Diabolik Lovers - União de Sangue

13 Capítulo OVA: Passado de Reiko


Notas iniciais
Preparem-se e façam pipoca, pois este é grandão! xD Sério... Mais de 8 mil palavras 'kkkkkkk Esta é a mãe de Reiko: https://i.pinimg.com/736x/c2/aa/75/c2aa75f3dd96ed63abd6fa5868a5c7fb--arte-anime-anime-art.jpg E esse o pai (se bem que a menina que acompanha também é parecida com a mãe hihi): https://data.whicdn.com/images/127634459/large.jpg

A história se inicia como quase todas as vezes. Havia um homem e uma mulher. Porém, dois vampiros.

Em um tempo distante onde existiam homens da nobreza e damas com longos vestidos e penteados arranjados, Chiasa era a bela filha mais nova da família Nae. Uma jovem de longos cabelos de cor caramelada, pele clara e olhos azuis. Uma bela vampira a qual a maioria gostaria de desposar. Era bela, educada, delicada e vinda de uma longa linhagem de puros de segunda classe. Porém seu pai não aceitava ninguém, impedindo-a de se casar.

Entretanto, no dia em que tudo começou, ela estava sentada na mesa de chá do jardim, lendo. Usava um longo vestido rosado e seu cabelo estava metade preso. Suas tardes eram assim, sentada no centro do jardim de casa, sentindo o aroma das flores enquanto lia um belo conto. Foi quando seu pai surgiu na entrada da varanda com um belo sorriso e um jovem ao seu lado. Direcionou-se até a filha, que notou sua aproximação e levantou o olhar.

— Papai. – cumprimentou-o, levantando e se curvando.

Ele parou a sua frente com o jovem ao seu lado.

— Querida, quero lhe apresentar Maeda Ryouya. Ele é filho de um bom e antigo amigo. Essa é minha querida caçula, Chiasa.

— Muito prazer. – Chiasa sorriu, curvando-se – É ótimo conhecer o filho de um dos amigos de papai.

— O prazer é todo meu. – disse Ryouya, pegando gentilmente sua mão e beijando-a.

Seu pai sorriu, discretamente contente.

— Bem, preciso me retirar por um momento. Chiasa, por favor, faça companhia à Ryouya.

— Claro.

Ele se retirou, adentrando a casa e Chiasa sentou-se, convidando o jovem a sentar também. Ele possuía médios cabelos marrons com uma longa franja, olhos vermelhos e um sorriso encantador. Tomaram chá e conversaram sobre diversos assuntos, até que perceberam que o pai de Chiasa não voltaria.

— Creio que papai planejou isso tudo.

Ryouya deixou uma risada educada escapar.

— Por acaso está envolvido nisso, Maeda-san?

— Juro que não, Chiasa-san. Porém admitido que esse plano me proporcionou uma tarde bastante agradável.

Chiasa sorriu.

Ao final da tarde, Ryouya se fora e Chiasa parou em frente à porta da entrada, vendo seu pai adentrar a casa ao se despedir. Ela estava com as mãos unidas à frente do corpo, tracejando um sorriso suspeito. Quando a viu, seu pai sorriu de forma discreta.

— Chiasa.

— Papai. – disse pausadamente – Por acaso o senhor quer me unir de alguma forma à este jovem?

— Não foi exatamente minha intenção.

— Nos deixou sozinhos no jardim.

— Certamente. Mas sua mãe precisava de minha presença.

— Não possuo conhecimento de tal afirmação. – disse sua esposa, adentrando o cômodo.

Chiasa olhou-o, suspeitando.

— Ora, querida. Ele é um jovem de boa família, educado, bonito e filho do meu melhor amigo.

— Acredito que sim, mas não o conheço.

— Sua mãe e eu não nos conhecíamos até pouco antes de nos casarmos. E olhe como estamos. Três belos filhos, nossos dois rapazes já casados e nossa bela filha pronta para ser desposada.

— Desposada? – perguntou, confusa – O que?

— Não está contente?

— Bem...

— Sempre lhe dei liberdade, Chiasa. Porém nesse quesito devo dizer que não permitirei que negue.

Chiasa surpreendeu-se. Sua mãe abaixou o olhar. Não desejava isso para a filha, porém o senhor da casa, seu marido, não permitira sua interferência.

