Notas iniciais
Boa leitura!

— Mas, você tem certeza de que não tem problema mesmo, pai? A gente não quer incomodar!... Aham, sei... Mas, já falou mesmo com a mamãe?! Ela disse que não tem problema? O Gryffin é enorme, pai!... Ok... Tá bom, eu deixo ele aí quando a gente estiver saindo.

— Tudo certo, então? Você parece preocupada, Rosie. — Scorpius ponderou reparando no rosto dela.

— Sim, ‘tá tudo certo! É que eu fico preocupada de deixar o Gryffin lá assim desse jeito!

— Mas, não foi ele quem se ofereceu?

— Foi, mas... Ah, sei lá, Scorpius! Meus pais não têm muita experiência com cachorro, sabe? A minha vida toda a gente só teve gatos!

— Ah, relaxa, amor! Você também não tinha experiência com cachorros, lembra? Além do mais, o Gryffin é praticamente uma pessoa! Seus pais vão amar! E é só uma semana! Vai passar rapidinho... Se algo der errado tem o Al, a Alice e meus pais. — Ele disse, sorrindo.

— Ok, ok... Você tem razão, talvez eu esteja pensando demais! Eles vão se dar bem, não é, Gryffin?

— Combinou tudo com a Rose? — Hermione perguntou enquanto se sentava no sofá bebericando seu chá.

— Ah, sim! Ela acha que a gente não dá conta de ficar uma semana com o cachorro, acredita?

— Como assim? Ela disse isso?

— Não, mas você tinha que ouvir ela no telefone! “Tem certeza que não tem problema, pai?” “A gente não quer incomodar!” “Você falou com a mamãe?” “O Gryffin é enorme!” — Rony disse imitando a filha, sem conseguir prender o riso. — Dá pra acreditar, Mione? Como se nós não fossemos dar conta do Gryffin!

— Bom, mas ele é mesmo um cachorro bem grande, Ronald. E eu nunca tive cachorro. Você já teve cachorro?

— Você sabe que não. Mas, isso não vem ao caso. Se o nosso digníssimo genro tem um cachorro, não deve ser tão difícil. Além disso, eu sei que até o parvo do Malfoy-pai já ficou com ele. O que pode dar errado?

“Ah, não. Só mais cinco minutos”, Hermione ouviu Ronald resmungar ao ouvir o som do despertador. “Ronald!”, ela insistiu. “Ronald. Ronald, acorda! RONALD!”. No que pareceu ser a milionésima vez naquela manhã, Ronald Weasley ouviu a esposa chamar seu nome e, sem saber de onde retirou forças, conseguiu abrir os olhos. Que dia era hoje mesmo? Ah, sim. Sábado. Sábado? E por que diabos Hermione insistia em lhe acordar cedo num sábado? A mente sonolenta e atrapalhada do homem de meia-idade não conseguia raciocinar — especialmente sem uma boa dose de café!

— Hermione, por Merlin, hoje é sábado! O que está havendo? — depois do que pareceu ser uma eternidade, ele enfim conseguiu despertar e ir em busca do elixir da vida. Encontrou a esposa com o olhar atento a um livro de receitas enquanto as mãos moviam-se automaticamente mexendo uma vasilha com alguma coisa que ele certamente acreditava que não poderia estar dando certo. “Oh, não!”, ele pensou, mas achou melhor não formular.

— Como assim “o que está havendo?”, Ronald? Já esqueceu que a Rose ficou de trazer o cachorro aqui? O voo deles sai antes das 9h, precisamos nos apressar! — Nervosa. Hermione definitivamente estava nervosa.

— Ah... Sim. Cachorro... Rose... Avião... É óbvio que eu lembrei, Hermione. Só estava te testando.

— Claro.

— Bem, nós poderíamos continuar essa conversa, mas acho que a vasilha ao seu lado tá pedindo socorro. Anda, passa pra cá.

— Está tudo sob controle. Estou seguindo a receita à risca. Não tem como dar errado. É o favorito da Rose. Eu fazia quando ela era criança, lembra? — Hermione viu Rony assentir dizendo “Claro!”, e prosseguiu. — Poxa, parece que foi ontem. Nem dá para acreditar que a nossa filha já vai comemorar um ano de casada...

— Credo, Hermione! Nem me lembra de uma coisa dessas. Pra mim ela sempre será Rosie, a minha garotinha. — Ele rebateu enquanto Hermione terminava de bater os últimos ingredientes e colocava o bolo no forno.

— Ora, mas isso é a coisa mais natural do mundo, Ronald. Ou você achou que ela nunca fosse crescer?

— Eu sei, só que é difícil quando você fala assim! Olha só, parece que consigo ver ela em seu meio metro perambulando pela cozinha enquanto você fazia bolo...

— Você está virando um velho muito sentimental, Ronald Weasley!

— Mas é claro que não, Rose!

— Mas, não era você que estava todo “Ah, mas o Gryffin é praticamente uma pessoa, vai dar tudo certo, Rosie!” semana passada? Agora ‘tá aí quase chorando pra se despedir dele! — Ela não pode deixar de alfinetar. — Ah, não, Scorpius! Não me olha com essa cara! Só um de nós pode surtar agora e esse alguém sou eu! Certo? — ouviu-se o silêncio. — Certo, Scorpius?

— ... Certo, capitã Rose. — Ele disse, quase em um resmungo. — E, alto lá! Eu não estou “quase chorando”!

— Eu sei, você já deve ter chorado escondido.

— Não estamos de falando de você, querida... Mas, como eu ia dizendo: eu não estou “quase chorando”! É só que o Gryffin tá com a gente há tanto tempo, né? Sei lá, de repente me senti mal de não levar ele pra ir também... Você acha que ele vai ficar chateado?

— Tá falando sério?

