Dias de Liberdade

10 Capítulo 9: E que saibam de uma vez.


Notas iniciais
^^

“Deus, me ajuda.”

Era só o que dava pra pensar enquanto a minha cabeça doía de um jeito inexplicável. Já era 8 horas da manhã e não havia sequer conseguido dormir, devido ao tempo que passei vomitando no banheiro. Seja lá o que eu tivesse tomado, não queria experimentar nunca mais. A trip era curta, e os efeitos colaterais vinham rapidamente, de forma duradoura. Meu corpo parecia pesar o triplo do peso. Chegou a um ponto em que era praticamente impossível permanecer de pé. Não confunda com a bobeira do excesso de álcool, porém. Era umas cinco mil vezes pior. Pra ajudar, até mexer os olhos requeria um esforço dolorido. Eu já tinha sorte suficiente por ter conseguido voltar pra casa sem grandes problemas, mais sorte por meus pais já terem ido dormir na hora que retornei, e por fim, sorte ainda pela casa ser grande o suficiente para o meu drama da madrugada não ser escutado por ninguém além de mim. Quer dizer, minhas suspeitas eram que minha audição também estava afetada, pela forma abafada e lenta que até minha própria voz soava. Consequentemente, nem eu me ouvi.

Por sorte (e como ela estava comigo hein), sempre mantinha alguns analgésicos e remédios para enjoo no quarto. Assim que me senti bem o suficiente para tal, fiz um pequeno coquetel de comprimidos e finalmente me joguei na minha cama. Seja lá oque tinha acontecido, havia entrado num buraco de alguma coisa bem pesada, e as memórias do resto da noite anterior estavam o mais vagas possíveis. Mas eu também não era assim tão idiota. Sabia muito bem o risco que tinha e ainda estava correndo. Mesmo assim, a vontade por aquela adrenalina sempre parecia mais atrativa. Uma vez que você se cativa por isso, é difícil de escapar. É difícil de fugir. É como um daqueles vícios horríveis aos quais você jura que nunca vai retornar, mas sempre que aparece uma oportunidade está lá de novo. As vezes aquilo me irritava. As vezes, eu simplesmente deixava levar. Esse era um daqueles dias.



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O baixo e contínuo barulho do fogão nunca me incomodou tanto. Até mesmo aquela massa miojo parecia não ficar pronta nunca. Meu estomago chegava a arder de tanto fome e nada daquela panela acelerar as coisas. Que lixo.

Depois de um tempo me revirando na cama, havia conseguido dormir. Acordei por volta das cinco da tarde. Pra variar, meus pais não estavam em casa. Não que eu me importasse tanto assim, mas... Sei lá. Acho que a nostalgia estava me pegando de jeito. Nem sei do que, mas estava. Devia ser aqueles analgésicos mexendo com a minha cabeça. Tinha a sensação que havia tido um sonho importante, mas detalhes não vinham á memória. Me perdi tanto pensando nisso que não percebi meu pai adentrar á cozinha, enquanto passava a miojo para um prato limpo.

“Han... Eu e a sua mãe tínhamos deixado almoço para você no micro-ondas, sabe.” Falou. Tinha uma expressão serena no rosto. O fitei por alguns segundos. Não dava para acreditar que eu tinha checado o congelador, mas não o micro-ondas. Dei a volta pela mesa da cozinha americana e o abri. Dentro, tinha dois ou três pedaços de uma lasanha super suculenta. Mal pude acreditar.

“Tá de zoeira. “ Falei.

Ele riu.

“Posso comer a miojo, já que eu acho que você vai ficar com isso?” Perguntou divertido.

“Á vontade.” Disse, enquanto saia atrás de mais um prato.



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“Então... Como andam as coisas, no seu colégio novo? Se adaptou bem?”

“Tipo isso. ” Respondi.

“E o que exatamente isso quer dizer?”

“Sim, eu acho. ”

“Que bom então. ” Terminou.

ssim que havíamos saído da cozinha, nos dirigimos á sala e estávamos assistindo TV aleatoriamente. Minha mãe havia saído e aparentemente não voltaria tão cedo, conforme pai disse. Eu poderia simplesmente aproveitar a deixa para continuar o assunto. Conversar com o meu pai não era uma oportunidade muito presente ultimamente. No fundo, era o que eu queria fazer. Mas sabia muito bem que não era o faria. Os motivos, porém, eram complicados. Sabia muito bem que o meu comportamento não era dos melhores, e talvez por isso tivesse desenvolvido um pouco de orgulho defensivo que me bloqueava. Não queria dar oportunidade pra falar de assuntos que eu não tinha a mínima vontade de conversar naquele momento. Aliás, que eu não tinha a mínima vontade de conversar nunca.

