Dies Illa

7 Capítulo VI - Na Torre do Relógio -


Rihito mais uma vez vagava pelos jardins do colégio esperando encontrar o tão singular garoto que parecia perdido no próprio tempo. Ele confessava estar preocupado com as feridas do colega, mas ali também reinava uma curiosidade que o coçava todas noites. Hoje perguntaria seu nome.

Olhou todos os lugares mais vazios, acreditava poder encontrá-lo num deles. Estaria aos poucos entendendo os hábitos do menino?

Passou pela torre do relógio, não o viu. Deu a volta em torno da imponente construção e em seu lado sombreado, achou a pálida figura sentada de pernas estendidas e cruzadas a acariciar com seus longos dedos as suaves cicatrizes de seus braços.

Rihito engoliu em seco. Ontem mesmo seus braços estavam cobertos do mais profundo carmim, inchados de sangue e doíam apenas de se olhar. Hoje, só restavam finos desenhos se sobrepondo uns aos outros como num arabesco em salmão.

"Que... Lindo..." ele de imediato pensou. Suas mãos tremiam um pouco. Debalde tentou escondê-las no bolso e foi falar com ele.

– Olá... Ontem eu não me apresentei corretamente, eu me chamo...

– Ri~hi~to~ — Simon o cortou, dando pequenas pausas para pronunciar o nome do colega.

– S--sim.. E você é o...

– Simon.

Rihito ajeitou os óculos por hábito.

– S...Certo... Prazer, eu... Eu queria...

Simon fechou os olhos e sorriu. Rihito o encarava como se estivesse em hipnose.

– Queria te perguntar se você está bem! De ontem, sabe? — Continuou

– Estou. — Respondeu o garoto das pintas, enrolando seus negros cabelos retintos nos dedos.

– Mas essas feridas pareciam muito mais sérias ontem.

– Pareciam.

Simon aparentava estar fraco e frágil como no dia anterior, com as mesmas frases curtas também. A intensidade de sua voz no entanto compensava tudo isso.

– Realmente, tome cuidado da próxima vez, seja o que for que te atacou — Concluiu, olhando o bosque do lado oposto.

O garoto das pintas o tocou nas coxas. Ele reagiu como a um choque elétrico.

– Quer ver algo? — Perguntou Simon.

– ... Depende!

Simon então ergueu o braço à altura de seu rosto, com as mangas do uniforme enroladas até o cotovelo. Fitava-o com seus negros olhos semicerrados e cheios de luxúria. Encostou-lhe a ponta da língua e depois os lábios. Que diabos estaria ele fazendo, pensava Rihito.

Cravou seus alvos dentes em sua própria carne. Uma gota de sangue escapara de sua boca enquanto ele se... Mutilava?

Rihito agarrou a mão de Simon. Um olhar de compaixão cruzava os olhos azuis do menino. Aquilo tudo de ontem, na enfermaria... Foi o próprio Simon quem fez.

Em cheiro grosso de ferro e glicose se enebriava o ar em torno dos garotos, que se olhavam de joelhos e em silêncio. O menino das pintas pousou a mão do lado do pescoço de Rihito, logo abaixo de sua orelha e afastou os cabelos que lhes cobriam. Afrouxou-lhe a gravata e abriu-lhe o colarinho. O coração de Rihito pulsava tanto que tinha tontura. Sentia como se todas células de seu corpo, toda sua compleição captasse aqueles toques, aquele aroma. Toda sua carne formigava.

Simon aproximou o rosto à abertura da camisa do menino, onde suas clavículas se encontravam, e respirou profundamente. Ele abriu ainda mais além a blusa do colega e provocava-o, tocando os seus lábios de algodão em sua pele como num ensaio de um beijo. Abraçou-o em seguida, enterrando o rosto em seu pescoço.

Como ele era quente..! Podia ouvir seu coração... O sangue correndo nas veias... O ar entrando em seus pulmões... Era como se ele estivesse em suas vísceras, onisciente.

Simon fechou os dentes em torno do pescoço de Rihito.

Notas finais
Simon canibal?? ( ̄∇ ̄;)