Dicotomia

1 Capítulo Único


Kurama levantou o rosto para a janela instintivamente assim que sentiu o ar mudar. As cortinas se agitaram, mas não pelo vento. A energia dentro do quarto ficou mais pesada, quase sufocante, como se o Makai inteiro estivesse ali dentro com ele. Logo viu o responsável. Seria uma ameaça, se não fosse tão familiar.

Hiei estava de pé no parapeito, os olhos escaneando tudo. Se estreitaram quando encontraram os de Kurama.

— É aqui que se esconde agora? — ele perguntou.

A testa de Kurama se franziu.

— Você já esteve aqui antes — Foi a única coisa que conseguiu falar antes mesmo de perguntar o que ele fazia ali.

Hiei desviou o rosto com displicência. As mãos estavam escondidas debaixo da capa, a katana pendurada nas costas, a postura ereta de sempre. Mas havia algo diferente nele aquela noite, algo que Kurama não sabia exatamente como explicar. Era como se seu youki estivesse mais pungente que o normal.

— O que você quer, Hiei?

— O detetive. Onde está?

— Yusuke?

Hiei não saiu do parapeito. Não era uma visita normal — mas as dele nunca costumavam ser, de qualquer modo. E naquela noite, ele parecia particularmente com pressa. Com uma urgência que Kurama não estava entendendo. Ao mesmo tempo, não era como se estivesse alarmado, com medo por Yusuke ou qualquer coisa do tipo. Era o tipo de pressa impaciente, como se aquela conversa, ainda que breve, estivesse sendo arrastada demais.

— Não sei, deve estar em casa — Kurama respondeu, com cuidado, diante da expressão pesada e silenciosa do companheiro — Por quê?

Então sentiu um pico de energia vindo de Hiei. Seus alarmes internos acenderam na mesma hora. Kurama levantou.

— O que quer com ele a essa hora?— ele perguntou, começando a achar que tinha algo de errado, algo de muito errado com Hiei.

A resposta veio com um olhar tão afiado que beirava a intimidação.

— Não se preocupe. É na humana que estou interessado.

O corpo inteiro de Kurama travou. Ele deu um passo para trás, inconsciente. Hiei desapareceu no instante seguinte, deixando em Kurama uma sensação gelada que se espalhou até as pontas dos seus dedos.

Então as palavras ditas por ele ecoaram na sua mente. Humana.

Não precisou mais do que dois segundos para entender a quem ele se referia. Um pânico tomou conta, quebrando a paralisia e fazendo Kurama correr até a janela. Não viu mais nada. Hiei sumiu tão repentinamente quanto surgira.

Kurama saiu de casa às pressas. Na cabeça, apenas a expectativa que seu pressentimento estivesse equivocado.

(…)

— Hiei, o que você fez? — Kurama perguntou, olhando em choque para a cena à sua frente.

O demônio de fogo meramente inclinou o rosto na direção da pergunta. Havia um brilho diferente em seus olhos vermelhos.

Kurama tinha conseguido sentir a energia particularmente maligna do amigo e viera correndo pelas ruas o mais rápido que pôde, seguindo seu rastro a passos largos. Mas chegara tarde demais.

E Hiei agora sorria, de um jeito diabólico, enquanto puxava a espada das costas de Keiko. O corpo caiu sem vida no pavimento, a katana pingando de vermelho sob a luz artificial de um poste de rua.

— Diga ao detetive que mandei lembranças — ele falou, antes de sumir como um borrão.

Kurama precisou resistir à vontade de ir atrás dele, ainda que com esforço. Suas mãos estavam fechadas, firmes, os dedos apertados. Sentia-se tão agitado quanto confuso. Por que Hiei teria feito isso? Por que atacar Keiko?

Mas o ataque não era a Keiko, era? Ela tinha sido a vítima, mas estava claro que o alvo era outro, que era Yusuke quem Hiei estava tentando atingir. A pergunta, no entanto, continuava a mesma. O horror que Kurama sentia, também.

Ele então correu até Keiko, agachando ao lado do corpo. Os olhos ainda estavam abertos, petrificados pelo susto e pelo terror que devem ter consumido a garota nos segundos antes do golpe. Kurama os fechou. Ninguém precisava vê-la assim.