Fitei meu pai por alguns momentos, em silêncio enquanto ele checava seu celular. O cinquentão de barba rala que havia conseguido construir seu nome como engenheiro civil com maestria. Tinha mérito, habilidade. Isso só me lembrava do quanto eu não acreditava ser capaz de alcançar metade do que ele conseguiu.

Suspirei, soltei um murmuro aleatório e voltei para o meu quarto. O cansaço ainda tomava conta de mim, mesmo que dormi por quase dez horas. Tomei um banho e me deitei, checando o whatsapp . Nada de anormal se seguia, além dos comentários sobre a festa da Fernanda e uma mensagem da Luana perguntando por que eu não tinha ido. Inventei uma desculpa qualquer sobre um compromisso de família e desconectei meu celular, voltando a dormir. Para aquela hora, era a melhor e única coisa que poderia fazer.

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O celular marcava 7 em ponto quando saí para o portão de casa. Luana já estava me esperando sentada no meio fio.

“Você não sente sono não?” Perguntei na defensiva quando ela me olhou com cara de tédio. Eu sabia que estava cinco minutos atrasada, mas era compreensível.

“Óbvio. Mas tenho compromisso com a minha pontualidade. ” Respondeu. Seu tom de voz não estava irritado nem nada. Só... cansado.

“Sorte a sua.” Larguei. Ela me acompanhou numa leve gargalhada entendiada.

Estendi minha mão para a ajudar a se levantar e então seguimos caminho silenciosas, no inicio do trajeto. Foi só quando já havíamos atravessado a primeira avenida que ela resolveu puxar assunto.

“Então, … Você não tava na festa da Fernanda... Deveria ter ido.” Falou, me fitando.

“Pois é. Eu realmente não tinha como. Minha mãe tava enchendo o saco e tal. ”

A expressão com que ela me olhou foi estranha. Sua boca se abriu por um segundo, como se estivesse prestes a falar alguma coisa, mas de repente, como se desistisse, se calou novamente e terminamos de chegar ao colégio em silêncio. Silêncio daqueles densos, que ninguém se permite quebrar. Aquilo me preocupou bastante. Por que parecia que ela sabia de alguma coisa e não queria me contar?

–--//---

Tentei me focar na explicação que o professor de Matemática dava, mas não havia condições. Eu simplesmente não estava conseguindo pegar nada da matéria. E as provas estavam super próximas. Que maravilha.

Natalia? Tu tá ouvindo o que eu to dizendo, guria?” Ouvi Milena perguntar. Pela maneira como ela estava falando, acho que havia estado me chamando por algum tempo.

“Desculpa, eu... Tava tentando entender esse cálculos, mas não tem condições.” Falei, apontando pro caderno.

“Ah, pois é. Não tem como mesmo. ” Ela riu, e então tornou a falar. “Eu tava falando das eletivas. Tu sabe que não vai ter nenhuma essa semana e nem na próxima, certo?”

“Não vai? Por que? ” Me surpreendi.

“Período de provas. As eletivas são trancadas pra dar mais tempo de dedicação as demais disciplinas. ”

“Ah.. Saquei. Eu não sabia não. Valeu por avisar. ” Falei, então olhando pras outras “gurias”, que estavam conversando alguma coisa sobre a festa da Fernanda. Parece que tinha sido interessante, já que tava todo mundo comentando tanto. Isso me lembrou da Luana. Ela não sabia de nada, certo? Como poderia? Eu é que andava paranoica demais, era a única explicação óbvia para aquilo. De qualquer forma, resolvi perguntar da festa pra Milena. Ela me respondeu que tinha sido legal, uma pena que eu não tinha a ido. Me perguntou o motivo. Respondi com a história inventada pra responder á Luana. Ela me olhou com cara de tédio. Tipo um “uhum”, e suspirou.

Não, não tinha como ser só paranoia minha. Realmente tinha alguma coisa ali.

