Diana's The Adventures
11 Capítulo 11 - Leão de Nemeia.
Notas iniciais
AQUELA RESPOSTA FOI COMO UM TAPA NO ROSTO DA PRINCESA. Não, havia sido muito pior do que um tapa. Sapphire preferiria que tivesse sido um tapa ao invés daquelas duras e traiçoeiras palavras da guerreira. Por um instante ela ficou sem fala. Queria perguntar se aquele beijo não havia significado nada para a outra, por quê Diana estava agindo assim? Depois sentiu uma ira dominar-lhe, sentia vontade de da um tapa no rosto da guerreira, porém, sabia que isso não levaria a nada. Olhou mais uma vez para a guerreira e disse no seu tom de voz mais orgulhoso que tinha: Isso nunca deveria ter acontecido. Os olhos de Diana estavam inexpressivos ao fitar a princesa que virou seu corpo em direção a saída, deixando-a ali naquele aposento. Sapphire fazia seu caminho de volta e sentia seu coração bater violentamente em desespero e angustia, queria ter gritado com Diana, queria ter — talvez implorado por um pouco de seu carinho e atenção — Mas outra parte dela dizia que agiu da melhor forma. Porém, se agiu de forma certa, por quê isso a incomodava tanto? Sentia-se tão horrível por ter sido recusada, negada como uma meretriz qualquer. Não, talvez pior do que uma meretriz que o amo cansa e joga fora ou troca por outra ainda mais bela. Ela nem havia sido desejada sequer. Notou sua visão ficar embasada devido as lágrimas que começavam a brotar em seus olhos como pingos de chuva, porém, as segurou firme, Diana não merecia uma gota do seu sofrimento.
Se ela tivesse contado a verdade para seu pai, que não estava noiva de Téleu, que era tudo uma farsa para continuar viajando com Diana, isso jamais teria acontecido. Ela poderia estar dormindo agora com Íris, sem ter que carregar essa profunda dor em seu peito.
Sapphire fala...
Em minha infância recordo de um garoto do qual eu gostava muito, ele era um pouco mais velho do que eu, talvez três anos. Era meu primo de primeiro grau, Iorek, filho da irmã mais nova da minha mãe, Mirian era seu nome. Iorek era diferente dos outros garotos, ele gostava de ler assim como eu — homens só gostavam de três coisa na infância: de cavalos de madeira; empunhar uma espada e um dia ser o cavaleiro do Rei -. Iorek não queria ser um mero soldado e receber ordens, queria aventuras, queria comandar, ele queria muito mais do que os outros. Sempre nos demos bem — de certa forma — por eu rebater seus pensamentos, enquanto a maioria das garotas não possuíam vontade própria. Assim como minha irmã, o resto das garotas sonhavam com casamentos, fofocas, servir aos deuses e fiar — não que possuísse mais coisas -, porém, o conhecimento era negado as mulheres. Li uma vez, que o conhecimento deveria ser negado para as mulheres por terem semeado o pecado pela terra, que tipo de religião falaria algo assim? Não dei muita importância na época, bom, continuando com o que eu estava dizendo. Eu odiava tecer, fazia por obrigação quando era mais nova, porque era o que uma dama deveria fazer. Enfim, não sabia naquela época se o que eu sentia por Iorek era uma paixão infantil ou uma profunda admiração por ele pensar diferente dos outros. Por ele me entender. Agora entendo que tudo o que senti uma vez por ele, fora apenas uma grande admiração. Passaram-se dois dias e durante esse tempo não conversei com Diana, nada além de algumas palavras de cortesia quando ela me perguntava algo. Todas as vezes em que a encontrava, sentia-me humilhada e irritada com ela, procurei de todas as formas me manter longe dela e evitar estarmos no mesmo comodo. Quando o terceiro dia surgiu ela comunicou sua ida. Não me perguntou se eu a acompanharia, Téleu perguntou e insistiu que eu voltasse com eles.
— Seja o que Diana fez ou disse não leve ao pé da letra. Ela sempre foi assim, ranzinza. A viagem não será a mesma sem você.
— Desculpe Téleu, preciso ficar um pouco aqui, estou com saudades da minha família — menti, eu estava sim com saudades da minha família, mas não era um grande motivo para ficar. Eu só queria ficar longe dela por um tempo.
Ele disse por fim:
— Tudo bem. Estaremos seguindo para Argólida.
