Dias são galgazes (e seu número não é o da sorte)
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
"E se eu pudesse lhe dizer, Axel, que eu poderia te permitir ter aqueles dois exatamente onde eles estão...? Mas para que isso ocorra, terá que me entregar o garoto para que me sirva como é destinado a fazer."
Xenmas havia lhe proposto, com aquele tom confiável, de que não haveria volta de palavras, para que fizesse uma escolha que não lhe competia fazer. Apenas os olhos de Axel delatavam a surpresa, a aflição e temor que sentia, assim como seu corpo tenso, mas apenas olhos bem observadores notariam esse último. E isso era algo que Xenmas tinha mais do que o normal.
O líder da organização não temia, a mente nublada do rapaz o guiaria justamente aonde o tinha mais vulnerável. Por ser um bom amigo, não esperaria que Axel abandonasse Roxas em um momento tão importante de sua existência. Por ser um bom amigo, Xenmas sabia que o outro trairia esse mesmo amigo se fosse preciso.
E se seria mesmo?
Não importava.
O que de fato traria alguma gratificação para todos seria deixá-los um ao lado do outro, em uma amizade que se estenderia por mais dias, não era mesmo?
Não. Isso apenas beneficiava Axel, que tinha se deixado ganhar pela sua própria fraqueza, um desejo egoísta. Não acreditava no que tinha se deixado fazer. Queria que fosse verdade que ele tinha sido manipulado pelo seu chefe. Mas Xenmas não trabalhava com algo que não existia concretamente de alguma forma no coração de outro.
Ele queria mesmo que aqueles dias durassem, por mais, mais tempo.
Mas era um preço muito alto (ele detestaria ter de pagar).
(Mas já estava feito. Não havia volta.)
Dias obscuros, magros, apenas aguardavam.
Xion estava lá, Roxas também, mas tinha perdido os dois da mesma forma, como temia, só que para algo muito pior que imaginou de início.
Os olhos dourados lhe observavam e lhe responderam tudo.
Caído, caído em dias obscuros, ele não teria imaginado seu destino, mas estava preso, por mãos que deveriam tê-lo deixado ir.
Não sentia nada. Parecia que tinha retornado ao primeiro dia de sua existência. Mas uma diferença importante poderia ser notada, mesmo para Roxas naquela situação particular: parecia que algo estava querendo atravessar o seu crânio. Era de uma força violenta, invasiva, tinha a impressão de que fosse uma voz, mas não compreendia sobre o que tentava lhe falar tanto.
Sendo boa ou não, não chegava a dominá-lo — ainda. Percebia algo que como uma barreira, algo dentro dele parecia achar vital que se mantivesse longe daquilo — o céu o mantinha aquecido em um quase eterno brilho azul. Essas forças brigavam, e se sentia estranho, um mal-estar geral que não conseguia expressar no rosto ou articular na boca.
Xion estava impassível. Axel não fazia sentido. E ele compreendia que seus dias terminavam pouco a pouco, fosse o que fosse o que aquelas forças dentro dele buscavam.
Quando soltou com calma o pescoço de sua amiga, depois ter certeza de que toda a vida saía dos pulmões daquela pessoa — que ele um dia considerou tanto —, Roxas enfim pôde sentir algo. E ele sorriu chorando, sem lembrar nem mesmo o próprio nome ou o dela.
Pelo menos ele ainda salvaria alguém naquela bagunça. (Via aquele brilho azul tentar alcançá-lo com um medo sólido, mas por qual motivo? Se logo, logo voltaria a ter a existência que lhe era de direito?)
Nunca a visão de um pôr do sol lhe tinha parecido tão vazia, nem em seus primeiros dias, tão distantes. Era porque nunca tinha percebido claramente a sua inutilidade tão reinante quanto a sua beleza.
(Ainda assim era tão caloroso, como se tivesse sido criado justamente para acolhê-lo em seu desaparecimento)
Alguém se lembraria?
O rosto daquele rapaz, de cabelos vermelhos como o poente, lhe dizia que provavelmente sim.
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