Diary of a Savior
3 Laços Familiares
Notas iniciais
“Estou seguindo em frente
Você pode ter meu passado,
eu nunca vou ter isso de volta
Estou seguindo em frente,
porque os dias se foram.”
(“Days are Gone”, Haim)
Quando você pensa em reencontros familiares pós apocalípticos, as primeiras coisas que lhe vêem a mente são abraços apertados, rios e cataratas e oceanos de lágrimas e a felicidade indescritível por ter encontrado parentes que acreditava estarem mortos ou zumbificados por aí. No meu caso, só que não.
Eu e o meu tio estávamos sozinhos no mesmo aposento, calados, sem saber o que dizer um para o outro. No fundo, eu podia entender aquilo tudo: nunca havíamos sido próximos um do outro, o apocalipse causou uma aproximação forçada, mas não é como se houvessemos sentido falta um do outro ou pensado um no outro como alguém que teve um profundo significado em nossas vidas. Era possível ter laços sanguíneos tão próximos e mesmo assim sentirmos como se fossemos estranhos desconhecidos?
Depois de pensar um pouco (acho que vocês já devem ter percebido que eu tenho uma espécie de introspecção cognitiva), cheguei a conclusão de que sabia pouca coisa sobre o Daryl. Não me lembrava dele ter ido alguma vez a Hinnesville, de ter enviado presentes nos meus aniversários ou em outras datas comemorativas. Apenas lembrava de vê-lo algumas poucas vezes na casa dos meus avós em Savannah e de ouvir uma coisa ou outra sobre o irmão gêmeo rebelde da mamãe.
Especialmente em uma ocasião, há muitos anos atrás, havia sentido a falta do tio Daryl. Era o meu aniversário de seis anos, papai e mamãe tinham organizado todos os presentes que eu tinham chegado no dia na sala de estar da nossa casa, para que eu pudesse ser surpreendida quando levantasse pra tomar o café da manhã. Haviam caixas pequenas e grandes, com embrulhos e cartões de todas as cores e eu os abria fascinada com cada presente que tinha recebido de um amigo, parente e vizinho.
Para minha surpresa e nostalgia, lembrava também de muitos dos presentes que tinha ganhado naquele ano e o quanto havia ficado feliz ao desembrulhar cada um deles. A caixinha de música da minha professora de balé, a boneca de cachinhos dourados da tia Dayse, a fantasia do papai… E nada do tio Daryl. Para uma criança de seis anos, a falta do presente de um tio era significativo e motivo sufiente pra chorar no dia do aniversário.
— O que foi, querida? — perguntou a mamãe, se ajoelhando ao meu lado no tapete com uma montanha de embrulhos espalhados – Você não gostou do ursinho da sua amiga Ava?
— Por que o tio Daryl não gosta de mim, mamãe?
— Ah! Querida! — Dana Marshall alisou os meus cabelos – É claro que ele gosta de você.
— Ele não enviou nenhum presente pra mim.
Mamãe suspirou, como se estivesse escolhendo as palavras certas.
— No momento, ele não pode enviar presentes para você ou qualquer outra pessoa. O tio Daryl fez algo ruim e tem que ficar sozinho por um tempo para que ele volte a fazer coisas boas outra vez – disse ela bondosamente – Entende, querida?
Eu assenti com a cabeça. Ela pegou uma das caixas de bombons que eu tinha ganhado e abriu a tampa revelando trufas de morango.
— Que tal se a gente comer algumas dessas antes que o papai veja?
Anos depois, quando a idade trouxe a maturidade e levou embora a minha inocência, entendi que naquela época o tio Daryl estava preso na penitenciária de Atlanta. E que atividades criminosas como tráfico de drogas e porte ilegal de armas eram comumente chamados como os 'negócios da família' e estavam intimamente ligados aos Dixon. Talvez tenha sido por isso que os meus pais eram os únicos membros da família que moravam em outra cidade e mantinham pouco contato com o restante.
— Há quanto tempo estava sozinha por aí? — Daryl finalmente quebrou o silêncio.
Estranhei que essa tenha sido a primeira pergunta dele, mas logo percebi que seria um passo dado para as próximas que viriam. Conscientemente, sabia que o meu bem estar pouco lhe interessava e que não foi por se importar comigo que ele tinha me trazido para a prisão.
— Há alguns meses – Ele assentiu parecendo indiferente – O tio Merle não estava com você quando...
— E daí? — perguntou secamente – Não sabe fazer os cálculos, garota?
Era verdade: não tinha visto o Merle desde que havia chegado a prisão; mais uma vez, nenhuma emoção me ocorreu ao receber a notícia. Nós também não éramos próximos e me lembrava exatamente o porquê. O tio Merle vivia envolvido com assaltos, venda de drogas e assassinatos, chegando a ser ameçado de morte várias vezes; mamãe queria me deixar longe dos problemas gerados pelos negócios da família.
O Daryl não era a pessoa mais gentil que eu conhecia, mas a aspereza com que respondeu a minha pergunta me surpreendeu.
— A vovó e o vovô…
Ele balançou a cabeça.
— Devem estar mortos. É melhor que estejam mortos – disse ele – Se fugiram, não devem ter conseguido chegar muito longe. Velhotes não tem chances contra ordas de zumbis.
A forma como ele colocou a questão me deixou profundamente irritada, embora soubesse que os meus avós não teriam muitas chances se estivessem sozinhos. Mesmo assim, era errado ter esperança?
— O que aconteceu com os seus pais?
— Estão mortos – respondi.
— Acha que eu sou idiota? É claro que já percebi isso – respondeu grosseiramente.
— O meu pai foi mordido. A minha mãe foi decapitada quando outro grupo atacou o nosso – disse com má vontade – Satisfeito?
— Olha como fala comigo. Acha que eu queria mesmo ter achado você? Tenho cara de quem quer ser babá de fedelhos?
Engoli em seco, estupefata. Por aquela eu não estava esperando.
— Por que não me deixou lá então?
— O Rick teria te trazido de um jeito ou de outro. Se eu estivesse sozinho, teria largado você lá, garota – cuspiu Daryl — Quero deixar apenas algumas coisas bem claras pra você: eu não sou a sua babá, por isso não faça nada de idiota esperando que eu vá salvar você. E fique bem longe de mim, não aguento ouvir o choro de crianças no pé do meu ouvido.
Eu estava sem reação e me odiei por isso. Queria dar uma resposta a altura, mas as palavras simplesmente me fugiram como um humano foge de um errante.
— Eu não gosto de você, então não me chame de tio. Eu não sou seu tio.
E saiu.
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