Diabolo Quod Vivit
2 Aquele sorriso funesto
Havia apenas ele.
Caminhava silencioso pelas estradas escuras de uma noite fria. Nada se ouvia. O frio fazia-se sentir e o pouco que lhe era permitido ver, advinha do fato de existirem luzes alaranjadas no caminho.
O medo apossava-se de cada sentido de Brian, porém ele não hesitou.
Subitamente os faróis de um carro a sua frente cerrou os seus olhos. Imediatamente ele interrompe o seu percurso e tenta reconhecer a pessoa que estava no interior do veículo. O pouco que fora notado, é que se tratava de um homem, com idade entre trinta e quarenta anos. O negrume da noite cobria a cidade, tornando-a um verdadeiro abismo.
Brian estava cansado e frustrado. Discutira com o seu namorado e partira sem demora.
A porta fora aberta. O homem ainda irreconhecível desceu do veículo e permaneceu imóvel diante da escuridão. Cruzaram-se imperativamente as inseguranças. Brian deu passos de inquietude e correu até a casa de sua amiga Lisa, já que a mesma estava localizada a algumas quadras.
- O que houve? – percebendo o rosto pálido dele. Sua respiração estava ofegante. Fora pegar um copo d’água para Brian. – Parece até que viu um fantasma. – entregando-lhe o copo. Sentou-se então ao seu lado.
- Foi quase isso. – disse ele. Tomou a água em segundos.
- Conte-me como foi... – encarando o seu rosto, o qual aos poucos se tornou ruborizado novamente.
- Discuti com o Emmet. Sai do apartamento feito louco e fui pego de surpresa por um estranho no caminho. Este desceu do carro e ficou me encarando.
- Você o viu?
- Estava escuro, não deu para vê-lo perfeitamente. – seus olhos ficaram imóveis.
- Talvez seja um idiota qualquer tentando o amedrontar. Essa cidade está cheia de babacas! – disse ela.
- Talvez... – embora não tivesse a plena convicção de que aquele homem fosse tão insignificante.
- Está com fome?
- Um pouco.
- Quer que eu prepare um sanduíche? – Lisa levantou-se e foi até a geladeira.
- Eu aceito.
- Então, qual foi o motivo da discussão? – disse enquanto preparava o sanduíche.
- Ciúmes. – Brian corrugou o supercílio e revirou a boca.
- Ele tem motivos? – Lisa o fitou.
- Um cara da faculdade está a fim de ficar comigo.
- E você pretende ficar?
- Jamais. Gosto muito do Emmet. Sem contar que o cara tem namorada.
- Nossa... Devo sentir pena da garota? – risos.
- Imagino que não.
- Eu o conheço?
- É o Adam. Faz o quarto ano de medicina.
- Adam... O ‘pegador’? – Lisa ficara surpresa.
- Sim.
- Quem diria...
- Molho cheddar? – entregando-lhe o sanduíche.
- Não, obrigado!
- Que tal ligar para sua mãe e avisar que irá dormir aqui? A gente poderia ver um filme se assim preferir...
- Acho uma ótima ideia! – Retirou o celular da bolsa e ligou para sua mãe, Catherine.
- Mãe? Desculpa por estar lhe acordando, só queria avisar que irei dormir na casa da Lisa.
- Tudo bem. Não vão ficar acordados até tarde... – disse ela, com a voz arrastada.
- Pode deixar. Beijo. – Finalizando a ligação.
- Vamos ao quarto? – disse Lisa.
- Claro. – Brian a acompanhou. Subiram as escadas e finalmente chegaram ao primeiro andar, onde o quarto de Lisa ficava.
- Sente falta dele? – Brian segurou o porta retrato do avô dela, o qual se encontrava sobre a cômoda. Bem Franco havia falecido há dois anos, devido à Cardiomiopatia Chagásica.
Lisa permaneceu em silêncio. Refletiu vivências.
- Perdão. Não foi minha intenção... – disse ao perceber a saudade estampada em sua face.
- Tudo bem. Sinto muito a falta dele... – Aproximando-se do porta retrato. – Ele foi um pai para mim! – Lembra como ele ficava bravo quando eu falava em fugir? E a cara que ele fez quando o viu beijando o Emmet... Nossa! Foi hilário. – Parece até que foi ontem... – Manteve o seu olhar nostálgico.
- Ainda quer ver o filme? – Brian mudou de assunto repentinamente.
- Claro... – cogitou sorrir, mas não aconteceu.
- Que tal “Crossoards – Amigas para sempre”?
