Eu nunca me senti tão feliz quanto ontem com o Miguel, ele é incrível em todos os sentidos. Ele é a pessoa que mais surpreendeu positivamente nos últimos anos. Ele é um dos motivos de eu acordar esse sábado alegre, e querendo chegar logo na casa dele. O outro motivo para eu estar tão ansiosa para ir ele vai precisar me ajudar.

— Maria, minha mãe me contou que só entra no quarto da Joana uma vez por mês só para dar uma geral, normalmente ela faz sua própria limpeza em seu quarto. Minha mãe a acha uma chata, mas não fala isso diretamente é claro.

Eu já imaginava isso, principalmente depois da conversa que tive ontem com o Miguel, e isso me faz ter ainda mais certeza que essa mulher esconde algo naquele lugar. E eu pretendo descobrir hoje.

— Bom dia, chatinha. Bom dia Sophia e namorado da Sophia.

— Miguel para de provocar os dois, deixa o casal.

— Vou tentar meu amor, mas é muito difícil. E você dormiu bem depois de ontem?

— Dormi sim, mas para de falar sobre isso agora – eu não vou ficar com vergonha por causa desse mimado.

— Você é uma fofa toda vermelhinha.

— Idiota. Mas me conta qual o seu plano para tirar sua mãe daqui?

— Eu nunca te contei, mas eu sou realmente bom em tudo, inclusive como ator, vou fingir que estou doente. Normalmente ela manda o Antônio me levar, mas hoje eu dei o dia de folga para ele.

— Ela pode acabar pedindo para sua vó te levar,

— Poderia mesmo, mas tem um pequeno detalho. Ela não sabe dirigir, o Antônio é meu motorista e dela.

— Obrigada, meu mimadinho.

— Vocês dois me dão náuseas, ninguém merece vocês, não é Murilo?

— Se eu ver mais um beijo deles eu vou precisar de insulina de tão doce.

— Bem sem graça vocês, né Miguel?

— Chatinha, nós somos um casal muito mais divertido.

— Com certeza, mimado. Murilo hoje você limpam por favor os outros quartos, enquanto eu vou entrar no quarto da Joana, e depois eu ajudo vocês a limpar os outros cômodos. Pode ser?

— Sabe Sophia, acho que nós estamos sendo enganados. Só a gente limpa essa casa.

— Desculpa Mu, você sabe que eu amo vocês.

— Sim só por isso eu aguento esse “emprego”, e esse seu namoradinho.

— Depois desse dito namoro, filho, essa empregadinha agora não faz nem a função dela. Por que vocês não estão trabalhando? Estão achando que essa garota já é a dona da casa.

— Por mim mãe ela nem trabalhava mais para você para não ficar aguentando seus desaforos. Mas ela está aqui ainda, porque ela ao contrario de você me conhece, e assim que ela entrou já percebeu que eu não estou bem hoje.

— O que você tem Miguel?

— Estou com muita dor de cabeça, mãe. Eu nunca senti nada assim, só consegui levantar com a ajuda da Maria – o braço dele está apoiado em meu ombro desde que a Joana apareceu na sala, fingindo que não está conseguindo ficar em pé ele fica tremulo ao meu lado, e quase nós dois caímos juntos, só a presença do Murilo segurando o que impediu a queda.

— Pede para o motorista te levar ao hospital, Miguel. Eu estou ocupada hoje.

— Mãe hoje o Antônio está de folga.

— Eu não entendo essas ideias que vocês têm de dar folga para os empregados. Eu não tenho folga, já parou para pensar.

— Folga do que? De ficar atormentando as pessoas? – eu escuto o sussurro da So atrás de mim, e seguro a risada.

— Eu vou te levar no hospital, mas espero que não seja besteira, em menino.

— Obrigado Joana, até que você sabe ser uma mãe quando eu te obrigo não é?

— Eu vou ir me trocar, e vou fingir que não escutei o que você falou viu criança.

Ele espera a mãe desaparecer para poder falar comigo.

— Chatinha, pode ser que o quarto dela fique fechado, mas meu avó tem uma chave mestra no escritório dele, na última gaveta. Eu já peguei varias vezes para fugir de casa quando era mais novo.

— Ou seja, ano passado né Miguel?

— Sophia, fica quieta. Deixa ele terminar de falar

— Tá bom Murilinho. Só porque eu concordo com você dessa vez.

— Meu avô precisou sair para verificar nossas lojas na cidade, mas ele volta logo, então vai rápido para o escritório. Eu vou esperar minha mãe no carro, você pode me ajudar a chegar lá, Murilinho?