Eu estava me decidindo se perguntava ou não sobre o assunto, quando o sinal para o intervalo soou. Saímos todo mundo da sala e, como sempre, me dirigi ao barzinho do colégio com as gurias. Como estava chovendo na rua, o ambiente se encontrava duas vezes mais lotado que o normal. Talvez assim as gurias se distraíssem e não percebessem o quão nervosa eu estava. Tinha uma visão nítida na cabeça de que sabiam de algo. Só não sabia o que. Um pouco dos problemas que passei com as ex amigas e ex colegas de São Paulo me veio a cabeça. Por esse motivo, até perguntar se tinha algo errado não parecia nem de longe a coisa que eu mais queria fazer naquele momento. De qualquer forma, a minha intenção era que as coisas fossem diferentes dessa vez, então resolvi que teria de dar um jeito nisso. O único problema era que se realmente se tratava de paranoia boba da minha cabeça, eu estaria dando um alerta bem esquisito da minha conduta. Decidi sair pra falar com a Luana então, largando qualquer desculpa esfarrapada de que eu voltaria logo para as meninas.

Ela não parecia estar em lugar nenhum. Procurei por todo o pessoal que estava no bar, atravessei o pátio molhado até o prédio principal, vasculhei os corredores do prédio da biblioteca e mesmo assim não a encontrei em lugar nenhum. Foi então que percebi que nunca tinha feito ideia de por onde aquela paranaense e o Lucas se “escondiam” durante o intervalo. . Também não conseguia encontrar a Bruna, que talvez pudesse me apontar onde eles estariam. Como última alternativa, entrei no setor das salas de aula, percebendo que os corredores do primeiro andar se encontrava estranhamente vazio, comparado ao resto do colégio. Seria sempre assim, ou coisa da ocasião? De qualquer forma, até no banheiro do andar resolvi procurar. Mas quando reparei que não tinha ninguém e resolvi dar meia volta, meio que não foi possível. Uma menina de cabelos negros e volumosos, de pele branca tão pálida que chegava a ter uma aparência quase doente, me olhava com uma expressão meio raivosa.

“Oi?” Cumprimentei confusa.

“Oi.” Respondeu.

Ficamos nos avaliando e nos fitando por alguns segundos. Por que aquela garota estava me encarando? Encarei de volta, embora sem vontade. Seja qual fosse o drama, eu não tinha a mínima vontade de participar dele.

“Vitória.” Ela se apresentou, depois de um tempo.

Porra. Aquela Vitória que todo mundo dizia que era intrometida e vivia se metendo em confusão? Que que eu tinha feito pra merecer?

Mesmo que só pra manter a educação, fiz menção de me apresentar. Ela levantou a mão e me fez parar, em menção de que obviamente já sabia o meu nome. Começou a falar, então.

“Guria tu mal chegou aqui e já quer se meter em porcaria daquelas? Qual é o teu problema hein? Eu conheço essa droga desse teu tipo de gente. Enquanto tu estiver aqui ou tu te aquieta por que se não...” Seu tom era de ameaça.

Eu não podia acreditar. Simplesmente não podia acreditar. Ela deveria estar de zoeira com a minha cara, só pode.

“Nossa garota, qual é o seu problema? Bem que todo mundo diz que você é um é pé no saco mesmo. Vê se não me enche, ou -” fiz uma pausa para desenhar aspas no ar “se não...” Gargalhei, imitando o que ela havia dito. Quem aquela doente era pra pensar que podia me afrontar daquele jeito sem nem me conhecer? De qualquer forma, resolvi me aproveitar da situação.

“E aliás, quem falou pra você alguma coisa hein? Que povo que adora uma fofoca. ”

“Eu te vi , sua idiota. ” Ela riu, meio divertida. O que droga tinha de divertido ali? Eu estava começando a me irritar de verdade com aquela garota. “Toda acabada no chão, mal conseguindo se levantar. Acha que é legal? Esse teu povo que além de se acabar ainda acaba com os outros...”

Ela se aproximou.

“E o que que você ganha se metendo e reparando na vida dos outros, hein? ”

“Justiça.” Respondeu simplesmente.

Comecei a rir como não fazia em algum tempo. Mas que merda? . Garota doida se achava a justiceira agora? Virou novela mexicana a minha vida?