Procurou pelo pulso, em vão. Sabia que ela estava morta. Então a pegou no colo, sem saber o que fazer. Só sabia que não podia deixá-la ali.

Mas o pior não seria lidar com o corpo de Keiko. O pior seria lidar com Yusuke.

(…)

A casa inteira estava escura, exceto pela única luz no abajur da sala. No sofá, o corpo de Keiko embalado em um lençol. Na poltrona, Kurama. A tensão crescia em seu peito a cada tique do relógio, e ele agarrava os braços do assento como se quisesse enterrar seus dedos no estofado.

Havia revivido a cena inúmeras vezes. Os olhos frios de Hiei, o sorriso maligno. Custava a acreditar em seus próprios olhos, aceitar que Hiei teria voltado a ser o youkai cruel e assassino de antes.

Voltado?

Quando ele tinha deixado de ser?

O pensamento quase o sufocou. Não, Hiei tinha mudado. Ainda era distante, ainda tinha sua arrogância, a empáfia de sempre. Mas não faria aquilo. Já não tinha mais o mesmo desprezo pela vida humana, como antigamente. E jamais mataria a sangue frio, e sem motivos, alguém que qualquer um deles considerasse importante.

A menos que…

Então se lembrou da visita em seu quarto. Do jeito de falar, do youki pungente. Só havia uma explicação. E Kurama se agarrou a ela como alguém a deriva se agarra em um colete salva-vidas.

Mas de repente Yusuke chegou quebrando o silêncio. O toque na campainha era insistente, tão angustiado quanto ele. Quando Kurama abriu a porta, ele não entrou; ele invadiu a sala dos Minamino como um furacão.

Felizmente a mãe de Kurama estaria fora durante toda a semana, visitando parentes do interior. A ligação para Yusuke tinha sido breve, apenas a informação necessária: que ele precisava ir até lá, que era referente a Keiko, que eles precisavam conversar. Qualquer outro detalhe, ele preferia contar pessoalmente.

— Cadê ela? — Yusuke perguntou quando Kurama tentou cumprimentá-lo — Cadê a Keiko?

— Eu… sinto muito — a voz de Kurama saiu engasgada.

Mas Yusuke não estava ouvindo. Ele já tinha visto o volume em formato de corpo no sofá, já tinha visto a mancha vermelha no lençol. Arrancou a coberta de uma só vez. Mesmo à meia-luz, Kurama viu o rosto do amigo empalidecer.

O lençol caiu das mãos de Yusuke, o olhar vidrado como se fosse ele mesmo quem tivesse morrido. Caiu de joelhos, gritou o nome da namorada, agarrou o corpo sem vida. Kurama apenas assistiu, sem coragem de interromper ou proferir mais nenhuma palavra. Apenas deu o espaço necessário, as mãos firmes fechando-se em punhos ao reviver a cena tão fresca na memória. Ele já tinha presenciado Yusuke em vários estados mentais diferentes, mas nada o preparou para ver a dor do amigo daquele jeito. A maneira como chorava, como gritava de desespero, era algo que Kurama não ia esquecer jamais.

— O que aconteceu? Quem fez isso? — Yusuke se levantou, os olhos inchados e vermelhos, a boca repuxada por uma raiva insana.

— Eu não sei como explicar…

— Como assim, Kurama? — ele gritou — Quem fez isso com ela?

A garganta de Kurama se fechou. Como explicar o que tinha visto? Como dizer que tinha sido Hiei, quando em seu íntimo, sabia não ter sido ele o responsável — mesmo tendo visto com seus próprios olhos?

E, principalmente, como conseguir contar isso para alguém que não estava na menor condição de pensar com clareza?

— Alguém se passando por Hiei — ele respondeu. Tinha sido a melhor coisa que lhe ocorrera naquele momento.

— O quê?!

A voz de Yusuke reverberou. Incrédula e furiosa na mesma medida.

— Eu sei como isso soa-

— Hiei fez isso? — Yusuke o interrompeu, praticamente cuspindo as palavras. Ergueu o punho fechado na direção de Kurama, os olhos um torvelinho de emoções — Hiei matou a Keiko?

