Dies Illa
17 Capítulo XVI - E Fomos Felizes Por Hoje -
O internato esvaziara-se pouco a pouco ao longo de uma semana, eram as férias que se aproximavam e anunciavam o final do ano letivo.
– Ano que vem estaremos no segundo ano, né? — Morgan puxava conversa com o amigo, ambos sentados na fonte.
– Sim... Nem parece... Mas como estavam suas notas? — Rihito perguntou, esfregando as palmas das mãos nas coxas.
O louro desviou o olhar, meio encabulado.
– Ehh... Sabe, sabe... Não estão ruins, mas também estão longe de ser como as suas...
Rihito não pôde segurar um largo sorriso que emergia espontaneamente em seus lábios. Não conseguia ser discreto quando era elogiado dessa maneira.
– O Sr. Gunberg não deve gostar de mim!
– Por que você acha isso?
– Porque ele nunca me deu uma nota boa! E além do mais, ele só briga comigo!
– Morgan, ele é um professor de literatura, você já leu algum dos livros que ele mandou?
O louro fez um beicinho emburrado quando o amigo apontou que suas reclamações não procediam. Simon aproximara-se desapercebidamente enquanto eles conversavam e estava parado com as mãos nos bolsos diante deles. Um estranho silêncio pairava no ar. Os três se olhavam mutuamente, sendo Rihito o mais tenso, Morgan o mais descontente e Simon o mais tranquilo.
– E-- eu vou indo, mais tarde a gente se vê — Disse o louro, aprontando-se para sair, desconfortável e sentindo-se preterido.
O garoto das pintas chegou com o rosto próximo ao dele e com a mesma expressão corriqueira e sem vida que tinha, ficou a encará-lo. Morgan arregalou os olhos e chegou a ficar levemente vesgo devido à pouca distância entre eles. O que ele quer?
– Ri--Rihito, o que ele quer comigo? — O louro parecia assustado.
Rihito estranhou aquela pergunta sendo dirigida a ele como se Simon fosse algum tipo de animal de estimação seu.
– Sei lá, oras...
Simon parecia estar estudando seu rosto em grande contemplação até o momento que tirou uma das mãos do bolso e levantou-a. Morgan reflexivamente fechou os olhos com força e Simon disferiu-lhe um peteleco bem no meio da testa.
– Ai! — O menino exclamou, tampando o local atingido, que agora ardia e fez uma cara de bravo como resposta.
Simon continuava como se nada houvesse acontecido. O que ele quer? O louro estava a observá-lo esperando que ele se explicasse de algum modo e Rihito também não entendia o que se passava. O garoto vampiro então mostrou-lhe a língua a fim de que se irritasse.
– Ora, mas que abusado você é! E idiota, você é idiota! — Bradou Morgan, partindo em disparada atrás de Simon, que corria dele com grande folga — Que diabo! Como você é tão rápido!?
Simon se protegeu atrás de Rihito, segurando-lhe nos ombros e eles circulavam-o, ainda não tendo chegado a uma conclusão para sua brincadeira.
– Pare de balançar o Rihito, você vai deixá-lo enjoado! Seu chato! Venha aqui que ninguém bate no meu rosto!
– Eu não bati em você!
Simon correu em direção ao campo onde costumeiramente praticavam suas aulas de educação física, suas longas pernas davam grandes saltos e o louro já sem fôlego não aguentava mais persegui-lo. Caiu com as mãos em seus joelhos. Logo atrás vinha Rihito, achando graça em tudo. O garoto das pintas voltou, rindo da inaptidão do menino prestes a colapsar.
– É melhor você descansar um pouco, Morgan. — Aconselhou seu amigo.
– Você... Fala como se eu... Estivesse brincando! Eu... Não estou! — Ele dizia, ofegante — Ah!
–-- ♪ ---
Morgan deitara-se no gramado e refletia sobre o que havia acabado de acontecer. Sentia que tinha se divertido apesar de tudo.
