Did You Kill Me?
2 better stAy out of her sight
Notas iniciais
À medida que a luz do dia se punha, a chuva começava a dar uma trégua, deixando, como consequência, o ar gélido. O som áspero do trovão quebrou o silêncio do celeiro imerso na escuridão; não era possível ver um palmo a frente do nariz de tão breu. Uma respiração se tornou mais pesada, não precisava de luz para saber que ela vinha de Alison.
Os relâmpagos surdos iluminavam timidamente as meninas, que se amontoavam em um canto. Apesar de nunca ser religiosa, Hanna fazia uma prece mentalmente. Jamais esteve tão próxima da morte desse jeito. Só de pensar nisso, sentia-se nauseada. Aquele corpo lá fora poderia ser o meu ou de uma das meninas, pensou.
Realmente, A não estava de brincadeira, queria vencer de tudo quanto era jeito. Não mediria esforços para conseguir o que deseja, mas quem poderia ter tanto poder na mão para cometer crimes e ficar totalmente ileso? Uma coisa, elas precisavam aceitar, A não era uma pessoa qualquer. Era alguém importante.
Será que ela ou ele ainda estava lá fora? Spencer queria chegar à janela para verificar o corpo desfalecido de Cece. Mas poderia ser apenas mais uma peça, já que Cece fazia parte desse jogo. Entretanto, algo dizia a Spencer que o corpo ainda permanecia na porta, esperando para ser enterrado o mais longe possível.
Forças, onde poderiam encontrar nesse momento? O medo as tomou de tal forma que as deixaram totalmente estáticas. Ficaram alertas com tudo em sua volta, até mesmo o simples estalar de galhos no bosque atrás do celeiro era motivo de desconfiança.
Mesmo contra vontade, Emily se levantou, sacou o celular e acendeu seu visor. A luz não era forte, mas a guiou até a janela. Abriu a persiana com os dedos, fitou o quintal. Não conseguiu ver o que havia ali fora, muito mal dava para distinguir a silhueta da casa em estilo vitoriano de Spencer.
– Meninas, o que vamos fazer? — Olhava na direção em que pensava estar as outras.
– O que você quer dizer com isso, Em? — Indagou Hanna.
– Não vejo nada lá fora. — Ela respirou fundo para continuar. — E precisamos ter certeza se tem ou não um corpo na soleira da porta.
Parecia que a turma do canto discutiam sobre o que poderiam fazer quanto a Cece. Spencer se levantou.
– Vamos ter que verificar. — Disse Spencer determinada.
Ela acendeu a luz do celeiro, ofuscando os olhos de todas. Como se formassem uma única massa, Hanna, Aria e Alison caminhavam de encontro as outras, que também se aderiram ao bolo. Spencer pôs uma das mãos na maçaneta. Elas se entreolhavam, será que estavam fazendo o certo? E se A atirasse em uma delas?
De qualquer forma, já era tarde demais, a porta se abriu. Um arrepio percorreu seus corpos ao sentirem a lufada ríspida do gélido vento que cortava o quintal. Não havia nada ali, a não ser as plantas que a Sr. Hastings gostava de cultivar, estavam mais impecáveis do que nunca, ainda mais agora, que chovia constantemente, dando a elas uma tonalidade especial em suas cores.
– Viram?! Mais uma de A! — Aria irrompeu no meio das meninas.
Elas ficaram aliviadas, porém algo pesado rolou pelo telhado da varanda e caiu em frente delas, fazendo-as gritar histericamente.
– AI, MEU DEUUUUUS! — Gritou uma Hanna apavorada.
– É um saco! — Falou Alison ao fundo.
– O que será que tem dentro? — Apesar de receosa, Spencer ficou curiosa.
Ela caminhou vagarosamente até a sacola preta, que parecia ser de lixo. Procurou por um graveto no chão úmido para poder abri-la, mas nada encontrou. Contra sua vontade, usou as pontas dos dedos. Sentiu certa dificuldade, o nó estava bastante apertado. Finalmente, conseguiu desatá-lo.
– M-E-U D-E-U-S D-O C-É-U!
Spencer caiu no chão boquiaberta. Ficou completamente estarrecida. O saco caiu com certo pesar ao seu lado, ficou semiaberto. Mas ainda não era possível ver o seu conteúdo.
– O que houve, Spence? — Indagou Emily.
