Diferente
3 Episódio 3 - A exibição
Chegando à arena, seu tamanho foi a primeira coisa a ser notada. Lá era maior que qualquer espaço esportivo das escolas de todo país. A quadra parecia ser do tamanho de um campo de futebol dos estádios brasileiros, feita de terra, areia e marcações de tinta, isso sem falar na arquibancada enorme — parecia que todos os alunos e funcionários da escola caberiam ali, sem espremer ninguém — e um palco grande — o suficiente para ter boas apresentações — que ficava nos fundos da arena.
A diretora apresentou aos novatos o responsável pelo treino dos alunos, Gilberto, e também o responsável por orientar todo e qualquer estudante que necessitasse de algum tipo de ajuda psicológica. O homem acenou com um sorriso simpático de longe, mais ao fundo da arena — ao lado do palco —, pois não queria interferir nas apresentações da diretora. Depois Lívia despediu-se das crianças e ficou invisível, e foi a partir desse ato que o treinador se aproximou dos jovens e começou sua aula explicando como eram os Diferentes:
— Todos os seres humanos são iguais, mas com pequenas distinções que podem ser físicas, mentais, emocionais ou a personalidade. Entretanto, existe uma desigualdade em alguns que os diferenciam em duas classes. Os Comuns e os Diferentes. Os Comuns, como o nome já diz, são as pessoas normais, que não têm nenhuma habilidade extraordinária. Já os Diferentes somos nós: pessoas com essas capacidades surpreendentes. Para os normais, nós fomos categorizados assim por termos esses talentos especiais ou, como muitos preferem dizer, poderes. Mas não há discriminação entre os dois grupos, até porque a grande maioria dos Comuns não sabe da nossa existência. Além desses poderes, possuímos a Energia Poderosa, que chamamos de E.P. Nós utilizamos essa Energia para conseguir usar nossas habilidades. Quanto maior a E.P. for, maior será o uso de poder pelo Diferente.
Depois daquela explicação, Gilberto pediu que os alunos fossem até os fundos da arena, ficarem de frente para o palco e quando ele chamasse por um nome, a criança nomeada deveria subir no palanque e mostrar seu poder. O orientador, que estava ali próximo, anotaria na ficha escolar desse novo estudante o seu dom superpoderoso e com essa informação, nas próximas aulas, ambos os profissionais poderão ajudar da melhor forma possível cada um a usar e desenvolver essas, e outras, habilidades através de treinos e palavras de orientação.
Para que as crianças pudessem perder um pouco da timidez e vergonha, Gilberto foi o primeiro a subir no palco e lá demonstrou seu poder.
Gilberto levantou suas duas mãos: com a esquerda ele apontou com o dedo indicador para o orientador, que estava distraído com sua prancheta, enquanto que com a direita apenas estava com os dedos parados, apontados para o ar, sem um alvo certo. Alguns instantes depois aquele homem com essa pose estranha começou a movimentar os dedos da mão direita de uma forma estranha, como se estivesse com câimbra neles. Nesse mesmo momento, automaticamente o orientador parou de ler o que tinha na sua prancheta e começou a se mexer estranhamente, quase como se estivesse tendo pequenos espasmos musculares ou se quisesse dançar, ao mesmo tempo que não queria, mas o que realmente aconteceu foi que o profissional começou a mover seus braços para cima e para baixo enquanto andava de um lado para o outro de maneira um pouco desengonçada.
Alguns alunos olhavam para aquele homem de prancheta na mão — parecendo um boneco vivo e desengonçado andando e balançando os braços — e ficavam espantados com tal comportamento, mas a minoria destes alunos, incluindo Dante, voltou sua atenção para o treinador e foi aí que eles suspeitaram de que Gilberto poderia estar fazendo com que o orientador agisse daquela maneira usando aqueles movimento de seus dedos. Essa minoria estava correta em suas suposições: o homem no palco, seu futuro treinador estava controlando os movimentos corporais do orientador fazendo-o mover seus braços e andar de um lado para o outro.
Gilberto abaixou as duas mãos e nisso o orientador parou com aquele comportamento. O homem com a prancheta olhou com uma cara feia para o treinador, como se quisesse brigar verbalmente com ele, mas nada foi dito enquanto que o outro profissional sorriu simpaticamente e apontou para os alunos, como se quisesse falar que aquilo tinha sido necessário para os alunos. O orientador depois voltou a examinar sua prancheta e Gilberto retomou seu foco para os novatos.
— Agora é a vez de vocês — disse o treinador sorrindo, mostrando simpatia.
Vários alunos mostraram suas habilidades. Uma garota tinha o poder de criar uma gosma, outra o poder de controlar a luz, uma tinha superforça, outra menina conseguia manipular seus cabelos como quisesse, uma tinha poder de fogo, um rapaz o poder de gelo, outro o poder de escuridão, havia uma garota que podia expandir seu corpo em tamanhos gigantescos e além desses, vários outros alunos também mostraram suas habilidades.
Pouco depois chegou a vez de Carlos, amigo de Dante, exibir seu poder. Ele subiu no palco e se preparou para mostrá-lo. Ele era aquele tipo de pessoa que adorava se exibir, que quando sabe que é bom em algo, faz questão de mostrar essa qualidade a todos.
