Notas iniciais
Para quem gosta do Ringo, este capítulo foca nele um bocadinho.

-Katie? – Apenas ele falou. Sim, o meu entrevistado era ele. O meu amigo de infância. E quando levantei os olhos aos outros três rapazes, não queria quer. Quais eram as chances?

-Não acredito! – Disse por fim. Já devia estar a fazer figura de idiota de boca escancarada a olhá-lo. – Paulie? És mesmo tu?

-Sou eu próprio. – Ele deu-me um doce sorriso.

-Oh meu Deus! Há quantos anos! – E após ter dito isto fui puxada para um abraço por ele, que retribui. Olhei por cima do ombro dele e vi os outros três rapazes a olharem-nos completamente à nora. Mas mais ignorante estava eu. O meu amigo de infância, aquele que conhecia por Paulie, era o Paul. O Paul dos Beatles. Eles eram a mesma pessoa. E mais estúpida me senti por saber que já tinha ouvido e visto os Beatles tantas vezes, e nunca consegui reconhecer no baixista o meu amigo. Talvez porque não quisesse acreditar.

-Bem, — Ele disse largando-me e colocando uma mão nas minhas costas e com a outra apontando os amigos enquanto os apresentava. Embora eu já soubesse quem eram, agora estávamos a ser apresentados cara a cara. – estes são o John, — Ele pestanejou na minha direção, sorrindo. – o Ringo, — Ele ofereceu um largo sorriso e depois os seus grandes olhos voltaram-se para o chão, como se fosse ele que tivesse ficado envergonhado por me conhecer. – e o George. – Um rápido sorriso e um ligeiro aceno de cabeça foi tudo o que recebi do guitarrista. – Rapazes, esta é a minha amiga de infância, Kate.

John Lennon agarrou-me na mão e beijou-a enquanto fazia uma vénia. – Qualquer amiga do Paul é minha amiga também.

Nem tempo tive de sorrir e ficar lisonjeada com o estilo namoradeiro do rapaz porque o Paul deu-lhe um tapa na mão e disse. – Amigas, Johnny. Amigas. – Ele voltou a colocar a mão nas minhas costas e agora encaminhava-me para a sala de refeições em frente, já que ainda continuávamos no meio do corredor. Tentei tirar-lhe a minha mala das mãos, mas ele não deixou. – Sabes, ainda há pouco falei com o teu avô. Ele disse que precisavas de um exclusivo, mas nunca achei que chegasses tão depressa.

-Na verdade, eu nem sabia quem vinha entrevistar. Sabes como é, o meu avô e os seus mistérios!

Paul colocou a minha mala sobre uma mesa vazia e lá ao fundo vinha um homem caminhando na nossa direção. Na minha direção mais especificamente e ele não parecia nada contente. – Desculpe senhorita, mas os rapazes não estão disponíveis para entrevistas agora! – E dizendo isto empurrava-me para fora da sala.

-Brian, Brian, — Paul disse. – ela está comigo. – Ao dizer-lhe isto, o empresário virou-se para trás, quase o matando com os olhos. Ele depois percebeu que a escolha das palavras não fora a melhor e emendou-se. – Ela é minha amiga, não há problema.

-Peço desculpa então. – Ele soltou-me o braço e estendeu-me a mão. – Brian Epstein.

-Kate Martin. – Dei-lhe um aperto de mão. – Prazer em conhecê-lo.

-Bem, rapaziada, preciso de falar convosco por uns minutos, ok? – Ele preparava-se para sair após ter recebido os acenos de cabeça por parte dos quatro. – Ah, — Brian voltou atrás uns passos e falou para Paul. — as cravelhas do teu baixo já chegaram. Mas, vá, venham agora lá comigo.

John, Ringo e George seguiam atrás do Brian mas o Paul ficou um pouco para trás. – As cravelhas vieram da loja do teu avô, sabias? – Ele disse-me sorrindo. Depois ele ficou todo engasgado e desajeitado, porém engraçado e fofo, ao explicar-se. – Tenho que ir. O Brian quer falar connosco-

-Claro, claro. – Eu proferi prontamente. Longe de mim ir atrapalhar o trabalho deles. – E eu tenho que arrumar a minha mala para outro sítio.

-Depois falámos. – Ele disse já dando passos para trás. – Encontramo-nos aqui, ok?

-Combinado.

Vi-o correr, alcançado os amigos e companheiros de banda. Saltou às costas do John que tombou contra a parede por não estar à espera da investida dele. Mas ele aguentou, agarrando-lhe as pernas e carregando-o às costas. Só pude sorrir ao vê-los. Enfim, agarrei na mala e fui procurar qual o sítio que me tinha ficado reservado. Antes de colocar a mala no suporte para a bagagem abri-a e verifiquei se a câmara fotográfica estava em boas condições depois daquele tombo. Coloquei-a na minha mala de ombro e saí para a sala de refeições novamente. Sentei-me lá, sozinha. Abri um dos meus cadernos e fui rabiscando umas coisas, uns esboços daquilo que poderia ser a minha entrevista.

-Posso? – Ouvi uma voz perguntar-me, apontando os lugares vazios em frente a mim. Levantei os olhos e acenei, mesmo já sabendo quem era. A voz dele era reconhecível, se bem que ele é mais conhecido pelas batidas da bateria. – Kate, estou certo?

