Diamond: A história de uma loba
28 Para sempre juntos
Notas iniciais
Diamond
Pela primeira vez na minha vida, meu pelo molhado estava me incomodando. As gotas de chuva que caíam se misturavam com minhas lágrimas, e isso me irritava. Eu estava correndo e nem ao menos sabia para onde. Talvez eu apenas quisesse ficar sozinha. Contudo, o meu “sozinha” era sempre equivalente a estar com Radius, então eu não sabia o que fazer, o que pensar, para onde ir.
Eu não queria pensar nele, mas seu uivo, sua risada, sua voz... memórias agradáveis que eu possuía dele insistiam em invadir minha cabeça. Eu nem tive a oportunidade de dizer adeus. E ele estava morto.
Morto. Era difícil pensar nisso. Minha mente se negava em acreditar que isso estava correto. Eu só queria andar e esquecer disso. Não queria pensar em seu corpo, tão puro, cheio de ferimentos, sem vida. Era praticamente impossível imaginar. Mas meu inconsciente parecia estar se esforçando bastante para tal.
Acabei tropeçando em minhas próprias patas, então tentei me recompor o mais rápido possível, sacudindo meu pelo encharcado. A chuva parecia aumentar cada vez mais, e isso me aborrecia. Olhei para os céus, encarando as nuvens negras, como se as desafiasse. Respirei fundo. Eu estava perdendo o controle sobre mim. Fechei meus olhos e, lentamente, contei até dez, para, então, abri-los novamente.
“Mantenha a calma.” — eu repetia a mim mesma. — “Vai ficar tudo bem.”
Porém, uma parte de mim não acreditava que ficaria mesmo tudo bem. Eu tentava fingir que essa parte não existia. Não podia perder o controle.
Resolvi me abrigar debaixo de algumas árvores que não pareciam estar muito distantes. Corri em direção a elas e sacudi meu pelo. De novo.
Eu estava relativamente protegida agora. Algumas gotas escapuliam pelas folhas grossas e respingavam ao meu redor, mas poucas conseguiam realmente me atingir. Aquilo me deixou satisfeita. Agora eu teria tempo para pensar em tudo o que estava acontecendo.
Radius havia me deixado. Era engraçado; eu havia prometido jamais deixa-lo só, entretanto, ele me deixou. O universo e suas ironias. Risadas começaram a preencher o vazio — minhas risadas. No fundo, eu queria ficar rindo por horas e horas, mas ao mesmo tempo não estava entendo. Enquanto eu ria, várias lágrimas caíam no chão frio. Lágrimas de tristeza.
Comecei a soluçar. Eu amei Radius como nunca tinha amado outro lobo. Poderíamos ter tido uma família juntos... Poderíamos ter feito tantas coisas juntos, na verdade. Era tão injusto. Ele deveria estar vivo. Ele era um lobo tão bom, tão doce e gentil. Ah, que injustiça. Injustiça provocada por ninguém mais ninguém menos que meu pai.
Pai. Eu ainda o amava, é claro. Mas o que ele fez foi simplesmente... inimaginável e desnecessariamente radical. Ok, eu até esperava que talvez os dois chegassem a brigar um dia, todavia, não esperava nenhuma morte. Meu pai agora era um assassino, e eu sabia muito bem que ele não deveria estar nem um pouco satisfeito com a situação. Ele se tornou aquilo que mais repudiou na vida.
Minha mente estava cheia de coisas. Pensamentos iam e vinham; comecei a ter dores de cabeça. Tudo o que eu queria é que tudo isso fosse um pesadelo. Eu queria tanto acordar e conseguir olhar para o meu pai sem sentir um misto de raiva e tristeza, e então sair para encontrar Radius, que provavelmente me contaria algo interessante sobre alguma coisa da floresta, e eu iria ficar maravilhada.
Eu adorava quando ele me mostrava pequenos detalhes da vida ao meu redor que eu nunca havia reparado, mas ele sim. Ele gostava de procurar por pequenos detalhes. Coisas que poucos se importariam, mas Radius queria se importar. E logo, ele me mostrava essas coisas. Ele me ensinou a amar os pequenos detalhes.
Então, passei a observar estas minúcias no próprio Radius. A expressão que ele fazia quando estava confuso, abrindo levemente sua boca; o jeito pacífico e tranquilo que ele dormia, apenas se movendo caso estivesse sonhando com algo extremamente real; seu brilho nos olhos quando estava feliz. Tantos detalhes. Sem que eu percebesse, estava sorrindo. Radius me deixava feliz. Eu gostava de pensar nele, de falar nele, de sonhar com ele. Mas preferia estar com ele. E agora, era impossível.
Soltei uma pesada lufada de ar.