“Para de rir, guria. ” Ela disse, praticamente partindo pra cima de mim, com expressão raivosa. Ia me preparar pra me defender quando uma voz atrás dela surpreendeu a nós duas, nos fazendo se virar.

“Porra, que merda. Já deu já né? Dá pra parar o showzinho, Vitória?”

Vitória simplesmente bufou do meu lado, enquanto Pryzinski praticamente ria da nossa cara, escorada na porta.

“Guria, eu já te disse o quanto tu parece uma doente mental quando começa com essas tuas asneiras? Vaza daqui. ”

Eu podia jurar que a garota de pele pálida ia avançar pra outra que ainda esbanjava um sorriso divertido com a situação, mas ela simplesmente chutou o chão e saiu do ambiente. Antes de sair, porém, jogou algo como “eu devia saber que se conheciam”.

Eu devo ter ficado parada, sem reação por mais uns 10, talvez 15 segundos. Tudo parecia uma bela de uma piada sem graça.

“Se culturalizando com o folclore do colégio?” Pryzinski sorriu pra mim e soltou uma piscadela.

“Folclore do colégio? ” Perguntei, quase rindo.

“Não vai encontrar nenhum bicho místico nesse lugar que se compara a esse dai, pode ter certeza. ” Dessa vez, a minha gargalhada foi realmente espontânea.

“Enfim, eu realmente tinha te pedido pra ti não se meter em confusão, ou me esqueci? ” Continuou.

“Não é culpa minha se a garota apareceu do nada que nem uma doida. ”

“Não é o que eu quis dizer. ” Franziu o senho.

“Ah, tá. Você disse pra não aparecer naquele prédio de novo. E de qualquer forma? O que você a tem a ver com isso também?” Eu poderia ter soado agressiva, mas foi mais como uma leve desconfiança.

“Tem razão.” Levantou as mãos em rendição. “Não tenho nada. Mas é bom tu saber que a Vitória espalhou pra todo mundo possível que te viu por lá, então é bom conversar com o teu pessoal ou vão ter desconfiança contigo.”

Puta merda. Então era verdade. E tudo culpa daquela vagabunda daquela garota. E agora, o que eu ia fazer?



“Eu vou quebrar a cara daquela doente. ” Soltei, dando menção a passar pela porta. Pryzinski me segurou pelo braço, no entanto. O toque me deu arrepios, mas disfarcei o máximo possível.

“Não. Olha... Pode parecer sem sentido. Mas se eu pudesse, também faria isso. A questão é que isso não pode ser feito. Tudo bem? Por favor, não faz isso.” Seus olhos estavam suplicantes. Realmente suplicantes.

Perguntei o porquê e ela simplesmente respondeu que era complicado. Se eu não quisesse drama, era melhor nem saber.

“Tudo bem então, né.” Me acalmei. Se qualquer outra pessoal dali tivesse pedido, a última coisa que eu iria fazer era concordar sem uma explicação. Resolvi me aproveitar um pouco, de qualquer forma. “Mas é a segunda vez que você me pede alguma coisa em menos de um mês. Não tenho o direito de cobrar nada?”

“Quando quiser. ” Respondeu com uma piscadela.

Eu ia dizer mais alguma coisa, mas a Aléxia apareceu na porta bem na hora.

“Finalmente, guria. Eu tô a meio ano te procurando. ” Olhou pra mim.

“Eu?” Perguntei.

“É tu. ” Respondeu, enquanto dava uma leve empurrada na Pryzinski para conseguir passar pela porta. Não parecia estranhar a presença dela ali.

“O que tu tá fazendo aqui?”

“Tava discutindo com a Vitória. ” Pryzinski respondeu por mim.

“Ah, lindo. Aquela vadiazinha. -” Fez uma pausa. “Mas enfim, eu queria mesmo falar contigo sobre o que a Vitória falou de ti. A gente não se importa se tu curte umas raves ou coisas do tipo mas, por que mentiu pra gente, sobre Sábado? Não curtimos isso não, viu? ”

Para tudo, então não se importava? Eita. Isso seria extremamente novo pra mim. Mas também significava que eu tinha algumas explicações pra dar.

Notas finais
Sim, tava precisando dar uma adiantada em alguns pontos. Comentários e críticas construtivas são muito bem-vindos e ajudam a aumentar a minha vontade de descrever alguma coisa, então não hesitem se estiverem a fim de dizer alguma coisa. :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.