Dias de Liberdade

7 Capítulo 6: "Baita Corridão."


Notas iniciais
Não, eu não morri. Mas sim, eu demorei uma eternidade pra postar esse capítulo, admito. E realmente peço desculpas por isso, ainda mais pra quem comentou que eu deveria demorar menos. O fato é que eu entrei em um período de entrega de muitos trabalhos, que emendou com as provas e recuperações e a minha própria preguiça e acabei lesmando demais. Dessa vez eu prometo que vou começar a postar com bem mais frequência. Pra compensar, tentei caprichar nesse capitulo (não sei se consegui, mas vamos na fé), e o escrevi um pouco mais que os outros. Espero que gostem e até as notas finais.

A batida continuava a soar pelo que parecia todos os lugares e, gente, aquelas mãos vagando por mim não pareciam ser reais. Minha respiração entrecortada entre o toque daqueles lábios pedia por mais, embora soubesse que já me afastavam. Não havia mais tempo.

“Tem certeza que já tem que ir?”

“Minha namorada já deve estar me procurando...” A voz respondeu sobre o meu ouvido.

“Problema dela.” Eu ri.

“E teu, se nos ver aqui. ”

A garota disse rindo enquanto se afastava. Aproveitei a brecha de espaço que apareceu para me escorar contra a parede, rendida à ideia de que já havia tido o possível pra ocasião.

“Sabe, eu até te passaria o meu whats, mas devido as circunstâncias...” Largou enquanto saía pela porta, logo depois a deixando fechada novamente. Aquele ato não parecia diminuir o som da música que vinha da maior parte do andar.

Honestamente, eu não fazia a menor ideia de quem era aquela loira, mas se todas as gaúchas tivessem aquela pegada toda, não estava nem um pouco arrependida de me mudar pro sul.

Levei mais um tempo para me recompor e então me deixei em pé, para sair da sala. Assim como havia descoberto logo após chegar ao prédio, a maior área, uma espécie de salão principal, abria espaço para corredores que levavam a várias salas menores. A maioria delas ficavam vazias a espera de alguém para utiliza-las como bem entendesse. Ótimo para dar uns pegas, mas perfeito pra causar um medo e curiosidade do que podem estar aprontando nas outras. Saí da sala deixando a porta aberta, o que aparentemente sinalizava que ela estava disponível. Andei pelos corredores mal iluminados passando por diversos tipos de gente, alguns com uma aparência alterada o suficiente para nem mesmo conseguirem levantar do chão.

Apesar dos meus esforços, não conseguia encontrar nenhum lugar ou pessoa vendendo álcool. Maconha e bala, no entanto, parecia ter pra todo canto. Meu objetivo não era me alterar tanto já que não conhecia o local e estava sozinha, o que não permitia que me atrevesse a comprar um pouco. Talvez pela luminosidade exageradamente baixa e o calor abafado que sentia ali dentro, uma leve confusão tomava conta de mim. Chequei meu celular. Passava um pouco da uma e meia da manhã, o que ainda me deixava tempo antes de precisar ir para casa sem levantar suspeitas. De alguma forma encontrei o caminho de volta ao salão maior e fiquei um tempo me balançando ao som da batida. Alguns garotos e garotas bem alterados apareciam de vez em quando para dançar comigo ou só falar alguma coisa sem sentido, mas não tive a sorte de encontrar mais ninguém que valesse a pena como a loira de antes. Eventualmente desisti e segui a explorar o andar. Àquela altura, minha confusão já havia virado um leve nível de tontura, então conclui que precisava de um pouco de ar e procurei qualquer tipo de porta que pudesse me levar a algum lugar aberto. Não demorou muito para que encontrasse uma janela atrás das caixas de som principais. Percebi que a passagem logo após levava a algum tipo de sacada, então a pulei e logo me deparei com uma abertura espaçosa e muito mais silenciosa que dava vista aos fundos de outro prédio velho. Haviam poucas pessoas ali. Ninguém pareceu notar a minha aparição. Se notaram, não deram a mínima. Um grupo de quatro pessoas parecia conversar enquanto checavam algo em seus celulares, ao mesmo tempo em que um garoto magricela de boné e cabelos que caíam até os ombros fazia um desenho de grafite na parede. Me sentei no chão para aliviar a dor nos pés e avaliei a arte. Percebi que o topo se tratava de um céu estrelado, mas não conseguia decifrar o que eram os riscos abaixo, então perguntei. Ele pareceu surpreso com a minha voz e demorou alguns segundos para responder, enquanto procurava por alguma coisa em uma mochila escura que estava estirada no chão.