— Por favor, não me olhe dessa forma.

— Estou apenas surpresa.

— Sinto muito. – disse ele – Porém lhe darei a chance de conhecê-lo um pouco melhor. Haverá um baile em alguns dias para qual fomos convidados e ele estará lá.

Ela abaixou o olhar, assentindo. Os poucos dias para o baile se passaram e lá estava a família Nae. Chiasa usava um belo vestido azul e seu cabelo estava preso em um coque. Acompanhava os pais e logo viu Ryouya em meio aos convidados. Seu pai prontamente fora até a família Maeda e os cumprimentou. Após a breve conversa, ele logo os convidou à dançarem juntos e o convite fora reforçado pelos pais de Ryouya, que apreciaram a beleza e educação de Chiasa.

Os dois se direcionaram para o centro do salão e Ryouya pôs delicadamente sua mão nas costas dela e segurou sua mão ao passo que ela pôs sua outra mão próxima ao seu ombro. Começou a conduzi-la com um suave sorriso no rosto.

— Acredito agora que não é apenas seu pai que criou um plano. Meus pais formaram um complô em conjunto à ele.

— Sim. – disse ela, sem jeito – Ele acredita que seja o melhor para mim.

— E você não?

— Eu não sei. Não acredito que o amor surja repentinamente.

— Amor?

— Não acredita em amor?

— Certamente, porém estamos tratando de casamento. Acredito que o amor nasça durante o relacionamento. Porém se não acontecer, haverá sempre uma boa relação entre amigos.

— Maeda-san...

— Ryouya. – disse ele, interrompendo-a por um momento.

— Ryouya-san. – sorriu ela – Não é isso que desejo.

— O que deseja?

— Um companheiro. Alguém amável que me ofereça uma vida agradável e uma família. Não apenas um companheiro de quarto.

— Compreendo seu desejo. E devo confessar que anseio também por algo do tipo.

Chiasa sorriu, contente.

Alguns dias após o baile, o casamento fora marcado. Ryouya e Chiasa se uniriam em um mês. Os preparativos eram feitos pelas duas famílias, deixando os noivos livres, porém sem a chance de conversarem e se conhecem melhor. A única oportunidade de se verem de forma adequada apenas ocorreu no dia do casamento. Chiasa usava um belo vestido branco de curtas mangas e um longo, além do cabelo preso em coque cacheado. Ryouya usava um terno preto e cabelo penteado para trás.

A antiga cerimônia se tratava do patriarca mais velho de uma das famílias abençoar a união e fazê-los repetir os votos de casamento, onde recitavam ser fiéis ao cônjuge, tratar-lhe com respeito e cumprir com os deveres sagrados do matrimônio. Em seguida, uma faca era dada ao noivo para que cortasse a mão e despejasse seu sangue na taça de ouro na mesa a frente deles. E assim também deveria fazer a noiva.

Ryouya o fez, enchendo a taça pela metade e dando-lhe a faca. Chiasa retirou sua comprida luva e cortou a mão, fazendo o mesmo. Ambos pegaram a taça do outro e beberam o sangue. Essa era a dita união de sangue.

O festejo se seguiu após a união. As duas famílias e demais convidados festejaram com bebida, música e comida. Até que, ao fim das festividades, os noivos direcionaram-se para casa. Ryouya agora era senhor de sua própria casa, com sua esposa e empregados. Chiasa precisou se despedir dos pais, além de seus irmãos. Agora iria para sua própria casa com seu marido.

Ela nunca havia pisado na mansão até aquele momento. Era grande, com uma bela decoração e ainda vazia em relação a pessoas. Esperava que brevemente pudesse enchê-la com risadas de seus filhos. Pegou-se sorrindo quando Ryouya ofereceu-lhe a mão para subir com ele ao segundo andar. Caminharam juntos pelo corredor, o coração dela se apertava cada vez mais por saber que logo cumpriria com os deveres de esposa.

Ao subirem para o terceiro andar, Ryouya abriu uma das portas e ao adentrarem o quarto, ela se viu em um belo e grande cômodo. As paredes possuíam cor avermelhada e escura, o quarto era iluminado por candelabros nas cômodas e criados-mudos, e a grande cama possuía uma colcha avermelhada com detalhes e costura preta. Quando Ryouya fechou a porta, ela se virou para ele.

