Os cabelos longos de Ludwig esvoaçavam atrás do futuro duque, acompanhando seus passos como uma sombra silenciosa. Ninguém poderia dizer observando de fora, mas os criados daquela casa haviam se habituado aos menores trejeitos do seu jovem mestre e, portanto, sabiam que aquela caminhada rápida e determinada pelos amplos corredores da mansão dos Liechtenstein só podia indicar uma coisa: Ludwig estava irritado.

A irritação do estudante se explicava pela ausência de Orpherus no seu quarto; não só o loiro havia sumido do seu leito como ninguém na casa havia visto o outro nobre. Fechando os dois punhos e tentando não arquitetar um castigo violento e memorável para quem quer que tivesse deixado o célebre hóspede escapar da segurança do seu confinamento, o futuro duque caminhava com desenvoltura pelos corredores do segundo andar da casa, parando na frente de uma das janelas que davam direto para os fundos do grande terreno, enfeitado com jardins grandiosos, bancos confortáveis para leituras e descansos ao sol e um gazebo decorado com bom gosto pela sua mãe.

Ali, entre duas fileiras de arbustos de belas rosas, Ludwig avistou o seu hóspede caminhando devagar, seu cabelo dourado parecendo brilhar ainda mais sob a luminosidade da manhã. Voltando a andar depressa pelos corredores, o futuro duque chegou ao jardim exterior em questão de minutos, parando poucos passos atrás da figura do outro estudante.

— Orpherus.

A voz calma e baixa do mais alto dos dois jovens foi suficiente para que olhos azuis se arregalassem, fazendo os donos destes girar o corpo para encontrar seu interlocutor. Vestido em uma longa camisa branca que estava desabotoada em cima e com calças e um par de botas pretas do seu anfitrião, Orpherus logo controlou sua expressão de surpresa com um sorriso:

— Bom dia, Lui.

— O quê você está fazendo aqui, Orpherus? — a desaprovação e a reprimenda eram claras no tom de voz do outro candidato ao Strahl, seus braços cruzados friamente na frente do seu corpo elegantemente coberto com uma camisa roxo escura e um colete preto de veludo, além de calças da mesma cor — Achei que tinha deixado bem claro a importância de descanso absoluto para a sua recuperação completa.

— As suas recomendações foram de fato nesse sentido. — o outro assentiu, usando o braço esquerdo para apoiar o outro como se aquele fosse uma tipóia. Um pequeno espasmo de dor cruzou o rosto do estudante loiro, mas ele logo se dissipou.

— Então você está deliberadamente dizendo que é incapaz de seguir uma ordem incontroversa? — o outro estudante replicou com uma voz quase ácida, desdobrando os braços para usar uma das mãos para tirar algumas mechas do seu longo cabelo roxo que insistiam em cobrir seu rosto, impulsionadas pela leve brisa da manhã.

— Não. Eu apenas desobedeci a uma recomendação. Eu não... Agüentava ficar mais naquele quarto. Não que eu não aprecie o seu esforço e o de todos da sua casa para que eu me recupere, mas eu precisava levantar e espairecer. Respirar ar puro. Madeleine disse que uma pequena caminhada nos jardins seria benéfica para o meu restabelecimento e me trouxe até aqui.

Linhas de preocupação quase imperceptíveis de preocupação no rosto de Ludwig desapareceram depois da menção ao nome da criada; com décadas de serviço para os Liechtenstein e experiência com o cuidado de todo o tipo de ferimento e doença que havia acometido os habitantes da mansão, Madeleine tinha autoridade suficiente para aplacar parcialmente a fúria silenciosa do anfitrião.

— Por que não me acompanha, Lui? Você certamente conhece melhor o jardim que eu e pode me mostrar as plantas mais bonitas. — o jovem loiro sugeriu, abrindo um sorriso sincero; ele parecia ter captado a mudança de humor no seu colega.

-...Talvez acompanhá-lo diariamente seja a solução para que você não cometa outras imprudências, Orpherus. — apesar da voz controlada e calma, Orpherus conseguiu vislumbrar um pequeno sorriso e o modo como o olhar do outro estudante havia se aquecido; ele havia sido aparentemente perdoado pela sua escapulida da cama.

— É a tática que eu sempre utilizei com Eduard. — o mais baixo dos dois respondeu, ainda sorrindo enquanto esperava Ludwig se juntar ao seu lado, ambos iniciando uma caminhada lenta quando estavam ombro a ombro.

— E funcionou?