“É uma landscape. Sabe, uma linha do horizonte. Na cidade. Assim que eu conseguir terminar de delimitar os prédios vai fazer mais sentido, mas eu acho que a minha tinta preta acabou.” Falou frustrado a última frase. Sua voz me surpreendeu um pouco, muito mais grossa do que a sua aparência física fazia transparecer.

“É uma pena. Vai vir terminar outra hora?” Puxei assunto. Estava na necessidade de conversar com alguém.

“Eu sempre venho. A maioria dos desenhos lá dentro é meu.” Apontou pra janela de onde eu vim. A informação era interessante, já que os eles eram muito bons.

“Nossa, legal. Você tem talento.” Falei sincera com um sorriso.

“Obviamente. Não tem melhor que eu.” Soltou com uma expressão séria e então começou um sorriso que tornou uma leve risada, como se alegasse estar somente de brincadeira.

Respondi a risada com outra, percebendo que estava voltando a recuperar a normalidade dos meus sentidos.

“E aliás, tu não tem cara de conhecer o lugar aqui não. Primeira vez?” Me perguntou enquanto sentava contra a parede ao meu lado, depois de fechar a mochila.

“É, primeira.” Respondi com uma voz de tédio.

“Bacana. É difícil ver rostos diferentes no Balbúrdia. ”

“Balbúrdia?”

“Apelido do prédio, ué. Sabia disso não? Quem te trouxe aqui?” Perguntou interessado.

“Povo que eu conheci na rua. Nem sei quem são, já sumiram. ”

Sua expressão ficou um pouco confusa e então surpresa.

“Se não conhecia o Balbúrdia e tá sozinha aqui... Só pode ser de fora, né? Vem da onde?”

Já havia começado a me acostumar com o interesse das pessoas para com o meu desconhecimento. Parecia que tudo sinalizava que eu “era de fora.”

“De São Paulo. Acabei aqui por acaso. Aliás, eu sou a Natalia. ”

Ele soltou um sorriso sincero. Aquela hospitalidade era cativante.

“Bem-vinda, então. Eu sou o David. E aquele ali — ” Ele fez uma pausa para apontar para o grupo que ainda conversava no canto. “- é o meu pessoal. ”

Os quatro olharam pra nós assim que David terminou de falar, se aproximando logo depois.

“Quem é?” O mais alto perguntou pra ele, apontando pra mim. Tinha uma barba rala e um boné caro na cabeça, mas não aparentava ter mais de 18, talvez 19 anos.

“Guria nova aqui, cara. Natalia.”

Olhou então pra mim, dessa vez de uma forma avaliativa. Isso normalmente me deixaria incomodada, mas por algum motivo não fiquei.

“Tá bom então. Eu sou o Ítalo.” Sorriu pra mim com uma piscadela. Devo admitir que ele era charmoso. Se eu fosse hetero, provavelmente já estaria me interessando.

Antes que eu pudesse responder, os outros se apresentaram. Dois garotos de pele escura que se chamavam Eric e Renan e uma garota ruiva de tirar o folego que se chamava Isadora. Conversamos por um bom tempo e descobri que todos estudavam juntos em um colégio onde o nome me parecia familiar, embora não fizesse ideia de como ou onde era.

–--//---

Senti meu celular vibrar no bolso. Era uma mensagem do Lucas perguntando se eu precisava de uma carona de volta. Até cogitei aceitar, mas não sabia como retornar até o bar onde me largaram e muito menos explicar minha localização com alguma desculpa coerente, então respondi que não. O relógio marcava quase duas e meia, então sabia que teria de ir embora logo. Chegar tarde na primeira oportunidade que tive de sair à noite sem que meus pais soubessem onde eu estava, devido as circunstâncias, não seria nada bom. Mas a minha irresponsabilidade e a minha falta de sorte falaram mais alto.

Assim que voltamos para a parte interna da sala, Eric e Renan sumiram por algum tempo enquanto eu me instalava com os três restantes em uma das entradas que levava aos corredores. Só então eu havia percebido o quanto aquele lugar era um labirinto. Uma tremenda besteira havia sido andar por aqueles corredores sozinha. Menos de cinco minutos depois, já havia voltado a ficar tonta. Aquele ar era... pesado, e o lugar parecia cada vez mais abafado e com mais gente caída no chão. Em compensação, eu parecia sóbria demais para não me incomodar com aquilo. Ou ia embora, ou precisava tomar alguma coisa. E logo.

