Dias de Sol
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu ainda era uma criança quando nos conhecemos. Corria atrás de borboletas e insetos estranhos. O jardim, sempre verde, era como as cobertas da minha cama, de tanto que gostava de ficar ali.
Foi quando completei sete anos. Natsu era um garoto um pouco mais velho do que eu, 13 anos. Ele e seus amigos faziam muito barulho, especialmente quando eu estava entretida com bonecas e panelinhas. A casinha da árvore que ele tinha, e que eu invejava por não ter uma igual, era sempre muito barulhenta, porque servia de esconderijo para suas artimanhas e de seus amigos. Mas não depositava tanto tempo neles.
Certo dia Natsu me notou, e não posso dizer com precisão se nos tornamos amigos. Ele sempre me tratava como uma criança muito mais nova do que eu realmente era. Tomava o máximo de cuidado quando íamos atravessar a rua, entrelaçando sua mão na minha e me dizendo aquele coro de cuidados que se devia ter (olhar para os dois lados, estar sempre com um adulto) como se eu não houvesse decorado aquilo, de tantas foram as vezes em que ele repetia tudo. No entanto, posso dizer: tudo se contradizia! Certa vez me obrigou com ele se aventurar em brinquedo do parque de diversões chamado crazy dance. “Dança maluca?”, pensei graças às aulas de inglês do colégio. As cadeiras ficavam se mexendo em um ritmo frenético como se fossem se chocar umas com as outras. Natsu e eu éramos assim. Parecia que íamos nos chocar, mas isso nunca acontecia. Também não aconteceu com as cadeiras, quando resolvi encarar a aventura. Mas eu fiquei enjoada depois de 3 minutos e vomitei o cachorro quente que havia comido.
Eu havia completado meus nove anos quando Natsu começou a namorar pela primeira vez. A amizade – ou sei lá do que chamar o que existia entre nós – entre eu e Natsu ficou um pouco de lado quando isso aconteceu, mas ele nunca deixou de me tratar como se eu fosse sua irmã menor. Nós brigávamos muito, mas de uma maneira que ele estava sempre me zelando. Implicava com as minhas bonecas, com as minhas pernas magricelas, da cor da minha pele – branca como um papel – e do meu cabelo amarelo ovo. E os meus olhos... ele disse que tinha cor de cocô. E, falando bem a verdade, eu nunca pensei que seus insultos fariam falta. Até que ele completou os 15 anos, como eu disse, e começou a passar mais tempo com Karla.
Só que o namoro com Karla não durou muito tempo. O motivo eu nunca soube muito bem. Só sei que ela ficou um bom tempo indo na casa dele, talvez esperando que ele quisesse conversar a respeito do relacionamento dos dois. Naquela época eu observava tudo pelo buraco que havia na cerca que dividia nossas casas. O mesmo buraco feito por Natsu para conversar comigo, quando estava de castigo e era proibido de sair de casa.
Na verdade – na verdade mesmo –, eu quis consolar Natsu, porque ele andava meio triste aqueles dias. E posso afirmar que sou egoísta, pois fiquei feliz em saber que o motivo não era o término do namoro com a Karla. Só porque eu não gostava dela! Mas a mãe de Natsu sempre foi um doce comigo, sempre gostou muito de mim. E era ela o motivo de tanta tristeza. Algumas semanas depois ela se foi, depois de perder os dois seios. O câncer acabou se espalhando antes disso. Natsu e eu ficamos uns dias sem nos ver, apesar de minha família frequentar muito a casa dele. Eu ficava sentada nos degraus da escada, esperando que ele aparecesse no topo. Podia ser com aquele sorriso de deboche que ele tinha, não tinha problema. Cogitei até mesmo a ideia de procurar a tal de Karla e ver se ela conseguia fazê-lo sorrir. Eu só queria que ele sorrisse mesmo.
O tempo também passou pra mim. Apesar de não voltar a ser a mesma pessoa de antes, Natsu voltou a sorrir. E voltamos a ser ‘amigos’. Houve uma época em que até cheguei a me desapegar das amigas da escola. Quando era convidada a passar a tarde na casa de alguma, sempre acabava dizendo que estava doente, ou que tinha outro compromisso, para ficar com Natsu, fazendo qualquer coisa que fosse. Apesar de estar em idade complicada que era a adolescência, ele sempre conseguia arranjar um tempinho pra mim. Estava mais maduro, nessa época, e implicava muito menos. O cuidado que tinha comigo redobrou, e sua voz engrossou, junto com aqueles pelinhos que ia surgindo pelo seu rosto.
