Diana's The Adventures
3 Capítulo 3 - A lenda do sapo.
Notas iniciais
Sapphire fala...
Quando eu tinha três anos de idade, recordo de minha mãe me contando a lenda dos sapos no poço. Era a minha história preferida. A história contava sobre vários sapos que moravam juntos em um poço estreito e a boca desse poço não permitia uma visão ampla do exterior, sendo possível apenas enxergar um pedaço do céu azul. Em um certo dia, outro sapo viajante que vivia nas redondezas de um lago passou por esse poço e olhou para dentro dele. Um dos sapos dentro do poço perguntou quem era aquele outro sapo e o mesmo contou que morava perto de um lago e todos dentro do poço ficaram intrigados perguntando ao viajante: "Lago? O que é lago? É grande? Onde existe isso?" e ele respondeu que o lago era muito grande, maior que a pedra que um dos sapos apontou, que a tábua que o outro falou; e maior do que o próprio poço que os outros sapos viviam e contou que se saíssem daquele poço poderiam vê-lo dali de cima. Os sapos ficaram enfurecidos, indagando como algo tão grande poderia existir? Afirmou que o sapo viajante estava mentindo e tramando algo contra eles. No momento em que ela me contou essa lenda eu não compreendi muito bem, eu era só uma menina ingênua. Mas adorava ouvir sua voz todas as noites antes de dormir. Recordo-me de que, mesmo na adolescência, mesmo que sem minha mãe ao meu lado, eu lia todas as noites para Íris, dando-lhe um beijo de boa noite como nossa mãe fizera comigo. Minha irmãzinha não teve o calor materno que eu pude desfrutar por três anos, então era meu dever suprir esse papel. "É sua irmãzinha", disse minha mãe antes de morrer, " cuide bem dela, Sapphire, e ame-a muito, e nunca esqueça da lenda do sapo no poço."
Quando ouvi essas palavras eu pensei por muito tempo que deveria passar o seu legado, contar sempre a história para minha doce irmã. Hoje, que sou mais velha compreendo o que minha mãe quis dizer. Eu não deveria ser como os sapos no poço e conhecer só o velho poço estreito, deveria escalar o poço e ver o lago pelo qual o sapo viajante falara. Me doeu partir naquela noite e deixar minha pobre irmã naquele poço. Porém, eu sabia que ela nunca seria como eu, nunca gostou de escalar árvores ou montar a cavalo, montava por obrigação. Sempre preferiu as festas e os jantares que nosso pai dava. Sempre preferiu ficar no castelo ou em nossas terras. Por mais que eu lesse para ela a lenda dos sapos no poço, ela nunca teve curiosidade de ver o lago. Creio que devo ter puxado o lado aventureiro de minha mãe, pois meu pai é como Íris, apreciador das festas e jantares. Lembro-me de que um dia o perguntei se desejaria desposar outra esposa e ele negou, dizendo que minha mãe fora a única que ele amara em toda sua vida. Porém, acredito que ele sempre acalentou o desejo de ter outro filho. Nunca me disse nada, mas eu sabia. Um reino com duas mulheres, precisava de um menino para governar. Ele sempre falava que eu seria a herdeira de seu reino, porém, não era o meu destino.
Meu destino pode ter sido realmente escrito pelos deuses a partir do momento em que meu pai contratou, Diana, para me salvar dos sequestradores. Foi nessa ocasião que tive meu primeiro encontro com a guerreira. E quando resolvi conhecer o lago, eu sabia que minha vida inteira estava prestes à mudar.
A primeira aventura que tivemos após minha fuga do castelo foi para ajudar, Deméter, a recuperar sua filha, Perséfone. Foi o nosso primeiro trabalho em equipe. Talvez não mereça ser chamado em equipe, ela fez a maior parte de tudo. Me salvou inúmeras vezes, assim como trouxe, Perséfone, e posso dizer que sem minha ajuda, não haveria acordo entre Hádes e Deméter. Creio que ajudei um pouco. Porém, eu nunca vou esquecer o que realmente aquela aventura significou para mim, que as diferenças poderiam ser superadas. Eu mantive acesa essa esperança dentro de mim. Nossa primeira noite juntas na floresta não foi fácil para mim, não estava habituada ao chão duro e aos inúmeros mosquitos, tive vontade de desistir e voltar para casa. Achei que havia perdido a cabeça de sair do meu lar quente para me aventurar com uma completa estranha. Acho que chorei silenciosamente durante quatro luas até me acostumar com as dificuldades na floresta. Porém, acordei várias noites com Diana tendo pesadelos. Me aproximei dela e sua testa estava suada, suas faces avermelhadas, a cor estava acentuada, notei sua respiração apressada. Eu toquei em seu rosto e fui rapidamente surpreendida pela lamina de sua espada em meu pescoço, pensei que naquele momento eu iria morrer. Estava assustada e ela percebeu isso em meu olhar, mesmo assim não saí de seu lado.
– Você está bem? — disse-lhe.- Pareceu está tendo um sonho ruim.
– Não foi nada — ela respondeu secamente.
