Diamond: A história de uma loba
21 Até logo
Notas iniciais
Diamond
— Eu te amo. — Radius disse com ternura. Apesar de quase não acreditar no que estava fazendo, estava feliz por fazê-lo. Não ligava se meu pai gostaria disso ou não. O que importava para mim naquele instante era o amor existente entre mim e Radius. E nada nesse mundo poderia mudar isso.
Afastei meus pensamentos ruins com uma leve chocalhada de cabeça e fitei Radius. Eu estava radiante de felicidade, e poderia ficar olhando seu lindo focinho por horas.
— Eu também te amo. — finalmente disse e lambi seu focinho.
Ele deu seu sorriso abobalhado que tanto adoro, e não pude deixar de sorrir também.
— Não sei mais o que dizer. — ele confessou. — É que... não sei, me sinto finalmente tão completo!
— Então não diga nada. — falei e deitei-me sobre o chão fofo. Bati com minha pata direita sobre a terra algumas vezes, indicando que era para Radius se deitar ali. Ele compreendeu e o fez.
— Nós vamos ficar em silêncio? — ele perguntou enquanto eu me aconchegava nele. Sua ansiedade era extremamente perceptível.
— Se você permitir. — brinquei.
— Huh, desculpe. — ele fez uma careta e apoiou sua cabeça sobre a minha.
Então, o tal do silêncio finalmente chegou. Não era um silêncio vazio e mórbido, mas sim um silêncio aconchegante, que lhe permite pensar nas coisas mais aleatórias e relaxar. Eu estava quase dormindo, quando enfim percebi que queria conversar.
— Ei, Radius. O que quer fazer hoje? — questionei com animação.
Não obtive resposta.
— Radius?
Só então entendi que ele havia dormido, e que provavelmente não acordaria tão cedo. Talvez tivesse tido um dia cansativo ontem.
Ri em meus pensamentos e fechei meus olhos delicadamente.
"— Diamond, eu não acredito no que estou vendo. — Shadow fitava a loba de cima a baixo, incrédulo, enquanto a mesma permanecia com a cauda entrelaçada junto a de seu parceiro, Radius.
— Você precisa aceitar que somos um casal agora. — ela bufou, irritadiça.
Radius não havia dado um latido sequer. Ele não sabia como reagir a toda aquela discussão, então preferiu ficar calado para não causar problemas maiores.
— Ele não é o melhor para você, filha. — o lobo negro suspirou.
Radius engoliu sua raiva e permaneceu quieto.
— Como se você soubesse... Nós nos amamos, é isso que importa. Não é justo, por que não reclama de Mike e Honey?
— Existem coisas que você ainda não compreende, querida. Radius não é o lobo com o qual você irá se casar. — Shadow deu um rosnado baixo.
Diamond arqueou uma sobrancelha.
— Até onde eu sei, sou eu quem decido isso, não é?
— Nem sempre...
Chega. Ele não aguentava mais se segurar. Shadow estava tirando o lobo alaranjado do sério há quase meia hora.
— Chega! Diamond pode ser sua filha, mas isso não lhe dá o direito de dizer quem ela deve amar ou não. — ele rosnou, pondo suas garras para fora. — Se você nos der licença, estamos de saída.
Diamond estava surpresa. Apesar de tudo, não esperava ver Radius defendendo-a dessa forma. No fundo, ela nem esperava uma briga. A loba imaginava que tudo iria se resolver pacificamente. Ah, se fosse assim.
— Não ouse aumentar seu tom de voz comigo. — Shadow revelou seus caninos.
Diamond se assustou, pois percebeu o que estava prestes a acontecer.
— Ahn, pai, por que eu e você não conversamos na caverna, sozinhos?
— Saia da minha frente.
— P-pai...!
Shadow saltou por cima sua filha e atacou Radius. Os dois começaram uma luta sangrenta.
O lobo negro não se sentia à vontade perto de Radius. Era como se sua dominância estivesse em risco a todo momento. Então, quanto mais cedo este problema se resolvesse, melhor.
— Pai, pare! — Diamond berrou.
Nada. Os dois continuaram lutando ferozmente. Sangue jorrava para todos os lados.
— NÃO!”
Acordei assutada e com a respiração ofegante. Esses pesadelos estão ficando cada vez mais frequentes... Admito que até agora, esse foi o pior de todos — meu pai e Radius lutando feito loucos, ambos muito machucados. E eu? Em pânico, obviamente.
Dei um leve suspiro. Espero que isso nunca aconteça.
Sem que eu percebesse, uma lágrima escorreu pelo meu focinho. Lambi a mesma rapidamente e senti seu gosto salgado: um misto de tristeza e medo.
Olhei para o chão e vi as patas de Radius. Por impulso, coloquei minha pata direita sobre sua pata esquerda. Apenas um truque para que o medo vá embora...
— Por favor... não me deixe. Nunca. — sussurrei.
— Nunca. — ouvi sua voz, que estava levemente rouca.
— Você está acordado?! — me levantei no ato; admito que me assustei.