- Não assistimos a esse filme trilhões de vezes? – disse ela retorcendo os lábios.
- Foram apenas doze vezes... – disse Brian.
- Você e o seu fanatismo pela Britney... – organizando a cama.
- Pelo menos ela manteve sua essência. – desabafou.
- Ah sim... Depois de segurar uma cobra, dançar feito múmia no VMA e raspar o cabelo...
- Chega! Não discutir com alguém que idolatra o último sobrevivente do planeta Krypton! – Brian ficava furioso quando surgiam comentários maldosos sobre a ‘princesinha do pop’. – O filme já vai começar... – disse ele.
- Não vou perder nada! Já decorei a parte em que ela dança só de sutiã e calcinha!
- Tudo bem. – Brian dar de ombros. Adormeceram antes mesmo do fim.
Ainda era tão cedo que a luz da manhã lançava um brilho rosa discreto sobre o quarto de Lisa. Com isso, eles pareciam irreais demais para serem tocados. Diante de um ponto de vista universal, a beleza deles era sobre tudo fascinante. O fato é que o belo é imprescindível, e existe em tudo, basta saber olhar. Por vezes, Brian não se sentia belo, ou se quer se sentia vivo... Era um estranho em sua própria vida. Alguém que negava a sua própria existência. Fato esse que o levou a tentar suicídio diversas vezes.
Entretanto, algo em sua vida tinha um real sentido. Algo tão especial e único, conforme a lua que realça o anoitecer. Ele desfrutava de amizades verdadeiras. Através destas aspirava existir. A maior parte das pessoas, cobiçam coisas supérfluas. Ele apenas ambicionava um pouco mais de carinho, alegria e respeito. Embora Brian odiasse Oregon de certa forma, foi ali que conheceu os seus bons e eternos amigos. Viveu os melhores momentos de sua vida. Momentos estes que pensamos serem inalcançáveis, que só percebemos quando eles já se foram.
Lisa despertou. O sol dissipava-se sobre o seu rosto delicado, pálido como de costume. Sentiu a garganta seca e cautelosamente levantou-se para não acordar Brian. Foi até a cozinha e encheu o copo com água. Quando pensou em voltar, percebeu que a porta dos fundos estava aberta.
- Mãe? – Aproximando-se. – Quem está ai? – Não havia ninguém. Quem esteve por ali não mais se encontrava. Fechou a porta com toda desconfiança. Sua mãe, Kristen, não havia chegado do trabalho naquela manhã, como era de costume. Raramente se viam.
O celular estava chamando. Vagarosamente tentou alcançá-lo. Era Hannah.
- Alô...
- Bom dia! – disse Han.
- Bom...
- Está tudo bem? – notara certo desconforto na voz de Lisa.
- Sim. Só estou um pouco cansada. – explicou.
- Está a fim de ir ao St. Louis Café? Eu e o Peter estaremos lá por volta das dez.
- Humm. Vou falar com o Brian...
- Ele está contigo?
- Está dormindo. Quando acordar, prometo que falarei.
- Tudo bem. Vou fazer as unhas nesse exato momento. Até logo querida! – disse Han.
- Até! – Desligando.
Minutos depois Brian desceu até a cozinha.
- Quem era no telefone? – sentou-se junto à mesa.
- Hannah. – disse ela.
- O que ela queria? – bocejando.
- Convidou-nos para ir tomar café.
- Ótimo. Eu estava mesmo precisando de um cappuccino e uma boa conversa.
- Você odeia cappuccino!
- Sério? Então a conversa serve. – disse Brian. – Vou tomar banho. – levantou-se.
- Vê se não demora... – embora soubesse que ele levaria horas para ficar pronto. Tomaria banho, secaria o cabelo, modelaria até o necessário, não dispensaria maquiagem e seguiria as tendências da moda. Devido ao fato de ser uma pessoa incomum e totalmente exposta, é alvo de comentários malévolos, embora detivesse uma personalidade invejável.
Horas depois finalmente chegam ao destino, onde Hannah Beltrami e Peter Price o esperavam. Lisa vestia um trench coat nude e uma bota montaria preta. Retirou os óculos e uma leve maquiagem foi feita. Embora não fosse obcecada por moda, sempre seguia as dicas de Brian, principalmente no inverno. Foram recebidos com bastante entusiasmo.