— Olha só pra ele, Rosie! Ele sabe que a gente vai viajar. Ele sabe! Você já reparou como ele passou a semana inteira olhando pra gente todo desconfiado? — ambos encararam o Golden Retriever vermelho esparramado no tapete que retribuía o olhar com uma expressão quase... Decepcionada? Não! Não era possível!

— Ele vai ficar bem... Não vai, Gryffin? — ao som de seu nome, o cão abanou levemente a cauda. — Você sabe que a gente vai, mas a gente volta, não sabe? É só uma semana... A gente não tem como levar você de avião! — Nesse ponto, Rose já se encontrava ajoelhada no chão próxima ao cão enquanto afagava carinhosamente o pelo do mesmo. — Olha só, Scorpius! Ele já tá até rindo!

— É, amigão! — O marido se aproximou da esposa e do cão. — Prometo que trago uma lembrancinha de viagem pra você! Enquanto isso você vai ficar com seus avós Weasleys e ser um bom garoto, certo? — Gryffin respondeu com uma lambida na mão de Scorpius.

Avós Weasleys? — Rose explodiu em uma gargalhada. — Espera só meus pais saberem disso.

— Então, é isso! Tudo que o Gryffin precisa tá nessa malinha laranja: vasilhas de ração, ração, toalhas, shampoo, brinquedos, enfim... Ah, e também fizemos uma lista com a rotina dele! — Rose dizia enquanto entregava o papel para Hermione. — Mas, por favor, qualquer coisa, vocês podem ligar pra gente! Agora nós precisamos mesmo ir! Mãe, pai, obrigada mais uma vez! Amo vocês! — A ruiva deu um último abraço rápido nos pais antes de entrar no carro. Scorpius acenou dizendo “tchau” uma última vez e o casal enfim seguiu para o aeroporto.

Enfim, sós. Rony e Hermione. E Gryffin. Estavam no interior da casa quando Hermione abriu a “malinha”. Pesada, ela não pode deixar de notar — definitivamente ali dentro tinha tudo mesmo. O cachorro tinha até roupa! Hermione observava os itens, estarrecida: uma bandana dos Chudley Cannons, um suéter com as iniciais GWM e uma mantinha definitivamente não estavam na lista de itens que Hermione achava que o cão iria precisar. Ela fez uma nota mental de tentar abraçar o exagero da filha e do genro e passou a observar a lista.

ROTINA DO GRYFFIN

Gryffin acorda cedo todos os dias e sai para correr com Scorpius. Não precisa ir tão cedo, mas Gryffin é um cachorro muito ativo. Acreditem: ele precisa se exercitar todos os dias. Não digam que eu não avisei! Uns trinta minutos de corrida devem ser suficientes — esse é o primeiro passeio do dia.

— Primeiro passeio? — ela leu em voz alta. Olhou para o papel. Para Rony. Para Gryffin. Para o papel de novo.

— O que houve, Hermione?

— Você sabia que ele faz mais de um passeio por dia?

— Ele faz passeios?

— Ronald!

— Ok, ok. Pensei que fosse só um! Por que você não lê a lista em voz alta?

— Certo. Continuando!

Após o passeio, vocês devem notar que Gryffin ficará cansado. Provavelmente dormirá a manhã toda, mas não se preocupem: é normal. Depois do passeio, tomamos café (a medida de ração está na malinha laranja!), Scorpius vai para os treinos e eu fico em casa com Gryffin mais um pouquinho até ir para o Pasquim. Gryffin toma bastante água, então deixo uma dose extra antes de sair. Recomendo que façam o mesmo caso ele vá ficar muito tempo sozinho.

Por volta das 16h00, saímos para passear com Gryffin por mais trinta minutos. Mais uma vez, ele fica sonolento quando chega do passeio. No começo da noite, Gryffin estará mais ativo, vocês podem gastar uns minutinhos brincando com ele se quiserem os brinquedos dele também estão na malinha laranja! Às 20h00 levamos Gryffin para o último passeio e servimos seu jantar na volta. Gryffin não tem um local fixo para dormir, mas colocamos a caminha dele só para garantir. Agendamos um banho para ele na quarta-feira, mas se acontecer algum imprevisto, vocês vão encontrar shampoo e toalha nas coisas dele.

Não se assustem com o tamanho, ele é o cão mais manso que já conheci e vai topar qualquer coisa que vocês propuserem. Esperamos que Gryffin conquiste vocês do mesmo jeito que fez com a gente!

Ps.: Gryffin NÃO PODE comer chocolate nem frutas cítricas. na verdade, nenhum cachorro pode.

Pps.: Gryffin bebe muita água, então, sempre mantenham a vasilha dele com água fresca.

— Uau. — Foi tudo que Rony conseguiu dizer após a leitura de Hermione. — E eu aqui jurando que ela iria fazer uma lista curtinha e enumerada! Ela definitivamente é sua filha, Mione. E isso porque é um cachorro! Imagina se fosse um bebê!

— Ok. Então devemos assumir que hoje ele já fez o passeio número 1.

— Acho que sim. Você já fez o passeio número 1, Gryffin? — Rony olhou para o cão que o encarava com a língua para fora e abanava o rabo. — É, vou encarar isso como um sim!

— Oh! Não! Com toda essa correria, esqueci que fiquei de fazer umas compras no supermercado para os meus pais! — Hermione exclamou de repente levando as mãos à cabeça.

— Ih, é verdade! Logo você, Hermione, que não esquece de nada!

— Eu não sou perfeita, Rony. Você vai ficar bem sozinho com ele?

— Claro! Gryffin e eu já somos velhos conhecidos. Ele também é fã dos Cannons, não é, Gryffin? Pode ir tranquila!

