Dias Ruins

1 Poeira e escombros


Notas iniciais
Escrita ao som de Primavera, de Ludovico Einaudi, caso alguém goste de ler ouvindo música.

É, você me enganou. Achei que os dias ruins tinham ficado para trás. Mas por que abandonar velhos hábitos, não é? Achei que o anterior seria realmente só um dia ruim, o último ou talvez não, mas certamente não esperava a volta de um padrão.

Você já percebeu o quanto é poderosa? Sim, você é uma criatura assustadoramente poderosa. Você tem o poder aterrorizante de fazer seus dias ruins se tornarem os dias ruis de todos. Inclusive os meus também, mesmo que não acredite quando digo isso. Eu não costumo me descrever, mas de todas as coisas que sinto, só um fraco eco chega à superfície. Meus dias ruins se confundem com dias normais, então você me olha desse jeito meio ofendido, achando que minha neutralidade é nada mais que desprezo e indiferença pela sua dor.

Meus parabéns, metade você acertou.

Desculpe, hoje não estou a fim de ser gentil. Estou cansada. Eu me canso também. Ultimamente, com mais frequência. Estou tão cansada que declarei guerra aos dias seguintes e ódio pela noite, pois o dia de hoje está acabando, e amanhã já é outro dia. Os dias não param de passar, não importa o quanto eu deseje uma pausa.

Indiferença. É, chegou perto. Somos criaturas adaptáveis, é o que dizem. Com o tempo eu aprendi que sofrer ao seu lado não alivia sua dor. Sei que tem muita carga em seus ombros, mas você as agarra firme. Não quer ajuda, só quer que os outros se sintam tão mal quanto você. E é por isso que eu lhe incomodo: porque há muito tempo percebi que se eu deixasse minha paz depender da sua, todos os meus dias seriam feitos de angústias.

Que tipo de pessoa se permite ignorar alguém em prol de uma paz egoísta?

Eu penso isso de mim mesma e tenho um pouco de asco, mas é aquela história, até mesmo eu só consigo ver disso um eco fraco. Sou tão facilmente ignorada por mim mesma que preciso ver as palavras escritas para conferir que ainda estou aqui.

Eu me fiz indiferente e você preencheu o meu silêncio. Não fui inteligente. Você vive em um mundo onde passos de formigas são extremamente ensurdecedores, enquanto eu sinto que um prédio desabando sobre mim ainda não seria suficiente para fazer eu me mover. É, faz algum barulho, mas deixe que caia, deixe que me enterre, quem é que liga? Tenho certeza que depois só haverá paz e silêncio na poeira dos escombros. E existe alguma beleza em coisas destruídas, não é? Senão você não destruiria tantas. Por que só você tem esse direito? Eu ao menos só destruo o que me cabe.

Mas tenha cuidado. Sou quem lhe conhece há mais tempo, mas olhe ao redor, os outros também perceberam. Não vê que se afastam quando você chega, levantam quando você senta, e que preferem comer sozinhos horas depois do que dividir a mesa com você? Que ficam lá fora encarando a terra molhada, murmurando um para o outro um segredo abafado pelo som da chuva: “Como é frágil um dia bom…”?

Irônico. O que mais detesta em mim é o que me faz permanecer à mesa com você, minha suposta indiferença, pois consigo ouvir os espinhos sem me ferir. Mas deixe-me contar um segredo que você talvez já tenha percebido: eu também estou em um dia ruim. Não se envaideça, não é por sua causa. Não é só por sua causa. Tenho meus próprios problemas para lamentar sem o seu fogo amigo.

Sempre pensei que você me fez uma boa mentirosa. “Eu entendo”, “eu concordo”, “está tudo bem” sempre foram tão fáceis de dizer. Mas eu não consigo mais. Isso me contaminou tão fundo que me sinto vazia mesmo das coisas que eu sinto de fato. Me tornei paranoica, sempre preocupada em mascarar a verdade com a própria verdade. Eu não sei como convencer você do que eu sinto de verdade, e, pensando bem, acho injusto que exija isso de mim. Estou soando feliz o bastante quando lhe parabenizo? Pareço triste o bastante quando lhe dou condolências? Por que só não me diz o que quer ouvir em vez de me fazer duvidar de cada palavra minha? Ou apenas me esqueça, pode ser só por um dia, porque eu estou cansada. E tenho cada vez menos vontade de falar o que quer que seja. Então por favor, pare de perguntar coisas que não quer ouvir. Porque hoje estou em um dia ruim e me permito ser uma pessoa um pouco pior. O poder que você tem corre em minhas veias também. Ouvi tantas coisas que me disse e pensei milhares sobre você, e, acredite, você vai colapsar se eu decidir abrir a boca.

Me esqueça por um dia, por favor. Só um dia. Descobri que nem todo silêncio traz paz e estou presa nos escombros, mas vou sair daqui. Não precisa se aproximar, fique onde está! Estou bem, não se preocupe! Estou bem, não se preocupe. Vou sair daqui sozinha. Depois… depois, quem sabe? Talvez eu abra mesmo a boca, mas aí está o problema. Eu não quero usar esse poder, mesmo que às vezes tenha vontade. Ninguém aqui tem nada a ver com os meus dias ruins.

Acho que somos feitas para a distância, nos vendo apenas em Natais e aniversários. Talvez assim a felicidade do reencontro mascare a incompatibilidade da convivência. Até lá, seguimos nisso até chegar o momento em que os escombros me enterrarão de vez, quando você finalmente conseguir me deixar louca. Mas, e isso é outro segredo… eu gosto. Me dê motivos para ser irracional sem medo, me dê razão para ser egoísta sem culpa. Me dê motivos para ser um pouco pior e muito mais verdadeira, porque a raiva pode ser boa com alguma moderação, assim como a nossa relação.

Quando você me deixa assim, percebo que eu durmo melhor, penso melhor, escrevo melhor. E também minto melhor, como acabei de fazer.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!