Logo que terminei de formular o pensamento, os demais garotos retornaram, dessa vez com alguma coisa na mão. Uma garrafa de... água? Olhei com cara de confusa, enquanto o Ítalo abria um sorriso pra eles e dizia algo como “valeu a pena esperar”. A não ser que...

Ele pegou a tampinha e colocou um pouco do líquido transparente dentro. Minhas dúvidas foram embora bem rápido. Isso explicava o porquê deles estarem tão sóbrios até o momento. Fiquei observando todos tomarem um gole sem reação até que olharam pra mim e me ofereceram. Suspeitava do que era, mas nunca havia experimentado, então hesitei.

“É gê? Eu nunca tomei não...”

As expressões em resposta foram um pouco incrédulas.

“Nunca? Então tem que tomar agora. É a melhor coisa que tu vai achar aqui, guria. A não ser se tomou alguma coisa a pouco tempo...” David se pronunciou.

Considerei. O efeito do pouco de álcool ingerido já havia passado a algum tempo, então não havia risco. Mesmo assim, permaneci segurando a tampinha na mão sem ingerir nada enquanto chegava à conclusão de que aquela hesitação era bobeira. Nada nunca havia me feito mal, não seria agora que aconteceria. Levei o líquido a boca.

Antes que pudesse engolir, porém, o barulho de um estouro soou da porta que levava as escadas por onde eu entrei. Ouvi alguns gritos e me assustei, cuspindo todo o gê no chão. Dois ou três segundos que pareceram eternos se passaram até que alguém gritou de novo, desta vez dizendo algo que eu identifiquei como “batida”. Foi ai que o caos tomou conta. Olharam pra mim e falaram para correr, então eu comecei a os seguir pelos corredores. Não precisei correr muito até que minha perna começou a doer e eu caí no chão. Maldita perna, pensei. O pessoal todo sumiu pela curva do corredor segundos depois, nem percebendo que eu havia caído. Continuei no chão por algum tempo, tentando reestabelecer a minha visão que fraquejou depois da queda. Um garoto pálido estava sentado contra a parede, com uma aparência de quem estava prestes a vomitar. Gente de tudo quanto é jeito, inclusive seminus, saiam de todos os cantos e corriam sem destino aparente. Desnorteados. Ao fundo, a música havia parado e só se ouviam passos, batidas e gritos. Que droga estava acontecendo ali?

Me levantei com dificuldade e me escorei na parede. Precisava sair dali, mas não sabia como. Mãos me seguraram pelas costas e me virei apressada. Um homem me encarava, tentando me manter imóvel. Parecia ter trinta e poucos anos, e estava todo vestido de preto. O fitei por alguns segundos tentando entender alguma coisa, até que vi a corrente no seu pescoço. Era um distintivo. UMA PORRA DE UM DISTINTIVO. Logo ali? Agora? Ferrou.

“Calma, calma, não tem pra onde ir não.” O ouvi dizer quando comecei a me debater. Como assim não tinha para onde ir? Claro que deveria ter. Aproveitei que a dor na minha perna havia diminuído e chutei sua parte íntima. Ele me soltou bem rápido e fez menção de se abaixar.

Saí meio correndo meio mancando pelo corredor. Ainda havia bastante gente saindo das dezenas de portas pela qual eu passava, dobrando aleatoriamente pelas passagens que via. Depois de um tempo, acabei em um corredor vazio. Vazio e sem saída. Minhas sensações de pânico e confusão não me permitiam pensar direito, então assim que ouvi mais passos apressados e alguém tocou no meu ombro eu simplesmente empurrei aquela mão com a maior força que pude e entrei na primeira sala que vi. Sem folego, me apoiei sobre os joelhos e meus olhos demoraram alguns segundos para se ajustar a baixa claridade daquele lugar apertado. De relance, meti a mão no bolso e tirei de lá o canivete que sempre carrego comigo, pro caso de emergência. Não tinha a menor chance de não conseguir escapar dali. Se eu fosse pega, meus pais jamais me deixariam sair de novo. Foi com esse pensamento que agi quando ouvi que a porta fora aberta e alguém entrou. Sentindo a aproximação, nem mesmo virei o rosto e destranquei meu canivete, o tocando na direção mais certeira possível. Demorou quase dois segundos para que ouvisse alguma reação.