Os vi partir e deixa-la fora a coisa mais difícil que eu já havia feito. Íris percebeu a minha angustia e perguntou se eu estava sofrendo por ver Téleu ir. Eu afirmei, mentindo outra vez. Sempre compartilhei tudo com a minha irmã, por mais que ela não ligasse ou fingisse ouvir, era minha melhor amiga. Mentir para ela partia meu coração, porém, era preciso. Se ela soubesse, chamaria-me de louca e provavelmente contaria a nosso pai. Então, optei pela mentira doce do que a verdade que machuca. Algumas luas se passaram e eu não aguentava aquele castelo, os diálogos fúteis que cercavam aquelas paredes me aborreciam. Por mais que eu amasse minha irmã, não aguentava mais ouvir suas fofocas de como a princesa das Ilhas do Sul tinha um péssimo gosto para seus vestidos e como conservava seu cabelo em uma trança mal feita. Os jantares suntuosos todas as noites e as baladas do harpista particular do meu pai me faziam sentir saudade da vida na floresta, dos cânticos de Argalad. Ah, como eu o queria de volta. Só com ele eu poderia me abrir inteiramente. Íris me puxava sempre para os mercados, dizia que ali poderiam saber as maiores fofocas de todo o reino e dos reinos vizinhos e claro, comprar lindos vestidos. Perdi a conta das inúmeras trocas de olhares com soldados bonitos. Com toda certeza ela não faria nada com eles, porque era ambiciosa demais para dá seu dote a um mero serviçal. Quando ela tinha dez anos, uma senhora praticante de adivinhar o futuro previu que seu futuro estava ligado a de um grande Rei da Grécia, porém, ela não seria plenamente feliz, pois sua felicidade estaria em alguém inferior e cabia a ela escolher. Ela nunca mais tocou nesse assunto e sempre comentava sobre seu futuro noivo e de como estava feliz. Nunca soube se ela estava me convencendo de que estava feliz ou se estava se convencendo disso. Eu admirava um vestido, azul turquesa, quando uma mão pousou em meu ombro, achei por um momento que seria Diana, que ingenua fui.
Argólida nunca foi o local preferido de Diana, porém, era onde morava o maior de todos os ferreiros, diziam que ele havia sido agraciado pelo próprio Hefesto. Porém, seu trabalho nunca saía barato. Diana seguiu com Téleu para vê-lo, pois Erbos precisava de novas ferraduras com urgência. O ruivo percebeu como a guerreira havia ficado mais silenciosa durante toda à viagem. Diana nunca foi de conversar muito, porém, nunca dispensava um deboche quando havia ou não a chance e ele estranhou isso, será que a ausência de Sapphire havia incomodado tanto ela? Informou que se ela precisasse de um amigo ele estaria ali e ela apenas acenou com a cabeça positivamente. Deixaram ambos os cavalos com o ferreiro e seguiram para uma taberna, onde encontrava-se uma grande agitação dos aldeões. Puderam ouvir claramente o nome de "Leão da Nemeia" que estava assolando o lugar e por onde passava deixava um grande rastro de sangue e ofereciam uma recompensa para quem o matasse. Téleu mostrou-se interessado, enquanto Diana bebericava o seu vinho quieta. Ele perguntou se ela gostaria de acompanha-lo nessa caçada e Diana recusou rapidamente.
— Vamos Diana, desde que saímos de Corinto você parece uma morta dentro dessas roupas de guerreira. Sabemos que os dinares estão quase acabando será útil essa recompensa, pense nisso. E todos sabemos que Erbos não ficará comendo só feno, ela adora cenouras, saíra mais caro o serviço do lendário ferreiro e você precisará de uns dinares à mais — argumentou ele. — Enquanto eu, preciso de uma ação. Já faz muito tempo que não vejo uma criatura desde a última vez que um grifo amarelo fugiu, ainda estou atrás dele, porém, deixo com uma vantagem, pois quando encontra-lo, não terei misericórdia.
— Grrr... tudo bem — rosnou ao concordar. — Duvido que esse grifo exista, me falou dele antigamente umas cem vezes, mas... tudo bem.
