Dias de Liberdade

5 Capítulo 4: As tais das eletivas.


Notas iniciais
Eu realmente peço desculpas por sumir por tanto tempo! O fato é que resolvi fazer uma atualização no meu computador e acabei perdendo toda a memória dele, com isso tudo o que já tinha escrito, então foi necessário um hiato para que conseguisse reescrever e deixar tudo em ordem. De qualquer forma, agradeço a você que chegou até aqui na fic e espero que curta o capítulo.

“Fala sério. Eu nem mesmo sabia que isso existia aqui.” Falei pra ninguém em específico.

Estava em uma das salas de administração pedagógica do colégio com a Alexia, segurando um formulário na minha mão. O resto das meninas estava no bar do colégio, como sempre. Logo antes do início do recreio, uma voz anunciou no alto falante que já era Quarta-feira e, portanto, o último dia para a seleção das eletivas. Até agora, eu nem mesmo sabia que haviam disciplinas eletivas. Muito menos que elas eram obrigatórias.

“Não é tão ruim quanto parece. É uma droga que elas são no turno inverso, mas se você encontrar alguma que você gosta, não vai ser uma aula chata de lidar com. Nenhuma é muito difícil.” Alexia me falou. Ela não demorou nem um minuto para preencher o seu próprio formulário.

Considerei o que ela disse e voltei a encarar o papel. As opções eram várias. Algumas realmente pareciam muito interessantes, embora possuíam pré-requisitos. Descartei logo de cara Fotografia, Robótica e Francês, que estavam com todas as vagas preenchidas. Atividades físicas também estavam fora de cogitação, já que eu não possuía liberação médica. Sobraram espanhol, algumas relacionadas ás artes, música, apoio à sociedade (que eu não fazia a mínima ideia do que significava), além de estudos multiculturais e iniciação cientifica, que deveriam ser as preferidas dos nerds.

Pra ser sincera, se pudesse teria me decidido por marcar quase todas. Nunca fui o tipo de pessoa sem interesse em atividades diferentes, mesmo que fossem trabalhosas. A única chatice era que se realizavam em turno inverno e por isso o meu tempo livre seria prejudicado. Achei melhor não escolher nada das sextas e segundas-feiras, já que eram os dias supostos a passarem rápido. Como não era uma pessoa extremamente artística e já falava inglês, decidi optar por Espanhol. Nunca é uma escolha ruim tentar se tornar trilíngue. Preenchi o formulário com uma letra apressada e o entreguei para a secretária que parecia impaciente à minha frente. As aulas ocorriam ás quartas-feiras, o que significava que a primeira seria logo naquela tarde, para início da agilização dos grupos. Peguei meu celular e garanti de avisar meus pais que permaneceria no colégio até a noite. Eles não pareceram surpresos quanto à tal da aula eletiva. Aparentemente, eu era a última a saber.

–--//---

“Então, o que foi que vocês escolheram pra eletiva?” Perguntei para as meninas, enquanto estávamos atoa em um dos banheiros no primeiro andar aguardando o final do intervalo.

“Preparatórias pro torneio de voleibol. Rumo à taça.” Fernanda respondeu com um pouco de animação. A avaliei por alguns segundos. De fato tinha altura e tipo físico suficiente pra ser levada a sério no esporte.

“Legal. O time deve ser bom, então.” Respondi. Não sabia mais o que dizer.

Milena riu.

“Nem dá bola pra o que ela diz... O colégio não ganha nada a uns 5 anos. Ninguém joga nada.”

“Ei! Eu jogo bem, viu.” Fernanda se defendeu.

“Talvez. O único problema é que tu falta na maioria dos treinos. Ás vezes até nos jogos.” Alexia se meteu na conversa enquanto fitava sua imagem no espelho.

“Só quando eu tenho certeza absoluta que nós vamos perder.” Respondeu com uma cara divertida. Todas nós rimos.

“De qualquer forma, ela é a única que se aventura a passar vergonha nos esportes. Eu faço parte do grupo de dança, e a Milena do de fotografia. Aliás, pra o que tu te inscreveu esse ano, Alexia?” Brenda perguntou.