Não foi mais complicado do que quando comecei a perceber que meus seios estavam crescendo e quando tive a minha primeira menstruação. Eu me sentia estranha... não sei... deslocada. Sentia uma espécie de vergonha quando estava com Natsu. Era como se não existisse mais entre nós aquela relação de amigos-inimigos-irmãos. E então aquela ‘distância’ aumentou quando ele completou 18 anos e foi estudar fora de nossa cidade. Com os meus 13 anos, já tinha permissão para ter um celular e estávamos sempre conversando por SMS. Mas com o tempo, a coisa foi ficando desgastada e perdi um pouco o interesse em conversar com Natsu quando conheci Marcus, meu primeiro namorado. Era estranho. Queria compartilhar com ele essa felicidade, e ao mesmo tempo me sentia triste por pensar estar traindo Natsu. Ao menos a confiança que ele depositou em mim quando me fez prometer que iria namorar pela primeira vez quando tivesse 40 anos. Nem meu pai era tão superprotetor.
Hoje, com os meus 20 anos, me sinto triste por ter perdido o contato com o meu amigo de infância. Doía menos porque por um tempo acabei deletando Natsu dos meus pensamentos, da minha vida. Me esqueci completamente sobre quem foi ele e a sua significância na minha infância e começo de pré-adolescência. A culpa não é de toda forma completamente minha. Fomos nós dois que nos distanciamos. E eu nem mesmo sei o motivo. Só que hoje acordei com os pensamentos voltados para ele, porque depois de tantos anos, voltei a sonhar com os nossos dias felizes.
Embora tenha ficado a manhã inteira pensando nisso, não passei muito tempo deitada. Sou professora pela manhã em colégio para crianças pequenas; mais precisamente, o Jardim I.
E Natsu foi por um momento esquecido, quando recebi uma criança muito especial e nova na turma. Se chama Lucca, e é surdo e mudo. Ainda não dominou completamente a língua de sinais e se comunica a maior parte do tempo com desenhos que carrega na mochila de costas. Como é o primeiro dia, é normal que as outras crianças tenham curiosidade e subitamente se afastem dele, mas espero que com o passar do tempo elas se acostumem e façam dele seu amigo.
– Lucy, já posso deixar que os pais entrem? – Pedro veio me perguntar. Ele é o porteiro do colégio e sempre se certifica se as crianças já terminaram as suas tarefas, antes que permita que os pais as busquem.
– Claro. Não esqueça de deixá-los entrar um de cada vez. Eles sempre perguntam como as crianças estão indo e todos ao mesmo tempo me deixam louca.
Depois de uma risada, Pedro assentiu. Ele sabia como era complicado vigiar uma classe de 20 crianças e prestar atenção no que os pais – alguns muito egocêntricos – diziam.
Um a um, os pais foram entrando, e estranhei quando percebi a hora passar e os pais de Lucca não chegarem para buscá-lo. Já havia decidido fechar a classe e esperar por eles no pátio, ou mesmo procurar o contato telefônico na coordenação do colégio. Foi quando ouvi passos afastados e uma respiração entrecortada, nítida de alguém que sabia que estava muito atrasado.
– Sou o pai do Lucca, professora, desculpe o atraso – ele disse.
Quando me virei para conhecê-lo, tive uma surpresa. Os cabelos do pai de Lucca estavam bagunçados e cheiravam a cigarro. A gravata estava torta e havia pingos de suor na testa. Era um homem bonito, jovem, e bastante ocupado, do modo como aparentou.
– Bem... não há problemas. A mãe de Lucca deve estar tão ocupada quanto o senhor.
– A mãe do Lucca não se importa com ele – respondeu rapidamente, com a expressão brevemente magoada, mas rígida e inabalável no instante seguinte. – Vamos, Lucca.
Ao pegar a mão do garotinho de 3 anos, foi logo se dirigindo para o portão que dava espaço para fora do colégio.
– O senhor não vai perguntar como foi o primeiro dia de aula dele? – perguntei antes que fosse embora. Então ele parou. E respondeu, no instante seguinte:
– O meu filho é surdo e mudo e tenho plena consciência de que os próximos dias não serão bons para ele, assim como hoje. Já tivemos experiência com outras escolas. Mas tenho a esperança de que as coisas mudem, afinal, muitas coisas foram ensinadas a você.
– Desculpe? – não entendi o que ele quis dizer com aquilo.
– Eu peguei na sua mão ao atravessar a rua, espero que faça o mesmo com o Lucca, Lucy.
Foi quando Natsu e eu nos reencontramos.
Notas finais
Seria bem legal se vocês me deixassem comentários com opiniões, porque estou bem insegura. Eu devo continuar escrevendo?? Sou péssima nisso?
De toda forma, obrigada por lerem!
Cara, isso dá vergonha! @_@
Beijos
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