— Já faz um tempo. Você se mexe muito enquanto dorme. — ele deu uma risadinha. — Mas eu pude ver que você estava chorando. O que houve?
— Apenas um pesadelo. — suspirei. — Digamos que você corria um risco de morte.
— Uhm... Não me parece muito interessante. — ele se espreguiçou. —Mas não se preocupe. Por você, eu viveria cem anos.
— Isso é muito. — eu ri.
— Eu sei. Mas é a verdade. — Radius lambeu minha bochecha.
Apenas fiquei observando-o, e imergi em seus olhos castanho-esverdeados. Dizem que os olhos são as janelas da alma, e eu acredito que isso seja verdade. Era como se eu pudesse ver toda a alegria de Radius, assim como sua possível agressividade.
— Você sabe que temos de ser cuidadosos. — disse, fitando o chão.
— Sobre?
— Nós, é claro! — bati com minha pata suavemente em seu focinho.
— Ah, claro, eu sei. Mas um dia seu pai terá de saber a verdade. — ele ficou sério. — E, ele querendo ou não, ficaremos juntos.
Dei um sorriso sincero. Fiquei feliz por saber que Radius não simplesmente desistiria de mim caso as coisas ficassem difíceis.
— Obrigada, Radius. Por tudo. — eu o abracei. — Mas acho melhor voltar para casa logo. Hoje meu pai perguntou sobre minhas saídas...
— Entendo... acho que seria melhor se ficássemos alguns dias sem nos vermos. — ele sugeriu.
O quê? Claro que não! Não podemos ficar separados dessa forma. Especialmente agora.
— Mas acabamos de nos tornar companheiros... — grunhi. — Deveríamos ficar juntos.
Ele deu um risinho e sacudiu a cabeça.
— Nós nos amamos. Conseguiremos aguentar alguns dias. Será melhor para mim e para você, princesa. Confie em mim.
Pensei na possibilidade de Radius se ferir por minha culpa, e tive que concordar com ele. Apesar de não querer ficar afastada dele, meu pai provavelmente iria desconfiar cada vez mais e mais.
— Não será um adeus. Apenas um até logo. — ele sorriu.
Suspirei com leveza.
— Está certo... Até logo, Radius.
— Até, princesa!
Trocamos algumas lambidas e eu segui em direção a minha casa. Olhei sobre meu ombro e pude vê-lo me observar, talvez pensando na próxima vez que iríamos nos ver novamente.
***
— Hey, onde esteve? — Mike perguntou assim que cheguei na caverna.
— Apenas caminhando por aí. — expliquei esticando minhas pernas.
Nix estava comendo uma gorda lebre, enquanto Midnight estava deitada do lado de fora da caverna. E papai e mamãe estavam conversando.
— Aconteceu alguma coisa? — sussurrei para Mike.
— Defina “alguma coisa”.
Rolei os olhos.
— Não sei. Papai e mamãe parecem tão... sérios.
— Eles estão de conversinha há um bom tempo. — Mike parecia intrigado. — Estou tão curioso quanto você.
Resolvi simplesmente ignorar isso e fiquei papeando com Mike sobre coisas inúteis do dia-a-dia, tipo a brisa fresca, a aula de caça de hoje e tudo o mais... coisas inúteis, mas que são boas para quebrar o gelo, especialmente quando você não pode falar sobre as coisas que realmente importam, como o seu mais novo companheiro.
De repente, ouvi papai chamar Midnight para dentro da caverna. Mamãe entrou calmamente e se sentou de frente para mim.
— Nix, venha cá, por favor. — ela disse com doçura.
Nix se levantou do chão frio e se sentou ao meu lado.
— O que houve? — ela perguntou ao pé de meu ouvido.
Dei de ombros, indicando que estava perdida também.
Papai e Midnight entraram na caverna. Mid se sentou ao lado de Nix, visivelmente irritada.
— Eu não fiz nada. Diamond é que fica saindo pra não sei aonde. — ela empinou o focinho.
— E-ei! Como se eu tivesse feito algo! — lati.
— Bom, já faz um tempo desde que você se tornou a culpada em potencial nessa família, certo?
Senti um peso em mim. Tanto nas costas quanto em meu coração. Decidi não revidar depois disso.
Mamãe percebeu a tensão e tentou nos acalmar, alegando que o que eles iriam dizer não tinha a ver com nenhum de nós.
— Ninguém aqui fez nada. Não precisam se estressar. — ela suspirou.
Me deitei, apoiando a cabeça sobre as patas.
— O que foi, então? — Nix perguntou, com sua carinha adorável.
Mamãe e papai trocaram olhares. Eles estavam abraçados, e eu comecei a imaginar que mamãe estava grávida. Involuntariamente, arregalei meus olhos, me preparando para a notícia.
— Bem, já faz um tempo que queremos dizer isso... — mamãe começou.
“Ah, pela Deusa...”
Ela fez um gesto de cabeça para papai, indicando que ele deveria continuar. Olhei para Mike, que parecia estar imaginando o mesmo que eu.
— Decidimos contar a vocês como nos conhecemos.
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