“Hm...” Ela pareceu hesitar em responder. “Na verdade ainda não decidi. Vou vir aqui de tarde para resolver isso.”

Estranhei sua resposta, já que tinha visto ela preencher seu formulário, mas resolvi não mexer no assunto.

Logo depois, a porta do banheiro abriu e duas das garotas com as quais eu não conversava desde o primeiro dia de aula entraram. Pelos olhares que a tal da loira chamada Munique trocava com as minhas novas amigas, eu já conseguia ter certeza que não se davam nada bem. A morena amiga dela também não. Todo mundo ficou em silêncio.

“Algum problema, gente?” Fernanda perguntou depois que elas pareciam que não iriam parar de olhar para nós.

“Talvez... Eu só queria saber se vocês já sabem do que aconteceu no gasômetro ontem.” Ela respondeu com um sorriso maldoso.

Ah, tá de brincadeira que tudo aquilo era por causa de uma fofoca? A rede de notícias daquele colégio parecia tão bem organizada e patética.

“E o que aconteceu no gasômetro ontem?” Alexia perguntou com uma voz cansada e entediada. Nenhuma de nós parecia estar de fato interessada em qualquer que fosse a história.

“Um pessoal dos maragatos, a turminha do Alexandre Rosa, andou brigando feio com uns terceiro-anistas do Cenecista e teve gente que até foi presa. Aquele teu amigo bombado também estava metido nisso, Fernanda. Provavelmente vão todos levar uma baita de uma advertência. ”

Todas elas ficaram com caras desconfortáveis depois do que foi dito. Não entendi o porquê.

“Bom saber. Mais alguma coisa?” Alexia não mudou a expressão.

Munique pareceu desapontada com isso. Fez que não com a cabeça e saiu do banheiro de novo.

“Só pode estar de brincadeira com a minha cara. O que o Guilherme aprontou agora?” Fernanda explodiu assim que deu tempo suficiente para que as duas garotas se afastassem. Pegou seu celular e começou a discar algum número apressada, saindo pela porta logo em seguida. Nenhuma de nós fez menção em segui-la, então permaneci ali.

“Gasômetro é onde o pessoal vai pra caminhar, certo? Ainda nem passei por lá.” Falei assim que comecei a ficar incomodada com o silêncio e o fato de ter me sentido levemente perdida na notícia.

Elas me olharam com expressões assustadas.

“Como assim tu ainda não foi no gasômetro? É bem mais do que isso. Praticamente um dos poucos lugares bacanas pra ir dar uma volta por aqui. Tem tudo quanto é tipo de gente.” Brenda me respondeu. Anotei aquilo mentalmente.

“Mas logicamente não tem nem comparação com o -” Milena começou, mas foi interrompida por um gritinho incomodado da Brenda.

“Nem ouse começar a falar de Uppsala agora, guria. Todo mundo já entendeu que a Suécia é incrível. Agora tá na hora de engolir o fato de que tu tá de volta em Porto Alegre a quase um ano. ”

“Tá bom, tá bom.”

“De qualquer forma, quem é Alexandre e quem é Guilherme?” Perguntei, as tirando da discussão. Aquela era a minha última lacuna da história.

“Alexandre é um idiota qualquer da turma dos maragatos. Uma hora ou outra tu vai acabar conhecendo ele. E o Guilherme, bom... Estuda no Cenecista. Extraoficialmente, ele e a Fernanda meio que estão ficando. Vivem indo pra praia juntos no fim de semana.” Brenda respondeu.

“Aliás, vale ressaltar que ele tem um corpo definido super sexy.” Milena completou.

“Não duvido.” Soltei uma risada por educação. Aquilo não me interessava nem um pouco.

Percebi que a Alexia me olhou com um olhar curioso e abriu a boca pra falar alguma coisa, mas o som avisando o fim do intervalo soou e nós se apressamos para subir para a sala de aula.