— Não da forma como eu esperava. Acabei entrando em mais encrencas e problemas com ele e por ele do que outra coisa. — o modo como Orpherus confessou a sua experiência na infância fez Ludwig sacudir a cabeça, seu cabelo acompanhando o movimento com suavidade e graça.

— Você é impulsivo demais, Orpherus. Eduard pode facilmente sugá-lo para as maluquices que ele sempre parece ter em mente.

— Você tem uma opinião muito baixa de Ed, Lui. — o outro replicou com uma pontada de ressentimento, erguendo o rosto para fitar a face quase sempre séria do seu anfitrião — Você precisa aprender a aceitar comportamentos e virtudes diferentes.

— Não se trata de aceitar ou não a personalidade de Eduard; ele tem seus valores e eu os reconheço, mas isso não me deixa cego aos seus inúmeros defeitos... Entre eles a sua falta de cuidado e prudência. Vocês dois não costumam pensar antes de agir.

— Às vezes não há tempo para pensar, Lui. — o jovem de olhos azuis respondeu com uma voz baixa e pensativa, seu semblante parecendo perdido; o futuro duque notou o modo como as flores que estavam presas nos arbustos ao seu lado haviam perdido o encanto e o fascínio de minutos antes para o seu hóspede.

— Então você não está pensando rápido o bastante, Orphe. — o futuro duque de Liechtenstein respondeu com um meio sorriso, atraindo a atenção do seu colega e apontando em seguida para uma estrutura de madeira alta e toda furada regularmente por losangos: era a divisa de uma das pontas do jardim para as quadras esportivas construídas no terreno da casa principal do ducado, totalmente coberta pelos mais variados tipos de folhagem e flores.

— Rosas silvestres... — o estudante loiro murmurou com fascínio, aproximando-se da cerca-viva e examinando com grande interesse uma rosa vistosa que parecia ser a mistura de rosas brancas com vermelhas, apresentando uma tonalidade diferente das outras — Todas elas possuem cores diferentes?

Foi somente quando Orpherus virou a cabeça na direção de Ludwig que ele percebeu que o outro jovem tinha entre seus dedos nus uma rosa alaranjada, tingida de branco em alguns locais. O mais alto dos dois concordou em silêncio com a cabeça, soltando com delicadeza a flor para então erguer o braço e indicar uma rosa amarela e outra lilás para o seu hóspede.

— São frutos de experimentos conduzidos nas estufas. Algumas delas são presente de Camus, na verdade; outras fui eu mesmo que criei.

— Você? — o tom de descrença de Orpherus era tão óbvio que arrancou uma pequena risada do outro candidato ao Strahl, que logo se controlou e manteve apenas um sorriso que evidenciava uma leve superioridade no seu rosto aristocrático. O aluno loiro ainda tinha seus lindos olhos azuis mais arregalados do que de costume, surpreso com a informação.

— Você me condena por enxergar as pessoas sem profundidade e faz o mesmo comigo? Você vai perder credibilidade se continuar a não seguir seus próprios conselhos, Orpherus. — a réplica parecia uma crítica, mas o outro estudante conhecia Ludwig suficientemente bem para saber que aquilo era uma resposta bem-humorada.

— Você não parece o tipo de pessoa que faria experimentos com flores no seu tempo livre, Lui.

— As aparências podem enganar, Orpherus. E você se espantaria em saber com que freqüência esse ditado se torna verdadeiro. — o anfitrião respondeu, sua voz e rosto assumindo uma expressão séria por alguns segundos, como se ele pensasse em algo muito distante das flores naquele momento. Tão rápido como chegou, porém, a mudança no semblante de Ludwig se foi — O quê mais lhe parece que eu não sou capaz de fazer?

A pergunta fez o outro candidato ao Strahl acirrar os olhos na direção do outro aluno; era uma típica pergunta de um Liechtenstein, cheia de potencial para deixar Orpherus fazer o papel de bobo ao final. O estudante de olhos azuis cruzou os braços e continuou a encarar o outro jovem, não percebendo que o movimento há pouco executado não havia lhe causado nem o mais leve desconforto ou dor.

Ludwig, porém, notou aquele detalhe com grande satisfação interna.

— Hmmm. Vejamos... — o hóspede nobre ponderou em voz alta, olhando o jardim à sua volta e as quadras, observando a mansão novamente e por fim deixando seus olhos azuis descansarem sobre a figura imponente e elegante do seu anfitrião — Acho que você não sabe jogar pólo. Ou cozinhar doces... Acho que você também não sabe como entrar em pânico ou consolar uma garota em prantos.

