Dies Illa

12 Capítulo XI - Dos Laços -


Morgan reparou na falta dos óculos em Rihito. Sua ausência contrastava com a imagem que tinha em sua memória.

– O que houve com eles? — Perguntou o louro, apontando para os olhos.

– Ah, eu os perdi! Não sei o que faço porque não enxergo nada bem sem eles. — Respondeu o menino de olhos azuis, esfregando a mão nas têmporas.

– Como assim, perdeu?

– Perdi quando fui buscar o tal mapa na sala do Sr. Norman, eles caíram no chão perto do armário do fundo e é capaz que nem tenham percebido ainda...

Morgan levou a mão ao queixo.

– Vamos pedir pra ele então deixar a gente entrar lá e procurar... Aproveita que o Sr. Norman gosta de você, duvido que ele se recuse a ajudar...

– É, eu sei, Morgan... A questão é que ele nem sabe que eu entrei lá pra começar. — Rihito tinha um tom de desânimo na voz.

– Como não?

– Ele não estava quando eu peguei o mapa.

Morgan ficou surpreso com a atitude do amigo.

– Por que você fez isso? Não é nada do seu feitio algo assim!

Rihito não queria falar desse assunto com o louro pois já imaginava que isso pudesse aborrecê-lo.

– Foi o Simon... Que entrou comigo e me auxiliou a encontrar o que o professor me pediu... Eu também não quis entrar, mas ele tomou a frente! — Explicou ele, se desculpando.

Morgan corou com a lembrança do dia da piscina, quando flagrou-os juntos. Irritara-se, afinal.

– Esse menino, o Simon... Eu não gosto dele! Ele tem um jeito desagradável, todo mundo aqui evita ele, menos você! Não sei o que você viu naquele grotesco! — O louro não o olhava mais nos olhos.

Rihito ficou em silêncio.

–-- ♪ ---

Mais tarde, Simon encontrou-se com Rihito. Ele apoiou o braço em uma árvore do jardim e preguiçosamente cruzou uma perna em frente a outra, deixando um espaço considerável entre suas coxas, abaixou os olhos à altura dos do outro menino e disse:

– Como vai o meu namorado?

Sentiu a vergonha descer do rosto até a barriga e desviou de seu olhar. Simon riu, ainda na mesma posição.

– O... Meu-- meus óculos... Eu deixei-os cair ontem na hora de sair da sala... — Disse por fim — De qualquer modo é sua culpa que isso aconteceu, eu não posso voltar para buscá-los agora! — Seus olhos glaciais o encaravam firmemente.

O garoto das pintas piscou algumas vezes e endireitou a postura.

– Hoje à noite — Ele disse — Hoje à noite vamos nos encontrar, venha para meu quarto e resolveremos tudo.

Rihito ainda não parecia contente. Seus olhos, que eram levemente puxados, pareciam fendas escondendo geleiras.

– Eu não vou tentar nada engraçado dessa vez - Ele assegurou, compreendendo aquela expressão.

– Certo...

– Depois das 11 então, está combinado.

A hora avançada fez nosso menino titubear, não era permitido transitar fora dos dormitórios após as 9, mas seus óculos eram essenciais, sem eles não poderia ficar.

Ele aguardou até a hora combinada, à noite fingiu estar dormindo para não envolver Morgan naquilo e saiu pé ante pé quando viu que o amigo também adormecera. O louro porém o ouviu fechando a porta ao sair. Nem se moveu na cama, apenas suspirou entristecido, já sabia com quem Rihito iria se encontrar.

Estava preocupado, não queria ser pego vagando pelos corredores, mas caso algo inesperado acontecesse, diria que estava indo ao banheiro. Não, diria que estava sentindo-se enjoado. Isso mesmo, estava enjoado e à caminho da enfermaria onde tomaria um remédio. O menino ensaiava diálogos em sua cabeça até chegar finalmente no quarto de Simon.

Bateu levemente na porta para não chamar atenção de ninguém. Simon o atendeu, já previa sua chegada. Estava sem camisa e como usava calças brancas, Rihito assustou-se achando que estava nu.

– Ah que droga, você -- ! — Ele tampou os olhos ingenuamente.

Simon ergueu uma sobrancelha. Continuava parado com a mão na porta. Os olhos azuis de Rihito observaram novamente e.... Ele realmente enxergava muito mal. Corou diante da situação após entender o que se passava e entrou, quieto.