— Hum, se quiser trocar-se atrás do biombo, não me importo. – ele sorriu – Sei que deve ser constrangedor.

— Um pouco. – ela sorriu suavemente – Obrigada.

Chiasa se pôs atrás da divisória articulada. Era de madeira escura e com uma belíssima pintura. Retirou seu vestido de noiva e vestiu uma longa camisola de cor clara, pondo o robe e amarrando-o. Ao sair, Ryouya já estava na cama à sua espera. Ele parecia nervoso, o que a deixou um pouco mais confortável.

Ao sentar-se na cama e cobrir-se, ele a beijou ao passo que pusera gentilmente a mão em seu rosto. Soltou seus longos cabelos, passando os dedos por eles. Chiasa semicerrou os olhos, assistindo seu robe ser retirado e recebendo beijos em seu pescoço. Ryouya a virou, pondo-a sentada de costas e continuando a beijar seu pescoço. Pôs todo seu cabelo sobre um dos ombros e a olhou.

— Permite?

Chiasa notou seus olhos ainda mais vermelhos e intensos, e assentiu. Ryouya lambeu seu pescoço, mordendo-a delicadamente. Saboreou seu sangue enquanto tocava-lhe os seios, preenchendo suas mãos com ambos. Desamarrou sua camisola em seguida, segurando seu queixo e fazendo-a beijá-lo. Quando nua, pôs-se sobre ela e a fez experimentar os prazeres aos quais nunca havia conhecido antes.

As semanas se passaram delicadamente. E Chiasa a cada dia conhecia um lado novo de Ryouya. Ele era carinhoso, um bom homem, gentil, amoroso, íntegro, companheiro e equilibrado. Porém tal equilíbrio se tornava cada vez mais vacilante com a pressão de seu pai sobre ele para produzir herdeiros. O casal constantemente recebia a visita do pai de Ryouya e ambos trancavam-se em seu escritório para conversar.

Chiasa sempre o recebia com um sorriso e educação, porém começou a querer saber o que tanto conversavam. Não se atreveu a espionar o marido, não era seu feitio. Porém quando Ryouya começou a levar os problemas para o quarto, ela teve a certeza de que algo estava acontecendo.

— O que aconteceu? – perguntou ela, sentando-se na cama – Parece incomodado.

— Meu pai.

— Está tudo bem com ele?

— Sim. Mas ele me pressiona em fazer um herdeiro. Diz que isso é tudo para um homem.

— Acontecerá quando acontecer. – disse ela, docemente – Não há como apressar.

— Eu sei. – ele suspirou, sentando-se ao seu lado – Mas quero tanto ter um filho com você. – beijou sua cabeça.

— Eu também. – ela sorriu.

— Vou ensiná-lo tudo o que sei.

Chiasa sorria com sua empolgação, ouvindo-o.

— Vamos plantar no jardim e na horta. Um homem deve saber mexer na terra. – dizia ele – Podemos levá-los à praia, para empinar pipas. Vamos ter vários, não vamos?

— Claro. – ela sorriu, tocando sua mão – Mas... Você diz “filho”... E “levá-los”. Meu amor, mas e se for menina?

— Tudo bem também. – ele sorriu – Adoraria ter uma menina.

Porém seu pai não achava o mesmo. Em uma de suas várias visitas, trancaram-se mais uma vez no escritório. Ryouya sentou-se em sua mesa enquanto o pai observava sua coleção de facas. Havia dezenas de diversos tamanhos e tipos, dentro de um armário de vidro.

— Esta é nova. – ele comentou – Onde a conseguiu?

— É um punhal. Um amigo me deu de presente. Disse que um humano tentou matá-lo com isso, porém ele o matou antes.

— Humanos tolos.

— É feito puramente de prata. Belíssimo, não?

— Certamente. – disse ele, voltando-se para o filho – E Chiasa, como está?

— Muito bem. Estamos pensando em viajar, ir até a praia. Quem sabe não concebemos nosso primeiro filho na areia. – sorriu, achando graça.

— Então ela ainda não carrega um filho.