“Ai! Eita, porra. Calma aí, caramba. ”

Apesar de sem folego, a voz era calma. E familiar.

Me virei incrédula. Não dava nem para acreditar. Era a garota fantasma que eu nunca avistava no colégio, de novo. Pryzinski. Com o braço sangrando e pegando o meu canivete do chão.

“Olha, eu sei que tu não te lembra de mim, mas a gente tem que sair daqui, e agora, beleza?” Ela disse, estendendo o canivete ensanguentado para que eu pegasse.

Fiquei sem reação. Não iria comentar o fato de se lembrar ou não dela. Simplesmente assenti e perguntei se ela sabia como fazer isso, pois eu estava perdida. Como resposta, só recebi um puxão no braço.

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Mancando eu não conseguia andar muito rápido, mas aquilo não importou. Só foi preciso passar por duas portas até que ela abrisse uma que parecia exatamente igual as outras. A diferença é que dela saía uma escadaria onde ainda havia algumas pessoas vindo do andar superior. Descemos as escadas quase correndo, assim como todos os outros. Naquela agitação, eu não tinha tempo de pensar em nada, muito menos no que estava fazendo. Quando me dei por conta, já havia atravessado um portão velho cheio de gente gritando nomes, atravessado quadra e entrado em um carro com mais um monte de gente desconhecida. Minha perna doía como o inferno, e para ajudar mais ainda um garoto e uma garota pularam pra dentro do carro e sentaram em cima de mim. Eu só via luzes e ouvi o porta malas se fechar. Algumas vozes apressadas conversavam na rua. De repente, um moreno de óculos sentou no banco do motorista e arrancou com violência, deixando os pneus chiarem. Devido ao aglomerado de gente a minha volta, eu não conseguia ver muito mais que a minha perna sendo esmagado por mais umas três. Também não sabia mais onde estava a Pryzinski.

Depois de passar por quatro ou cinco quadras, o motorista começou a parecer confuso e perguntou em meio as conversas atravessadas de todo mundo onde estava um tal de Alex. Ninguém respondeu. Então ele perguntou por uma tal Marques. A voz da única pessoa que eu conhecia no carro saiu do porta malas e respondeu que estava ali. Como assim? Agora tinha outro nome? Tentei me virar para avistar seu rosto, mas foi inútil. Estava completamente imobilizada.

“Para onde eu vou?” O motorista perguntou.

“Por que tá perguntando isso pra mim?” Respondeu.

“Porque eu tô rezando pra ti ter alguma ideia do que a gente faz agora.”

Ele não obteve resposta até que perguntou de novo.

“Farrapos. Vai pra Farrapos.”

“A que altura?”

“Sei lá. Unimed?”

Então o carro fez uma curva violenta pra esquerda e todo mundo começou a conversar de novo. Parecia que a única pessoa que não fazia ideia do que estava acontecendo era eu. Naquele momento, a minha única preocupação era o estado da minha perna.

Após não estarmos mais em tão alta velocidade e as conversas diminuírem, o motorista voltou a falar. Dessa vez, perguntando em quantos estávamos. Alguém sentado na frente se prontificou a contar.

“Contando contigo, tem 14.”

“Catorze? Como assim catorze? O meu carro não aguenta isso não, cara.” Falou. Depois de um tempo, se pronunciou com voz duvidosa. “Mas se o Alex não tá aqui, só deveriam haver treze pessoas. Como assim tem mais uma?”

Por um acaso essa mais uma sou eu? Pensei. A pergunta foi respondida bem rápido, quando o rapaz que havia feito a contagem olhou pra mim e perguntou quem eu era.

Fiquei sem saber o que responder quando a Pryzinski se pronunciou de novo.

“Tá comigo. ”

“Tá contigo o caralho, eu não mandei trazer ninguém a mais. Vou mandar descer.”

“Cala essa boca e dirige essa porcaria desse carro mais rápido, Jean. ”

Eu estava prevendo uma discussão, mas ele simplesmente bufou e voltou sua atenção a dirigir.

Depois de cinco minutos, estacionou o carro na frente de um prostíbulo, em uma avenida movimentada.

“Ah, a Farrapos...” Alguém disse, e todos começaram a rir. Me senti mal por perder a piada.

“Tá gente, olha só. Não pode descer todo mundo no mesmo lugar. Quem sai agora?”

Para meu alívio, os dois que estavam sentados sobre mim se pronunciaram, assim como quem estava sentado na frente.