Eu quase me levantei para voltar para o lado em que estava dormindo, mas não consegui me mover, eu ainda encarava seus olhos azuis. Parecia me pedir silenciosamente para que eu ficasse. Ela estava sentada olhando para as estrelas, enquanto eu continuava ao seu lado. Eu estava realmente agradecida por ela ter me salvado todas as vezes. Mas, embora eu estivesse agradecida, tinha também um pouco de medo dela, porque eu não sabia nada de seu passado, além, da história de sua espada e por ter ouvido sua conversa com Hádes de que só poderia morrer em paz quando fizesse sua vingança. Durante esse tempo que dividimos a estrada nunca me falou nada. Não conversamos sobre o seu passado e sempre foge do assunto fazendo uma zombaria ou me provocando, eu sei que guarda algo realmente doloroso, então tento não tocar tanto em sua ferida.
Eu estava pronta para voltar a me deitar, eu estava certa de que, Diana, nada falaria comigo e decidi me levantar. Foi então que ela estendeu a mão e segurou meu pulso e disse-me:
– Fique mais um pouco, prince... — interrompeu-se — Sapphire. Sua presença me acalma.
Eu não acreditei no que meus ouvidos estavam escutando. Me chamar pelo nome e admitir que trago uma calma para ela, fora o momento mais estranho que já presenciei. Olhei para seu rosto desconsolado e um pouco perturbado, sabia que tentava esconder essa expressão, e senti que deveria continuar ali ao seu lado.
Fiquei indecisa, não sabia se deveria dar uma palavra de conforto; ou se deveria ficar em silêncio e o pior, não sabia se poderia perguntar o que aconteceu no sonho. Mas, em lugar disso, ela me encarou e deu um pequeno sorriso de lado. Percebi o quanto ela ficava ainda mais bela — se é que era possível — quando sorria.
– Eu sinto muito por ter apontado aquela arma para você — disse. — Não foi minha intenção. Foi puro reflexo. Quando se tem muitos inimigos é normal estar sempre preparado.
Eu continuei calada, algo em minha garganta parecia me impedir de falar. Eu queria poder continuar essa comunicação que estávamos tendo agora. Ela parecia tão dócil, gostaria de experimentar sempre essa sensação de cumplicidade. Mantive o meu olhar em direção aos seus olhos azuis, a luz da fogueira contrastava com seus olhos, deixando-os cinzas. Isso me deixou fascinada, como ela poderia ficar cada vez mais bela diante de meus olhos? Eu evitava encara-la quando me fazia raiva, porque isso sempre me irritava. Diana conseguia me deixar furiosa em pouco tempo, porém agora, eu estava desfrutando da mesma calma que ela.
– Está tudo bem. Você não precisa se desculpar — foi tudo que consegui dizer.
– Sonhei com minha antiga vida, antes de ser isso — continuou. — Nunca falo sobre mim, enquanto você conversa horas e horas a respeito de todos os seus gostos e livros. Acho que sei tudo sobre você nessas ultimas luas que estamos juntas. Acredito que devo uma explicação já que quase a matei de forma inconsciente. Eu fui criada em uma pequena aldeia de pesca pobre. Minha família estava passando fome e necessidade assim como todo o resto da aldeia. Lembro-me que brinquei muito naquele lago e que um dia foi muito próspero. Meu pai ensinou os segredos de uma boa pesca a meu irmão e a mim. Chegamos muitas vezes com variados tipo de peixes para minha mãe cozinhar a lenha. Certo dia minha mãe ficou muito doente e eu tive que tentar substituí-la nos seus afazeres. E um homem careca e baixo bateu em nossa casa e meu pai mandou irmos para o quarto. Era uma casa pequena, então, mesmo que fossemos para o quarto poderíamos escutar, se fizemos bastante silêncio. Meu pai tinha a voz triste e parecia controlar o choro. Conseguimos ver pelas brechas que ele estava recebendo alguns dinaris. Eu fiquei feliz, poderíamos cuidar de nossa mãe agora. Eles nos chamou e fomos até ele. Meu pai nos contou que aquele homem nos levaria para uma viagem para recebermos instruções e que, enquanto estivéssemos fora ele cuidaria de nossa mãe. Ter a chance de estudar e ter minha mãe curada fora a maior notícia que já tive. Porém, meu irmão, Deimos, não conseguia acreditar que tal bondade fosse real. Mesmo assim, fomos levados e viajamos por dois três sem água ou comida. Eu estava apavorada e Deimos me consolava. Quando chegamos em uma enorme e majestosa casa, fomos separados por alas de meninos e meninas e nosso treinamento começou. Eu possuía, apenas cinco anos, quando me afastei de minha família, Deimos era mais velho, estava com oito. Fomos treinados para sermos os maiores assassinos que já existiu na face da terra. Pelo clã dos assassinos que recrutavam crianças pobres para transforma-las em guerreiros sem sentimento e sem misericórdia. Esse é uma parte do meu passado princesa — seu tom era indiferente e seco.
Eu estava assustada com o que acabara de escutar, a guerreira a qual viajo é uma assassina? Com toda certeza tive um medo que ela pode enxergar nos meus olhos. Sempre fui muito expressiva e nunca foi tão difícil saber se estava com medo; feliz; triste; magoada e eu desejei pela primeira vez, não ser tão transparente assim. Não queria demonstrar medo, queria apoia-la, porque ela se abriu para mim.
– Eu vou ver como Erbos está.
Ela levantou abruptamente e foi em direção ao seu cavalo.
– Como fui burra! burra, burra! — eu estava chateada, irritada e com ódio de mim. Havia desperdiçado nossa primeira conversa de verdade com uma expressão de medo. Levantei e tentei dormir, algo que não consegui até ela está de volta.
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