Ryouya abaixou o olhar.

— Infelizmente ainda não. Porém não podemos apressar, é algo que acontece naturalmente.

— De fato.

— Mas imagino todos os dias como será. Irei ensiná-lo a mexer na terra e soltar pipa como o senhor me ensinou. E se for menina, podemos...

— Menina? – ele zombou, interrompendo-o – Não creio que acha que terá uma menina.

— São duas possibilidades, pai.

— Ora, um homem de verdade terá os filhos primeiro ou apenas filhos.

— Eu sei. – disse ele, irritando-se – O senhor sempre me disse isso, e não me lembro mais desde quando. Porém e se for menina?

— Trabalhe para que seja menino. Pois se não for... Mate-a.

Ryouya arregalou os olhos, estático.

— Diga que está brincando.

— Ou o faça ou deixe de ser meu filho. O que fará sem o nome de nossa família? Onde você e sua esposa irão parar?

Ryouya engoliu em seco, assentindo.

Ryouya e Chiasa viajaram para a praia. Passaram a semana em uma casa de praia, apenas os dois. Uma semana longe de tudo fora o suficiente para conceberem. Chiasa carregava agora um bebê em seu ventre. A expectativa era grande, principalmente de Ryouya, que tinha esperanças de que fosse um menino.

Próxima a dar a luz, Chiasa estava sentada em sua cama, acariciando sua barriga sob a camisola. Ryouya deitou-se ao seu lado, passando a fazer o mesmo.

— Que nome daremos? Quero um nome parecido com o seu.

— Ryuu.

Ela sorriu.

— É lindo. E se for menina? Qual será?

Ele a olhou, hesitante. Abaixou o olhar para sua barriga.

— Não. Será um menino.

— Mas e se for menina? – ela sorria, porém desfez o sorrio quando ele não respondeu.

Não queria enxergar, porém temia que seu marido tão gentil estivesse mudando. E o que temia aconteceu na noite do nascimento.

Chiasa entrou em trabalho de parto na sala de jantar e foi levada para o quarto. As empregadas a ajudaram e Ryouya estava presente, sentado ao seu lado na cama e segurando sua mão. Ela fez força e sentiu dor, porém sorriu ao ouvir o choro do bebê. Ryouya engoliu em seco, levantando e indo até a empregada que segurava a criança.

— O que é?

— É uma menina, senhor. – sorriu, dando-lhe o bebê no colo.

Os olhos de Ryouya encheram-se de lágrimas. Ela era linda e pequenina. Porém repentinamente seu pai adentrou o quarto. Chiasa assustou, mas estava cansada demais para pudores, apenas cobriu-se. Ele olhou para a criança nos braços do filho, enrolada em uma manta.

— Retirem-se todos. – ordenou.

Os empregados se foram, deixando-os a sós.

— O que é?

— É uma menina. – disse Chiasa, doce e alegremente.

Ele franziu as sobrancelhas, deixando-a confusa e voltando-se para o filho.

— Sabe bem o que fazer.

Ryouya o olhou, hesitante, porém aproximou a mão do pescoço dela, ficando de costas para a cama. Chiasa não compreendeu. Seu coração apertou, o medo a possuiu.

— Ryouya, o que está fazendo? – perguntou, temendo – Ryouya...

Seu pai se aproximou de Chiasa, que levantara quase que cambaleando. Segurou-a pelos braços, impedindo-a de se aproximar.

— O que está fazendo? – exclamou.

— O que ele deve fazer. – disse o pai severamente.

— Como assim? – seus olhos encheram-se de lágrimas – É nossa filha. O que quer dizer?!

— Não deveria ter dado a luz uma menina.

Ela arregalou os olhos, compreendendo e olhando para o marido, que ainda estava de costas. Ouviu-a começar a chorar e o tornar-se abafado a cada segundo, faltando-lhe ar.

— Ryouya, não! Não! – gritou, sendo segurada – Não faça isso! É nossa filha!

Ele o fazia, mantendo os olhos fechados e sentindo a dor em seu peito com tal ato e os gritos da esposa.

— Por favor!

Quando o bebê se silenciou, o pai de Ryouya a largou. Chiasa cambaleou até Ryouya, tirando a filha de seus braços e caindo ajoelhada no chão ao vê-la sem vida. O choro e lágrimas despejaram-se enquanto a abraçava.

