Dias de Liberdade
9 Capítulo 8: "Só pra descontrair"
Notas iniciais
“Caramba, isso é outro nível.” Falei enquanto vasculhava a conta de instagramda Milena. A menina realmente mandava muito bem em fotografia. Sabia captar paisagens de um jeito que eu nunca tinha visto antes, pra uma adolescente que levava tudo muito como hobby.
“Tu curtiu?” Ela sorriu, enquanto deslizava os dedos pela tela do iPhone e mostrando os ícones de mais algumas das fotos.
Já era quarta-feira á tarde, duas semanas após a festa que havia dado bem errado. Enquanto aguardava o inicio da eletiva de espanhol, aceitei o convite da Milena para visitar a sala de fotografia. Lá ela ainda guardava alguns exercícios de estilos fotográficos impressos, em formatos diferentes dos postados online. A estrutura do colégio realmente parecia boa para fornecer tal tipo de coisa. Para cada um dos 15 alunos da turma, era oferecido uma mesa individual onde poderiam separar e organizar seus equipamentos. Aproveitei a oportunidade para avaliar as obras expostas também nas outras mesas, enquanto Milena parecia organizar as suas próprias. Sem encontrar nada interessante, não me demorei a sentar em um dos bancos e parecer entediada enquanto olhava pela janela. Ali do primeiro andar, não se conseguia ver nada além das arquibancadas da quadra de futebol, onde algumas pessoas as quais eu não reconheci conversavam. O vibrar do meu celular no bolso me assuntou, enquanto o pegava para checar as mensagens. Lucas perguntava onde eu estava, já que havia chegado ao colégio. Abri o teclado para chamá-lo a sala de fotografia, quando um barulho á porta chamou tanto a minha quando a atenção de Milena. Um garoto moreno e alto entrou, esbanjando um sorriso assim que nos viu. Ele segurava uma câmera profissional na mão. Milena logo o cumprimentou e me apresentou. Se chamava Rodrigo, e pelo jeito eu ainda não tinha o visto por ali. O que eu já tinha visto de cara, porém, era o clima entre os dois. Sei lá, algo simplesmente parecia muito exposto entre eles.
“Então, ahn, Natalia. A gente vai começar uns shoots pelo pátio do colégio agora, tu quer vir com a gente?” O moreno convidou. Gentilmente recusei o convite, com medo de atrapalhar alguma coisa, e informei que estava indo para o hall de entrada procurar o Lucas. Nenhum dos dois pareceu muito incomodado, me dando espaço para sair da sala.
Andei sem pressa pelo corredor, enquanto observava algumas crianças brincando no pátio. Ah, a infância. Um tempo tão sem problemas. Como eu sentia falta.
__//__
“Finalmente! Por onde tu andava, mulher?” Lucas exclamou assim que me viu. Ele tinha uma expressão divertida no rosto. Eu havia demorado algum tempo para o encontrar, antes de perceber que provavelmente já estaria na sala de idiomas. Ele conversava com uma de minhas colegas, a “Karla-do-piercing-industrial.” Não me lembrava de ter tido qualquer conversa com a garota desde meu primeiro dia de aula, mas resolvi me sentar entre os dois e fazer o possível para socializar com a mesma.
“Na sala de fotografia, com a Milena.” Finalmente respondi. Ambos assentiram, logo retornando a conversa pre existente.
“Mas eu tô dizendo, fazia tempos que ninguém fazia uma loucura daquelas. Foi tipo, épica.” Karla disse.
“Se tu diz, né.” Lucas retrucou.
Para evitar de me meter novamente em um assunto completamente incompreensível, resolvi me integrar.
“O que que foi épico?” Perguntei despreocupada.
Foi o Lucas quem respondeu.
“Nesse fim de semana, resolveram fazer uma festa lá no litoral com um pessoal daqui de Porto. A maioria do colégio, ou de algum outro aqui de perto. Parece que foi bacana.”
“Aquela tua amiga, a Fernanda, também tava por lá. Ela pode confirmar que foi ótima.” Karla sorriu pra mim. Eu sorri de volta, enquanto absorvia a informação. Talvez as festas do pessoal do colégio fossem suficientes para quebrar o galho, talvez não. O fato era que eu realmente tava a fim de uma diversão. Dessa vez, de preferência, sem nenhum grande imprevisto. Seria interessante dar um jeito de ser convidada para esses eventos.
“Legal. E quem exatamente dá essas festas?” Perguntei. A informação poderia ser útil.
