Dias melhores virão
1 Dias melhores virão — capítulo único
Alguns punhados de cabelos cor de ferrugem caiam pelo chão do salão, aquela seria sua última cliente do dia e pelos vidros da janela ele podia ver que a tonalidade do céu ganhava uma tonalidade cor de rosa, deixando tudo lá fora parecer ser parte de um grande algodão doce. Hoje a maior parte dos horários fora cumprida por ele mas nada que o fizesse reclamar, aquilo era o mínimo que podia fazer por sua mãe que teve um dia cheio reencontrando uma velha amiga. Ela sempre sorria ao vê-lo fazendo diversos tipos de cortes e padrões, no começo ele preferia ficar só a cargo da gerência mas com o tempo e muito treino, ele acabara cedendo a estética dos cortes de cabelo.
Caso o perguntassem onde ele se imaginaria quando mais velho, ele teria certeza de que o velho salão não seria uma das opções, se é que ele tivesse alguma em mente.
Enquanto observava o sorriso no rosto da garota ao ver seu trabalho ele se pegou pensando se ela demoraria muito a chegar, Shouko dissera que passaria o final de semana na cidade e ele queria poder aproveitar a presença dela ao máximo, faziam-se meses que eles não se viam pessoalmente, conversando por mensagens de celular e o máximo de informação que ele conseguia era o que ela se dispunha a contar, exceto quando a irmã mais nova dela intervinha e contava o que não havia sido dito.
E mesmo distantes, era uma boa relação aquela que eles mantinham e no fundo ele se sentia bem por isso, bem por saber que Shouko também mantivera suas amizades do fundamental e que ao menos no agora, ela se sentia bem consigo mesma o que era quase um alívio, para dizer a verdade.
Quando a última cliente se despedira, depois de agradecer pelo corte e pagar pelo serviço, Shouya começou a se preparar para fechar o salão. Punhados de cabelo eram reunidos em uma pilha ao canto para depois serem colocadas em uma sacola de plástico preta, as cadeiras e lavatórios eram devidamente limpos assim como os produtos para cabelo e tesouras eram devidamente organizados, somente depois dessas tarefas feitas era que ele colocava as mãos no caixa mas naquele fim de tarde sua rotina fora subitamente interrompida.
— Yuzu está aqui para ir com você até a estação, Shouko está para chegar. — fora o que sua mãe lhe dissera ao começo da escada que dava para o andar de cima.
— Mas eu nem terminei de varrer.
Ela apenas cruzou os braços e negou com a cabeça, os fios loiros indo de um lado a outro.
— Nada disso, eu já fico feliz o suficiente por estar você me ajudando Shouya! Considere isso como uma folga, aproveite o tempo que vai ter com a Shouko e deixe que eu cuide do resto, tudo bem?
Sua mãe tinha um jeito com as palavras que ele falhava em reproduzir e que em momentos como esse viriam bem a calhar, então ele apenas concordara, deixando o cabo da vassoura nas mãos dela e depois tirando o avental, o colocando sobre uma das cadeiras.
Yuzu acenava do lado de fora das portas de vidro.
Shouko viria no penúltimo trem e ele acabaria se atrasando naquele dia, logo os dois acabaram por se sentar em um dos bancos esperando por sua chegada.
O tempo estava brando e incrivelmente confortável para qualquer peça do guarda-roupas ser usada, assim como a Nishimiya mais nova passara a adotar o uso de saias longas que pareciam arrematar o conjunto que se dera graças ao seu novo corte de cabelo, nem curto nem longo, uma medida no meio termo que a mãe de Shouya encontrara quando ela chegara as portas do salão pedindo por qualquer coisa que não fosse ela completamente careca — uma piada, claro — Yuzu não conseguia perder seu senso de humor em momento algum.
— Shouko tem estado bem esses dias, disse que os clientes tem gostado mais dela...
— Isso é bom.
— É, eu gostava de ter ela por perto, ficar só eu e minha mãe em casa tem sido algo estranho.
— Por isso você prefere ficar na minha?
A garota fez pequenas armas com seus dedos, apontando diretamente para ele dizendo "pew, pew".
— Exatamente Ishida.
— Você não pode fugir por muito tempo Yuzu.
— Ah, mas eu prefiro por hora, ao menos eu não larguei os estudos.
Fugir nunca era uma boa solução, os vagões passavam rapidamente pelos olhos de Shouya mas suas últimas palavras ditas eram só mais um conselho para que a garota evitasse que algo ruim lhe acontecesse no futuro.
Somente quando ele deixara de fugir que a beleza realmente viera a seus olhos, pois limitá-los ao que estava abaixo só o fazia enxergar aquilo que estava no chão no início, assim como no fim de sua vida. Ele poderia ver o verde dos campos e as cores vibrantes das carpas mas também via apenas o fim das flores de cerejeira, apenas uma parte do processo. Somente quando ele verdadeiramente olhara para cima é que via a obra completa, em seu eterno ciclo de mudança.
E ele não queria que Yuzu se fadasse a mesma sina por mais que soubesse, no fundo, que ela era esperta demais para isso.
— O que você vai fazer quando a Shouko chegar?
— Alimentar as carpas?
— Não, Ishida! Você não planejou nada?
— Não?
— Sério mesmo?
Ele se limitou a balançar a cabeça para cima e para baixo.
— Achei que você fosse levá-la para um encontro ou coisa do tipo.
— Bom, eu não vou fazer isso agora, o dia já 'tá acabando, talvez amanhã. Por hora eu só pensei em levar vocês para tomar sorvete, o que acha?
Yuzu tinha uma das mãos embaixo do queixo, o analisando criticamente.
Ela preferia não ser incluída com frequência nas ideias que Ishida tinha mas quem seria ela para negar um sorvete ao lado da irmã?
E também, ela aprendera a gostar da presença dele, de uma maneira esquisita e torta, Ishida era alguém bom de se ter por perto. Sua falta de presença parecia trazê-lo a tona quando se preocupava com os outros mas era completamente esquecida quando ele agia por si mesmo.
— É uma boa ideia. Você também poderia tentar reunir seus amigos do colegial, não?
— Eu tentei, mas os horários não batem, então os que estão por perto vão passar para vê-la.
— Vida adulta.
— Responsabilidades da vida adulta.
Ela fez uma careta e cruzou os braços, amassando ainda mais a camiseta branca de botão que usava.
— É, que saco.
Os minutos pareciam se estender cada vez mais a medida que frases se ligavam a outros pensamentos entre os dois, a medida que o céu mudava de cor e o movimento da estação ganhava vida novamente.
Pessoas iam e vinham quando o penúltimo trem atrasado chegara ao seu destino e o olhar dos dois facilmente encontrara o cabelo cor de rosa de Shouko, que olhava para todos os lados com uma mala vermelha de rodinhas arrastando pelo chão em mãos.
Quando ela finalmente os encontrara um belo sorriso trouxera vida a sua faceta assustada.
E a noite se encerrara com três casquinhas coloridas e uma quarta, pois Shouya não poderia se esquecer tão facilmente de sua sobrinha.
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