— É o que estou tentando dizer! Não acho que foi ele. Eu conheço Hiei. Ou ao menos…

"Ou ao menos acho que conheço," foi o que Kurama pensou mas não conseguiu expressar. Todas as características físicas eram idênticas, mas havia algo de diferente naquela pessoa que estivera em seu quarto. Algo no jeito de falar, algo até mesmo na maneira como sua energia se comportava. Era Hiei, mas ao mesmo tempo… não era. Não podia ser.

— É por isso que está tentando proteger ele? — Yusuke perguntou, direcionando toda sua raiva a Kurama. Como se ele tivesse sido um cúmplice. Como se merecesse pagar também. Havia uma escuridão em seus olhos agora, de um jeito que Kurama nunca havia visto antes.

— Eu não estou protegendo ninguém — respondeu, em um tom mais grave do que defensivo — E quero tanto quanto você achar quem fez isso com a Keiko. Mas não foi Hiei.

Yusuke socou a primeira parede que encontrou, soltando um urro provavelmente por não saber mais o que dizer. Ou porque o sofrimento que sentia era grande demais para ficar contido dentro dele.

Do lado de fora, nenhum dos dois notou que um par de olhos vermelhos assistia a cena.

(…)

— Quem diabos você pensa que é? — Hiei perguntou, mirando a figura misteriosa à sua frente.

Não tinha sido difícil achar o sujeito depois de acompanhar escondido o desenrolar na casa de Kurama. A energia dele era assustadoramente parecida com a sua, ao mesmo tempo em que era diferente. Não mais forte nem mais fraca, apenas mais… acre.

O youkai riu com a pergunta. Saiu das sombras. Hiei estreitou os olhos com a semelhança.

— Que decepção — o youkai falou. Era uma réplica de Hiei em praticamente tudo, incluindo o Jagan na testa — Não sabia que eu podia ser tão medíocre.

Hiei desembainhou a katana lentamente.

— Você é bem impertinente pra uma cópia tão imperfeita — disse.

A sósia não pareceu se intimidar. Sustentou um sorriso sarcástico e odioso sem sair do lugar, sem sacar a espada, sem nem estremecer — como se estivesse diante de algo inofensivo demais para merecer sua atenção.

— É sempre um aborrecimento ter que matar uma versão minha — ele falou — Mas de todas as linhas do tempo que visitei, essa talvez seja a mais repugnante. Amizade com humanos, sério? Como você pode chegar tão baixo?

Hiei apertou os dentes, deixando-os à mostra. Segurou ainda mais firme o cabo da espada, seu corpo inteiro tensionado, a impaciência tomando conta. Estava claro que qualquer tipo de conversa era perda de tempo, então saltou na direção do demônio, se forçando a ser mais rápido do que achou que precisava — e, ainda assim, sua duplicata desviou sem demonstrar uma fagulha de dificuldade, a lâmina apenas cortando o ar.

Antes que pudesse se preparar para um novo ataque, sentiu o frio do metal inimigo em seu pescoço. A espada parou ao encostar na pele. Uma katana, tão afiada quanto a sua. Os olhos se encontraram.

— O que você quer? — Hiei perguntou, sentindo a mandíbula travar.

— Punir o detetive de Koenma — ele respondeu, mantendo o sorriso maquiavélico — Quero que ele pague.

— E por isso atacou uma humana em vez de enfrentá-lo? Patético.

Hiei ergueu a espada, fazendo as lâminas colidirem, o metal raspando ruidosamente. Conseguiu se afastar, jogando o próprio peso do adversário contra ele.

— Acha que não o matei em outras linhas temporais? Mas não é o suficiente, não pagam pelos anos de prisão que amarguei no Reikai por causa dele. Morte é muito simples. Eu quero que ele sofra.

— Yusuke não tem nada a ver com as suas falhas — Hiei falou, se preparando para um novo ataque — Se apodreceu na cadeia, a culpa é só sua. Matar humanos que não podem se defender te faz sentir mais poderoso?

Os dois Hiei se encararam, poses quase idênticas. Ambos sabendo que só havia espaço para um deles ali, ambos dispostos a encerrar aquilo com sangue.

Mas a cada golpe que um dava, o outro evadia perfeitamente. As katanas dançavam no ar em sincronia. Era como se conhecessem os movimentos um do outro, como se soubessem seus trejeitos e suas manias.

— Como chegou até aqui? — Hiei perguntou, arfando entre um ataque e outro. O maldito era tão rápido quando ele.