“Então tá beleza. Até depois.” O tal de Jean falou. As portas abriram e logo depois eu senti um alivio gigante na perna. Aquele peso todo estava quase me esmagando.

“Espera um pouco que nós vamos passar para a frente.” Falaram as duas garotas que estavam sentadas ao lado da outra porta. E assim fizeram.

Enquanto o motorista arrancava o carro novamente, finalmente pude me sentar de maneira confortável.

“Pra onde agora?” Ele perguntou, dessa vez para ninguém em específico.

“Sobe para o shopping Total. É aqui perto, né?” As garotas da frente perguntaram.

“Uhum.”

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Assim que o carro esvaziou mais, Pryzinski saiu do porta malas e sentou ao meu lado. Só restavam mais cinco pessoas agora.

“Última vez que eu vou parar. Pra onde, Marques?” Jean perguntou. Ele parecia bem mais calmo depois de não estar mais violando nenhuma lei de superlotação de veículo.

Ela pareceu pensar e depois olhou para mim. Aquele olhar me gelou. Por Deus, havia alguma coisa naquela “guria” que não me deixava pensar direito.

“Tá tudo bem com a tua perna? Eu vi que tu tava mancando. Tem um hospital aqui perto...” Perguntou.

Suspirei.

“Tá tudo bem sim. Não tem problema. E o seu braço? Eu acho que cortei ele...”

Confusão passou pelo seu rosto até que compreendeu o que eu disse e checou o mesmo. Percebi que havia bastante sangue seco ali.

“Ah, não. Isso aqui tá beleza. Nem esquenta. ”

“Gente, eu não tenho o dia todo...” Dessa vez quem não estava calmo era o outro passageiro restante.

“Manda pra Bréscia, Jean.”

“Ih, vai jantar agora?” Ele perguntou.

Por algum motivo, eu ri.

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Descemos em uma pizzaria. O garoto que também desceu pegou o único táxi já disponível, então tivemos de esperar. Com o fim da agitação, chequei o celular. Não dava para acreditar que eram apenas três e quinze. Parecia que haviam passado horas desde que eu estive no prédio. De uma forma ou de outra, eu já tinha três chamadas perdidas da minha mãe, o que significava que me encrenquei feio.

Suspirei ao pensar em tudo o que havia acontecido.

“Tudo bem?” Pryzinski perguntou assim que sentei na calçada.

“Tudo. Só acho que eu me ferrei um pouco.” Respondi.

Ela riu. Ah, aquela risada. Até melhorou um pouco o meu humor.

“Todo mundo se ferrou um pouco. Sabe, tu teve sorte. Eu te vi sem querer, quando tava descendo do andar de cima...”

Do andar de cima? Aquele que não me deixaram subir? Pensei. Mas não vi motivos para abordar o assunto naquele momento.

Pryzinski deve ter interpretado meu silêncio como desconfiança, pois voltou a falar.

“Han... Natalia, olha só, eu sou amiga da Luana, te vi uns dias atrás. Também estudo no Luterano. ”

Como ela sabia o meu nome? E como poderia cogitar que eu não sabia da sua existência? Resolvi abrir o jogo.

“Eu sei.”

“Sabe?” Levantou as sobrancelhas em sinal de surpresa.

“Pryzinski, não é? Que saiu puta da cara com alguma coisa na pizzaria aquele dia?”

“Tu tava lá?” Dessa vez franziu o cenho.

“Chegando, mas estava.”

“Ah, certo. Eu acho que não vi. ”

“É.” Falei.

“É.” Retrucou.

Definitivamente, não tínhamos mais sobre o que conversar. Aquele taxi estava começando a demorar.

–--//---

Depois de um tempo silencioso e constrangedor, Pryzinski também se sentou na calçada, retornando a falar.

“Olha, han... -” Parecia nervosa. “Seria bom se tu não comentasse com ninguém que eu tava no Balbúrdia. ”

Eu ri.

“Seria bom se você fizesse o mesmo por mim.”

Ela sorriu e levantou os braços em rendição.

“Sem problemas. Mas eu tenho que perguntar... Se tu acabou de chegar na cidade, quem te levou lá?”

“Como sabe que eu acabei de chegar na cidade?”

“Não foge da pergunta. Quem faz isso sou eu.”

Aquele sotaque, quando misturado com aquela voz, parecia surrealmente ótimo de ouvir.