-Sim. É deveras um prazer conhecer-te. – E agora aí estava o meu dilema. Como o haveria de tratar? Sim, porque ele tinha mais um ano do que eu, mas ele não era pessoa vulgar de rua. Não sabia sequer se o chamava Ringo ou Richard. Ele soltou um risinho e ficou envergonhado.

-Onde estão os outros?

-Ah, o Paul ficou todo contente por ter as cravelhas para o baixo. O Brian autorizou a que o baixo dele viesse no comboio então ele ficou para lá a pô-las. O George resmungou por ter fome e desapareceu da nossa vista, e o John…bem, o John é o John. Sabes lá que tropelias deve andar a aprontar!

Eu sorri, mas depois tornei-me séria, gesticulando com a caneta na mão. – Vou ser muito direta, como te posso tratar? Richard, Rick, Ringo…? Sr. Starr? Sr. Starkey…? — Esta foi a minha última investida e só agora parei para respirar. Falei depressa propositadamente. Queria que ele ficasse a saber que estava disposta a qualquer forma de tratamento.

-Ringo, simplesmente Ringo. É o que os meus amigos me chamam, e é assim que sou conhecido.

Aqui vi a minha brecha. – Mas eu não sou uma amiga. No máximo passamos agora a ser conhecidos.

-Tal como o John disse, — Ele tirou os anéis dos dedos e olhou-me. – qualquer amigo de um de nós é amigo de todos.

-Fico contente por saber. – E esbocei um sorriso. O mocinho olhava a paisagem, um pouco desanimado, talvez só cansado, não sei. – Saudades de casa?

Ele suspirou, sem nunca tirar os olhos da janela. – Um pouco, — Ringo então desgrudou as órbitas da vista e recostou-se no assento. Um sorriso tomou então conta das feições dele. – mas isto aqui é bom demais! É cansativo por vezes, mas fazer aquilo que mais gostamos e estarmos em boa companhia faz-nos esquecer a parte difícil. Talvez a banda acabe em um, cinco, dez anos, mas pelo menos posso dizer que aproveitei cada etapa.

Eu não ia começar uma entrevista, mas aquilo era bom material. Aquilo que jorrava da boca do baterista de forma tão normal, como uma conversa, e tão sincera, aquilo era ouro. E então comecei a apontar, lançando uma pergunta. – Falaste em etapas, isso implica mudança. Receias que talvez uma mudança de estilo musical ou até mesmo de aspeto visual vá desencadear diferentes reações nas fãs?

-Um verdadeiro fã é aquele que fica até ao fim, que continua a apoiar-nos quando as coisas dão mais para o torto. Não critico quem daqui a um tempo se encha de nós, mas a mudança não devia causar más reações. A mudança é uma coisa positiva, na maioria dos casos. Não sei se mudaremos, mas se isso acontecer, que seja para melhor!

O momento era sério, no mínimo, e eu abafei uma gargalhada, olhando o caderno. – Olha o mais caladinho nas entrevistas agora está-se a revelar um filósofo! — Mas ambos sabíamos que aquilo não era uma entrevista. Era mais uma conversa informal.

-Ok, senhora jornalista, — Ele puxou o caderno para ele e eu ofereci-lhe automaticamente a caneta de tinta permanente. – deixa-me então ser eu o que fala menos! Está a gostar desta experiência?

-Devias começar por escrever a pergunta. – Eu adverti, rindo e ele ignorou-me, arregalando os olhos à espera da minha resposta. – Ok, ok, eu respondo! Sim, estou a adorar esta experiência se bem que esta ainda só começou à coisa de meia hora!

Só depois entendi que a brincadeirinha dele tinha segundas intenções. Ele queria escrever, ou melhor, praticar a escrita, porque pela força que ele aplicava sobre o papel ficou provado que ele já não devia escrever há algum tempo. A caligrafia dele já devia estar decalcada nas três páginas seguintes, já para não falar nas marcas de tinta.

Então agarrei-lhe a mão e tentei suavizar-lhe os gestos. – Não carregues tanto. Estas canetas têm a particularidade de deslizarem muito bem nas folhas.

Reparei também no empenho dele. Ele ouviu-me e seguiu o meu conselho, escrevendo mais levemente, ainda redigindo a frase que tinha dito. Ele realmente empenhava-se em tudo o que fazia, não se limitava apenas à bateria. Não era segredo para ninguém que ele tinha atrasado na escola e que ainda tinha alguma dificuldade em ler e escrever. Mas ele continuava ainda mais comprometido em escrever o que eu dizia. Quando encheu a página, sobrando apenas duas linhas ele escreveu o nome numa letra que eu já não me lembrava de fazer desde o tempo da escola primária e por baixo fez a sua assinatura.

Depois olhou-me orgulhoso e começou a ler o que tinha escrito. Ele próprio achou e corrigiu os erros, que não eram muitos e que eram compreensíveis, daqueles que também eu às vezes dou, como esquecer um apóstrofo, ou escrever a palavra homófona em vez da que queria escrever. À hora do jantar, ele ia estar todo orgulhoso a mostrar a todos que tinha feito progressos, e só mesmo o John para contar a sua piada e reparar num erro ou outro que nem eu tinha visto. Agora, arranquei a folha do caderno e dei-lha, vendo-o sair. A primeiro não percebi porquê, mas depois vi o sorridente do Paul a entrar, tomando o sítio onde o Ringo tinha estado.

Notas finais
Deixa review, vá lá, não custa!