Dies Illa
29 Capítulo XXVII - Bakemono Mitai -
Notas iniciais
Enquanto Morgan se debatia e suas dúvidas sangravam, Rihito estava mais apto a aceitar seu relacionamento com as sedutoras pintas do garoto valetudinário, ou melhor, estava mais dependente de todas aquelas sensações insanas. Ele quase que não se importava mais se descobrissem seu namoro homossexual com o sobrinho do coordenador do internato.
De fato, isto lhe soava bem grave em algum lugar de sua razão deturpada. Geraria um escândalo, com certeza, mas ainda assim aprazia-o se imaginar praticando as mais eróticas e absurdas obscenidades com Simon nas áreas comuns da escola. Sentia as paredes internas de seu corpo ferverem e revolverem-se, ultimamente se pegava fazendo expressões sensuais sem razão aparente, lambia os lábios com muito mais frequência e seus episódios da tão humilhante polução noturna agora tornaram-se quase cotidianas. Podia jurar até que sua pueril voz de mancebo aveludara-se num tom mais provocante.
Era o nissei que, com suas maneiras tímidas de sempre, procurava os toques do garoto vampiro. Queria sentir-lhe os perigosos e alvos caninos em sua língua, o aroma de seus negros cabelos e palpar seus modestos músculos agregados sob aquela carne firme do torso de Simon. Uma alimentação baseada em ferro e proteínas humanas que lhe proporcionava tal físico, magro e rígido.
Rihito o chamou para o bosque depois das aulas do dia. As folhas secas espalhadas pelo chão como um tapete de mogno farfalhavam à medida que seus sapatos de couro preto as invadiam pelo caminho. O garoto de óculos e longos cílios recostou seu companheiro a uma árvore e o abraçou. O calorzinho que emanava do peito dele o deixava confortável e cheio de satisfação naquele mundo sem fim. Cerrava os braços ao seu redor e, seguindo a linha de suas clavículas, arriscou uma mordidela no pescoço de Simon.
Um gemido baixo e dedos que se moviam lentamente. Lábios quentes e uma língua curiosa que exploravam a sutil marca fresca. Olhos de gelo derretendo-se de luxúria. Tentara fazer o mesmo que o outro menino fazia com ele. Obviamente que seus dentes não eram afiados o bastante para romperem-lhe a pele em sua imitação. Um silêncio branco e incômodo os rodeava como uma névoa.
Quando se deu conta, envergonhou-se profundamente e virou o rosto, apenas para perceber o grupo de rapazes que infernizava Morgan a assisti-los de longe, rindo. Rihito afastou-se de imediato, suas bochechas tingidas de rubro e um medo comendo suas entranhas. E agora!?
Sentia uma forte vertigem. E os rapazes se aproximavam, cercando-os.
– Adam, você viu? Não é só o lourinho que é bicha! — Um deles anunciou.
– Mas até o Simon? Eu achava que ele era homem...
– Huh... Com um cabelo desses — Respondeu Adam, despeitado — com um cabelo desses é que não haveria de ser!
Simon no entanto permanecia sério, parecia ter o pensamento preso ainda no acontecimento anterior, que era muito mais importante. "Rihito me mordeu", ele repetia em grande espanto.
– E que tal se todo mundo descobrisse que o presidente de sala é gay? — Um rapaz de estatura média deu a ideia, sorrindo.
– Eu não sou..! — Rihito afirmou rapidamente sem nem ponderar suas palavras.
Claro que se ele engajava em atividades românticas com outro homem, ele no mínimo haveria de ser bissexual.
– É sim, é sim... Gay e gay... — O mais pervertido do grupo deles falou — Agora me digam, quem é que come quem...
O nissei deu um passo para trás, evitando os olhos deles e cheio de vergonha.
– É por isso que eu odeio esse internato, todo mundo aqui vira um bando de bichas... De que adianta tirarem as mulheres da gente se o resultado final é pior? — Um careca disse, lançando uma indireta aos seus colegas de grupo.
– Hein, é você mesmo né? Hirito, é você mesmo que é o passivo, não é? O pervertido insistia, aparentemente obcecado — Hein Adam, a gente podia ameaçar contar mesmo pra todo mundo pra extorqui-lo, não podia?
– Que quer dizer?
– Que a gente devia chantageá-lo por sexo também... — O pervertido quase babava, atribuindo-lhe uma aparência maléfica — Daí já seria mais um para nós...
– Tá bem, você faz o que quiser. — O líder deles se deu pressa em evitar que falasse uma palavra a mais.
– Bichas! — O carequinha gritou, indignado, enojado.
Simon os olhava com o usual desprezo.
– Mas e o que fazer com o branquelo? — Perguntou Adam sobre Simon — Ele não vai te deixar em paz, criatura imbecil.
