Todo início do ano era semelhante na cidade de Tuiuti, sempre chove, sempre fico isolada na minha casa com apenas minha tia e meu gatinho Fred como companhia, afinal o que mais posso fazer em épocas como essas, não temos mais ninguém da nossa família, e eu não sou a pessoa mais sociável da escola, com meu cabelo castanho escuro e cacheados, olhos mais escuros ainda, não tenho nada de especial que atraiam as pessoas na minha direção. A luz da nossa família sempre foi minha mãe, pelo menos é isso que toda a cidade fala, não que saiba algo sobre isso, afinal não cheguei a conhecer minha mãe tão profundamente assim.

A vida em uma cidade pequena no interior de São Paulo é bem diferente do que muitos imaginam, realmente toda a cidade se conhece, entretanto nem sempre isso é algo positivo, porque eu continuo sendo a menina sem-graça, filha da linda Carla Carvalho, que cantava, dançava e tinha mais amigos que eu vou ter na minha vida toda. Eu realmente queria ter conhecido minha mãe, ela faz falta, mas eu tenho muita sorte de ter minha tia Ana que me criou como sua filha desde sempre, mas a população não concorda muito com isso, todos me olham com pena por eu ter perdido a oportunidade de ser criada pela bela Carla, e como consequência, ser cuidada pela simples Ana. Não que ninguém goste da minha tia, longe disso, minha tia é um doce, e tem uma das sorveterias mais famosas da cidade, mas ela não é exatamente a mulher mais chamativa, aliás eu pareço muito mais filha dela do que da minha própria mãe.

Outro ponto negativo das pequenas cidades que ninguém sabe, a população normalmente têm uma cabeça bem fechada, por isso eles amavam minha mãe mesmo, mas nunca deixaram de julga-la por ter engravidado de mim solteira, e nunca dar o nome do verdadeiro pai, afinal para Tuiuti, o fato dela ser tão atraente fez com que ela saísse com diversos homens diferentes, todos na época riam disso segundo minha tia, afinal falavam que era coisa da juventude, mas quando minha mãe apareceu gravida com 19 anos, e sem revelar o nome do pai, todos começaram a aponta-la na rua, culpa-la por uma situação, que eu tenho certeza que meu pai desconhecido é tão culpado quanto ela, é muito fácil a cidade amar minha mão pela sua musica, alegria, e beleza, mas na hora que ela realmente precisou de apoio, e não acusações todos viraram as costas para ela, afinal que mulher de bons modos ia engravidar e nem saber de quem.

E quando ela finalmente desapareceu depois de dar a luz a mim, a população se dividiu na metade que começou a idolatra-la como a mulher mais linda, que sofreu e desapareceu deixando uma menina tão sem graça para traz, afinal ela ainda tinha uma vida inteira para viver, não precisa de uma criança em seu caminho. E a outra metade a julga ainda mais como uma vagabunda que não apenas engravidou, como abandonou sua filha, não assumindo suas responsabilidades.

Mas nunca ninguém imaginou que talvez o desaparecimento dela tenha mais relação com problemas com a nobre família Almeida do que com a filha tão sem sal dela. A final ninguém, consegue falar mal dessa família, eles são ricos, donos de metade das lojas dessa cidade, e o Sr. Marcel, o patrono da família já foi mais vezes prefeitos dessa cidade do que qualquer um ja tomou banho em um ano.

Por isso, eu não consigo descobrir o que de fato aconteceu com minha mãe, só sei o que minha tia Ana me contou desde sempre, que meses antes do desaparecimento da minha mãe ela teve uma briga muito feia com a sua melhor amiga Joana, que na época era Nogueira e que meses apos o desaparecimento de minha mãe casou-se com o Luiz Almeida filho mais velho do Marcel, e logo em seguida adotaram o Miguel, um menino de 1 ano, que não sabemos até hoje de onde surgiu, mas que é a luz da vida de sua avó Roberta Almeida, por ser seu único neto até hoje em dia. Essa família ainda tem mais um componente, muito mais misterioso ainda, ele vive sozinho em uma fazenda aqui na cidade, e não costuma sair muito, chego até a arriscar que muitas pessoas dessa região tem um certo medo dele, afinal o fato dele ser o irmão menos simpático do Luiz, torna o João Almeida a ovelha negra da família. Eu, por exemplo, só cheguei a vê-lo umas 3 vezes em todos os meus 15 anos de existência.

Mas de fato a pessoa que eu tenho maior proximidade dessa família é o Miguel, não que eu já tenha conversado com ele algum dia, mas pelo menos eu o vejo todos os dias, afinal ele está no segundo ano do ensino médio da mesma escola em que eu estou no primeiro ano, e ainda por cima ele é a pessoa que todas as meninas amam, que todos os meninos querem ser amigos, até mesmo eu tenho um certo interesse nele, mas não tem nada a ver com seus olhos azuis, e seus cabelos pretos, como a maioria das meninas, nem nada a ver com suas festas banhadas a álcool, sexo e dinheiro como alguns meninos, na verdade eu tenho o interesse pela conexão com a família Almeida, e a partir disso a conexão com a localização da minha mãe.