— E segundo as instruções ele deve dormir pelo resto da manhã. Só não esquece de deixar água para ele! Vou tentar não demorar! — ela disse já saindo apressada procurando as chaves do carro. Assim que saiu pela porta, Rony se virou para o cão que se encontrava estirado no chão da sala.

— Enfim, sós! Vem cá, garoto, deixa eu te apresentar a casa. — Ele estralou os dedos o chamando no que o Golden Retriever prontamente atendeu. — Essa aqui é a sala, mas você obviamente já conhece. — Ele prosseguiu andando sendo seguido pelo cachorro. — Aqui é a cozinha. Devo dizer que é meu cômodo favorito da casa. Não se assuste quando Hermione estiver cozinhando alguma coisa: apesar de parecer catastrófico, às vezes dá certo. Mas, não precisa se preocupar porque eu sou um bom cozinheiro! Ok, ali é o lavabo, mas acho que não vai ser de muita utilidade pra você. Vamos subir!

Gryffin farejava cada cômodo que era apresentado. O cachorro parecia querer se situar ao novo ambiente. Sala. Fareja, fareja, fareja. Hm, será que isso é cheiro de pizza? Rose adora pizza. Cozinha. Fareja, fareja, fareja. Hm, cheiros demais para definir. Fareja, fareja, fareja. BOLO? Definitivamente, bolo. Agora subiam as escadas de madeira.

— Bem-vindo ao andar de cima, Gryffin! Esse aqui é o quarto do Hugo, mas ele só vem de vez em quando, não mora mais aqui. Aqui é o nosso quarto. Por mim, eu deixo você entrar, mas precisamos entrar em consenso com a Mione, ok? E por último, esse aqui é o quarto da Rose. Ou era o quarto da Rose... — Ao ouvir o nome “Rose”, o cão pareceu mais atento. — Ah, essa você conhece, né? — Agora Gryffin abanava o rabo freneticamente. Já havia pulado em cima da cama e agora rolava de um lado para o outro. — Ok, ok, calma. Sem bagunçar! Não queremos levar bronca da Mione, certo? Isso, muito bem, Gryffin! Bom garoto! Acho que vamos nos dar bem.

Gryffin havia adorado o andar de cima! Quarto do Hugo. Fareja, fareja, fareja. Rosquinhas? Rosquinhas! Quarto do Rony e da Hermione. Fareja, fareja, fareja. Tinta de caneta e perfume. Esquisito. Agora a estrela do andar de cima: o quarto da Rose. Fareja, fareja, fareja. Definitivamente era o quarto da Rose! Gryffin reconheceria aquele cheiro em qualquer lugar. Ele não teve escolha: teve que pular na cama. Aquele quarto só poderia ser a definição de paraíso! Rolar! É isso, ele tinha que rolar na cama! Enfim, encontrara a plenitude! “Ok, ok, calma. Sem bagunçar!”. E a festa chegou ao fim. Mas, o ruivo pai de Rose era simpático. Eles com certeza iriam se dar bem.

Hermione se sentia desnorteada. Ela não sabia de onde, mas sabia que havia um barulho esquisito. O que será que Ronald estava aprontando? Por Deus, era domingo. Tentou virar para o lado e continuar dormindo. Impossível. Abriu os olhos com dificuldade e encarou o relógio: 3h37. Três e trinta e sete? Ela deveria estar vendo errado. Esfregou os olhos e olhou novamente: 3h38. Rony ressonava ao seu lado como se não estivesse ouvindo nada. Ela o chamou uma, duas... Três vezes. Nada! Maldito sono pesado, Ronald Weasley! Ela teve que se levantar. Pegou a varinha na gaveta ao lado da mesa de cabeceira e abriu a porta.

— Ah, é você, Gryffin? O que você está fazen... — Ela não teve tempo de concluir, pois, o cachorro, que mais parecia um urso, adentrou o quarto como se fosse dono do lugar. — Ei! Calma, espera! Oh, não, não, não! Na minha cama, não! — Ela falou numa tentativa de grito e sussurro ao mesmo tempo. — Você não pode dormir na minha cama, Gryffin! Anda, desce! Por favor, Gryffin! Gryffin!

— Hermione? O que... O que está acontecendo? — Por algum milagre desconhecido, Rony havia acordado. Hermione nunca foi tão grata.

— O cachorro, Rony! O cachorro! Acordei com ele arranhando a porta, tive que me levantar para ver o que era! E ele invadiu nosso quarto! Olha só! Tá todo esparramado no colchão! E se fizer mal pra saúde?

— Hã? O quê?

— Você não ouviu nada do que eu disse? O cachorro tá na nossa cama, Rony!

— Ah... Gryffin, você por aqui!

— Faz alguma coisa, Rony! Ele não pode ficar aqui.

O marido de Hermione bocejou algumas vezes enquanto assentia. Ele conseguiu fazer Gryffin descer da cama e se deitar na caminha que haviam colocado na sala próxima à lareira. Ele parecia confortável. Hermione já estava mais tranquila. Crise resolvida. Rony se deitou para dormir novamente. Já estava quase pegando no sono quando ouviu o famigerado barulho que Hermione mencionara. Ouviu ela resmungar um “Ah, não! De novo?!”. Ele resolveu se levantar dessa vez e abriu a porta aos poucos.

— Ok, Gryffin, é o seguinte: acho que não vai dar pra você dormir aqui... Mione não gosta muito, entende? Volta lá pra sua cama, vai. Precisamos dormir. — E encostou a porta. Não levou cinco minutos para o cão voltar a arranhar a porta.

— Ronald, deixe ele entrar.

— Tem certeza?

— Ele não vai parar nunca, melhor deixar ele entrar logo de uma vez. Mas, não quero ele na cama! E deixa a porta aberta, vai que ele muda de ideia...