— Por quê? Por que fez isso?

Ryouya abaixou a cabeça, as lágrimas escorreram por seu rosto. Chiasa levantou o olhar, sentindo aquela dor, e olhou para o pai dele.

— Você é um monstro! – gritou – Um monstro!

Ele a olhou, inexpressivo e direcionou-se para a porta, abrindo-a e vendo os empregados se dissiparem dali. Esbravejou à eles:

— Espero que hoje não seja comentado jamais. Ou tratarei de castigar a todos!

Chiasa chorava, agarrada à filha. Seu choro ecoava por toda a casa, assim como sua dor.

A primogênita deles não recebeu um nome. Ryouya não quis carregar o fardo de ter o nome da filha em sua mente todo o tempo lembrando-o de que foi ele quem a matou. Porém mesmo não o fazendo, o olhar de Chiasa em sua direção o fazia lembrar-se dela todos os dias. A filha que viveu por apenas poucos minutos. Chiasa a enterrou no jardim, sua lápide não possuía nome. Fez questão de que fosse ao lado das flores, pois estaria sempre ao seu lado. O relacionamento deles se despedaçou. Ryouya não conseguia se aproximar da esposa, ela nem o deixava tocá-la.

Após um mês, Chiasa estava descendo as escadas. Ryouya dava instruções a um dos empregados e ao olhá-la, dispensou-o e voltou-se para ela. Seu olhar semicerrado perdera a luz que possuía ao se conhecerem. Ela não era mais a mesma, assim como ele.

— Chiasa. – disse ele, vendo-a chegar ao primeiro andar – Você quer...?

Ryouya calou-se ao vê-la passar por ele sem olhá-lo. Algumas horas depois, em meio ao seu sono, ele acordou e não viu a mulher ao seu lado na cama. Levantou e vestiu um robe, indo até a janela. Viu-a em pé no jardim, em frente ao túmulo. Seu robe e camisola balançavam suavemente com a brisa que passava. Ele saiu do quarto e desceu as escadas, indo para o jardim.

Chegando, se aproximou da mulher por trás, segurando gentilmente seus ombros.

— Chiasa... Por favor, volte a falar comigo. Por favor...

Ela olhava para o túmulo, não podendo nem sequer olhar para um nome na lápide.

— Você me feriu, Ryouya... Da pior forma.

— Me perdoe... Por favor, me perdoe...

Ela abaixou o olhar e saiu de suas mãos, passando por ele e dizendo:

— Vou visitar meus pais hoje.

Ryouya a viu entrar, nem sequer o olhou. À tarde, Chiasa chegara à casa dos pais. Deu seu xale à empregada e abraçou sua mãe ao ser recebida. Direcionaram-se para o jardim, onde ela costumava ler. O chá foi servido, dando início à conversa.

— Como está, Chiasa? – perguntou sua mãe, bebericando o chá.

— Triste. Não possuo mais desejo em ficar ao lado dele nem por um segundo.

— Não diga essas coisas, minha filha. Vocês vão superar isso.

Chiasa franziu a testa, confusa. Seu pai adentrara o jardim, contente pôr vê-la após tanto tempo. Ao se aproximar, abraçou-a e beijou sua cabeça.

— Minha filha... – sorriu, olhando-a – Como está?

Ela sorriu suavemente, porém seu pai notou que estava abatida. Sentaram-se e a esposa lhe serviu o chá.

— Gostaria de poder fazer algo para vê-la sorriu como antes.

Ela abaixou o olhar por um momento.

— Não há o que fazer, infelizmente.

— Minha filha. – sua mãe lhe tocou a mão – Virão outros filhos, você tem muito a viver ainda. É uma fatalidade sem dúvida, porém podem tentar novamente.

— Fatalidade?

— Sim. – disse seu pai – Ryouya nos visitou há um mês, pouco depois do acontecido. Estava acompanhado do pai e disseram que infelizmente o bebê não vingara.

Chiasa o olhou, estática.

— Ele... Disse isso?

— Sim, querida. – disse sua mãe – Mas essa dor vai passar, não se preocupe.

