Quinta-feira o Miguel passou a tarde em casa, e a presença dele na minha vida nessa semana foi constante, quando não física pelo menos em pensamento. Minha tia aos poucos está aceitando um pouco melhor ele. Mas muito mais pelo fato dele ser um cara muito mais cavalheiro quando ela está presente do que quando ele está com qualquer outra pessoa.

Ontem ele ficou até depois das oito da noite aqui em casa, não porque ficamos fazendo algo junto, como qualquer casal normal, mas o que fez ele ficar mais tempo aqui, foi o convite da minha tia para ele jantar com a gente, seguido então da sua tentativa de conquistar minha tia.

Ele lavou toda a louça, e ficou conversando com ela sobre como eu sou preguiçosa e não ajudo em nada, eles se empolgaram tanto que até mesmo esqueceram-se da minha presença ali. O Miguel fala que não, diz ser apenas um plano para minha tia aceitar melhor nossa relação. Mas acho que ele estava gostando até demais de ficar fofocando sobre mim com ela.

Assim que toca o sinal da escola, anunciando a última aula eu e a Sophia vamos encontrar o Miguel.

— Então vou ter que dar carona para a minha mais nova amiga também? Oi Sophia, como está o Murilinho?

— Já estou sabendo que você fica falando que eu e ele temos alguma coisa. Nem vem com essa história para cima de mim, prefiro ir de ônibus do que ficar ouvindo essa conversa.

— Duvido muito. Você tem uma cara de preguiçosa que não gosta de andar. Entra logo no carro menina... Oi chatinha, como foi seu dia? – ele me da um abraço apertado e cheira meu pescoço.

— Os dois podiam parar de ficar se agarrando que eu e o Antônio não estamos aqui para ficar de vela não.

— Você é uma chata viu menina.

Primeiro deixamos a Sophia na casa dela, para depois entrarmos na casa grande, e fiquei totalmente surpresa por encontrar o avô do mimado pela primeira vez.

— Oi vô o senhor voltou de São Paulo? Como foi a viagem?

— Foi ótima, Miguel, da próxima vez eu vou te levar, você precisa começar a aprender um pouco sobre os negócios da família. E quem é essa mocinha?

— Prazer sr. Marcel eu sou a Maria, eu venho limpar a casa para a Marta todo sábado.

— Ela é minha namorada também vô – ele me abraça por trás e cola seu corpo ao meu.

— Para com isso menino, solta.

— Cuidado em Miguel, ela parece ter o mesmo temperamento da sua vó.

— O que você está falando de mim, em amor?

— Nada minha vida, só que eu estava com saudades.

— Eles são sempre assim? – pergunto ao Miguel baixinho não querendo atrapalhar o beijo do casal.

— Quase sempre, eles são o casal mais apaixonado que eu conheço... Ei vocês vamos logo parando, assim vão deixar a chatinha sem graça.

— Por mim vocês podem continuar, eu estou achando isso bem fofo.

— Viu Miguel? Quem tem vergonha é você.

— Longe de mim, ter vergonha de você, dona Roberta. A senhora é a minha rainha.

— Você não tem jeito mesmo meu amor. Vocês ainda não almoçaram né? Eu já imaginava por isso estava esperando vocês para comer.

Almoçar com a família Almeida é uma experiência única para mim, seus avós são fofos e brincalhões, e tratam o Miguel como um filho, imagino que bem mais do que a própria mãe dele. Falando na demônia...

— Oi Miguel, tudo b... Posso saber o que a empregada está fazendo almoçando na mesa principal?

— Deixa disso, Joana, ela é só uma colega do Miguel.

— Colega não vó, a Maria é minha namorada mãe, e não vou aceitar você a destratando assim.

— E posso saber desde quando você está namorando essa menina?

— Não mãe, a senhora não pode saber, enquanto você não trata-la com o respeito que ela merece você não tem nada com isso.