Rony se levantou mais entusiasmado do que pretendia e abriu a porta permitindo a entrada do cachorro.

— Vamos, garoto! Mas, nada de bagunça, hein? Isso, fica ai no tapete! Boa noite, Mione. Boa noite, Gryffin.

— Boa noite. — Hermione resmungou sonolenta e cansada demais para lutar contra o cão no quarto.

A manhã seguinte chegou sem maiores complicações a não ser pelo ser grande e peludo que se encontrava aos pés de Hermione. Então o danado do cachorro tinha pulado para seus pés no meio da noite! Aparentemente eles haviam sobrevivido a primeira noite. Agora Hermione tentava se levantar sem acordar o marido que com certeza não tinha planos de acordar tão cedo após passar a madrugada em claro por conta de Gryffin. Dirigiu-se à cozinha, colocou água na chaleira, e se serviu com um pedaço de bolo do dia anterior. Ela havia acabado de se virar em direção à mesa quando deu de cara com um Gryffin sentado à sua frente a encarando com os olhos pidões.

— Céus, Gryffin! Você quase me matou de susto! — ela exclamou levando a mão ao coração. Ainda não havia se acostumado com a presença do cão enorme que na cabeça de Hermione mais parecia um leão ou um urso. — O que você quer, Gryffin? Eu li as regras, Rose disse que não posso te dar chocolate. — Sentou-se à mesa e começou o café da manhã. Hermione amava os momentos em que podia ficar sozinha. Ela e seu chá. Quiçá um bom livro, quando ela estava se sentindo particularmente interessada em alguma leitura, se não, o jornal — afinal de contas, era importante se manter informada, certo? Estava tão absorta na leitura que não percebeu quando Gryffin desapareceu da cozinha. Só se deu conta de que o animal havia desaparecido quando ouviu a voz de Rony ecoando pelos corredores “Cadê o Gryffin? A gente vai levar ele pro almoço n’A Toca hoje?”.

Quando Hermione pensou em responder que ele estava na cozinha, percebeu que não, ele não estava lá. Levantou-se alarmada, mas procurou manter a calma. “Ele estava aqui na cozinha agora mesmo, deve estar na sala”, foi tudo o que ela conseguiu responder. Afinal, ele deveria — deveria não, tinha de estar em algum cômodo da casa. Eles haviam deixado tudo fechado antes de dormir, certo? Ela resolveu chamar pelo cachorro. Nada. Procurou na sala, na cozinha e no lavabo. Nada. Recorreu a Rony. Ele ficaria procurando no andar de baixo enquanto ela procurava no andar de cima. Nada no quarto deles, nem no de Hugo e nem no de Rose. O desespero era iminente. Um cachorro daquele tamanho não tinha como desaparecer dentro de casa.

— Hermione, acho melhor você ver isso aqui!

E ela desceu. Nervosa como se tivesse sido Hugo a desaparecer.

— Encontrei a prova do crime! — Rony disse apontando para a portinhola que por anos serviu aos gatos de Hermione. — Acho que ele passou por aqui.

— O quê? Não, Ronald. Não tem como. Você já viu o tamanho daquele cachorro? Não tem como ele ter passado por aí. Ele deve estar aqui em algum lugar.

— Mas, Mione, nós já reviramos a casa inteira. Acho melhor começar a procurar pela vizinhança.

Ah, não. Não, não, não. O cérebro de Hermione fervia. Ela simplesmente não podia ter perdido o cachorro da filha no primeiro dia! Tinha de haver outra explicação.

— Não, Ronald. O cachorro não saiu. Que espécie de irresponsável você acha que eu sou para deixar ele fugir assim desse jeito?

— Eu não disse que você deixou ele fugir! Mas, tenho certeza de que ele saiu e você nem reparou. Aposto que devia estar com a cara enfiada nos livros como sempre!

— Ah, nem começa, Ronald. Você sabe que esse é o meu momento. E eu precisava relaxar depois de passar a noite acordada por culpa dele.

— A Rose vai nos matar! Nós precisamos encontrá-lo, Hermione!

— Você fala como se ele estivesse perdido. Eu tenho certeza que ele está aqui em algum lugar.

— Ah, é? Pois, faça ele aparecer agora. Duvido. Aliás, enquanto você fica aí surtando em negação eu vou atrás do Gryffin.

— Pode ir, Gryffin e eu vamos estar aqui esperando.

E ele foi. Talvez movido pela força do ódio, mas foi. Que mulher mais teimosa! Rony achava inacreditável como alguém tão inteligente quanto Hermione não enxergasse o óbvio: Gryffin havia fugido pela maldita porta do gato. Ele não se conformava. Já havia dito milhões de vezes que iria fechar a passagem, mas Hermione sempre insistia que iria adotar um gato novamente. Por um lado, a esposa estava certa: talvez Gryffin nem ao menos conseguisse passar naquele espaço, contudo, não havia outra explicação. Ele só conseguia pensar na imagem de Rose acompanhada do cachorro vibrando naquele jogo dos Cannons. Ele tinha até uma bandana! Não iria se perdoar nunca se perdesse o cachorro que, para começo de conversa, era primeiramente do genro e depois da filha. Rony sentia náuseas só de pensar na confusão que seria se o cachorro não aparecesse; estava determinado: iria encontrá-lo.

Começou nas redondezas da casa. Havia um pequeno jardim na parte da frente e nos lados; a primeira coisa que notou foi um buraco enorme no que um dia fora a plantação de tulipas de Hermione: um preço pequeno a se pagar pela primeira pista do paradeiro de Gryffin. Ele havia mesmo saído de casa. Ronald não sabia se comemorava por estar certo ou entrava em completo desespero pelo mesmo motivo. Resolveu perguntar na vizinhança. “Um Golden Retriever adulto, pelagem vermelha, coleira verde. Atende pelo nome de Gryffin”. Nada. Ninguém sabia, ninguém via. Olhou o relógio: dez e vinte e três. Se ele não o achasse logo, eles com certeza perderiam o almoço n’A Toca.