— Apenas pelo bem do nosso plano, mas não se acostume.

Enquanto os dois vão para garagem, eu e a Sophia vamos procurar o escritório, eu peço para ela ficar do lado de fora e se alguém se aproximar ela me avisar por mensagem ou ligação. Deixo meu celular no modo de vibração para ninguém ouvir no caso dela precisar me chamar.

Assim como o resto da casa o escritório é decorado de uma forma elegante, com um sofá de couro em um canto, estantes de livros, e uma escrivaninha com uma poltrona que combina com o couro do sofá.

— Essa chave está na ultima gaveta, deve ser aqui – dentro dela eu encontro algumas pastas e no fundo uma chave que eu espero ser a certa. Tento deixar tudo do mesmo jeito que estava antes.

— Conseguiu Ma?

— Consegui sim, agora você e o Murilo vão para os quartos começarem a limpar, quando eu terminar de olhar o quarto da Joana eu devolvo a chave e vou ajuda-los.

— Cuidado amiga, e se alguém perguntar por você eu falo que você está no banheiro ou algo do tipo.

— Eu vou ter cuidado.

Vou para ala direita e finalmente consigo entrar no único quarto que eu mais desejava ver. Eu fecho a porta novamente, dessa vez comigo dentro.

O quarto é enorme uma cama king size fica no centro do quarto , embaixo dela um baú, começo mexendo nele. Mas não encontro nada demais, apenas jogos de cama embaixo da televisão está um criado mudo que começo a abrir gaveta por gaveta, mas também só encontro pastas de documentos, e alguns álbuns de fotos. Conforme vou folheando os álbuns eu encontro umas duas fotos do Miguel criança, e no ultimo álbum fotos da Joana e do Luiz adolescentes. Uma das fotos esta minha mãe junto com o casal, e mais um garoto, eu não consigo identifica-lo. Talvez seja o irmão do Luiz, o João, eles não são muito parecidos, apenas alguns traços.

Eu continuo procurando, o próximo móvel é uma penteadeira no canto do quarto, não encontro nada também, apenas joia e maquiagens.

Entro no closet, que é bem maior do que o do Miguel. Eu começo olhando a parte da Joana, e fica claro para mim que a maioria das suas coisas são roupas finas, que deve valer quase o preço da minha casa. Não encontro nada demais também, quando começo a olhar na parte do Luiz algo me incomoda. Olho novamente para a parte da Joana.

— Claro, uma gaveta a menos – no lugar onde o Luiz possui 6 gavetas, a Joana só possui 5. Não é por acaso, afinal os dois lados são exatamente iguais, exceto por isso. Abro novamente a quinta gaveta dela, e retiro todos seus pijamas, mas só encontro madeira, nenhum fundo falso, organizo rapidamente suas roupas e fico olhando seu armário. Embaixo dele tem um vão, eu coloco minha mão e sinto uma trava, eu aperto e ainda com a mão embaixo puxo a madeira. E aos poucos a gaveta vai saindo como um baú. Eu coloco no meu colo e começo a retirar tudo que tem dentro.

Encontro mais uma foto da Joana, só que nessa foto ela está ao lado de um homem alto, que parece ser mais velho do que ela, mas não mais do que uns 5 anos, os dois estão perto de uma casa velha, e ao lado da casa tem um lago. Em outra foto vejo minha mãe ao lado deles, no mesmo lugar.

Ainda nessa caixa encontro um livro em branco, mas na capa está um símbolo diferente. Ela possui também algumas folhas soltas de um diário, rapidamente eu vejo que tem o nome da minha mãe. Era o diário dela, pelo menos o que sobrou dele. Eu começo a ler as páginas que encontrei.

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Eu estou com medo disso, nunca antes foi assim, não com a Roberta, eu não sei o que é esse ritual que ele está querendo me ensinar. Eu quero ter a Joana ao meu lado, ela é minha melhor amiga, e ela merece tanto quanto eu, mas eu estou assustada, segunda eu acordei e não me lembrava de noda, apenas da Joana. Sorte que o meu amor me achou e cuidou de mim até eu estar melhor, só então eu consegui voltar para casa, a Ana estava morta de preocupação como eu já esperava, eu acho que eu não quero mais encontrar os dois. Para mim já deu.

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Eu acho que estou gravida, eu tentei conversar com ele, mas ele não me atende, nem a mãe dele sabe onde ele está, será que aconteceu algo com ele? Eu estou com medo, com saudades, eu preciso de você, meu amor.