– Hey... — Ele chamou a atenção dos dois, que imediatamente viraram-se para vê-lo — Eu... Hm... A gente podia... Brincar mais um pouco? Digo, não brincar, eu estava bravo de verdade aquela hora! É que...
– Claro, eu adoro todos tipos de brincadeiras~ — Simon respondeu prontamente.
Rihito arrepiou-se ao lembrar de todas brincadeiras de que ele gostava.
– Podemos brincar de esconder? — Sugeriu o louro, faltando confiança em sua voz.
Simon inclinou a cabeça para o lado.
– Sim... Mas eu achei que você fosse pedir por algo mais interessante que isso...
O garoto dos óculos corou e, temendo que seu companheiro dissesse algo imprudente, interrompeu.
– Vamos, esconde-esconde é legal... Mas isso tem algum motivo específico?
Morgan hesitou. Não os olhava no rosto.
– É que eu sempre brinquei disso com minha mãe, mas depois que ela morreu, nunca mais tive oportunidade... Sabe, eu pedia para meu pai e ele até aceitava, mas eu que sempre me escondia e ele nunca me procurava. Às vezes eu passava horas esperando e quando eu ia ver, ele tinha ficado o tempo todo na sala lendo jornal... E já que eu nem tenho irmãos...
Os olhos de Simon estavam quase fechando-se e Rihito não sabia o que deveria dizer.
– N-- nossa Morgan... Mas agora nós podemos ficar juntos não é..? Ehh, vamos, vamos! — Animou o nosso menino, puxando o louro pelo braço para levantá-lo.
Simon já estava acostumado com esse tipo de "perseguição" e já possuía bastante prática, sempre acabava encontrando-os onde quer que fossem. Já quando foi a vez dele se esconder, Rihito e Morgan tiveram de unir-se para procurá-lo. Simon no entanto apenas achara um lugar atrás do prédio do laboratório de química para dar um cochilo.
–-- ♪ ---
Mais tarde, todos três resolveram ir ao quarto de Morgan e Rihito a fim de passar a noite conversando. Simon encantou-se com o travesseiro do menino de olhos azuis e deitou-se abraçado nele em sua cama, por trás do garoto, que permanecia sentado.
– Pare de cheirar meu travesseiro, não me sinto confortável com isso... — Ele pediu.
Simon ignorou-o.
Em algum momento durante o longo diálogo que travavam sobre aspirações futuras e decepções passadas, Morgan se aproximou de Rihito. Queria falar-lhe algo muito sério. Seus longos e claros cílios tocavam suas bochechas sempre que piscava.
– Rihito, eu... — Ele sussurrava.
Seu amigo tinha um cheiro floral muito acentuado. Ele passara o braço nas costas do outro.
– Rihito, eu gosto de---
Simon abriu um olho apenas e afastou o braço do louro com o pé. Morgan tentou mais uma vez mas o mesmo se sucedeu.
– Ele é meu, você chegou tarde.
O menino encarava-o com um certo ar de despeito por trás de seu semblante. Rihito, tentando evitar conflitos, mudou de assunto e eles continuaram conversando até que finalmente o garoto das pintas adormeceu.
– Ne Morgan... Olhando ele dormir assim... Você não o acha bonito em toda sua palidez cadavérica?– Ele indagou, omitindo as últimas palavras que pensara.
– Eu não... Você é muito mais bonito que ele!
Rihito ajeitou os óculos e agradeceu, envergonhado.
– E ele parece que... — Morgan complementou — Parece que está doente.
A partir disso, ambos imaginaram Simon ligado a tubos, fios e máquinas hospitalares e viram que não seria um quadro tão incompatível.
– Mas sabe... Talvez eu esteja equivocado — Concluiu — Talvez ele não seja assim tão má pessoa.
Rihito sorriu e logo acometeu-lhes o sono, já era de madrugada e os três meninos dormiram juntos.
No dia seguinte, eles brincaram e conversaram de novo e de novo, e no próximo dia também. Assim foram dois meses inesquecíveis de suas férias em Kensington Academy, de quando eles todos foram amigos.
E se nós nunca mais dormíssemos,
nunca teria um fim.
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