Já estava alguns quarteirões longe de casa sentindo a culpa aumentando cada vez mais. Estava quase desistindo e voltando para casa quando avistou uma garotinha acompanhada do pai atravessando a rua com um cachorrinho de alguma raça que Rony não conseguiu definir, mas que certamente tinha pernas curtas e muito pelo. É claro! Eles estavam indo para o parque! Como ele não havia pensado nisso antes? Apertou o passo movido pela adrenalina do momento. Já estava quase chegando ao parque quando avistou uma versão encharcada e coberta de lama de um cachorro extremamente parecido com Gryffin.

— Gryffin? — Rony arriscou mesmo tendo quase certeza de que era mesmo o fugitivo. O cachorro o encarou com os olhos cheios de expectativa e saiu em disparada em sua direção, pulando em cima dele e o derrubando em seguida. — Ah, meu Deus! GRYFFIN! É você mesmo?! Calma, calma! Um pouco menos de empolgação, sim? Gryffin, como você saiu? Onde se meteu? Por que está coberto de lama? Ah, quer saber? Não importa! O importante é que você apareceu! Rose e Scorpius iam me mandar para Azkaban se você tivesse sumido de verdade. E a Hermione? Ah, Gryffin, quero só ver a cara dela quando chegarmos em casa! — Ele já não se importava com os quilos e quilos de lama do cachorro e o abraçava.

— Ok, senhor Gryffin fugitivo, precisamos voltar! Já adianto que foi uma péssima ideia ter vindo a pé. Cachorros podem aparatar, Gryffin? Não lembro de Rose ter mencionado nada sobre isso na sua listinha.

— Não, ela não mencionou mesmo. — Hermione avisou os observando.

— AH! — Ele deu um grito exasperado. — Quer me matar do coração, Hermione? De onde você surgiu?

— Vi o que restou das tulipas no meu jardim. Só poderia ter sido Gryffin. Depois que me dei conta que ele saiu, lembrei do parque e deduzi que o instinto de cachorro dele o trouxesse para cá. Estacionei o carro quando vi você rolando com ele no chão.

— Eu não estava rolando com ele no chão! Foi só... Uma empolgação de momento. Pensei que nunca mais fossemos ver Gryffin novamente. Rose ia ficar arrasada.

— E Scorpius também.

— ... Certo. Ele também.

— Enfim, vamos embora. Temos que nos apressar se ainda pretende almoçar com a sua mãe.

— Não precisa dizer duas vezes!

Forraram o banco de trás da melhor forma que puderam. Eles definitivamente teriam que fazer uma visita ao lava-jato. Gryffin se acomodou no banco de trás. Que dia! Que aventura! Certamente compensou as horas mal dormidas da noite anterior. Era tão difícil achar um lugar legal pra dormir na casa nova. Passou pelo quarto de Rose. Fareja, fareja, fareja. Definitivamente, era uma ótima opção, mas Gryffin não gostava de dormir sozinho. Lembrou do quarto de Rony e Hermione. Fechado. Arranha, arranha, arranha. Como tinham o sono pesado! Arranha, arranha, arranha. Levou uma bronca, mas não se arrependia de nada: a cama era maravilhosa. Agora sim Gryffin ia dormir em paz!

Então o café da manhã. Gryffin tentou lembrar Hermione que precisava sair para passear, mas ela estava totalmente absorta na leitura. Rose também ficava absorta na leitura, mas sempre passeava com Gryffin. Ele tentou suas melhores táticas: latiu, bufou, trouxe a guia... Uma porta! Uma portinha pequenininha feita para Gryffin! Ele ia sair! Ah, mas ele ia sair com certeza! Fez um malabarismo para passar pela porta e antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa já estava do lado de fora. Flores! Gryffin amava flores! Ele precisava ver, precisava cheirar, precisava... Cavar! Era isso! Ele tinha que cavar. Como aquele chão ainda não tinha um buraco? Inadmissível! Cavar, cavar, cavar. A casa dos avós Weasleys era um parque de diversão! Agora ele ia rolar no chão! É isso! Gryffin amava terra e amava buracos e amava rolar em buracos de terra. Rose até brincava o chamando de cachorro jardineiro, então ele sabia que era muito bom nisso. Rolou e rolou até que...

Espera, aquilo era um esquilo? Ele ia seguir! Ah, mas ele ia seguir com certeza. Seguiu o esquilo até não poder mais; então viu uma prima distante e achou uma boa ideia ir cumprimentar. Cheiro estranho... Não parecia sua prima. Ah, ela não era sua prima? Ele tinha certeza! Ah... Mas ela ia para o parque? Gryffin adorava parques. Ele iria também! Calma aí, aquilo era um lago? Gryffin adorava nadar! Que adorável coincidência! Ele iria nadar! E, depois de nadar, ele iria se jogar na terra de novo! É isso! Agora Gryffin estava coberto de lama e completamente cansado. Hora de ir para casa.

Perambulou um pouco à direita e à esquerda, o cansaço, a sede e a fome já não deixavam seu faro funcionar como deveria. Ele tinha a impressão de que deveria seguir em frente, mas tudo parecia estranho. “Gryffin?” Sua audição não se enganou: era Rony! Ele nunca se sentiu tão aliviado; saiu correndo na direção de Rony com tamanho entusiasmo que acabou o derrubando. Agora Rony também estava coberto de lama! Não era divertido? Só de pensar em todo caminho que deveria fazer na volta para casa, Gryffin já se sentia cansado novamente. Se ao menos Rony tivesse vindo de carro... Um carro! E Hermione! Eles voltariam de carro! Era o desfecho perfeito para aquela manhã! Acabou dormindo quase a viagem inteira. Ele mal podia esperar a hora do almoço.