A conversa entre Han e Brian fluía instantaneamente. Trocavam idéias sobre a campanha de inverno das marcas favoritas, as cores da estação, os sapatos mais cobiçados, enquanto Peter e Lisa comentavam sobre as séries, filmes e principais estréias. Ele, além de cursar farmácia, gerenciava um site, onde compartilhava críticas sobre esse assunto. É um rapaz muito inteligente e admirável. Namora a jovem Olivia, enquanto Lisa está cursando medicina juntamente com o Brian.
- Como anda a sua família? – Peter dirigiu a pergunta a Brian.
- A mesma de sempre. Meu pai muito ocupado com a política, minha mãe viajando, minha irmã ainda em Milão e o meu irmãos nos plantões sofridos.
- Quando a Sharon voltará de Milão?
- Acredito que está próximo.
- E o Emmet? – Hannah degustava sua terceira taça de vinho.
- Não o vejo desde ontem... – certo receio tomou conta de si. – Às vezes ele me sufoca!
- E você Lisa... Conheceu algum cara legal? – Hannah não maneirou na bebida.
- Ninguém interessante! – respondeu de supetão.
- Você não acha que já bebeu demais não? – Peter ficara preocupado com Han.
- Vou ficar bem. Sei me cuidar! – disse ela enquanto bebia mais vinho. – Até quando pretende ser intocável? – de certa forma Lisa sentiu-se desconfortável com a pergunta elucidada por Hannah.
- Chega! Já está passando dos limites... – disse Peter ao tomar a taça de sua mão.
- Me devolva! – Hannah ficara furiosa. Levantou-se para pegar a taça de volta, foi quando sentiu uma dor no abdome inferior e desmaiou. Havia um nítido sangramento. Brian chamou-lhe pelo nome dando golpes no seu ombro. Não houve resposta. Lisa permaneceu inconsciente. Sua respiração estava preservada, assim como o pulso estava presente. Lisa solicita uma ambulância, enquanto Peter tentava afastar os curiosos.
Em menos de 10 minutos a ambulância chegou ao local e removeu Hannah, levando-a ao hospital mais próximo. Seus amigos acompanharam-na. Estavam aflitos na recepção.
Minutos depois, Joel Damon, namorado de Han, chegou ao hospital juntamente com os pais desta. Russel e Sandra.
- Onde ela está? – Russel estava transtornado.
- Na sala de cirurgia. – disse Lisa.
- O que houve com ela? – sentimento misto. Angústia e desespero. Joel sentou-se.
- Ela exagerou na bebida. Desmaiou em seguida. – explicou Peter.
- Ela vai ficar bem? – Havia uma inquietação em sua voz.
- Mantenha a calma... – Lisa sentou-se ao lado dele. – Tudo ficará bem.
- Samuel, cadê a minha filha? – Russel estava diante do cirurgião, Dr. Samuel Vegas.
- Está repousando. Ela teve um aborto. – Samuel manteve uma paz tênue em sua voz.
- Aborto? – A palavra soava de uma maneira incompreensível. Em primeira instância causara-lhe surpresa, e logo ficou confuso. Aquele momento foi tão desconcertante. As lágrimas ocorriam sem parar e mil coisas passavam pela sua cabeça. Tantas dúvidas e a certeza de que a vida não seria a mesma. Sandra o abraçou firmemente, enquanto Joel ainda estava em choque. Seu olhar petrificado mirava sua amada do vidro da janela da sala onde repousava. Sua fragilidade exposta. Um ato pacífico e sereno diante da realidade brutal e severa. Acorrem seus olhos. Buscavam paz. Entrou na sala e adormeceu ao lado dela, numa poltrona marfim, de aparência desgastada e não muito confortável.
- Joel! – sussurrou Hannah.
- Hanna? – acordou subitamente. – Você está bem? – eufórico.
- Você... me perdoa? – sua voz estava umedecida de tristeza.
- Não há o que perdoar! Você não teve culpa. Não sabia que estava grávida.
- Eu o matei... O nosso bebê... – num olhar em chama branda. Transmitia uma jovialidade serena. Um estado singelo, contagiado de ternura.
- Não repita essas bobagens, meu amor. Ainda podemos ter vários filhos! – Joel beijou a sua fronte. Acariciou os seus cabelos loiros, quase perfeitos se não fosse a umidade provocada pelo contato com o colchão.
- Te amo, sabia? – disse ela, sorrindo.
- Você é tudo para mim... – disse com os olhos mais sinceros. – Precisa descansar minha linda. – puxando o cobertor.
- Não me deixe! – segurando a mão dele.
- Ficarei com você o tempo que for preciso!
- Obrigada! – Hannah voltou a dormir.