“Ninguém. Bom, pelo menos ninguém que de fato eu conheça. Foi mais... por acaso.”

“Por acaso? Isso não é nada bom. Olha, se é que vale o conselho de uma quase estranha, eu diria pra não se meter com isso não. Você -” Ela fez uma pausa para desenhar aspas no ar enquanto usava esse pronome de tratamento “chegou aqui agora. Melhor tentar achar alguma coisa... melhor pra fazer. ”

Pensei por algum tempo antes de responder.

“Se diz isso, por que estava lá também? Não deveria seguir o próprio conselho?” Meu tom não foi agressivo, mas calmo e sincero. Tão sincero quanto as minhas considerações pela resposta.

“Definitivamente.” Suspirou. “- Mas o fato é que todo mundo tem seus próprios motivos pra acabar em um lugar daqueles. Eu tenho os meus, e tava tentando resolver eles. Quais são os teus? ”

Deixei a pergunta pairar no ar por um bom tempo. Talvez a perguntando primeiro a mim mesma. Eu sabia quais eram, mas ela havia tocado em um assunto no qual eu nunca havia discutido com ninguém antes. E não tinha motivos reais para discutir. Ainda mais com alguém que eu mal conhecia, embora por algum motivo sentisse que pudesse confiar.

Mas aquele não era o momento. E a chegada do meu taxi me alertou bem disso.

–--//---

Meu celular marcava quase quatro horas da manhã quando cheguei em casa. Assim que entrei no taxi, enviei pra minha mãe uma mensagem informando que já estava voltando, embora isso não tenha parecido acalma-la, pois quando passei pela porta me deparei com ela dormindo no sofá.

“Mãe...” Falei baixinho, tentando acorda-la de maneira mais suave possível.

Naqueles poucos segundos, estava tentando formular alguma boa desculpa. Obviamente, não achei nenhuma.

“Menina! Caramba! Você tá viva! Eu não acredito que aprontou de novo, Natalia!”

O tom não era nada legal.

“Calma aí tá bom, eu posso explicar.”

“Ah, pode?”

“Posso.”

“Então explica. Agora.”

“Meu celular ficou sem bateria e eu me esqueci de ligar para avisar que ia chegar tarde, só isso.”

“E como agora apareceu bateria nele? Por mágica?”

“Eu carreguei na casa de um colega. Depois do filme a gente voltou e jantamos lá. Quando eu vi, já estava super tarde. ”

Minha mãe suspirou.

“Você quer mesmo que eu acredite numa besteira dessas?”

“Mas é a verdade!” Supliquei.

Ela parecia cansada.

“Natalia, olha, simplesmente vai dormir. Amanhã nós conversamos. ”

Sabia que ela havia perdido a confiança em mim completamente, e de uma maneira nada boa. De certa forma, admiti que minha mãe tinha todo o direito de fazer isso.

Suspirei e subi as escadas até o meu quarto em silêncio. Meus ouvidos zuniam pela quantidade de barulho que ouvi a noite toda e meus olhos ardiam, assim como a perna esquerda e os pés. Me sentia definitivamente mal. Eram tantas as coisas as quais eu deveria pensar sobre, que decidi por nenhuma.

Tomei um banho quente e demorado, vesti uma roupa confortável e me toquei na minha cama. Apesar do cansaço horrível, tive dificuldades para pegar no sono, então procurei meu celular da escrivaninha e chequei o whatsapp. O tal de Antonio, que eu havia abandonado na primeira festa uns mil anos antes, deixou diversas mensagens perguntando onde eu estava. Ri alto. Aquele cara era uma verdadeira piada. O grupo em que Fernanda havia me adicionado dias antes marcava mais de mil mensagens não lidas, e ainda tinha gente escrevendo alguma coisa. Deveriam estar desocupados. Decidi ignorar, pelo momento. Ainda extasiada com a adrenalina da noite, larguei o celular novamente e dessa vez me comprometi a tentar dormir, sem pensar em mais nada. Teria muito tempo depois que acordasse para fazer isso.

Ah, que dia.

Notas finais
E aí? Beleza? Precisa melhorar? Pode comentar que eu leio tudo, viu. Ainda tem muito o que desenvolver a partir desse capítulo, então peço paciência que as dúvidas vão se sanar logo. De uma forma ou de outra, muito obrigado se chegou até aqui e aviso que tem muita coisa interessante pra acontecer ainda, então tente não desanimar de ler a fic não, viu? Beijos pra vocês.