– Dá uma surra nele e obriga ele a assistir a gente estuprar o japonesinho... Hahahaha! — Um rapaz sugeriu com uma característica risada histérica e a ideia parece ter agradado.
– Vocês são doentes. Eu vou embora. — O careca reclamou.
– Alto! — Chamou Adam — Você ajuda a bater e prender, se não que vai apanhar é você, moranga.
E todos eles já tinham se decidido.
– Eu nunca tinha me incomodado com vocês até hoje pela sua enorme insignificância, mas me parece que vocês não estão contentes com isso... — Disse Simon pela primeira vez na conversa — Que tal então! — Ele imitou a introdução daquele menino — Podem vir todos que eu os parto ao meio, eu rasgo suas tripas até a boca e como seus olhos... Faz tempo mesmo que eu não como ninguém. — Sua voz sombria chegava a tremer com um furor canibal.
Rihito estava assustado com os olhares de todos à sua volta, o bando de rapazes prestes a espancá-los e estuprá-los enquanto Simon tinha um afloramento de toda sua loucura latente. Justo agora, de todos momentos!?
Ele revirava os negros olhos para cima, encarava o vazio e mexia os dedos no ar como garras.
– E daí eu enterro meus pulsos nos crânios abertos---
HACK! UHGH...! UHHH...!
O discurso visceral fora interrompido por um murro cruel em seu estômago, entregue pelo enfurecido Adam. Todos arregalaram os olhos ao ver Simon cuspindo sangue e tossindo miseravelmente. Rihito tomado de pura raiva atirou seu atlas mais pesado no rosto daquele que socara seu Simon, mas sendo vulnerável como o era, qualquer ataque ou defesa seguinte seria impraticável.
– Seu filho da...!
O foco voltara para o mestiço de olhos azuis e todos queriam-no bater. Ele mal conseguia respirar ou se manter em pé, estar rodeado e sufocado de pessoas já era suficiente para pô-lo em pânico. Alguns hematomas definitivamente permaneceriam posteriormente.
Vendo isso, Simon atirou-se para frente e como um animal cego de perversidade. Após agarrá-los com mãos invisíveis de ódio retinto, distribuiu dentadas possíveis de arrancar pequenos nacos de carne. Capturando um vislumbre de seus olhos de gamo, injetados de sangue, percebeu-os arregalados e com um brilho sinistro que nunca havia visto antes. Presa e predador lutavam juntos um pelo outro, porque seus tipos de existência completavam-se e a vida de um nunca teria graça sem a do outro.
Tentaram socá-lo novamente, mas em vão. Em poucos segundos seu rosto estava coberto com o sangue impuro de todos eles.
– Que monstro!!!
– O que tem de errado com esse cara!?
– Ele... Não é humano!
Os rapazes gritavam incrédulos e apavorados, alguns com dificuldade, uma dor crua tingindo seus ganidos.
– Isso não vai ficar barato, escuta o que eu estou falando!!! — Bradou Adam, segurando firme a ferida grotesca em seu ombro.
O garoto das pintas juntou uma bola de saliva vermelha e cuspiu em sua direção antes que o grupinho partisse. Os outros membros contiveram seu líder para impedi-lo de entrar em mais uma rodada com a aberração petulante que dilacerou e ingeriu pequenas partes de seus corpos. Rihito já havia estranhado que nunca presenciara Simon se alimentando, mas isso já era um exagero... "É impossível que ele coma carne humana de verdade..!"
Dispersaram-se todos, não contariam nada a ninguém. Resolveriam aquilo do seu próprio jeito. A sós novamente com Simon, Rihito parecia receoso de se aproximar demais.
– Eu exagerei dessa vez. — Desabafou o pálido menino com a face manchada, chamando a atenção do seu colega.
– Tudo bem... Eu acho... — Respondeu nosso garoto, incerto — Você estava apenas se defendendo... Né?
Aquela cara dele borrada sangue, do batom vermelho dos crimes, incomodava-o deveras. Ergueu então um lenço que carregava consigo numa tentativa de limpá-lo e também àquelas memórias recentes.
– Hein? — Simon olhava confuso — Estava defendendo você, não a mim. Eu não preciso disso, acho que você sabe, Rihito.
Rihito sentia que ele estava sendo sincero, como quem corrigia um engano qualquer, mas de alguma forma aquilo soara talvez... Romântico. Rihito tinha ojeriza por tudo que era romântico. Ou ao menos era nisso em que acreditava.
– Vamos lavar logo seu rosto antes que alguém te veja... — Sugeriu ele para mudar o assunto.
Deixaram as imediações da floresta e não retornaram mais naquele dia.
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À noite Rihito percebeu, após libertar-se de toda preocupação que aquela briga lhe proporcionou, que Morgan não havia voltado ainda apesar da hora avançada.
"O que será que aconteceu com ele?"
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