Reunindo o pouco de coragem que havia lhe restado, Alison saiu dos fundos e andou em direção a Spencer, abriu o saco e levou um grande susto. Virou-o e jogou seu conteúdo no chão para que todas pudessem ver. Uma cabeça de cabra coberta de um líquido rançoso de tonalidade vermelho bastante escuro estava espatifada no chão, o cheiro era totalmente desagradável. Ainda com a bolsa suspensa no ar, o que parecia uma carta, escorregou lentamente. Ninguém deu um pio.
– Alguém pega alguma coisa pra eu abrir essa carta. — Falou Alison, estava uma pilha de nervos.
Emily procurou por algo ali na varanda mesmo.
– Obrigada, Em!
Ela agradeceu com um sorriso de canto de boca. Que perfeito! Como Emily podia ter se esquecido dele? Por mais assustada que Alison estava, permanecia tão linda quanto determinada. Com o que parecia uma bolsa quase podre da Walmart, Alison pegou com cuidado a carta que havia adquirido uma cor meio rubra e abriu-a.
– "Aproveite o último baile da corte, pois amanhã estarei te esperando na guilhotina, Ali! Beijos, A!".
Ela jogou a bolsa com a carta no chão, o medo a atingia em espasmos.
– Eu tenho que sair daqui.
Alison tentou sair para o quintal a fora, mas fora impedida por Spencer.
– Você não pode nos deixar novamente! Não pode fugir! — Zoou como uma ordem.
– Você não entende, não é mesmo, Spencer? Quem quer que seja, quer minha cabeça em uma bandeja, quer me ver morta. — Ela chorava.
Tentou se desvencilhar das mãos de Spencer em vão.
– Me deixa ir, Spencer!
– Não, vamos te proteger. Você fica! — Spencer estava irredutível.
Sem saída, Alison voltou para o celeiro. Já estava bastante tarde. Elas pegaram alguns lençóis, cobertores, travesseiros e se ajeitaram no chão. Ninguém iria embora naquela noite, ficariam todas juntas, cuidariam uma das outras. Mesmo sem sono, deitaram-se.
As horas avançavam cada vez mais. Por fim, todas cederam ao cansaço e dormiram. A chuva havia retornado mais forte que antes; as gotas espessas caiam por sobre o telhado feito a madeira agressivamente. Parecia que estavam estourando pipoca lá fora. Apesar do estrondo, não atrapalhou o sono de algumas.
Após uma grande trovoada, Spencer acordou alarmada. Estava dormindo mal com o barulho da tempestade; o estouro do trovão foi apenas o estopim para poder se despertar definitivamente. Ela se levantou cuidadosamente para não acordar suas amigas e foi ao banheiro.
Chegando a porta, percebeu que ela estava entreaberta. Um feixe de luz vazava para o corredor, que se iluminava completamente por segundos, devido aos relâmpagos. Spencer a abriu lentamente, enquanto ouvia algo se sacudindo lá dentro.
– Ali? — Ela estava retesada.
– Você não aprende, não é mesmo, Spence? — A menina sacudia um recipiente. — E eu que pensava que você era a mais esperta!
– Me dá isso aqui! — Spencer tirou o recipiente da mão da garota.
– Que seja! Conseguiram as resposta que tanto queriam? — Ela estava sendo irônica.
Spencer não respondeu.
– Como eu havia imaginado. — A menina tirou uma lixa do cós da calça jeans rota e se pôs a aparar as unhas. — Vocês já estão cansadas de saber que pau que nasce torto, nunca se endireita. Ela continua brincando com vocês, manipula vocês e continuam nessa fixação de que existe A. Por favor! — Ela soprou as unhas despreocupadamente.
– Por que você tá referindo a si mesma na terceira pessoa? — Observou Spencer.
A menina não lhe respondeu, fixava sua atenção nas unhas.
– Coloquei unhas postiças, mas elas estragaram minha mão. Dá uma olhada.
Ela colocou uma das mãos em frente ao rosto de Spencer, que se virou irritada.
– Por um acaso, você tomou alguma pílula? — Indagou Spencer.
A menina se virou para Spencer, seu semblante demonstrava indiferença. Ela foi até o espelho, passou as mãos nos cabelos loiros, corrigiu a maquiagem borrada que ressaltava o azul dos olhos. Observou seu reflexo criteriosamente. Spencer mal entendia o que se passava ali.
Aquela menina era assustadoramente semelhante a Alison, isso não poderia negar. Mas então quem era esse ser surgido do meio do nada? Seria A? Seria a própria Alison pregando uma peça em Spencer? Afinal de contas, Spencer ainda continuava usando as malditas anfetaminas.