— Radius está morto. — eu disse em voz baixa para mim mesma. Meu coração se partiu, mas eu precisava dizer aquelas palavras. — Você me deixou, Radius. Você me deixou sem um adeus sequer.
Uma rajada de vento fez meus pelos levantarem. Pude ouvir uma trovoada distante e vi o céu esbranquiçar por uma fração de segundos. A chuva iria se tornar uma tempestade, mas eu ainda não me sentia pronta para voltar para casa e encarar meu pai.
Suspirei. Com o coração pesado e sem saber o que fazer, me deitei. Algumas lágrimas voltaram a escorrer, mas eu já havia me acostumado. Imaginei que não iriam parar tão cedo. Sem que eu percebesse, minhas pálpebras começaram a se fechar. Resolvi permitir a ação. Naquele instante, eu só queria dormir e ficar em paz, mesmo que por apenas alguns minutos.
“— É um lindo dia. — Radius comentou, feliz por Diamond estar ao seu lado. — Entretanto, acho que logo mais irá chover.
— É verdade. E a chuva não é ruim. — Diamond contestou. — Deve ser uma chuva leve. Será ótimo.
O lobo apenas sorriu, cedendo.
Os dois se deitaram, aconchegados um ao outro, apreciando o céu e deixando que uma brisa calma refrescasse seus pelos.
— Eu gosto de estar com você. — Radius disse.
— Isso foi bem aleatório. — Diamond riu. — Mas eu também gosto.
— Apenas quis dizer. É bom. — o lobo começou a explicar. — Nós nem precisamos conversar, simplesmente... estarmos juntos. Eu me sinto bem com isso. Gosto de estar com você.
Diamond encolheu as orelhas. Ela adorava ouvir as pequenas declarações que Radius acabava fazendo toda vez que se encontravam. Mas ele dizia que era algo espontâneo, e que apreciava botar seus sentimentos para fora, especialmente quando eles deixavam sua loba tão querida contente. Ou mais que contente. Diamond gostava da companhia de Radius não só por amá-lo, mas porque ele a fazia se sentir especial. E todos gostam de se sentir especiais.
— Radius, você já se sentiu especial por minha causa? — a loba perguntou cautelosamente.
— Claro que sim. Você me ajudou a ser alguém muito melhor, princesa. — ele sorriu. — A cada minuto que passamos juntos, quando você sorri para mim, mesmo com uma piada sem graça, eu me sinto o lobo mais feliz do mundo.
Diamond lambeu sua bochecha.
— Só para constar, suas piadas são sempre engraçadas. — ela adicionou.
— Viu? Claro que você me faz sentir especial.
Os dois riram.
— Sabe, antes de te conhecer, eu tinha minha vida, obviamente. Era uma vida boa, e eu provavelmente continuaria tendo uma vida boa sem conhecer você. — Diamond desabafou. — Mas, agora... Eu não consigo mais pensar no futuro sem ter você em minha mente. Eu não quero pensar no futuro se você não estiver nele comigo. E eu fico feliz por isso.
— Eu também sinto isso. Você surgiu num momento crítico da minha vida, princesa. Você trouxe luz a ela. Então, quero mais que tudo que fiquemos juntos. — Radius acariciou a loba. — Mas... Se algo acontecer comigo, por favor, saiba que eu não te deixei.
A expressão de alegria no rosto de Diamond foi preenchida por uma de tristeza.
— O que quer dizer? — ela questionou, mesmo que talvez já soubesse a resposta.
— Eu nunca vou te deixar, Diamond. Eu sempre vou estar aqui com você, não importa o que aconteça. Lembre-se disso.
— Claro. — ela deu um suspiro. Um pouco de medo começava a correr em suas veias, mas ela ignorou a sensação e voltou a sorrir. — Eu te amo.
— Eu te amo.”
Quando acordei, mais lágrimas. Funguei um pouco o nariz e limpei meus olhos. A tempestade havia se tornado uma chuva leve e calma novamente, e era quase possível ver alguns raios de sol brotando de trás das nuvens. Imaginei que um arco-íris poderia se formar, e inevitavelmente me lembrei de Radius. Então, imagens de meu sonho vieram à minha mente. Eu me recordava daquele dia, tinha sido divertido. E então, Radius disse que nunca me deixaria. Que sempre estaria comigo. Eu fiquei com medo. Mas agora, suas palavras faziam um imenso sentido.
— Me desculpe. — soltei as palavras. — Você está aqui. Vamos sempre estar juntos. Me desculpe.
Uma pequena lágrima escorreu do meu olho esquerdo, mas eu estava sorrindo. O sol começava a aquecer meu pelo — meio sujo, por sinal — e admito que meu sonho havia sido reconfortante. Eu me sentia um pouco melhor. Radius estava comigo.
— Eu te amo.
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