Ela assentiu, contendo as lágrimas. Ao final da tarde, voltara para casa. Porém agora com raiva do que seu marido havia dito aos seus pais. Ao passar pela porta, logo viu Ryouya ao pé da escada e seu pai ao seu lado. Ela deixou o xale com a empregada e se aproximou.

— Ryouya. – disse severamente, sem cumprimentar seu pai – Disse aos meus pais que nossa filha não vingou?

Ryouya semicerrou os olhos, sabia que ela descobrira mais cedo ou mais tarde.

— Eu disse. – disse o homem.

Chiasa o olhou, enfurecida.

— Não dirigirei a palavra ao senhor. – virou-se para o marido – Por que fez isso? Por que mentiu?

Ryouya franzia as sobrancelhas a cada palavra dita.

— O que pensa que aconteceria ao dizer a verdade?! – gritou, enfurecido.

Ela franziu a testa, as lágrimas acumulavam-se. Passou por ele, subindo as escadas, porém virou-se e exclamou:

— Não quero mais este homem em minha casa!

Ryouya a olhou, irritado.

— Como ousa proibir meu pai de vir a minha casa?! Você não tem esse direito!

— E ele não tinha o direito de manipulá-lo para matar nossa filha! Não o quero mais aqui!

— Você não tem palavra nesta casa! – gritou, apontando para ela – Pode ser senhora desta casa, mas não é minha senhora!

Chiasa segurou a saia de seu vestido, apertando-a e retirando-se. Ryouya abaixou o olhar, nunca havia gritado com a esposa. Ao virar-se para o pai, disse:

— Perdoe-me por essa cena. Foi inapropriado.

— Certamente. Porém o admiro por ter controlado sua esposa. Quando pretendem tentar novamente?

— Não sei. Ela não me deixa mais tocá-la. E com esta cena agora...

— Ryouya, pretende deixar que sua esposa comande este casamento? Se ela não permite, você sabe o que fazer.

Ryouya o olhou, surpreso. Mais tarde, ao entrar em seu quarto, viu Chiasa debaixo das cobertas. Deitou-se ao seu lado após se despir. Olhou-a por alguns momentos e aproximou-se, colando seu corpo ao dela e abraçando sua cintura. Chiasa retirou seu braço de sua cintura e voltou a dormir. Ryouya tentou mais uma vez, acariciando-a, porém ela fez o mesmo. Ele lembrou-se do que o pai havia dito e virou-a brutamente, fazendo-a olhá-lo. Porém ao ver seus olhos naturalmente gentis em dúvida, não conseguiu fazê-lo. Largou seu pulso, abaixando o olhar.

— O que pretendia fazer? – perguntou ela, franzindo as sobrancelhas.

— Nada.

Chiasa virou-se. Ryouya a olhava, entristecido.

— Perdoe-me por hoje. Por ter gritado com você. Eu não deveria ter mentido.

— Por que mentiu? – perguntou sem mover-se.

— Vergonha. Matei minha própria filha.

— Por favor, não me faça ver seu pai todos os dias. Eu... Quero tanto matá-lo.

Ele a olhou, compreendendo a razão. Abraçou-a mais uma vez, cheirando seu cabelo e virando-a para olhá-lo. Tocou seu rosto e limpou as lágrimas que se formavam no canto de seus olhos.

— Ele não vai mais vir aqui.

— Promete?

Ryouya assentiu, beijando-a. Chiasa envolveu seu pescoço com os braços, permitindo-o que tirasse sua camisola e entregando-se à ele. Aos poucos, os bons dias retornaram. O pai de Ryouya não o visitou mais, porém porque ele o visitava. Não queria ser pressionado e nem ter ideias inseridas em sua mente. Apenas contava-lhe que tudo aos poucos voltava a ser como era. E pouco tempo depois, Chiasa concebeu.

Ela estava feliz mais uma vez, o brilho que Ryouya via em seus olhos retornara e ele estava feliz por isso. A cada mês sua barriga crescia, assim como as expectativas de ser um menino, vindas de seu pai. A pressão sobre seus ombros era gigantesca, seu pai fazia perguntas todas as vezes que ele o visitava e sempre o lembrava do que deveria fazer se mais uma vez fosse uma menina.