“O Henrique... É um guri da turma dos maragatos. Tu já deve ter visto ele por aí. ” O nome me parecia familiar. Não demorei a lembrar que se tratava do mesmo que havia convidado eu e as meninas da turma pra o jantar na pizzaria, algumas semanas antes.
Ficamos conversando por mais algum tempo enquanto a aula não começava. A Karla me pareceu ser uma pessoa muito legal, mesmo tendo como amiga aquela tal de Munique fofoqueira. Me perguntei em vários momentos como aquelas duas eram amigas.
Somente quando o sinal bateu para o inicio das atividades, que me dei por conta que a Luana não estava por lá. Perguntei para o Lucas e ele simplesmente disse que ela tinha um compromisso com um outro pessoal. Enquanto lamentava, peguei logo a folha que a coordenadora de espanhol entregou e me pus a ler o conteúdo.
__//__
“Mas qual é a moral?” Perguntei de novo, enquanto Lucas não parava de soprar refrigerante em mim. Ele fazia isso com auxilio do canudinho, e a minha camiseta de uniforme já estava toda manchada. Se eu fosse uma pessoa mais mal humorada, provavelmente já estaria bem irritada.
“Sei lá, isso é legal.” Respondeu.
Peguei um canudinho e tentei fazer o mesmo com ele, mas a minha mira foi um pouco falha e tudo que consegui fazer foi sujar toda a mesa. Ele riu, e finalmente fez sinal de rendição com as mãos.
“Então, como tá sendo a semana?” Perguntou, simpático. Após o final da aula, nos despedimos de Karla e estávamos simplesmente passando o tempo no bar da escola. Ele disse que a Bruna logo apareceria para se reunir com a gente.
“Tranquila, eu acho... Não aconteceu nada demais. ” Respondi sincera. Os acontecimentos daquele fim de semana, de duas semanas atrás, já pareciam varridos da minha mente, já que nada foi comentado nem visto no colégio por aqueles dias. Muito menos a Pryzinski, de novo.
“Que bom. Melhor assim do que problemática, hein.” Retrucou.
Poderíamos ter permanecido em silêncio, mas eu estava me sentindo bem falante.
“Aliás, e o fim de semana? Aquelas festas que a Karla comentou, é com frequência?” Transpareci interesse.
“De certa forma... São. Mas particularmente falando, são poucas as pessoas que valem a pena por lá. A Fernanda, o Guilherme e a Karla normalmente vão, mas... Sei lá. Não me parecem o teu tipo de festa. ” O ênfase ao “teu” tinha sido bem grande. O que ele queria dizer com isso?
“O que você quer dizer com isso?” Perguntei exageradamente na defensiva.
“Ei, calma. ” Ele fez sinal de rendição novamente, com um leve riso de nervoso. “Eu só queria dizer que tu tem cara de curtir alguma coisa diferente daquilo, só isso. ”
“Ainda não entendi.”
“Sei lá, acho que tu tem jeito de curtir umas festas mais pesadas. Meio que transpareces isso. Não me entenda mal nem nada, mas parece. ”
Ele falou sincero.
De certa forma, aquilo me lembrou do que haviam me dito no primeiro dia de aula. Ninguém ali me perguntava muitas coisas da minha vida diretamente, quando eu transparecia não estar muito a fim de responder. Mas pelo jeito isso não impedia ninguém de ser bastante observador quanto á mim.
“E por que parece?” Instiguei mais um pouco.
Pareceu hesitar antes de responder, mas bem na hora que ia fazendo, um baque na mesa despertou nossa atenção. Bruna finalmente havia chegado, largando sua mochila sob a ponta da cadeira de forma preguiçosa.
“O que que parece oque?” Ela perguntou, de um jeito meio “já cheguei perdido”.
“Nada não...” Lucas respondeu. Eu poderia encher mais o saco em busca de respostas, mas achei mais prudente não falar nada.
“Que ótimo então.” Ela se sentou e finalmente me cumprimento, com uma baita piscadela. Sorri como resposta.
“Enfim, minha ruivosa, o que nos conta de bom?” Lucas perguntou.
“Han...” Ela fez uma pausa para olhar pra mim. “Acho que nada. Maaas, vi que vocês tavam com a Karla na hora da saída. Tudo bem com ela?”
“Mil maravilhas. Nos contou de uma festa que teve na praia no fim de semana. Tá sabendo?”
“Pois é, tô sim. Não deu nada de errado. O Henrique tinha me convidado, mas acabei não indo. Tinha umas outras coisas pra resolver no Sábado.” Ela me olhou de novo, dessa vez de canto. Estranhei, mas resolvi ignorar.