Mas é extremamente difícil de me aproximar dele, afinal ele não costuma conversar com pessoas inferiores a ele, pelo menos não com pessoas como eu, pobre, um ano mais nova, e sem nenhum atrativo. Ele realmente tem contato com outras pessoas da minha sala, por exemplo, com a Larissa, bonita, loira e rica. Enquanto isso eu sigo tendo apenas 2 amigos, a Sophia, que não é a menina que chama mais atenção de todo mundo, afinal ela é filha da empregada da família Almeida, e do Murilo, que possui sim dinheiro, mas é muito tímido e estudioso para ser do grupo de amigos do famoso Miguel.

—- Maria, não é porque esta chovendo o mês de Janeiro inteiro que você tenha que ficar só em casa, você sabe disso não é? -- minha tia Ana obviamente está cansada de me ver deitada assistindo séries e lendo livros, e tenta todo dia me estimular a sair um pouco de casa, entretanto a chuva não é o clima que mais me agrada e instiga a sair da minha cama, e na verdade duvido que alguém além da Ana deseje fazer algo em um dia como esse, ainda mais agora que só tenho mais uma semana de férias. -- Querida, você sabe que eu trabalho todos os dias, e faz 1 mês que você não vê nem a cor do sol.

—- Realmente, tia, afinal faz um mês que ninguém consegue ver o sol nesse lugar, só chove, o que eu vou fazer na rua nessa chuva.

—- O que jovens normais estão fazendo, né? Saindo com os amigos, indo na sorveteria, namorando. Afinal esse realmente é o verão mais chuvoso dos últimos anos, mas ainda assim é verão.

Como estou cansada realmente de ficar em casa, e mais do que isso, estou vendo o olhar da minha tia de preocupação por achar que eu não tenho amigos decido sair um pouco de casa, mas vou ao lago da cidade, um lugar quieto, e frequentado principalmente por "atletas" amadores, que fazem seus exercícios ali, e por alguns velhos pescadores, não é realmente o local mais frequentado por jovens da minha idade, mas é o lugar que eu a So e o Mu mais costumamos ir, nos nossos dias livres.

Por isso, não é uma grande surpresa encontra-los la quando chego no lago, eles estão sentados no nosso cantinho isolado, um canto isolado do lago, do lado oposto aos que os pescadores ficam, onde as arvores são mais densas, e formam uma especie de cabana.

—- Você sabe, né Murilo? Não é porque seus pais querem que você faça faculdade de medicina que você realmente precisa fazer, está na hora de você começar a enfrenta-los, afinal você é um artista, só seus pais não enxergam isso -- de fato Murilo é o mais artista do nosso tio, na verdade acho que ele é o mais artista da cidade toda, a voz dele é linda, ele toca diversos instrumentos, pinta, e sabe escrever muito bem, tantos talentos que a família simplesmente prefere ignorar, em nome do bom nome da família.

—- Não sei o motivo dessa conversa, mas tenho que admitir que concordo com a So.

—- Nossa, que honra a ilustre presença da Maria Carvalho, nesse dia chuvoso, o que aconteceu com a senhorita, para finalmente decidir sair da toca?

—- Deixa de graça Murilo, você está apenas tentando fugir do assunto como sempre.

—- Não é verdade Maria, eu só acho inútil conversar sobre isso, eu não sou de fato um artista, eu só gosto tá bom?

—- Não é porque você não é famoso, que sua alma não seja de um artista.-- eu conheço a Sophia e o Murilo desde os meus 5 anos, e os conheço tão bem quanto me conheço, provavelmente bem mais do que me conheço -- O seu único problema , além do seu claro medo de enfrentar seu pai, é a sua timidez, mas se você aproveitasse qualquer evento que sua família te obriga a ir, ou na escola mesmo para tocar e cantar, todos iam perceber o seu potencial.

—-É o que eu tenho falado para o Murilo há 1 mês, Maria, mas ele não me escuta. Mas afinal você também não tem me ajudado muito, né? Você simplesmente, ficou as férias toda enfurnada na sua casa, tudo bem que você não gosta muito da chuva, nem de pessoal na real, mas de mim e do Murilo você sempre demonstrou gostar um pouco.

—- Ah não So, até você! Eu só tenho andado ocupada...

—- Com o que? Suas séries? Livros? Nós somos seus amigos, e merecemos seu tempo também -- ambos me olham com cara de decepção após a última fala de Sophia, e no fundo, mesmo sem querer começo a sentir um pouco de culpa, de te-los abandonado esse mês, nem mensagem eu tenho respondido direito, sei que eu errei, pois nós três só temos uns aos outros como amigos, mas não consigo evitar o sentimento estranho que a chuva me trás, um misto de insegurança, medo, e inquietude, que me faz desejar me esconder em casa, e ao mesmo tempo sair e me molhar, cantar, e dançar.

—- Tudo bem, meus amores, sei que eu errei, mas me crucifiquem, eu voltei finalmente a vida -- vejo na cara deles que eles já me perdoaram, mas ainda estão se fazendo de difícil, por isso pulo em cima deles, e juntos rolamos na lama, acabamos sujos e rindo até doer a barriga, mas finalmente depois de um mês inteiro, finalmente me sinto feliz e em casa.