Naquela manhã, Chiasa havia entrado em trabalho de parto no jardim. Derrubou a xícara de chá que tomava e os empregos vieram prontamente ao seu auxílio. Levaram-na para o quarto e avisaram à Ryouya, que estava em seu escritório e rapidamente foi ao seu encontro. Mais uma vez segurou sua mão enquanto ela dava à luz, dizendo que tudo ficaria bem e logo acabaria. Ao ouvir o choro do bebê, ele beijou sua cabeça enquanto ela sorria, cansada. As empregadas o limparam e enrolaram-no em uma manta, dando-o à mãe. Chiasa olhou-o, sorrindo. Ter seu bebê enfim em seus braços lhe comoveu. Mostrou-o ao marido, que sorriu e sentou-se ao seu lado.

— É uma menina, senhora. – disse a empregada, hesitante.

Chiasa a olhou, desfazendo por um momento o sorriso, porém voltando a olhar para a filha.

— Ela é perfeita.

A empregada sorriu, contente e se retirou com as demais. Ao olhar Ryouya, Chiasa o viu decepcionado com seu olhar baixo.

— Querido... – disse docemente – Olhe para ela. É linda, não é? Os cabelos são como os seus. – sorriu.

Ryouya a olhou, vendo seu cabelo marrom e aproximando sua mão do bebê. Chiasa o viu fazê-lo e estremeceu.

— Ryouya. – disse, recuando a criança – O que está fazendo?

— É uma menina.

— Não diga algo assim! – exclamou, amedrontada – Ela é uma benção. É nossa filha. Por favor... Por favor! Eu lhe imploro. – tocou seu rosto, fazendo-o olhá-la – Eu lhe imploro! Não a tire de nós, por favor. Eu... Eu prometo que lhe darei um menino. Eu prometo! Não importa quantas vezes tentemos, eu lhe darei um menino!

Ryouya a olhou, acalmando o olhar e olhando para a filha, aproximando a mão. Chiasa agarrou-a, porém ele apenas afagou sua cabeça. Ela o olhou em dúvida.

— Que tal... Reiko? – disse ele.

Esboçou um sorriso.

— É perfeito. – olhou-a – Nossa pequena Reiko.

Ryouya sorriu, feliz.

Alguns dias depois, seu pai soube da notícia do nascimento da neta. Prontamente visitou o filho em sua casa, desejando saber o que se passara. Ryouya o levou até seu escritório, trancando-se e virando-se para o pai, que demonstrava explicitamente a decepção em seus olhos.

— Então Chiasa lhe deu outra menina. – disse ele com os braços para trás.

— Sim. – Ryouya foi até a mesa, encostando-se nela – Ela se chama Reiko.

— Está ficando louco? – o recriminou – Por que não a matou quando nasceu?

— Pai, ela é sua neta. Não está feliz?

— Ela não é minha neta. É uma infelicidade que aconteceu. Não servem para nada! Apenas dão continuidade à família de outros!

— Mas espero que a aceite.

— Como ousa falar dessa forma comigo? – enfureceu-se – Eu lhe disse o que deveria fazer caso nascesse uma menina. Mas a deixou viver! Então trate de ir até o berço e livrar-se dela. Agora mesmo!

— Não. Chiasa finalmente está feliz, então deixe-a feliz, pai.

— Essa mulher... Ela a enfeitiçou.

— Você quem insistiu que eu me casasse com ela. Ela é refinada, bonita e filha do seu amigo. Lembra-se disso?

— Se eu soubesse que ela o manipularia, nunca teria insistido nesse casamento. É culpa dela não nascer um menino, ela que gera a criança.

— Ela prometeu que me dará um menino, vamos tentar quantas vezes for necessário.

— Até quando? Quantas filhas serão necessárias para vir um menino? – exclamou – Uma, três, cinco? Como sua mãe?!

Ryouya arregalou os olhos.

— O que? – perguntou, paralisado – Minha mãe?

— Sim. – ele disse, rangendo os dentes – Até seus irmãos e você nascerem, pareciam intervalos intermináveis de meninas. Três ou quatro a cada filho. Ridículo!

Ryouya o olhava, abismado e enojado. Não acreditou que seu pai havia matado tantas filhas. Não imaginou sequer que havia tido irmãs. Ele possuía dois irmãos mais velhos e um irmão mais novo. Quantas irmãs perdera em todos esses anos?

