigo para perto, admirando a noite aparecer e dar lugar às estrelas naquele lindo cenário. De repente, uma estrela cadente cruzou o céu rapidamente e os garotos, sem sequer ao menos pensar em um pedido, desejaram o óbvio. O pedido que seus corações mais almejavam naquele momento.

Melhores amigos, pra sempre.