Diabolismo
1 Disco quebrado
eu vejoanjos bêbadoscom as asas rasgadas [queimando]caindo no cinzeiro como bitucas de cigarroamassadotocando discos quebrados de madrugadae vomitandorestos de comida estragadaos braços com marcas de agulha e navalhaos dentes podres e as unhasruídassegurando os papéis para ler as últimas notíciasdo jornale eu os escuto dizer: ― por favor, não me chame,pois eu não posso voareu quero um sono bêbado na praiaque me devore toda noite de insôniaporque a cidade é um deserto que se distorce em imagenspublicitárias e propagandaspolíticasum ferro-velho de templos industriais despejandofumaça em nossas cabeças e nos prometendo
salvaçãoenquanto seus mendigos apodrecemsozinhos no chão dos bares e bancosde praçae suas mulheres e irmãs são estupradase seus maridos são mortos com um tironas costase não há mais bebidanão há mais cigarrosnão há mais jazze não há mais nadapois me apontaram o caminho errado.eu não pertenço a este mundo este é o seu Paraíso?o que me resta é cantar, descalça na praia, sabendoque ninguém irá ouvir: ― Jesus morreu pelos pecados de alguém,mas nãopelosmeus.
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