Gryffin já havia ido à Toca outras vezes. Ele adorava o alvoroço de pessoas que vinham o cumprimentar, os quitutes que conseguia surrupiar e as brincadeiras com as crianças. Passar pelo banho com Rony e Hermione foi apenas um meio para alcançar o fim. Ele tentara se portar da melhor forma possível — mas, nossa, ele realmente precisava se balançar para tirar toda aquela água e espuma do corpo! “Ele me deu um banho, Ronald!”. Opa. Gryffin lamentava. E cinco minutos depois fazia de novo. Percebeu que o casal não era nem de longe tão hábil quanto seus verdadeiros donos, mas no final ele saiu limpinho e perfumado ostentando a bandana dos Cannons no pescoço e um óculos de sol no rosto. “Ele vai ficar estiloso desse jeito, Hermione!”, ouviu o pai de Rose comentar enquanto ela revirava os olhos. Já eram quase duas horas da tarde quando finalmente embarcaram no carro. Apesar da expectativa de fazer o passeio, Gryffin não conseguiu se manter acordado durante o trajeto — estava exausto depois de tanta correria.

— Ora, ora, enfim apareceu a margarida! Não sabia que agora tinham um cachorro, irmãozinho.

— Bom ver você também, George. E esse é o Gryffin, o cachorro da Rose, lembra? Ela e Scorpius vão ficar uns dias fora e deixaram ele conosco. Já viu a bandana dele? É torcedor dos Cannons! — Rony disse sem conseguir conter o entusiasmo apontando para Gryffin que balançava o rabo ao seu lado. — E os óculos? Não ficou estiloso?

— Isso tudo é a falta de um neto? — George riu. — Já está tratando o bicho como se fosse da família.

— Mas Gryffin é praticamente uma pessoa! Agora mesmo antes de vir pra cá... Ele sumiu por horas graças a Hermione e seus benditos livros e eu achei que fosse enfartar!

— Não me meta nisso, Ronald! A culpa foi sua de nunca ter fechado a portinhola do Bichento II.

— Por sua causa! Você que vivia dizendo que ainda queria outro gato!

— Isso não vem ao caso, você deveria ter fechado quando concordou em hospedar o Gryffin.

— Vocês ficam velhos e não mudam o disco mesmo, hein? — uma Gina risonha apareceu ao lado deles. — Sunny! — a ruiva chamou a neta que brincava distraída com os primos. — Olha só! O Gryffin veio também! Por que você não vai brincar com ele?

— GRYFFIN! — a garotinha veio correndo em sua direção. — Você veio! Anda, vamos brincar com o Remus!

SUNNY! Gryffin amava Sunny. Ela era a criança mais legal do mundo. Gryffin adorava quando Sunny fazia carinho acariciando seu pelo e quando passava horas e horas brincando com ele. Agora ela o conduzia pelos jardins da Toca. Brincaram por um bom tempo. Aquelas crianças eram incansáveis, mas o bom e velho Gryffin precisava de água. Ele foi em direção a vasilha que Rony havia colocado próximo à entrada da casa e bebeu até saciar sua sede. A intenção de Gryffin era voltar e continuar brincando com Sunny e as outras crianças, mas seu faro o dizia que seguir em direção a casa era a opção certa. Fareja, fareja, fareja. Era um cheiro muito bom! Fareja, fareja, fareja. Comida, com certeza era comida! Melhor se aproximar da cozinha. Ele já estava se deliciando com uma das imensas barras de chocolate que encontrou largada num pratinho próximo de Roxanne que conversava com Molly distraidamente quando ouviu a reprimenda de Hermione atrás de si.

— GRYFFIN! NÃO! NÃO, PODE! PARA COM ISSO AGORA! — de onde ela havia surgido? Gryffin tinha certeza de que ela havia ficado nos jardins. E de onde viera aquele tom? Ele nunca a vira tão brava nas últimas vinte e quatro horas quanto naquele momento. Gryffin, Roxanne e Molly a olharam assustados. A cara inocente de Gryffin e seus bigodes sujos não enganavam ninguém: ele com certeza havia comido chocolate

— Oh, não! Ele engoliu! Não pode ser, não pode ser! — Hermione correu em direção do cachorro, tentando em vão fazê-lo abrir a boca, apenas fazendo-o passar a língua pelos lábios sujos de chocolate. Suspirou derrotada encarando as sobrinhas. — Perdão, meninas! Eu não quis assustar vocês, é que cachorros não podem comer chocolate! Eles não conseguem metabolizar um ingrediente e... — Ela parou quando percebeu que estava divagando. — Enfim, Rose o deixou conosco, e olha só para ele! Todo lambuzado de chocolate! E ele já se perdeu hoje de manhã! Está tudo dando errado!

— Calma, tia! Ele está aqui agora e parece bem, não parece, Molly?

— É sim! E, por favor, desculpe a gente, nós nem notamos quando ele entrou na cozinha!

— Não, vocês não têm culpa de nada! Eu é quem deveria ter prestado mais atenção! — Hermione estava visivelmente nervosa. — Quer saber? Eu vou levá-lo ao veterinário! — Ela disse de repente se despedindo das sobrinhas, e puxando Gryffin pela bandana para fora da cozinha em seguida. Saiu tão apressada que nem ouviu as sobrinhas perguntarem se ela não iria avisar ao marido.

— Bem-vinda à Clínica Veterinária Jack Pet! Em que posso ajudá-la? — uma jovem simpática com não mais de vinte e cinco anos lhe perguntou.