O jeito bobo e inocente de Joel a conquistou. Não seria exagero dizer que ela daria sua vida por ele. É a verdade diante de que não faria sentido viver sem o seu amado. Houve um tempo em que Hannah tornou-se obsessiva, mas este já passou, embora essa seja a natureza do amor, que se compara ao vento, fluido e arrasador. Algumas vezes até doce, brando, claro, bailando alegre em torno de seu oculto núcleo de fogo. O amor é, portanto, na sua origem, liberação e aventura, como falou um poeta maior.
Mas nem sempre o amor é uma aventura.
Mila Ross, uma jovem de 18 anos e muito próxima de Brian, enfrenta a separação dos pais e concomitantemente tenta esquecer as lembranças remanescentes do fim do noivado com Josh, filho único do Dr. Samuel.
À uma hora já tinha malhado, tomado banho e secado os longos cabelos negros. Sem mais nada para fazer, sentou no sofá e ligou a televisão. Games shows, séries, programas de entrevistas, eram intercalados por comerciais. Não sei quanto tempo ficou ali parada, mas foi o suficiente para perceber que deveria sair daquela rotina entediante. Substituiu a camisola desgastada por uma saia plissada azul turquesa, a qual a silhueta leve e fluida esbanjava feminilidade, uma blusa moletom cinza e um tênis estilo converse. Estava disposta a fazer compras. Convidou Spencer Morelli.
- Olá querida! – Cumprimentaram-se com beijos.
- Quanto tempo... – disse Mila. Spencer voltara há pouco tempo da Austrália. – Conte-me tudo! – a manhã renderia.
Spencer é daquelas pessoas com uma sabedoria alta, discerne bem as coisas e é bastante perceptiva. Embora fosse amiga do Brian há anos, nunca tiveram uma relação exatamente perfeita. Este tinha uma personalidade mais passiva, não costumava pensar demais antes de fazer qualquer coisa, sempre em busca de diversão. É um rapaz cativante, que não se abala facilmente, enquanto Spencer fosse mais cautelosa e durona. Os dois poderiam se amar ou se odiar respectivamente. Uma relação paradoxal. Mila tornou-se amiga de Spencer através dele. Depois de demasiadas compras, fizeram uma pausa para tomarem chá e colocarem os assuntos em dia.
- Como foi na Austrália? – Mila não deixaria escapar nenhum detalhe da viagem.
- Tudo foi maravilhoso! Byron Bay tem praias incríveis! As baleias, os restaurantes vegetarianos, as festas hippies, passeio em caiaque e sem contar um pôr-do-sol apaixonante... – sorriu e deixou à mostra seus dentes brancos perfeitos.
- Gostei da parte do apaixonante. Quer dizer que encontrou algum cara interessante? – levando a xícara de chá à boca.
- Verdade. Conheci um brasileiro... – disse Spencer.
- Eu sabia! – disse Mila, eufórica. – Fale sobre esse tal brasileiro...
- O nome dele é Alfonso. Encantador. – seus olhos brilhavam.
- Como ele é?
- Moreno, olhos claros, alto e forte.
- Parece agradável...
- Tem visto o Brian? – limpando os lábios com um lenço.
- Não muito. Ele anda um pouco ocupado com a faculdade de medicina.
- Entendo... – disse Spencer.
- Então, devo ir. Marquei com a Angel no salão e estou um pouco atrasada. – Mila levantou-se da mesa e pôs os óculos escuros. – Foi um prazer revê-la! – Despediram-se com um abraço.
- Mande lembranças à sua irmã.
- Pode deixar. Até logo! – deixou o local.
Spencer retirou da bolsa um livro. Iniciou a leitura. Naquele instante um homem sentado em uma mesa próxima conversava ao celular.
- Seja cauteloso... O chefe quer um trabalho bem feito. Ninguém pode desconfiar! – Spencer escutava a conversa inevitavelmente.
- Faltam sete. – disse o homem, enquanto devorava o sanduíche em segundos. Lambeu os dedos em seguida. – O mundo vai conhecer o verdadeiro mal... – dito isto, Spencer ficara notadamente apavorada. Levantou-se. Pretendia deixar o local, quando deixa cair o livro diante dele. Não teve reação alguma.
- “O pacto”, Joe Hill. – o homem apanhou o livro. – Gosta de suspense moça? – tirando os óculos escuros e entregando-lhe o livro. Spencer percebeu uma tatuagem no seu pulso direito. O que parecia um símbolo do anticristo. Uma cruz invertida.
- Obrigada! – pegou o livro e saiu rapidamente. O homem continuou de pé com um sorriso aterrador.
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