— Meu filho, eu acho que você está fazendo uma estupidez. E a Larissa? Você já parou para pensar nos planos que a gente tinha para você?

— Mãe a Larissa nunca foi nada minha. Você que colocou essa ideia fixa na cabeça.

— Joana, eu acho que você já falou mais do que deveria, se você não vai se juntar a nós para comer, a melhor coisa é se retirar. Eu não aceito você destratando ninguém nessa casa, nem empregados, muito menos a namorada no meu neto.

— Acho que eu não sou bem vinda mesmo nesse almoço, Marcel, acho que perdi a fome.

— Ótimo, quando recuperar seu apetite e educação pode comer algo – Joana sai da sala de jantar enfurecida, deixando o ambiente em um silencio incomodo.

— Desculpe, não foi minha intensão causar nenhum problema entre vocês.

— Queria eu que peço desculpa pelas palavras da minha nora. Ela as vezes esquece que essa casa é minha e da minha mulher.

— Fica tranquila, chatinha, você nunca atrapalha – ele pega em minha mão e a beija suavemente.

— Você já acabou de comer Maria?

— Já sim, senhor... Roberta. Desculpa é mais forte do que eu.

— Tudo bem querida, logo se acostuma. Agora vamos lá para o lago, nós temos algumas coisas para fazer. E a nossa sorte é que hoje está chovendo.

Caminhamos juntas até o lago, onde nos sentamos semelhante a sábado passado.

— A primeira coisa que você precisa aprender é utilizar a áurea. Normalmente qualquer pessoa com algum treinamento consegue utilizar qualquer fonte de energia, mesmo que pequena, como uma piscina, um chuveiro, uma torneira. Entretanto, para quem está aprendendo o mais fácil é a chuva.

— Como eu consigo usar essa áurea? Eu sinto como se fosse uma eletricidade dentro de mim.

— Feche os olhos querida, isso mesmo. Agora continue sentindo essa eletricidade, onde ela está?

— No meu corpo todo, cada gota de chuva me faz levar um pequeno choque.

— É assim mesmo, tenta concentrar sua atenção a energia que está no seu peito, ignore todas as outras – eu perco a noção de tempo tentando realizar essa missão que a Roberta me passou, é extremamente difícil ignorar a energia que está eu todo meu corpo.

— Querida você está conseguindo, abra os olhos, olhe para seu peito – quando eu olho para baixo vejo um verde intenso concentrado ao redor do meu peito, o resto do corpo começa a ser iluminado também, mas a fonte principal que banha o resto é onde estou concentrando minha atenção.

— Isso é incrível.

— Tenta concentrar-se apenas nas suas mãos agora – quando eu faço por um momento a energia se espalha e fica mais fraca – Concentração, eu sei que é dicicil.

A áurea então volta a brilhar, só que em minhas mãos, como se ali fosse a fonte primaria da minha energia.

— Toda vez que você desejar fazer um ritual você precisa se concentrar na energia, esse é apenas o primeiro paço, mas o mais importante provavelmente. Com as outras fontes de água é um pouco mais difícil, porque temos que conseguir usar nossa concentração do mesmo jeito que hoje, só que a áurea vai escapar de você mais facilmente, quase como o ar escapa dos descendentes da Potira. Primeiro você vai apenas treinar a controlar a áurea e mais para frente eu te ensino como conduzir um ritual. Por hoje você já foi muito bem querida. Seu poder é incrível, muito mais do que de qualquer pessoa que eu já vi na vida. Você conseguiu realizar centralizar a energia em apenas duas horas, eu quando aprendi demorei dias para conseguir concentra-lo no meu peito, movimenta-lo pelo corpo então demorei semanas.

— Obrigada Roberta, de verdade – eu dou um abraço nela e percebo minha energia conectando-se com a dela.

— Quando pessoas com o dom possuem contato próximo é possível trocar energia, para pessoas normais precisa de anos de experiência para isso acontecer, mas você parece conseguir fazer isso espontaneamente, você é surpreendente minha querida, acho que a Deusa escolheu dar o dom a sua mãe por causa de você.