— É o Gryffin! O meu cachorro! Quer dizer, ele não é meu cachorro, é da minha filha, mas... Ele comeu chocolate! Ela me disse especificamente que ele não podia comer chocolate! É muito grave? Ele vai ficar bem? — Hermione disse quase atropelando as palavras. Nem ela conseguia entender por que estava tão nervosa.

— Calma, senhora. Não precisa se sentir culpada. Casos assim são bem comuns aqui na Clínica. Primeiramente vou precisar que você informe alguns dados e logo Gryffin será atendido. Aqui está a ficha.

— Nossa, quantas perguntas! Rony com certeza deve saber alguma dessas... Meu Deus! O Rony! Eu não avisei o Rony! — Ela se deu conta já sacando o celular para ligar para o marido. — Rony? Céus, até que enfim você atendeu!

— Por que tá me ligando? Eu ainda tô no jardim com Harry e os outros.

— Rony, o Gryffin comeu chocolate.

— O quê? Por que você fez isso? A Rose disse que não podia!

— E você acha que eu dei chocolate pro cachorro? Peguei ele no flagra na cozinha e vim correndo pro veterinário.

— E por que não me avisou?

— Eu não sei, eu entrei em pânico! Fiz a primeira coisa que me veio a cabeça. Mas, você precisa vir pra cá agora! Eles querem que eu preencha uma ficha com um monte de perguntas e não faço ideia de nada! Não consigo raciocinar! E se acontecer alguma coisa grave com ele? Rose e Scorpius vão ficar arrasados!

— Calma, Mione, só me diga onde vocês estão. — Ela informou o endereço e cinco minutos depois um Rony quase tão desesperado quanto Hermione surgiu na Clínica. Ele conseguiu preencher a ficha com as informações de Gryffin e logo em seguida ele já estava sendo atendido. O veterinário passou um medicamento que fez Gryffin vomitar e o deixou no soro pelos próximos quarenta minutos.

— Vocês fizeram bem em trazê-lo logo aqui. Os sintomas normalmente só aparecem após três ou seis horas, por isso quanto antes o tratamento for feito melhor. Assim que ele terminar o soro vocês estão liberados para ir para casa.

— Mas ele vai ficar bem mesmo? Ele parece tão fraco...

— A senhora não precisa se preocupar. Isso é normal, afinal, ele ingeriu uma boa quantidade de chocolate e precisou colocar tudo pra fora, mas nada que uma boa noite de sono não resolva. Qualquer coisa vocês podem me procurar.

Agradeceram ao veterinário e, assim que Gryffin terminou de ser medicado, seguiram para casa. Já era noite quando chegaram, os três exaustos. Gryffin mal podia acreditar que passara por tanta coisa em tão pouco tempo. Primeiro ele estava passeando de carro, de repente estava na Toca. Depois Sunny viera correndo em sua direção lhe chamando para brincar com as outras crianças. Um deles comia algo que parecia delicioso. Ele queria tanto provar! Que garoto gentil! Lhe dera um pedaço do doce. Agora ele queria mais! Farejou até a cozinha e encontrara a fonte. Depois Hermione estava berrando em seus ouvidos e... Ah, não! Veterinário? Gryffin não gostava de veterinário. Disso Gryffin só se lembrava de flashes: Gryffin se sentindo enjoado, Hermione preocupada, Gryffin zonzo, Gryffin levando uma furada na pata esquerda, Gryffin sendo colocado no carro e dormindo no caminho todo na volta para casa. Rony o carregando e o colocando na cama. Agora estava deitado confortavelmente aos pés de Rony e Hermione.

— Já faz quantos dias que ele está aqui mesmo? — Rony perguntou observando o cachorro esparramado mais uma vez na cama do casal.

— Um. — disse se sentando na cama e acariciando o cachorro, percebeu que ele lhe olhava agradecido e sorriu.

— É, Hermione. A semana vai ser longa!

Após o caos do primeiro dia, eles conseguiram manejar os dias seguintes minimamente bem. Tudo bem que Gryffin fizera um estrago na sala no segundo dia rasgando jornais, roendo sapatos e fazendo xixi no tapete fazendo Hermione se atrasar absurdamente para o Ministério, mas pelo menos ele estava bem e dessa vez não havia se perdido! Já poderiam considerar isso como uma vitória. Hermione passara o segundo dia inteiro mimando o cachorro; queria garantir que ele estava mesmo bem depois de tudo. Apesar do estresse do dia anterior, foi como se os três tivessem criado um vínculo.

No quarto dia, já haviam criado o que eles chamavam de “ROTINA DO GRYFFIN, segundo Rony e Hermione”. Rony ainda dava uma risadinha toda vez que lembrava da primeira coisa que Rose alistou na rotina original: “Gryffin acorda cedo todos os dias e sai para correr com Scorpius.” Acorda cedo! Ele tinha certeza que isso só podia ser mais uma invenção do genro que obrigava o cachorro a sair com ele de madrugada. Pobre Gryffin. Agora sim ele estava aproveitando a vida de verdade! Seis da manhã nunca poderia ser um horário saudável para se exercitar, muito menos para um cachorro!

Até Hermione se tornara adepta dos passeios de Gryffin. Rony achou um milagre ela ter perdoado o cachorro depois do incidente com as tulipas, mas de alguma forma os dois pareciam se entender bem: bastava Hermione chegar em casa para Gryffin ir correndo até ela e a seguir pela casa. O cachorro também era cadeira cativa nas sessões de filme que faziam a noite e se tornara o auxiliar de cozinha oficial de Rony. O que parecia ser uma semana infindável passou voando. Agora eles se viam ligando para a filha praticamente implorando para Gryffin ficar mais uma semana. Porém, mesmo sob os protestos do casal, lá estavam Scorpius e Rose voltando de férias.