– Se você... — Spencer pausou, sentia-se idiota demais. — Não é Alison, então, quem é?
A menina parou de passar um brilho labial que destacava seus lábios e virou-se para Spencer.
Todas estavam imersas em seus mundos particulares; algumas ressonavam baixo, outras roncavam asperamente, o que era uma tremenda falta de educação. Bons modos sempre foram prezados entre as meninas de Rosewood, porém algumas simplesmente relutavam em se encaixar.
Pobre delas, pois havia alguém que estava disposto a impor as regras na marra; maldita seja a menina capaz de burlá-las. Esse “alguém” seria muito severo. Severo? Ou severA? Todas tentavam descobrir sua real identidade, mas A era boa demais para ser pega. Seria Deus? Com certeza, era um ser onipresente!
Um rastro de água escorria do corredor até a cama improvisada das meninas. Aria tentou se confortar no travesseiro, que parecia estar encharcado. Ela se levantou alarmada, observou a pequena correnteza que já tocava nos lençóis.
– Meninas! — Ela chamou as outras, que acordaram desorientadas.
– Dá um tempo, Aria! Me deixe dormir! — Hanna exclamou pondo o travesseiro em volta da cabeça loira.
Emily, ainda sonolenta, esfregou os olhos com os punhos. Olhou para Aria, que lhe indicou o chão molhado. Colocou-se de pé, puxando Hanna consigo e com Aria em seu flanco. As três se entreolharam duvidosas.
– O que será que tá acontecendo? — Murmurou Emily.
– Garotas, cadê a Spencer e a Ali? — Indagou Hanna incrédula.
– Fiquem quietas, deve ter alguém no celeiro além de nós. — Ordenou Aria.
Elas se juntaram, formando um só corpo. Andaram vagarosamente até o corredor. Pegadas de uma lama escura surgiam desde a porta escancarada dos fundos e iam até ao banheiro. Um arrepio subiu a espinha de Emily. Ela temia ver Alison desfalecida ali dentro. Não poderia estar morta, não poderia deixar Emily novamente. E quanto à promessa de ir juntas a Paris? Elas iriam fazê-lo, não iriam?
Lágrimas começaram a traçar caminhos pelo rosto amassado de Emily. Com leveza, Hanna passou a manga de sua blusa para secar a amiga. Aria entrelaçou seus braços nos das outras. Não importava o que encontrassem pela frente, manteriam-se fortes. Com uma das mãos livres, Aria abriu a porta lentamente.
As meninas irromperam para dentro vagarosamente. A torneira ainda estava aberta, abastecendo uma banheira completamente cheia; uma cachoeira descia suavemente pela lateral. Chegando frente à banheira, perceberam um corpo submerso.
– SPENCER! — Emily emergia o corpo desfalecido de Spencer. Os lábios ficaram roxos, os olhos totalmente cerrados, seus vasos sanguíneos podiam ser vistos por sob a pele quase translúcida. — Alguém chame a emergência. — O pavor a tomando.
E se Spencer estivesse morta? Aria saiu correndo do banheiro, enquanto Hanna envolvia o corpo molhado com seus braços. Emily tentava fazer respiração boca a boca. Pelo que pode perceber, não havia sinal de respiração, nem mesmo batimentos cardíacos. Um recipiente se elevou até a superfície. Emily o pegou e analisou-o.
– Você... — Emily relutava em acreditar, mas precisava ter alguém para compartilhar os seus pensamentos. — Acredita que Spencer pode ter pirado a cabeça quanto a A... — Pausou por um tempo. — E resolveu se matar?
– O quê? Em, você não tá achando...? — Sobressaltou-se Hanna. Emily lhe mostrou o frasco.
Aria tentou passar pela porta, mas a coroa de flores que segurava a bloqueava. Virou-se de lado para entrar. As outras se viraram apreensivas para ela, logo para suas mãos, onde viram uma coroa ornada com as mais variadas flores, envolvida em uma seda de tom pastel e com letras desenhadas impecavelmente em cor dourada.
– Tava lá na sala. – Respondeu Aria, percebendo o olhar questionador das meninas.
– Não me diga que é... – Falou Hanna.
– De A! – Interrompeu Aria.
– E você já leu o que tá escrito na seda? – Emily respirou fundo.
– Bom. – Aria colocou a coroa agressivamente no chão. Arrancou a seda do arranjo. – Procura-se piranha loira. – Ela pausou. – Recompensa, cabeças de quatro vadias burras. Tratar com A!
Ao longe, zoava o som de uma sirene de ambulância.
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