— O que isso importa? Vai ser o próximo a morrer antes que eu acabe com os outros também.

Hiei tomou distância, tentando pensar rápido. Podia usar as Chamas Negras. Invocar o Dragão. Não gostava de fazer aquilo ali, no Ningenkai, mas estava ficando sem opções.

Porém, a ideia encontrou resistência: se o outro pensava como ele, atacava como ele, também poderia lançar mão do mesmo artifício, como ele. E Hiei não gostava daquilo.

Não teve muito tempo, de qualquer modo. Sua cópia já estava no ar novamente, as espadas colidindo em alta velocidade, a precisão dos dois se equiparando. Uma sucessão de golpes se seguiu, rápidos demais para até os olhos mais treinados acompanharem.

Porém, se conheciam todas as cartas na manga um do outro, conheciam também seus pontos fracos.

E então, enfim uma das lâminas se quebrou. A katana caiu no chão, inutilizável.

Hiei sorriu com a oportunidade.

(…)

Kurama e Yusuke cortaram a cidade esbaforidos, seguindo sem rumo até sentirem a trilha que procuravam. Rastreavam Hiei com pressa e angústia, Yusuke movido por uma fúria que nunca havia sentido antes. Havia desistido de discutir com Kurama. O objetivo agora era um só: localizar o assassino de Keiko. E acertar as contas com ele.

Encontraram Hiei ferido, múltiplos cortes na roupa preta, a katana com ranhuras como se tivesse enfrentado uma lâmina tão resistente quanto a dela. E, no chão, um pedaço quebrado de espada, já sem o brilho típico do metal.

Atrás dele, um rasgo em pleno ar, como se o tecido da realidade estivesse aberto, mostrando um fundo negro e distorcido.

Os dois pararam de correr. O corte temporal no espaço se fechava lentamente, Hiei ainda apoiado na espada para se manter de pé.

O primeiro impulso de Yusuke foi se projetar até ele, punho armado em um soco, sua energia brilhando volátil.

— Yusuke, espere! — Kurama pediu, se colocando na frente, a tensão ainda o corroendo.

— Sai da minha frente, Kurama!

Ele engoliu em seco, sabendo muito bem que Yusuke talvez não fosse se conter. Mas não saiu do lugar, apenas se virou de lado.

— O que aconteceu, Hiei? — Kurama perguntou, a urgência na voz.

— Aquele imbecil não vai mais atrapalhar — Hiei respondeu, a voz pingando de desprezo, ao recolocar a espada na bainha.

— Hiei, é você? — Yusuke perguntou, o fitando com rancor e incerteza.

— Quem mais?

Havia uma certa frieza, um certo desdém em como falara aquilo — o que, Kurama sabia, era absolutamente normal.

— Quem matou a Keiko, Hiei? — Yusuke insistiu, em um tom que não escondia a raiva latente que ainda estava lá.

— Achei que Kurama já tivesse te atualizado.

— Ele disse que foi alguém se passando por você.

— Então já tem sua resposta.

E Hiei começou a ir embora. Foi na direção deles, passou pelos dois, que continuavam parados, olhando para onde o corte temporal estivera. Agora, não havia mais nada ali. Quem quer que tenha sido, já tinha voltado de onde viera.

O que, Kurama sabia, talvez não aplacasse o que Yusuke estava sentindo. E quando olhou para o amigo, viu a mesma ira ainda estampada no rosto, a mesma dor. Ele encarava o espaço vazio, e Kurama começou a temer que ele fizesse uma besteira.

Mas de repente algo estalou na sua cabeça. Se virou para trás. Hiei se afastava lentamente.

— Hiei — ele chamou.

O youkai de fogo parou.

— O que quis dizer com "atrapalhar"?

O rosto de Hiei se virou de lado, apenas uma silhueta parcial nas sombras criadas pelas luzes dos postes. Um sorriso se desenhou em sua boca, diabólico como o que Kurama tinha visto mais cedo.

E a aura de Hiei o atingiu, a mesma capa de malícia de antes.

— Sinto muito, Kurama, estou um pouco com pressa. Tenho mais um humano pra visitar. Kuwabara, não é?

O olho brilhou de um jeito diferente. Hiei subiu até o alto de uma árvore e, como um jato, sumiu na escuridão.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!