— Eu não sou tão importante assim. O que uma Deusa poderia querer comigo?

— Não sei ainda, mas acho que em breve vamos descobrir. Agora vamos voltar para casa, que eu acho que o Miguelzinho quer ficar um pouco com você.

— Eu não entendo como você e minha vó ficaram lá fora até agora e não estão molhadas.

— Eu já falei que não ficamos tanto tempo assim na chuva.

— Mas eu as vi, eu não vou perguntar mais nada. Mas sempre achei minha vó meio estranha mesmo, acho que o vô Marcel tem razão você é bem parecida com ela.

— Isso para mim é um elogio.

— Para mim também.

— Mimado, eu preciso de uma informação sobre seu pai.

— O que você quer saber sobre ele? Isso está ficando cada vez mais esquisito.

— Ele fica em casa de sábado de manhã?

— Raramente, principalmente esse mês. Ele está em São Paulo ainda, só meu avô veio embora.

— Então ele também não estava no sábado passado?

— Não, desde que você começou a trabalhar ele não veio mais para casa, ele tem muitos negócios na capital. Mas por que isso agora?

— Sua mãe falou para eu não entrar em seu quarto que seu pai descansa de fim de semana, e não gosta de ser incomodado.

— Que estranho, eu acho que nunca vi meu pai descansar mais do que o necessário para sobreviver – eu mando uma mensagem para a Sophia pedindo para ela descobrir se a mãe dela já limpou alguma vez o quarto da Joana, não é possível que seja só comigo, afinal ela não sabe que sou a filha da sua melhor amiga.

— Eu vou te contar um segredo, preciso da sua ajuda para entrar no quarto da sua mãe amanhã, você promete confiar em mim e me ouvir?

— Prometo, chatinha. Sabe eu acho que eu estou começando a te amar.

— Eu quero que você repita isso depois que eu te contar uma história – quando eu começo a falar eu não paro mais, conto sobre minha mãe, sobre sua amizade com a Joana, sobre sua proximidade com a família Almeida, sobre o dia em que ela desapareceu e retornou gravida, e então quando ela sumiu para sempre, após uma briga com a sua mãe, termino a história contando sobre o meu dom, sobre como sua vó tem em ajudado nisso.

— Então eu acho que eu estava certo esse tempo todo, não é? Minha vó é meio estranha mesmo, meio bruxa, e você também é, minha bruxinha. Eu não quero acreditar que minha mãe tenha sido capaz de fazer algo contra a Carla. Mas no fundo eu sei que ela não é perfeita, e seria capaz sim. É triste dizer que ela nunca agiu como uma mãe, desde que eu cheguei nessa casa ainda bebê quem me criou foram meus avós, e minha mãe nunca aceitou não ser a mais importante em tudo, até mesmo em relação a mim ela queria ser mais importante, ela gosta de ter poder, de ser o centro das atenções, mas ela ainda assim é a mãe que eu tenho, e eu a amo. Mas eu vou te ajudar, eu quero descobrir toda a verdade também.

Eu pulo em seu colo e o beijo, ele fica surpreso e sem reação, mas ele é o meu mimado afinal, e em menos de um segundo ele já está em cima de mim me beijando intensamente.

— Eu já tenho certeza.

— Do que mimado?

— Eu amo você.

— Eu também te amo, mimado. E eu quero ter minha primeira vez com você.

Ele fica sem palavras me olhando incrédulo, enquanto eu dou um sorriso malicioso para ele, acho que os papeis se inverteram na nossa relação.

— Você está falando sério?

— Nunca falei tão sério em toda minha vida.

— Agora? – eu o beijo, e sei que estou pronta par a viver tudo com ele, esse é o tipo de amor que eu nunca esperei encontrar, eu sempre soube que só me entregaria para alguém que eu amasse de verdade, e eu amo ele.