Dies Illa
24 Capítulo XXIII - O Descuido é o Prelúdio do Suicídio -
Notas iniciais
O quarto de Morgan e Rihito ficava no terceiro andar do edifício dos dormitórios em Kensington Academy. Nosso garoto andava exausto agora com as novas tarefas e responsabilidades de presidente de classe que somavam-se às de aluno.
Ele desenvolvera recentemente um peculiar hábito de encarar o céu noturno da janela de seu quarto. Sentia muitas dores de cabeça ao final do dia e a brisa fresca da noite o acalmava, mas não era só isso. Não era apenas o céu que contemplava, era o chão também, o chão que ele conhecia naquela hora se transformava em abismo. Ele erguia o pescoço, se debruçava sobre o parapeito e olhava para baixo. Toda aquela paisagem desaparecia e não restavam nem vultos enegrecidos, tudo era só uma massa que fundia-se com o horizonte e ele sentia como se a escuridão pudesse o engolir. Rihito buscava essa sensação noite após noite.
Ah... A brisa novamente acariciava seu rosto e ele podia relaxar. Naquele momento estava sozinho, para onde quer que olhasse, o mundo estava irreconhecível. Inclinou-se mais um pouco para fora da janela. Dava-lhe um medo gostoso. Ele podia cair e ser abraçado por aquele mundo negro e vazio.
Silêncio, seus ouvidos estavam cheios dele.
Ultimamente aquilo o curava de todo estresse mental. Teria um fundo a escuridão massiva que enxergava? Óbvio que sim, ali era o jardim traseiro dos dormitórios, disso ele se lembrava. Mas ninguém dizia nada, era divertido demais.
Nalgum lugar do céu voava um morcego chiando seu barulho característico. O internato certamente era um local interessante para tais animais. Rihito riu para si mesmo. "Morcegos gostam de florestas, é claro que devem ter vários vivendo por aqui. Já pensou se eu pudesse também voar para dentro desse bosque exatamente agora?"
Deixou sua cabeça fugir para lá, imaginando o quão ominoso seria, hipoteticamente, se ele o visitasse. Adoraria sentir-se totalmente perdido e assustado, tanto a ponto de seu coração doer quando batesse. O menino fechou seus olhos azuis e abriu os braços, respirando a noite tão atraente. Logo estaria no fundo desse enorme poço, se ele realmente tivesse algum.
Rihito havia desaparecido, desvanecido, mesclado, engolfado, se transformado na noite.
–-- ♪ ---
Uma mão feminina tocava em seu ombro.
– Hey, Hito-Rin...
Não conhecia ninguém com esse nome.
– Rihito? — A voz insistiu — Hey...
O garoto lentamente abriu os olhos e suas pálpebras ardiam e pegavam como se estivesse com sono. Um som mole e confuso escapou de sua preguiçosa garganta.
– Rihito, venha para a cama...
Que cama?
– Você dormiu na janela...
De fato ainda permanecia ali, seus braços estavam dobrados sob sua cabeça e ele apoiava-se em sua estrutura de madeira, com os óculos quase lhe escapando do nariz. Tomando ciência da real situação, seu corpo deu um solavanco para trás, envergonhado. Sua visão escureceu e ele ficou zonzo.
– Haha! Ah, Rihito... Sua bochecha está marcada! — Era Morgan quem sorria para ele.
O nissei fechou logo as cortinas e deitou-se propriamente em sua cama. Seu sonho fora tão real que jurava ter se atirado da janela para o chão no qual via senão um imenso buraco. O mais preocupante porém era que ele estranhava não ter pulado ao invés de ter desejado pular.
Rihito queria se perder. De propósito.
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