Dias de Chuva.

13 Trapézio sem magia.


Notas iniciais
Esse capítulo tem trilha sonora (quando chegar na hora é só clicar em *trilha, lá vai está a musica).

Obrigado por ler. Obrigado Mayara pela recomendação.

Finalmente não tenho sobre o que pensar, sobre o que especular. Não creio que meus pensamentos irão voltar. Sinto que tudo isso seja sobre a Nora.

– Nora – disse.

– Você precisa descansar. A noite voltaremos para nossas casas – disse a garota loira.

As duas se retiraram do quarto, e o silêncio permaneceu.

Não quero voltar para minha antiga vida, claro que não será a mesma, mas ainda sim gosto mais desta nova vida. Vocês não sabem como era minha vida, a parte de que me lembro.

Eu estudava e saia nos fins de semana, quando tinha dinheiro. Nunca me lembrarei da última vez que chorei. Apenas um garoto normal. Me pergunto: “por que não deixei para lá? Eu tinha mesmo que enfrentar o Abismos, depois atacar o governo?”. Naquela época algo me controlava, mas ainda assim era eu. Querendo amor.

Após toda aquela turbulência em minha vida, me mudei para a cidade dos sonhos, Nova York. Fiquei dois meses estudando fotografia, arte contemporânea e dança. Aqueles dois meses foram incríveis, apesar de ter tantos devaneios.

“Estamos em cima de um trapézio parado, ou caímos, ou ficamos por lá” – penso.

Finalmente em casa.

O lugar estava mais parecido com uma cabana abandonada, ou algo do gênero. Fui direto para a cozinha, como de costume. Muitas vezes quando eu precisava pensar, ou lembrar de algo, abria a geladeira e ficava encarando a mesma. Mas naquele dia não adiantou.

– Espero que minha casa esteja melhor. – brincou Nora, surpreendendo-me. Demos uma risadinha e por ai parrou.

Nora deu um tchau com as mãos, uma última risada e se foi. Sinto que terei que conquista-la, mas é claro que isso irá demorar. Essa garota é extremamente complexa. Mas fato é que estou ignorando tudo que aconteceu. Já me acostumei com a dor.

Preciso colocar meus pensamentos em ordem. Minha vida está recomeçando, novamente. Acho que se tivesse sérios problemas e quisesse recomeçar... não aconteceria.

Estou com vinte anos e desempregado, começaremos por ai. Com algumas ligações consegui um emprego, isso mesmo, algumas ligações. Fiquei três trabalhando como se não houvesse amanhã e, no final, ganhei reconhecimento.

– Como será daqui para frente? – perguntou a garota de olhos cinzas.

– Não posso te dizer. Infelizmente nós não escrevemos o futuro, – dizia com um sorriso de lado – mas sei que amanhã preciso acordar cedo, preciso trabalhar.

– Será que eu posso ir contigo?

– Pode, mas não irá entrar no prédio, ficará vagando pelas ruas.

– Eu te procurei por um século. Não tive nenhum momento de bonança. Matei muitas bruxos, lutei contra leões.

– Luci... – não pude continuar a falar, Luci me interrompera.

– Teve uma hora que minha doutrina não parecia forte, eu estava perdendo a fé. No final você estava em um prédio cheio de demônios. Eu...

– Acalme-se. Agora temos todo o tempo do mundo.

– Mas este mundo está sem tempo. Os humanos estão destruindo a vida que ainda resta nesta Terra.

– Você é muito atroz, de uma maneira boa, gosto disso. Vamos dormir. – Chamei.

– Está parecendo um panda, só sabe dormir. – Ela brincou.

– Amo fotografia, mas depois de horas se torna exaustivo. Modelos precisam de um fotógrafo bem disposto. Deixe-me ir.

– Sinto informa-lo, pois morreremos se continuarmos a respirar este pó.

– Vamos fazer uma rápida faxina, está bem? Só o meu quarto é suficiente.

Minutos depois estávamos limpando o mesmo. A vida parecia estar calma de novo, não entediante, apenas calma. Com muito trabalho e esforço acabamos. Estava realmente exausto, não aguentava meu próprio peso. Mas tinha que acordar cedo amanhã, então liguei meu despertador vermelho. E meus olhos foram se fechando.

“Droga, que barulho infernal é esse?” – pensei.

Parecia que eu tinha acabado de fechar os olhos. Maldito despertador, joguei o mesmo na parede. Levantei-me e, com os olhos meio fechados, procurei por Luci.

– LUCINDA – gritei. Não sei por que eu colocaria o nome da minha filha de Lucinda, mas está bem.

Senti um cheiro de café. Nossa como amo café. Logo minha resposta veio.

– Estou aqui em baixo.