O garoto das pintas explicou o que havia planejado enquanto vestia uma blusa. Sairiam pela janela de seu quarto e caminhariam pelo bosque até o prédio onde se encontrava a sala de Norman e, como ele trabalhava até tarde, esperariam uma oportunidade para entrarem pela janela uma vez que ele não estivesse presente.

– É bem simples, só precisa ter paciência — Finalizou, já abrindo as vidraças por onde sairiam.

– Simples? Você vai se meter nesse mato fechado no escuro e vai ficar de tocaia na janela do coordenador e acha isso simples? É inadmissível. — Rihito estava indignado com tanta irresponsabilidade.

– Por que você não é tímido na hora certa? Agora isso lhe cairia muito bem. — Ele respondeu com seu típico olhar de desprezo.

Aquilo atuou como mágica em Rihito, que acanhou-se instantaneamente. Simon estava se arriscando por ele afinal de contas, não devia reclamar dessa forma. Se bem que...

Ele lhe estendeu a mão, já sentado na janela.

– Venha comigo.

Rihito chegou perto e Simon o abraçou, colocando-o no colo. Ele sentiu seu coração vacilar. Do quarto do garoto-vampiro até o chão eram alguns metros, era um tanto alto, mas uma árvore passava convenientemente um galho relativamente flexível em sua frente e Simon já estava acostumado a utilizá-lo para descer.

Já no chão ele o soltou, agora segurava apenas em sua mão para guiá-lo no escuro. Rihito só via as costas do menino que o puxava, não reconhecia mais nada. Andaram por um tempo assim e surpreendeu-se ele quando o outro avisou que haviam chegado, apontando apenas uma luz ao longe. Era isso que enxergava.

– Vai ser bem rápido, entendeu? A sala dele fica no térreo, essa é a sua sorte. Quando eu te chamar, você vem e fica prestando atenção se ele está voltando.

Rihito apenas acenava com a cabeça, concordando com ele. Ambos olhavam atentamente a janela de lá do bosque. Ao se agachar, os seus ondulados e negros cabelos escorriam pelos lados de seu pálido pescoço. Encontrou mais uma pinta a adornar sua pele bem ali atrás. Alguns minutos depois, Simon deu um toque em suas costas e lançou-se para frente, correndo para a sala de Norman. Rihito quase não acompanhou o passo do garoto. Aquela mobilidade toda não condizia com a imagem que tinha dele, sempre tão moroso e sereno.

Saltaram ambos para dentro, o garoto das pintas foi direto checar o armário mas não havia nada no chão. Começou a bagunçar tudo, desde gavetas até a mesa do próprio coordenador. Rihito tentava arrumar o que podia atrás dele, mas suas mãos tremiam muito e não o obedeciam bem. Ouviram passos se aproximando do lado de fora.

– Simon, Simon, vamos embora! Tem alguém vindo! — Clamava o menino, apavorado.

Simon finalmente encontrou os óculos do seu garoto sobre uma cômoda, ao lado de um vaso de flores. Botou-os rapidamente no rosto e um segundo antes que Norman abrisse a porta, empurrou Rihito para fora da janela, fazendo um sinal para que fugisse para longe. Ele todavia ficara para trás.

Virou o corpo rapidamente quando ouviu Norman gritando com ele e batendo a porta ruidosamente.

– Você aqui, demônio! O que está fazendo!?

Simon, com um olho apenas fechado e usando os óculos de Rihito o encarava com desdém.

– Vim buscar um pertence meu.

O professor coordenador reconheceu o objeto que havia encontrado no chão de sua sala no rosto do "menino". Norman se aproximou com raiva e virou-o de costas contra a parede, apalpando suas coxas.

– Criaturas sem limite como você não deveriam andar soltas por aí, você já sabe o que você merece? — Ele sussurrava — Uma punição a altura...

– Urgh — Resmungou Simon revirando os olhos — Me enoja ter um tio como você.

–-- ♪ ---

Rihito esperava pelo companheiro escondido no bosque exatamente do outro lado, onde eles previamente esperaram, sentindo frio e uma aguda preocupação. Simon o protegera. Não sairia dali até que ele retornasse.

Notas finais
Só cabe a vocês, meus amigos leitores, decidirem o que aconteceu entre Simon e seu tio Norman a partir dali =w=; Gostaria de comentar também que daqui pra frente haverão alguns eventos similares e que talvez não sejam convenientes para alguns, é o que eu me referi como "amargor" na sinopse, mas todos que quiserem continuar a ler são muito bem vindos ♥