A expressão que misturava diversão com descrença no rosto de Ludwig foi suficiente para causar uma crise de risos no outro aluno, que não se conteve e gargalhou com vontade em voz alta, apoiando-se eventualmente na cerca-viva para recuperar seu fôlego e controlar o riso quando notou que seu tórax reclamava um pouco do esforço continuado.

— Três pontos em quatro. Não foi tão mal assim, Orpherus.

— Três? — o outro repetiu, finalmente se colocando em uma posição ereta e encarando seu colega com um olhar desconfiado — Impossível.

— Espere até provar meu apfelstrudel. — o futuro duque replicou com um sorriso estranhamente largo para as suas demonstrações de humor sempre tão comedidas, retirando um relógio dourado do bolso esquerdo do seu colete e conferindo a hora — O almoço deve estar para ser servido e com certeza Madeleine virá atrás de você. Vamos voltar.

— Muito bem. — o outro concedeu graciosamente, colocando-se ao lado de Ludwig que já havia iniciado seu retorno à mansão com passos lentos — Acho que esse passeio já foi o suficiente por hoje.

Virando o rosto para encarar o seu colega, Ludwig foi obrigado a notar que, de fato, um pouco de cor parecia ter voltado ao rosto de Orpherus, bem como uma boa quantidade do brilho do seu olhar cativante. O ânimo do seu jovem hóspede também parecia ter melhorado e muito, talvez em virtude da sua própria condição física, que restringia seus movimentos cada vez menos.

Uma parte da mente do futuro duque notou, com espanto, que aquele parecia ter sido também o primeiro dia em que o sol tinha voltado a brilhar mais forte depois dos dias majoritariamente nublados em função das incertezas quanto à saúde de Orpherus.

O riso alegre e contagiante de sua mãe chegou aos ouvidos de Ludwig, que ergueu a cabeça para encontrá-la no outro extremo da sala, sentada confortavelmente em um dos sofás juntamente com Orpherus. Aquela havia sido a primeira noite em que o estudante loiro havia se julgado suficientemente forte para se reunir à mesa dos Liechtenstein para uma refeição, tendo obtido a aprovação de Madeleine para o ato.

Uma nova onda de risadas ecoou novamente na ampla sala de estar e o futuro duque parou de acompanhar seu livro, prestando atenção somente aos outros dois que pareciam se divertir; Orpherus contava à duquesa algumas das histórias da sua juventude, provavelmente as peripécias dele com Eduard, o que certamente causavam as risadas alegres que a todo momento podiam ser ouvidas.

— Ele parece bem, Ludwig.

— Ah, definitivamente. — o candidato ao Strahl concordou com a cabeça, observando seu pai tomar uma das cadeiras próximas para si — Amanhã escreverei uma carta a Naoji com todas as instruções para o dia da visita de Sua Majestade, mas sem dar muitos detalhes. Eu tenho certeza de que conseguiremos contra-atacar nossos inimigos com eficiência.

— É bom que isso aconteça. Não teremos duas chances para pegá-los abertamente e na frente do rei. — o duque acrescentou, reclinando-se confortavelmente na sua cadeira e cruzando as mãos sobre a altura do seu abdômen — São suas as roupas?

O olhar do estudante de cabelos longos se desviou então para Orpherus, que usava uma camisa social cor de chumbo e um terno preto simples, este sim parecendo ligeiramente maior do que o necessário. Ludwig assentiu com a cabeça, ajeitando-se novamente na sua poltrona.

— Sim. Não houve tempo para ajustes, mas apesar disso algumas das minhas roupas parecem servi-lo razoavelmente bem. Só é estranho ver Orpherus nessas cores.

Antes que o duque pudesse comentar aquela observação, a mãe de Ludwig chamou-o animadamente da sua posição, convocando o filho para junto dela e do seu convidado. Orpherus havia virado na direção do colega também, fazendo gestos mais comedidos e sorrindo abertamente para seu anfitrião.

— Venha, Lui! A duquesa está prestes a me suprir com mais informações embaraçosas para futuros debates... Acho que você deveria impedi-la.

— Dar uma chance dessas a um oponente seu é praticamente uma falha de caráter, Orpherus. Você é de fato muito complacente. — o estudante moreno replicou com um meio-sorriso, se levantando de onde estava e tomando uma cadeira perto de sua mãe, seu livro esquecido sobre uma mesinha de canto.

Da posição onde estava, o atual duque deixou um sorriso orgulhoso cruzar as suas feições; fazia muito tempo desde a última vez em que sua esposa havia se divertido tanto durante um jantar... Bem como seu filho.

Continua...