Vou aproveitar para tomar um banho demorado, com água quente. Normalmente me faz esquecer meus problemas ou, pelo menos diminuir.

Costumo levar alguma peça de roupa para o banheiro, assim não saio pelado, enrolado na toalha. Demorei uns vinte minutos, ainda assim foi muito rápido. Coloquei uma calça skinny preta, um suéter bege, uma touca cinza com listras pretas, uma camisa da mesma cor e um sapato sem cadarço, pois odeio cadarço.

Quase me esqueci de pegar minha Nikon. Está bem, todos adoram Canon, mas eu não.

Hora de ir! Enquanto descia a escada reparava na limpeza que estava o lugar, estava tudo impecável, mas...? Se foi a garota, ela não dormiu. Estava na cozinha e ela estava devorando omelete com bacon, não aqueles de filmes, mas um bem queimado e todo enrolado.

– Por acaso você dormiu? – dei uma risada com a situação.

– Não! E que bom que alguém está se divertindo, pois ainda não esqueço todos os problemas. Como consegue?

– Eu apenas ignoro os problemas, não me prendo a eles, sou livre.

Incrível, não consigo ter está paz de espírito. Ainda preciso saber o que aconteceu.

– Tire todas essas coisas da sua mente e vamos.

– Mas são cinco horas e eu ainda não dormi.

– Vamos nos atrasar se demorar mais. Cadê suas roupas? – Disse, pelo meu tom de voz pareceu que ela estava pelada. – Você não pode sair por ai com roupa de guerreira e uma espada.

– Sinto muito, esqueci de trazer meu guarda-roupas portátil. – me atacou com ironia.

– Está bem, vai sobrar um tempo, passamos em uma loja. Tenho um dinheiro guardado. Vamos!

Ao sair pela porta, já na rua, olhei para a casa da loira, com esperança de ver alguma movimentação. Bobagem, já a esta hora? Fomos a caminho da Av. Paulista. Pegamos ônibus e metrô.

*trilha

Saímos do metrô e aquela cidade gigante nos envolve. Não trocarei de cidade por nada, aqui é perfeito, apesar do que dizem. Adoro esses orelhões, o globo de discoteca é o melhor.

Fomos para uma loja qualquer pelas ruas.

– O que vou comprar?

– Vestido preto, cinto marrom, meia 3x4 da mesma cor e, um salto preto qualquer. Ah, não esqueça a bolsa vermelha.

– Como sabe o que compra?

– Já fui uma garota – brinquei.

– Acredito! – a garota não pareceu ser sarcástica.

– Você sabe que estou brincando, certo? Compre logo. Ainda quero comprar café, afinal, você foi a única a se alimentar.

As compras foram feitas e fomos para uma banca de jornal. Fazia tempo que não fumava. Logo depois compramos café e caminhamos até o prédio em que eu iria trabalhar.

– Você mudou tanto, nem parece o mesmo Peter.

– Pessoas mudam! Todas as horas e, ainda assim não deixam de ser o que são.

Sem muita demora chegamos na ‘Hunt’, meu local de trabalho. Vigésimo sexto andar. Odeio elevadores, como odeio cadarços, mas a diferença é que não dá para viver sem elevador, viver sem cadarço é fácil.

– E quem é estar? – perguntou o “dono da grana”, assim que chamo todos os patrões.

– Minha nova assistente.

– O que aconteceu com a antiga?

– Morreu de tanto rir. – talvez você ache um exagero da minha parte, mas é verdade.

A garota tinha um namorado que adorava faze-la rir, mas ele não sabia a hora de parar. A mesma tinha asma. O pulmão perdeu todo o ar, quando percebeu o que estava acontecendo era tarde, não deu tempo de colocar o ar de volta.

– Eu me lembro dela.

– Fique tranquilo, não precisará pagar o cachê dela. – o dono da grana deu um sorriso satisfatório e resolveu deixar-me em paz.

– Será interessante!

Eu nunca entendi propaganda de perfume, nem as fotos fazem sentido, como minha vida. Mas preciso viver, comprar coisas gordurosas, então faço sem reclamar. Luci se sentou em um pufe e apenas observou. Foi um tanto engraçado, parecia que ela estava vivendo pela primeira vez, parecia ser a mais jovem do local, uma garota querendo descobrir o mundo em que vive.

Depois de horas o fim do dia chegou e estava mais que na hora de voltar para casa.

– Vamos?

– Sim. Sabe, foi incrível o dia, – disse enquanto andávamos – acho que me formarei em fotografia.

– Todos esses anos e ainda não se formou em nada?

– Ah, teve uma vez que tentei viver minha vida e acabei me formando cinco vezes.

– Uau! – antes que pudesse continuar alguém me interrompeu.

– Oi. Espera! – era um dos modelos.

– Sim?! – disse Luci.