Dante estava ansioso para saber qual era o poder de seu amigo, não via a hora da exibição. Carlos mostrou que podia criar de dentro de seu corpo, espinhos de ferro. Todos acharam aquele poder incrível, inclusive Dante que comparou Carlos a dois personagens de desenhos animados, em uma única pessoa.
E então finalmente chegou a vez de Dante exibir seu poder. Ele subiu no palco, aparentando estar tenso e nervoso.
— Eu tenho três poderes. — disse Dante com a voz trêmula.
— Nossa! Você é o único aluno atualmente, dentre todas as escolas, que tem três poderes. Na verdade, todos os Diferentes só possuem um poder — exclamou o treinador Gilberto chocado com aquele anúncio.
Os alunos e o orientador ficaram surpresos com aquela informação. Enquanto os calouros estavam achando aquilo mais impressionante do que ter o poder de espinhos metálicos o homem com as fichas estava achando aquilo preocupante, mostrando isso com sua cara.
— Mas… — voltou a falar Dante, pausando por um instante e continuando logo depois. — Eu tenho duas personalidades a mais. Cada uma tem um poder diferente do meu e eu não consigo controlar essas personalidades, nem seus poderes. Sempre que alguma delas me controla eu vou para um lugar vazio e escuro, parecendo uma sala grande, sem móveis e sem luz. Lá também fica um outro Eu que não está no comando de mim naquele momento.
— É para isso que nós estamos aqui, Dante. Para ajudá-los a controlar, treinar e usar, com responsabilidade, os seus poderes e tudo que mexe com eles: emoções, movimentos, pensamentos e personalidades.
Dante se sentiu aliviado depois de ouvir as palavras de Gilberto e foi se preparando para exibir seu próprio poder, mas antes foi interrogado pela menina com a habilidade flamejante:
— As suas personalidades têm nomes?
— Tem… — o garoto respondeu achando aquela pergunta meio inusitada para o momento.
— Quais são?
— Primeiro me fala seu nome, depois falo o nome deles. — Dante se interessou pela garota.
— Victória — respondeu ela interessada somente nos nomes das personalidades do menino.
— Os deles são Max e Maicol.
Depois das apresentações, Dante finalmente mostrou o seu poder. O bebedouro que ficava ali perto da quadra começou a tremer e depois de alguns segundos uma quantidade de água saiu de dentro dele, mas não da maneira comum como se alguém estivesse bebendo-a. Aquele líquido flutuou como uma corrente, percorrendo um caminho no ar, em direção ao palco, parando e juntando-se sobre a mão de Dante. Pelo que todos ali presentes viram, o garoto criou uma bola d’água, o que mostrava que Dante conseguia manipular a água.
O orientador anotou aquilo na ficha do novato enquanto que Gilberto e alguns alunos queriam saber dos outros poderes que Dante tinha. O menino disse que não sabia ao certo quais eram.
— Então como você sabe que tem mais poderes, se nem sabe quais são eles? — Victória questionou o jovem, duvidando de suas palavras anteriores.
— É que eles que usavam os poderes, não eu… é complicado de explicar. — Dante tentou responder a menina de uma forma clara, mas não conseguiu. Até levou a mão na cabeça e a coçou como num ato para ajudar a pensar melhor.
O orientador se prontificou a explicar melhor sobre aquilo:
— A maioria das pessoas possui apenas uma personalidade, mas existem outras que tem mais de uma. Todos os Diferentes apresentavam uma individualidade e um poder durante toda sua vida, até um certo ano em que apareceu um Diferente que possuía dois perfis diferentes e o mesmo apresentou ter dois poderes também diferentes. Depois disso, foi constatado que quando um de nós tem múltiplas personalidades, o mesmo terá outra habilidade.
Após a explicação, o treinador Gilberto pediu educadamente a Dante que descesse do palco para que ele pudesse dar as últimas explicações sobre a matéria.
— Todos os dias vocês terão quatro aulas, na parte da tarde, comigo e sendo supervisionados pelo orientador enquanto treinam, aperfeiçoam e criam seus Movimentos Supremos. Tudo com competência
— O que é um “Movimento Supremo”, treinador?
Um aluno ficou curioso quanto àquele nome.
— Movimento Supremo é o nome dado para aquele seu movimento especial usando seu poder. Para simplificar ainda mais, é o nome dado ao ataque mais poderoso que vocês possam usar, seja em vocês mesmos ou contra alguém.
O treinador acabou por ali a explicação e um pouco antes do sinal escolar tocar — informando o fim do tempo de aula — a inspetora que antes estava afastada da quadra, quase escondida, se aproximou dos jovens e perguntou qual o tamanho de camisetas cada um vestia e com a resposta dada ela entregava duas vestimentas embrulhadas em um saco plástico transparente, deixando visível que elas eram iguais a que o veterano, cobrador de dinheiro, usava mais cedo — a lateral do corpo e mangas eram da cor verde, o centro do corpo amarelo e a gola azulada — Os novatos entenderam então que aquela roupa era o uniforme da escola e se prontificaram em pô-la. Dante viu novamente que na altura do peito, do lado direito, de cada camiseta tinha a sigla da escola: E.N.D.
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