–--//---

“Eu não acredito! Que coincidência.” Luana disparou assim que a encontrei na saída e falei que havia escolhido a eletiva de espanhol. Ela ficou na ponta dos pés no meio da multidão que se espremia no portão do colégio e gritou o nome do Lucas. Ele apareceu logo em seguida.

“Que foi?” Perguntou, pegando os fones de ouvido do bolso.

Antes de responder, Luana apontou para a esquina e saímos caminhando para lá.

“A Natalia vai fazer a mesma eletiva que a gente, olha só que legal.”

Ele sorriu e bateu no meu ombro.

“Legal mesmo.” Falou e então pareceu ter uma ideia. “Por que tu não vem almoçar com a gente, então? Vai precisar voltar logo pro colégio mesmo. ”

Considerei. Poderia ser legal. Na última vez que havíamos saído juntos, na pizzaria alguns dias antes, estive tão perdida em meus pensamentos e na minha long neck que desperdicei a oportunidade de conversar mais com o pessoal.

“Por mim tudo bem. Onde?” Perguntei.

“Aquele mesmo restaurante daquele dia, pode ser?”

“Claro.”

Chegamos lá em cinco minutos de caminhada e nos sentamos pra conversar um pouco antes de servir o almoço. O assunto da tal da briga do gasômetro tinha chegado até eles, também. Me explicaram que o nosso colégio e o Cenecista tinham uma rixa idiota e de vez em quando o pessoal levava isso muito a sério. No entanto, havia bastante gente que tinha amigos do outro colégio e vice versa.

“Qual a moral de brigarem em lugar público, então?” Perguntei.

Luana abriu a boca para responder e então olhou para a porta do restaurante.

“Parece que você já vai saber a resposta...”

Virei o rosto e avistei um emaranhado de cabelos ruivos com o uniforme do colégio se aproximando. Demorei alguns segundos, mas me lembrei da garota. Era a mesma que estava na pizzaria. Bruna. Não a havia visto desde então. Onde aquela gente se escondia durante o intervalo?

“Oi, gente.” Acenou assim que se aproximou o suficiente da mesa. Sorri em resposta.

“Vocês também vão precisar voltar pras eletivas hoje?”

“Aham. Senta aí com a gente.” Lucas ofereceu.

Ela assentiu e tomou o lugar ao meu lado.

“E as notícias de primeira mão?” Luana não perdeu tempo em perguntar.

“Tu quer dizer de ontem? ” Bruna bufou, mas não parecia incomodada.

“Exatamente. Você estava lá, não estava?”

“De fato. ”

“Então...”

Ouvi um suspiro antes dela começar a falar.

“Quase metade da turma estava lá. Sabe, meio que uma social. A gente costuma fazer isso direto, cês sabem. O problema é que o pessoal do Cenecista tem uma rixa interna gigante. Os amigos do Alexandre que estudam lá apareceram e tudo ficou de boa entre nós, mas daí...” Ela fez uma pausa para pegar a garrafa de Aquarius Fresh que o garçom apareceu entregando. Eu ainda estava tentando localizar a história para entender alguma coisa. “O fato é que eu tive a brilhante ideia de convidar o pessoal da turma que nunca vai em nada, pra ver se eles se enturmavam melhor. E a Vitória resolveu ir com nós.” A expressão do Lucas e da Luana mostravam claramente que aquilo explicava tudo. Lembrei que também já havia ouvido falar nesse nome. A mesma garota que fez a linda da menina do sorriso bobo sair toda irritada da pizzaria. Teria ela também algo a ver com isso?

“Então, . Eu não sei exatamente o que ela disse pra o Guilherme bombadinho, mas ele se irritou todo e gritou com ela. Daí o Alexandre deu um soco nele e eu saí de lá correndo. ”

Tá, então o peguete da Fernanda gritou com a tal de Vitória irritante e ele saiu no soco com o garoto que a Brenda disse que era um idiota? Tantas fofocas em que eu não entendia quase nada estavam começando a me irritar profundamente.

“Han... Da pra explicar o porquê da tal de Vitória sempre arranjar confusão? É a mesma do assunto na pizzaria, não é?” Perguntei.