“Enfim, qual é a dessa Karla? Ela me pareceu ser super legal, mas anda com aquela meia chatona da Munique...” Falei, me lembrando do quanto a menina era antipática nas aulas. Sempre parecia estar afim de espalhar alguma coisa.
Os dois riram em resposta.
“Ela é legal sim, mas na verdade as duas são primas. Meio que andam juntar por obrigação, ou alguma coisa assim. Quando tão juntas, a Karla não é lá muito legal.”
Assenti. Aquilo era meio chato, apesar de tudo.
__//__
Duas horas depois, já pairava entendiada no meu quarto, enquanto acabava com um pacote de salgadinhos e falava com a tal de Isadora no Whatsapp. A garota realmente era legal, além de uma gata. O único problema é que era definitivamente o tipo de pessoa problema pra minha vida. Lá no fundo, eu sabia muito bem que a deveria evitar o máximo possível. Isso não me impediu de continuar mantendo contato, porém.
Isa: É SÉRIO, vai ser legal, tu deveria aparecer. E sem nenhuma confusão dessa vez, promero. Rsrss.
Outro convite. Outra festa. Parecia até estranho, já que desde a última havia se passado pouco mais de uma semana.
Você: Quem sabe... Mas ainda tenho que pensar. É SÉRIO.
Isa: Não vou para de encher o saco até tu dizer que vai.
Você: Já percebi.
Isa: Então poupa o meu tempo e diz que vai de uma vez.
Você: Tá bom, tá bom... Quando e onde?
Isa: Sábado a noite. Vai ser no gasômetro. Te vejo por lá, valeu.
E assim se seguiu. Fosse lá o que me aguardasse, realmente esperava que dessa vez nada de muito ruim fosse acontecer.
__//__
O resto da semana se seguiu tranquilo, além do fato de que a Fernanda me convidou para uma festa na casa dela em que me vi obrigada a recusar, já que havia aceitado o convite da Isadora. Ela pareceu frustrada, mas não me incomodou muito por causa do assunto. As aulas se seguiam normais, enquanto o período de provas se aproximava. Os conteúdos não me pareciam assim tão difíceis ou puxados, embora eu sabia que me requereriam algum tempo de dedicação caso não quisesse me encontrar em problemas. Por esse motivo, me dediquei o máximo que pude a resolução de pendências acadêmicas e acabei por me dar bem em algumas apresentações na Sexta-feira. Essa informação agradou meus pais, que recebiam por e-mail periodicamente uma avaliação do meu desempenho. Como resultado, não encontrei resistência ao informá-los sobre uma festa no fim de semana. Já pareciam bem desligados e interessados em suas próprias questões pessoais enquanto saí de casa, no Sábado á noite.
__//__
O táxi me largou não muito distante á tão famosa usina do gasômetro, que eu afinal ainda não conhecia. Era uma espécie de orla á beira do rio com um museu. E bem, naquela noite, uma festa. Não fazia ideia de quantas pessoas estavam ali. Mais de mil, talvez. Gente na faixa dos vinte e um, vinte e dois anos, tocando som a gosto de seus próprios carros. A organização era pouca, pela maneira em que apareciam pessoas caindo de bêbadas por todos os lados. Ainda não era nem meia-noite, porém. Eita pessoal que gostava de se divertir cedo. Peguei o celular em pressa, mandando uma mensagem pra Isadora em sua procura. Enquanto esperava por sua presença, percebi que já estava arrepiada. O tempo estava muito mais frio do que eu imaginava, deveria admitir. Meu moletom não vencia a brisa gelada que vinha do rio. Pra minha sorte, não demorou muito para que a
Isadora aparecesse, acompanhada por duas garotas tão atraentes quanto ela. Infelizmente, devido á pressa e a barulheira, não foi possível nem mesmo que nos apresentássemos, antes que me levassem a um dos carros estacionados no gramado. Mais algumas pessoas estavam ali, segurando suas long necks ou fumando ou alguma coisa. Ninguém que eu conhecesse, porém. Logo me agrupei no capô do carro com as garotas, enquanto tomava um liquido me oferecido. Pelo gosto, se assemelhava á vodka, embora com uma pitada mais... adocicada?
Nem tive tempo de me perguntar o que seria aquilo antes de já entrar rapidamente em estado alcoolizado, enquanto percebia cada vez mais a aproximação física da Isadora. Vamos apenas dizer que... me deixei levar bem rápido pela maneira com que ela se aconchegou em mim, logo me arrastando para dentro do carro e arrancando o meu moletom. Lá no fundo, tudo que eu queria era simplesmente de fato aproveitar aquela noite ao máximo. Mesmo que fosse me arrepender depois.
Fale com o autor