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Finalmente descobri onde ele está, em São Paulo, ele falou que não quer saber de mim, não quer me escutar nunca mais, ele não me deixou falar sobre a nossa filha que acabou de nascer. Eu estou sendo forte por ela, mas está cada dia mais difícil.

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Hoje a Joana veio me ver, ela falou que precisa de mim, mas não posso mais desaparecer agora eu tenho a Maria para cuidar, ela é tudo para mim, eu sei que a minha amiga vai me odiar, ela já gritou comigo, mas não posso mais fazer nada, hoje vou atrás da Roberta, acho que ela pode me ajudar a resolver meu problema com a Joana, espero que sim.

Está é a última folha do diário da minha mãe, o resto eu não sei o que aconteceu. Não tem mais nada de importante. Eu guardo a gaveta no lugar, travo-a novamente e saio do quarto. No caminho do escritório encontro meus amigos.

— Já terminamos de limpar os quartos, estávamos começando a ficar preocupados. A Sophia já estava querendo ir lá te salvar.

— Você descobriu alguma coisa? Você está com uma cara estranha.

— Descobri, vocês podem devolver a chave por mim, estava na ultima gaveta, bem no fundo. Eu preciso ir conversar com a Roberta, eu encontro vocês depois na casa da Sophia.

Eu encontro a Roberta no lugar onde já esperava, na beira do lago, e ela está sentada.

— Eu estava esperando você. Eu sabia que você ia aparecer.

— Como você sabia?

— Você pode não acreditar, mas quando a gente começa a abrir nosso dom fica mais fácil nos comunicarmos com a Deusa Yara, ela falou que você ia precisar de mim hoje.

— Você pode ter sido a última pessoa que viu minha mãe no dia que ela desapareceu Roberta, por que não me contou?

— Maria, eu não vi a Carla naquele dia. Eu estava em São Paulo com o Marcel.

— Mas eu li seu diário, ela falou que ia vir aqui, que só você podia ajuda-la.

— Aonde você viu esse diário? Pode confiar em mim, conte-me.

— No quarto da Joana.

— Você sabe que eu ensinava sua mãe a lidar com seus dons, mas no ultimo ano antes de seu desaparecimento ela parou de vir me procurar, ela ainda saia com a Joana e meus filhos, mas acho que ela não queria mais minha ajuda. E acho que a Joana influenciava bastante sua mãe, porque na época ela já namorava o Luiz, e sempre que eu pedia para ela trazer a Carla aqui ela mudava de assunto.

— Ela tem alguma relação com o desaparecimento da minha mãe, Roberta. Eu sei que tem, no quarto dela eu também vi uma foto dela com um homem, as duas, eu não sei quem ele era. Mas minha mãe fala sobre ele no diário também, ela estava com medo dos dois, eu senti isso em cada palavra escrita, principalmente depois que eu nasci.

— Eu não imagino quem possa ser esse homem, eu não me lembro de mais ninguém que andasse com elas, além dos meus filhos é claro.

— Outra coisa, dentro do baú havia um livro em branco também, com um símbolo diferente de tudo que eu já vi.

— Eu preciso refletir um pouco... Talvez eu saiba de algo, mas nunca vi nada assim antes. Não tem precedentes, eu preciso estudar sobre isso. Na próxima sexta feira a gente conversa sobre isso. Ma acho que vou precisar intensificar seu treinamento, talvez você precise dele mais cedo do que eu esperava. Vou te passar uma lição de casa para essa semana.

— O que?

— Eu quero que você tire uma hora do seu dia para treinar o controle sobre a Aurea, pode ser no lago da cidade, no chuveiro, não importa. Eu vou te mostrar como faz agora e durante a semana você tenta sozinha. Melhor ainda eu quero ver você quarta e sexta da semana que vem, pode ser?

— Pode sim.

— Agora olhe para o lago, hoje não está chovendo, mas você ainda consegue ver a áurea saindo do lago não é? – eu apenas aceno com a cabeça, concordando – ótimo, agora focaliza bem essa luz verde em sua mente, está vendo como ela está começando a vir na nossa direção, quando você estiver mais experiente não vai precisar ficar olhando para a água para atrai-la, vai ser algo natural, ela simplesmente vai te acompanhar, enquanto você estiver no seu alcance. É isso que eu quero que você treine até quarta. No banho treine a concentração, se imagine na chuva, e deixe a áurea caminhar por todas as partes do seu corpo, concentre-a em sua mão, peito, cabeça principalmente, essa é a parte mais importante para os da Yara. E quando estiver no lago, com a torneira, com um copo de água tente atrair a áurea para você. Para tudo isso é necessária concentração. Até quarta Maria.

— Até quarta, Roberta. Obrigada.