Dias Ruins - ShigaDabi
1 Capítulo: Uma noite ruim, abraços e kotatsu
Notas iniciais
E aqui mais uma one, dessa vez inspirada na música Say you won’t let go - James Arthur. Espero que gostem!
Algo está errado, é o pensamento de um Dabi ainda grogue de sono, com os olhos cerrados e o rosto contorcido numa careta aborrecida. Resmungando enterra o rosto no travesseiro macio e tenta ignorar esse sentimento inquietante no seu núcleo, precisa voltar a dormir, mas essas palavras persistem dentro da sua cabeça, se repetindo feito um mantra chato.
Não sabe o que o acordou no meio da noite, mas espera ser um motivo muito bom e não só uma das suas paranoias estúpidas o mantendo alerta por nada; é como se descargas de ansiedade fossem liberadas nas suas veias. É irritante e frustrante, feito um cócegas sob a pele. Isso o faz imaginar se é o mesmo que Tomura sente quando se coça.
Bufando desiste de voltar a dormir, continuar lutando contra é inútil. Enfim, abre os olhos azuis e se vira na cama com um suspiro resignado, leva um instante para se adaptar ao escuro e distinguir as formas nas sombras. O guarda-roupas grande e feio, uma pilha de roupas que precisa lavar, a mesinha no canto da parede atulhada de embalagens vazias de comida rápida da noite passada e latas de bebidas.
Nada fora do normal para o seu padrão, isso só o faz lamentar que vai precisar dar um jeito nesse caos todo num presente próximo ou num futuro distante. De qualquer forma, vai lidar com isso depois. Se der sorte, pode até convencer o namorado a usar os seus dedos mágicos e fazer todo o lixo sumir.
O espaço ao seu lado está vazio, isso nem o surpreende, apenas solta um suspiro lento e estende o braço sentindo o lençol frio ao toque. Este é outro ponto comum da sua vida. Tomura tem horários estranhos e sempre acorda no meio da noite para comer besteiras ou jogar os seus malditos jogos; ele é como um gato, preguiçoso durante o dia e cheio de energia de noite. Dabi acha isso fofo até precisar arrastá-lo pra fora de casa pra tomar sol, não é uma experiência nada divertida – ainda tem marcas de mordidas nas mãos para provar isso.
Se voltando para a porta vê um faixo de luz se estender pelo chão, a tevê está ligada, mas não consegue escutar nenhum som. Sem musiquinhas chatas e repetitivas, nem sons de tiros ou explosões e Tomura também não está xingando.
Por um momento encara o teto, estala a língua e se empurra para fora da cama; o chão está gelado sob os seus pés enquanto atravessa a curta distância até a porta, o frio é agradável. O outono é a sua estação preferida, não corre o risco de superaquecer com a temperatura amena e não há neve pra deixar tudo úmido e nojento.
Em silêncio segue a luz da tevê até entrar no limiar da sala e parar atrás do sofá, onde encontra a figura magra do Shimura, solitário e parecendo tão minúsculo com metade do corpo engolido pelo kotatsu. Observando de perto, Dabi finalmente entende o motivo da sua inquietação.
Tomura está sentado no chão com as costas apoiadas no sofá, os seus cabelos recém tingidos de azul brilham na luz da tevê e os seus braços se apoiam na mesa enquanto os dedos enluvados estão ocupados com os botões do controle – os pressionando num padrão que o Todoroki não entende e nem faz questão. O volume do aparelho é mínimo, na tela as imagens coloridas piscam quando o personagem chega ao final da fase.
Esfregando a parte de trás da cabeça, se aproxima arrastando os pés para fazer a sua presença conhecida, ainda assim não ganha a atenção que deseja do mais novo. Não faz ideia se é intencional ou não, mas está muito tarde para tentar adivinhar e se incomodar com isso. Não é incomum ser trocado por algum jogo, e isso faz uma risada seca escapar sob a respiração.
— Ei, esquisito. – ele chama, se apoiando no braço do sofá. A única resposta que consegue em troca é um zumbido alto e um rápido olhar de canto. – Não está tarde pra jogar isso?
Tomura pisca e morde o canto do lábio cicatrizado, por dois segundos Dabi acha que vai ser ignorado, mas a resposta vem, num tom baixo e arranhado. – Não consegui dormir.