Os três se entreolharam desconfortáveis por vários segundos e a foi a Luana quem resolveu falar.

“Você já sabe da história do Francisco, certo?”

“Francisco?”

“O garoto que, sabe... Morreu. Ano retrasado. ”

Ah, o nome dele era Francisco. E aquela história era impossível de esquecer. Mas não entendi o porquê dela ter entrado no assunto. Tinha acontecido a bastante tempo.

Assenti.

“Então, digamos que a Vitória é a guria que tem incomodado todo mundo que estava lá. O Guilherme não estava, eu acho, mas eu sei que alguns amigos dele estavam. Esse é um assunto bem delicado de tocar em. Ninguém nunca fala mais nada, mas a Vitória vive provocando e discutindo com gente aleatória. Nem sei porquê. Ela vive obcecada com isso. ”

As minhas experiências com festas que deram errado diziam que havia muito mais história ali. O comportamento daquela garota não fazia sentido. Mesmo assim, resolvi não puxar mais o assunto. Não era da minha conta, de qualquer maneira. Pelo menos consegui entender alguma coisa da história.

“Então, você é da turma dos maragatos também?” Perguntei para a ruiva. Se ela estava lá era provável, mas eu gostaria de ter certeza.

“Exatamente. Mais alguma pergunta?” Ela me fitou e me mandou uma piscadela. Achei aquilo estranho, mas deixei pra lá.

Pensei em perguntar pra eles sobre a garota que ainda incomodava meus pensamentos, mas hesitei. Estava na cara que aquele meu interesse todo era extremamente insano. Nós nunca nem tínhamos conversado, e eu só a vi duas vezes. Por mais que procurasse, não via seu rosto em lugar nenhum pelo colégio. Também não ouvi mais aquele apelido, Pryzinski , em lugar nenhum. A última coisa que eu precisava era acabar a fim de alguém enquanto tinha recém me mudado.

“Não, pergunta nenhuma não.” Encerrei o assunto e me levantei para ir pedir meu almoço no balcão. A tarde seria longa.

–--//---

Joguei minha mochila no chão e me joguei na minha cama. Talvez o que Alexia disse fosse uma mentira. Uma tarde inteira praticando conversação em espanhol não parecia nada fácil. Fechei meus olhos com a intenção de tirar uma soneca antes do jantar, mas o barulho estrondoso da minha porta se abrindo.

“Adivinha só quem arranjou um emprego?” Era a minha mãe, com voz animada.

“Que maravilha, doutora Ângela.” Falei em tom sarcástico.

“Maravilha mesmo, humpf. ”

“Onde?”

“No hospital espírita. Não é assim tão longe daqui. ”

“Se você diz...”

Minha mãe era cardiologista e se orgulhava bastante da profissão. Eu não dava a mínima.

“Legal. ”

“É melhor você levantar e se arrumar de uma vez que nós vamos sair para um jantar de comemoração.”

“É realmente necessário?”

“É.”

Bufei.

–--//---

Já se passava da meia noite quando chegamos em casa. Meus pais realmente pareciam não estar dando a mínima para o fato de eu ter aula logo cedo. Sentia fisgadas na minha perna que me incomodavam bastante.

Liguei o WhatsApp do celular e mandei uma mensagem para uns dos garotos com o qual havia ocorrido um match no aplicativo Tinder. Ele havia me dito que sabia das melhores festas que aconteceriam no mês, e eu realmente estava precisando de uma. Logo. De preferência já na sexta-feira. Esperei por um tempo que ele respondesse, mas estava tão cansada que logo caí no sono ainda com a roupa que usei para jantar com os meus pais.

Notas finais
Chegou até aqui? Valeu! Críticas, sugestões, comentários só pra dizer um "oi" são muito bem vindos. Sério mesmo. Me faria muito feliz aqui. Enfim, espero conseguir retomar meu ritmo de postagens agora. Como fiquei muito tempo sem postar, pretendo lançar mais um no fim de semana, então não abandonem não, viu? Inté +