Falavam que o Leão da Nemeia era a criatura mais temida por toda a Argólida. A fera não poderia ser morta por causa do seu couro quase impenetrável. Muitos homens não ousavam desafia-lo por medo do seu rugido aterrorizador que poderia ser ouvido a várias léguas de distância. Téleu e Diana caminhavam em direção a montanha, um no encalço do outro, o guerreiro havia retirado seu grande machado e espreitava qualquer lugar. Os nós dos dedos encontravam-se brancos devido à força que aplicava para empunhar sua arma. Um urro fora ouvido a leste nas montanhas e eles correram em sua direção. O Leão era imenso, seu pelo dourado com uma juba volumosa alaranjada moldava seu corpo felino musculoso. Estava diante de uma pessoa totalmente encapuzada. Téleu deu um passo à frente para ajudar aquela pessoa quando Diana o impediu.
— O quê está fazendo, aquela pessoa precisa de nossa ajuda.
— Você disse que precisamos de aventuras, espere um pouco mais — a guerreira encarava aquele lutador que carregava flechas com plumas avermelhadas. — Hum... o arqueiro misterioso. Sabia que voltaríamos a nos encontrar — disse em um tom baixo.
O lutador desviava dos ataques da fera e jogava seus shuriken — armas letais de arremesso em forma de cruz com quatro pontas — que não causavam o menor dano no animal. Téleu perguntava se poderia ajudar agora e Diana negava. Queria avaliar o poder de luta que aquela pessoa possuía, afinal, estava diante de seu quase assassino. Escutou um praguejo vindo do misterioso, que sacou seu kusarigama — uma arma em forma de foice com uma longa corrente presa ao cabo e um peso de metal na outra extremidade da corrente. Ele chicoteava o animal que não poderia sentir nada, ele avançou, montando nas costas do Leão que o jogou facilmente no chão colocando a pata sob o corpo do misterioso arqueiro. Diana olhou para Téleu e confirmou que agora poderiam ajuda-lo. Ela desembainhou sua espada atraindo a atenção da fera, enquanto Téleu salvava aquela pessoa. Perguntou se ele estava bem e o outro respondeu com uma sacudida de cabeça que sim. Diana desviava rapidamente do leão. "Minhas armas são inúteis contra essa fera, só ele mesmo poderá se ferir. Preciso pensar em algo rápido!" pensou.
A guerreira montou no Leão conseguindo se segurar nele, ele se sacudia tentando arremessa-la para longe e ela segurava os pelos de sua juba, firmemente. Sussurrou no ouvido no animal um "desculpe" e o cegou como fez a Cérberus. A fera urrou alto de forma ensurdecedora que Diana teve que levar as mãos aos ouvidos para protege-los. O leão saiu um pouco tonto e esbarrando em algumas rochas. O vilarejo ficaria livre das ameaças da fera. Ela se dirigiu a pessoa misteriosa que arregalou seus olhos ao ver a guerreira. Diana rapidamente puxou sua máscara que impedia de ver seu rosto.
— Lembra-se de mim? Fez um buraco na minha roupa na tentativa de me matar com uma de suas flechas — ela disse ao devolver a antiga flecha quebrada a pessoa a sua frente com certa irritação.
Téleu observava a pessoa ainda a sua frente. Era uma mulher e como era linda ele pensou, seus cabelos eram lisos e alaranjados, abaixo dos ombros, uma linda pele de marfim com maçãs do rosto altas e coradas. Olhos negros enigmáticos, possuía superficialmente uma cicatriz no lábio que fornecia um charme. Parecia um pouco irritada.
— Você devia estar morta — disse ela ao apontar para Diana enquanto se levantava. — E eu não precisava da ajuda de vocês, estava tudo sob controle — queixou-se.
— Claro, se chama quase morrer de controle, tudo bem — disse Téleu com seu olhar encantador para a garota que deveria aparentar dezoito anos.
— É o que muitos querem, que eu esteja morta — falou a guerreira.- Por que não aprendo a lição e paro de salvar as pessoas — reclamou.
— Por você está viva eu terei que retratar a minha recompensa. Só que agora, eu tenho uma dívida com você — a jovem franziu os lábios em pura irritação.
— Uma dívida comigo?
— Sim. Você salvou minha vida, então até eu salvar a sua, não poderei sair do seu lado.
A guerreira suspirou e disse:
— Talvez exista mesmo a sina e o carma e eu estou pagando por cada uma delas.
— Sobre o que ela está falando? — a ruiva inquiriu e Téleu respondeu:
— Não se preocupe, ela é assim mesmo. Qual o seu nome?
— Meu nome? — ela refletiu por um momento — me chamam de... Nine.
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