Dias de Chuvas
17 Capítulo 18
— Eu não acreditaria se eu não estivesse vendo com meus próprios olhos o quanto você evoluiu em menos de uma semana.
— Eu treinei muito Roberta.
— Mas isso não é apenas treino, querida, é preciso ter um dom natural muito intenso para isso. A maioria dos descendentes das nossas Deusas não o possuem da mesma maneira que você. Isso só me mostra o quão difícil será seu desafio que está se aproximando.
— Agora que terminamos o treinamento por hoje, podemos conversar? Você ficou de me contar se descobriu algo sobre o que conversamos da ultima vez lembra?
– Claro que sim, eu prometi refletir sobre o assunto da Joana, eu procurei as respostas em meus livros. Eu precisei de muito tempo de pesquisa, mas primeiro quero que você me confirme uma coisa.
— O que? – ela pega um livro que até esse momento nem havia percebido que estava ali no canto, perto das velas.
— Olhe esse símbolo, aqui no livro, você o reconhece?
— Sim é o mesmo que está no livro em branco da Joana.
— Com eu já suspeitava há algum tempo ela sabe sobre as Deusas, esse, querida, é o símbolo dos quatro elementos, e no meio podemos ver a alma, que foi formada por um pedaço de cada um dos elementos.
— Minha mãe que contou para ela.
— Exatamente, assim como eu deixei você livre para contar para seus amigos, e para meu neto também, eu a deixei livre também. Na época meus filhos já sabiam, porque era minha obrigação orienta-los, para quando cada um tivesse seus filhos eles pudessem passar a diante. Eu queria contar para o Miguel também, mas o Luiz não deixou em enchê-lo com essas histórias bestas, então recebi uma orientação da Yara de que na hora certa ele iria descobrir, você sempre teve seu destino ligado ao dele.
— Mas minha mãe ficou com medo depois de contar para a Joana.
— Eu acho que sua mãe estava mais com medo do seu novo orientador do que da Joana.
— Como assim?
— Eu posso apenas supor isso, mas acho que esse homem que ela descreve no seu diário devia ser alguém que também entende sobre os elementos. E que queria usa-la por algum motivo, provavelmente para atingir a força das nossas Deusas, afinal a cada filha afastada de seu caminho, mais elas são esquecidas, até elas sumirem.
— Quem poderia querer algo assim?
— Eu tenho certeza que você sabe a resposta.
— Jupi?
— Exatamente, eu desconheço o plano dele, mas sei que o objetivo principal ele é conseguir nos afastar delas, para assim elas não existirem. Ele então vai conseguir voltar para Umarama, tomar o seu lugar e então ser o único espirito que ainda exista, ele é muito invejoso.
— Mas então o desaparecimento da minha mãe tem relação com ele? E a Joana?
— Ainda não sei como ela entra nessa história, mas provavelmente ela foi influenciada pelo Jupi. Sabe o livro em branco? Eu achei diversas referencias ao livro de Jupi, precisa de um feitiço que só ele conhece para conseguir visualizar os rituais ali contidos. Eu temo que seja isso que a Joana tenha guardado no seu quarto.
— Como eu posso chegar até esse homem?
— Você não chega até ele, ele vem até você. Por isso o seu treinamento tem que ser ainda mais intenso. Na sexta feira vamos começar a treinar alguns rituais. Por enquanto é só isso, que a Deusa te acompanhe. E vá logo ver o meu neto que ele está ansiosamente te aguardando no quarto dele.
Como previsto pela Roberta ele estava me esperando em seu quarto, e ele queria saber tudo que sua avó havia me contado, eu queria contar logo, mas sei que a Sophia e o Murilo também vão querer saber, por isso sugiro irmos nós quatro para o lago da cidade, para podermos conversar.
Antônio me deixou junto com o mimado e a So no lago, e no nosso cantinho especial o Murilo já estava nos esperando. Ele havia trazido também algumas coisas para um piquenique. Enquanto nós comíamos eu fui contando a teoria da Roberta sobre o Jupi, e sua possível relação com o desaparecimento da minha mãe.
— Eu já entrei algumas vezes no quarto da minha mãe, e nunca vi nenhuma foto com esse homem.
— Provavelmente porque você nunca entrou lá com o intuito de procurar alguma coisa, meu amor.
— Acho que sim, mas você não me contou aonde achou essa foto.
— Em uma gaveta disfarçada no closet de seus pais, do lado da sua mãe tem uma gaveta a menos, quando eu puxei uma trava ela abriu.
— Vou dar uma olhada nisso. Quero ver se eu reconheço esse homem.
— Você pode tentar, mas cuidado, não queremos que sua mãe descubra nada.