— Gryffin, meu garoto! — Scorpius foi o primeiro a dizer quando foi recebido pelo cão na casa dos sogros. — Eu estava morrendo de saudades, amigão! — Agora Gryffin já havia o derrubado no chão e o lambia.

— E como foram de viagem? — Hermione perguntou quando já estavam todos sentados no sofá.

— Maravilhoso! A Itália é fascinante! Mal vejo a hora de voltar! Mas, e o Gryffin? Deu muito trabalho?

— Ah... — Rony e Hermione trocaram um olhar. — Imagina, Rosie! Você tinha toda razão: o Gryffin é incrível. Até sua mãe está se derretendo por ele agora! Ele vive a seguindo pela casa.

— O que posso fazer se ele gosta da minha companhia? — Hermione disse rindo.

— Foi desse mesmo jeito quando a Rose foi morar comigo! Olhem só para cara desse folgado! Já está completamente vendido para os avós Weasley!

— É, bastou uma semana com vocês pra ele me deixar de lado! Nem falou comigo! Esqueceu de mim, foi, Gryffin? — Ele ouviu Rose o chamar e já estava pronto para pular em cima da dona quando foi parado por Scorpius.

— Opa, não, não, não, amigo! Não pode pular em cima da Rose!

— Mas que bobagem, Scorpius! Eu não tô doente!

— Mesmo assim!

— Mesmo assim o quê? — Rony perguntou.

— É que a Rose...

— Mesmo assim nada! — Scorpius foi cortado bruscamente pela esposa que lhe fuzilou com os olhos. — Enfim, ainda nem tivemos tempo de desarrumar as malas, precisamos ir para casa. A gente só veio logo, porque o Scorpius já estava chorando de saudades do Gryffin.

Eu estava chorando de saudades? E quem foi que teve a ideia de trazer presentes pra ele no meio da viagem?

— Sua! — o casal disse ao mesmo tempo, e Rose completou. — Mas pelo que vi até mamãe aderiu às roupinhas do Gryffin! Está todo engravatado!

— Eu até bati uma foto e mostrei no Ministério! Fez o maior sucesso! — Rose mal podia acreditar que sua mãe estava exibindo fotos de Gryffin pelo Ministério da Magia!

— Ele causa esse efeito mesmo! Bem, antes de ir, nós queríamos entregar pra vocês uma lembrancinha da viagem! Acho que vocês vão gostar. — Rose disse entregando um pequeno embrulho aos pais e trocando olhares divertidos com Scorpius. Hermione abriu cuidadosamente: uma carta. “Leia em voz alta”, Rose pediu.

“Prezados Srs. Ronald Bilius Weasley e Hermione Jean Granger-Weasley,

Temos o prazer de informar que V.S.as. têm uma vaga no mais novo Clube de Avós de Londres. Não esqueça dos materiais necessários para sua formação como avô e avó — avisem a bisa que já pode ir providenciando o suéter!

A previsão de chegada do mais novo integrante da família é 11 de janeiro, no mais tardar no dia 25.

Atenciosamente,

Scorpius Hyperion Malfoy Rose Weasley-Malfoy”

Hermione mal conseguiu terminar de ler “Clube de Avós”, pois já estava com os olhos marejados. Ela encarou os dois quase sem acreditar. Rony também estava visivelmente encantado com a notícia.

— É verdade, Rose? Você vai ter um bebê, filha? — Hermione perguntou abraçando a filha enquanto Rony pegava o papel de suas mãos e relia as palavras.

— Meu Deus, isso foi a coisa mais brega que eu já vi na minha vida! — Rony exclamou rindo e conseguiu ouvir Rose exclamar um “Eu não falei? A gente devia ter usado os sapatinhos!” ao marido, que sorriu sem graça. — Ah, mas quem se importa? Um bebê! Rose vai ter um bebê! Nós vamos ser avós, Hermione! Ele vai ser pai! — Rony apontava para o genro transbordando entusiasmo. — Espera! Draco já sabe?

— Ainda não...

— Ganhamos, Hermione! Vamos ser os avós favoritos!

— Papai!

— Quero só ver a cara da doninha albina quando ficar sabendo que nós já sabemos!

— Papai! Pare de falar desse jeito! — continuaram confabulando sobre o futuro herdeiro Weasley-Malfoy até que Scorpius e Rose seguiram para casa. Agora com a casa só para os dois novamente, tudo parecia estranhamente silencioso. A casa parecia maior e os cômodos mais vazios do que nunca.

— Ele faz uma falta danada, não é? — Rony perguntou percebendo que Hermione estava pensando o mesmo que ele. Ela sorriu fraco e acenou com a cabeça. Sentiam falta de Gryffin. Especialmente Hermione.

Rony percebeu que nos dias que se seguiram ela parecia sentir mais falta de Gryffin do que gostaria de admitir. Ela sentia falta dos passeios, do cão a seguindo pela casa e invadindo o quarto durante a noite. Foi assim que ele decidiu sair naquela manhã, adotar a filhote de Cocker Spaniel mais fofa que ele conseguiu encontrar, enfeitá-la com um lacinho cor-de-rosa — céus, ele havia aderido à breguice também? — e surpreender a esposa com uma bela caixa vermelha adornada com um laço de fita. Quando Hermione abriu, ficou encantada. Um filhote de Cocker Spaniel a encarava. Sorrindo, pegou a cadelinha nos braços e quando se virou deu de cara com o marido a observando. “Feliz aniversário de casamento, Mione!”, ela o ouviu dizer e no segundo seguinte já estava em seus braços lhe agradecendo com um beijo apaixonado.

Notas finais
Espero que não tenha ficado muito ruim! Eu não planejava escrever tanto, mas acabei me empolgando (na verdade, eu meio que me obriguei a narrar porque se dependesse de vontade própria acho que eu só escrevia diálogo) hahaha
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!