– Serei direto. Não pude deixar sua beleza iluminando a sala. Gostaria de sabe se você não quer sair qualquer dia desses.

– Bem, irei aceitar seu convite, pois não tenho nada melhor para fazer.

– Me passa seu telefone? – disse o garoto. Foi a última coisa que escutei, pois comecei a andar depois do “bem”.

Entrei no elevador e um pouco antes da porta fechar Luci chegou correndo. Não pude deixar de notar o papel que a mesma segurava.

– Passou seu número para ele?

– Claro que não! Apenas peguei o dele.

– Você é boa no que faz. Mandou muito bem lá.

– Anos de experiência. Irei ligar daqui a alguns dias, assim ele ficar louco pela minha presença. Será que você pode me ajudar com a roupa?

– Olha só... Sua suposta mãe se veste maravilhosamente bem! Mas te ajudarei.

Toda euforia ficou gritando no elevador, que bom que estávamos sozinhos.

Assim que saímos da Hunt pude notar o céu sem estrelas da cidade, apesar da ausência das incríveis luzes brilhantes, a noite estava clara, a lua brilhava intensamente. Me fez querer fumar, novamente. Fiquei tanto tempo sem fumar, que agora estou na abstinência da minha cara nicotina.

Acho que por isso estou tão calmo. Quando fico precisando de algo, me concentro naquilo e fumar me deixa tranquilo de qualquer pensamento ruim.

– Será que podemos comprar um sorvete?

– Podemos sim. Mas não quero sorvete, quero café.

– Está bem.

Estávamos perto da minha amada loja de café, então passamos primeiro por lá.

– Por favor, um cappuccino caramelado com muito chantilly e chocolate em pó por cima.

Com meu pedido em mãos, encaminhamos para a sorveteria que ficava aqui por perto. Luci pediu um milk-shake de chocolate branco com menta. Não perdemos mais tempo, pegamos o metro e depois o ônibus.

Finalmente em casa, não conseguia ver a hora de me jogar na cama. Percebi que não havia notado o quanto limpo estava o lugar, quer dizer, não por completo. Ela deve ter ficado a manhã toda trabalhando.

– Você deveria ter esperado por mim, – disse enquanto abri a geladeira – como limpou está casa tão rápido?

– Como disse: estava sem sono. Por acaso você tem um telefone? Adoraria salvar o número, pois sempre perco papeis.

Eu não tinha o que ela queria, então balancei a cabeça e comecei a subir as escadas. Já estava indo me deitar quando alguém bateu na porta. Quem poderia ser? Não recebo muitas visitas e outra, está tarde! Decidi descer a escada correndo.

– Luci, por que não abriu a porta? – sussurrei, encaminhando em direção a mesma.

– Fiquei com medo. – nem irei especular sobre. Não achei necessário lembrar o que ela podia fazer.

Assim que abri a porta me deparei com o nada.

– Peter, será que eu posso dormi aqui está noite? – era Nora, sua respiração estava rápida, conseguia sentir o calor do seu corpo sem precisar encostar nela.

– Estava praticando algum esporte? Ah, claro, entre.

– Digamos que eu estava correndo.

Nora me acompanhou até a cozinha, onde Luci ainda permanecia. Oferecia água e na mesma hora aceitou. Achei muito estranho Nora aparecer aqui, logo após digamos... “Correr”, não estava afim de demora e então perguntei.

– Fala o que você fez. – mesmo sabendo que a loira fez algo, não pude deixar de perceber como estava linda.

Ela é linda de qualquer modo, até mesmo cheia de suor. Nossa como amo está palavra: SUOR. Fico excitado só de pensar na Nora.

– Eu precisava de respostas, precisava saber como estou aqui em pé.

– Uma fada te trouxe de volta!

– Sei disso. Eu queria que Bird voltasse, queria ela em minha vida novamente. Peter, não sei o que aconteceu no passado, talvez você tenha mais memorias.

– Só tenho memorias vagas, que ainda assim não sei se são memorias, talvez sejam apenas visões, ou coisa do tipo.

– Peter, não posso te amar, não consigo. Não consigo amar nenhum garoto, por mais que eu queria. Quero Bird aqui e vou lutar para conseguir isso. Decida-se comigo. Eu não ficarei parada, irei fazer algo. – agora notei como Nora é extremamente egoísta, só pensa nela mesma.

– Sinto muito Nora.

– Peter, sai de cima deste trapézio, vamos pule, preciso de você aqui comigo. Temos que descobri o que aconteceu me nosso passado.

– Muitas pessoas morreram quando eu decidi te ajudar. Eu era ingênuo e estava apenas seguindo meu coração, hoje minha mente fala mais alto. Não irei te ajudar, irei viver minha vida, do jeito que ela deveria ter sido.

Notas finais
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