— Pode deixar, Murilo – nesse pequeno período em que o Miguel começou a andar com o meu grupo, eu percebi que realmente ele não possui muitos amigos verdadeiros, por isso ele encaixou-se muito rapidamente com a gente. Ele estava totalmente carente de amizades, de amor, coisas que ele recebe pouco em sua casa.
— Que fofo você preocupado com o Miguel, Murilinho?
— Eu estou preocupado com o nosso plano, não com esse menino.
— Mas o Mu tem razão, mimado, se cuida tá bom?– eu corto a Sophia que provavelmente iria continuar provocando ainda mais o nosso amigo, e ele iria acabar respondendo, e então isso não teria mais fim.
— Eu prometo chatinha.
Na sexta feira quando eu cheguei à casa do Miguel, após deixarmos a Sophia na casa dela, almoçamos juntos, mas dessa vez sem a interrupção da Joana, ela aparentemente nem estava em casa. Eu comi o mais rápido possível porque queria começar logo meu treinamento.
— Para fazer um ritual você precisa de toda a sua atenção e concentração de áurea em um ponto de seu corpo, a maioria dos feitiços partem do coração a concentração, e a áurea vai em direção à fala, alguns ainda precisam da concentração nas mãos. Normalmente os rituais que nos permitem mover coisas a atrai-las precisam apenas das mãos, são os feitiços mais fáceis. Vamos começar por eles.
Estamos nós duas na beira do lago como das outras vezes, entretanto dessa vez o Miguel está sentado no quiosque nos observando.
— Ótimo, você está muito boa em atrair a energia da água para você agora concentre-a em sua m... Isso mesmo. Agora deseje algo físico, algo que dependa apenas de movimento para acontecer. Lembre-se que você não tem o direito de mover o curso de um lago, mas pode sempre usa-lo sem estraga-lo. Não precisa falar na maioria dos rituais só pensar.
Eu não consigo de primeira mas depois de um tempo consigo fazer a energia que estava em minhas mão irem em direção a um canteiro de rosas aqui perto, e aos poucos a energia volta a ser apenas água, molhando as plantas.
— Muito bem, você usou seu elemento para algo que precise dele mesmo, como regar uma planta, encher um copo de agua também é possível, encher uma piscina, desde que você tenha a fonte da água perto de você e a energia concentrada em suas mãos você consegue isso. Mas você consegue atrair também coisas mais físicas, tente atrair qualquer coisa para você, é só desejar.
Eu sei muito bem o que eu desejo. Eu me concentro durante alguns minutos, e quanto mais desejo mais a energia sai da minha mão e vai em direção ao quiosque, a energia envolve o Miguel, e aos poucos ele vem em minha direção.
— Eu não sei o que você está fazendo, chatinha, mas alguma coisa me fez vir até você.
— Você veio porque eu te desejo.
— Eu também... Você é linda sendo uma bruxinha.
— Vocês são fofos, mas volte para o seu lugar Miguel, chega de atrapalhar ela – ele me dá um ultimo beijo e volta para o quiosque.
— Agora eu gostaria que você usasse a energia que está na sua mão para me molhar, do mesmo jeito que você molhou as plantas.
— Certo – mais rápido do que nos rituais anteriores eu consigo molha-la.
— Agora você vai atrair a agua que está em mim para você em forma de energia, da mesma maneira que você pega a áurea do lago.
Isso se mostra ser um pouco mais difícil, porque são pequenas gotas apenas que estão pelo seu corpo, diferente da imensidão do lago. Quando eu consigo a energia vai direto para minhas mãos onde a energia ainda estava acumulada, e a Roberta fica seca novamente.
— Molhe-me novamente – ela mal termina sua frase eu já cumpri sua ordem.
— Agora ao invés de atrais a energia da água em mim para você, atraia água, semelhante ao jeito que você atraiu o Miguel.
A energia começa a sair das minhas mãos, e envolvem o corpo da Roberta, e então a energia volta para minha mão enchendo a de água, que antes estava nela.
— A água de qualquer fonte você pode atrair e colocar em qualquer objeto, dessa maneira que você fez, só que após tirar da fonte original direcione a para outro objeto e não para sua mão.
— Acho que por hoje basta. Mas quero que você treine isso tudo até quarta que vem, okay?
— Certo, muito obrigada Roberta, a senhora é incrível.
— Você que é. Que a Yara te acompanhe.
— Que a Yara fique com você também – é estranho dizer isso pela primeira vez, mas depois de hoje u me sinto de certa forma conectada as Deusas. Eu ainda fiquei um pouco na casa do Miguel, até começas a escurecer quando ele me levou até em casa.
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