— Hum. Algum motivo específico?
A pergunta faz o azulado pausar o jogo, com muito cuidado deixa o controle sobre a mesa e ergue os olhos para encontrar os azuis do moreno; de onde está o usuário das chamas consegue ver a ponta do nariz vermelha e os olhos inchados. Não precisa de muito mais que isso para entender, hoje é um daqueles dias muito ruins.
Pacientemente espera até o namorado se sentir confortável para falar ou não sobre isso. O assiste se mover inquieto sob o kotatsu e esfregar a manga da camiseta na lateral do pescoço numa tentativa de não se machucar muito. Não vai força, mas ver alguém tão forte quanto Tomura prestes a desabar, faz um nó se apertar no seu estômago.
— Não, nada importante. Só não consegui.
É tudo o que o Shimura oferece e o Todoroki aceita, um curto aceno. Aquela não é uma mentira, mas também não é toda a verdade e Dabi entende, entende tão bem que é quase ridículo. Ele próprio tem a sua cota de noites ruins, depois de pesadelos ou por causa das suas chamas, o silêncio e a escuridão do quarto o sufocam. E então aquela necessidade de fugir faz a sua pele arder em chamas.
Perdeu a conta de quantas vezes assistiu o nascer do sol com o peito comprimido e a velha culpa o comendo de dentro pra fora. Às vezes acha que só escapou daquela casa porque é um covarde e era mais fácil deixar os seus irmãos lidarem com toda a merda do que enfrentar o velho.
E o que importa se voltou quatro anos depois? Ou que os seus irmãos não o culpam por deixá-los para trás? Ainda vai carregar isso na sua consciência. Um caçula com cicatrizes para a vida toda, a mãe perdendo um terço da vida num hospital psiquiátrico e outros dois irmãos lidando com tudo sozinhos. Uma merda fodida.
Estalando a língua balança a cabeça para afastar esses pensamentos, observa o namorado morrer e reiniciar a fase por cinco minutos e deixa os seus olhos vagarem pelas costas tensas. Agora Tomura está ativamente o ignorando, fingindo indiferença, mas o conhece tão bem quanto os grampos que o mantém inteiro.
Dabi sabe que ele é um merdinha teimoso demais para pedir atenção só porque teve um momento difícil, mas quem é ele para criticar? Ambos são assim, tão parecidos e ainda diferentes, precisam de tempo e espaço pra lidar com toda a merda dento da própria cabeça. Só que não precisam passar por isso sozinhos, não mais.
Sem nenhuma delicadeza cutuca o namorado com o pé e sorri quando ganha um olhar aborrecido, que faz Tomura parecer um gatinho mal humorado.
— O que você quer, idiota?
— Vai mais pra frente. – comanda, com uma nota de impaciência.
O mais novo ergue uma sobrancelha e por um instante eles se encaram numa luta de vontades até o usuário de decay ceder, bufar de um jeito exagerado e atender ao pedido, se apertando mais contra o kotatsu com um gemidinho descontente. Sem perder tempo, Dabi se acomoda atrás dele, envolve os braços quentes na cintura fina e pressiona o queixo no ombro ossudo.
Muitas cotoveladas depois eles encontram uma posição que funciona e ele sorri por trás dos cabelos azuis. – Confortável?
— Hum. – resmunga, voltando ao jogo.
Eles ficam assim, compartilhando o silêncio agradável até as mãos muito quentes se aventurarem pelo corpo do outro, sentindo a pele fina e os músculos se contraírem sob os seus toques. Nada sexual, apenas porque ele pode e quer tocá-lo. As pontas dos seus dedos fazem cócegas no estômago suave e ganha um beliscão na perna em retaliação, mesmo assim o moreno sorri, aquela inquietação finalmente passou.
— Ei, Touya.
— O quê, Tenko?
— Obrigado.
— Pelo o quê? – pergunta, genuinamente curioso.
Tomura pausa o jogo novamente, faz um trabalho desajeitado para girar o corpo no espaço limitado e sorri para o namorado quando o vermelho encontra o azul. – Por nada, idiota. – diz com um riso, antes de pressionar os lábios nos seus incompatíveis.
Notas finais
Às vezes acho que me perco na proposta inicial, mas gostei do resultado :)
~Kissus da Taimatsu~
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