— Eu... Tive irmãs?

— Se tivessem vivido, teriam dado continuidade a várias famílias inúteis. – remoeu as palavras – Fiz o que tinha de fazer, o que meu pai me aconselhou a fazer! E você? Se não o fizer, eu o farei!

Seu pai se virou, pronto para sair do escritório. Ryouya assimilava tudo o que ele lhe dissera, ainda não acreditando que o pai havia assassinado tantas de suas próprias filhas. Chiasa tinha razão, ele era um monstro! A cada segundo enlouquecia mais em tentar aceitar e passou a ver nitidamente sua primogênita, como se realmente estivesse em seus braços, morta. Ryouya pôs as mãos na cabeça, enlouquecendo aos poucos.

Olhou para o pai, próximo da porta e pegou o punhal de prata em seu armário de vidro. Quando a porta foi aberta, ele a fechou brutamente, empurrando seu pai.

— Não vai fazer nada! – Ryouya exclamou, enfurecido.

— Como ousa, seu pirralho ingrato! – gritou – Eu lhe dei tudo!

— Você é um assassino!

Ele tracejou um sorriso malicioso no rosto.

— Ora, assim como você.

Ryouya torceu a expressão, as lágrimas se aproximavam. Ele cerrou os punhos e seu pai viu o punhal em sua mão.

— Você é um covarde. Não o fará mesmo se eu o atacar. Eu o matarei em segundos e depois irei atrás de sua filha. E talvez de sua querida Chiasa.

Ryouya gritou, indo para cima dele e dando-lhe socos. Seu pai caiu no chão, exclamando de forma surpresa. Ryouya o manteve no chão, ficando sobre ele e desferiu um golpe em seu peito. Ele arregalou os olhos, olhando para Ryouya e sentindo a lâmina em seu coração. O sangue escorreu por sua boca, ele engasgava.

— Ela é minha! Ela é minha! – exclamava Ryouya, desferindo mais golpes no peito de seu pai.

Ryouya continuou, mesmo o pai já tendo morrido. O sangue espirrava, sujando-o até que percebeu o pai morto. Ele parou, arregalando os olhos e vendo o que havia feito. Deixou o punhal cair de sua mão, levantando e perguntando-se o que faria agora.

Convocou dois de seus empregados mais fiéis e ordenou que se livrassem do corpo e limpassem tudo. Perguntaram o que deveriam fazer e Ryouya ordenou que queimassem o corpo e suas roupas sujas de sangue. Eles o levaram e ao trocar de roupa, Ryouya foi até seu quarto. Observou Chiasa com Reiko nos braços, sentada em sua cama e sorriu. Aproximou-se e sentou-se ao seu lado, beijando a cabeça de sua filha.

— Quem era, querido? – perguntou ela, docemente.

— Não era nada demais. Não se preocupe. – beijou sua bochecha.

Chiasa sorriu, dizendo:

— Ela abriu os olhos hoje.

— Jura? – ele sorriu.

— Sim. Seus olhos são vermelhos, assim como os seus. Ela é exatamente como você.

Ryouya sorriu, porém esperava que não fosse. Agora que sabia da verdade, ele via-se como um assassino e monstro. Assim como seu pai. Tentava não enxergar-se dessa forma, porém a cada segundo que pensava, relembrava dos momentos em que matou a filha e o pai. Ele era um assassino.

No ano seguinte, Chiasa concebeu novamente e deu à luz à uma menina de cabelos marrons e olhos azuis. Fora chamada de Ruka. Chiasa ficava cada vez mais feliz, agora tinha duas belas filhas. Ryouya não se importava tanto que fossem meninas. Ele estava feliz enquanto Chiasa estivesse feliz. Dois anos depois do nascimento de Ruka, ela deu à luz a Rikae, uma linda menina de olhos vermelhos e cabelo de cor caramelada como os dela. Porém mesmo recebendo em seus braços mais uma bela e perfeita filha, Ryouya perguntava-se quando Chiasa lhe daria um menino.

As três meninas enquanto cresciam gostavam de brincar no jardim. Chiasa fazia companhia à elas, sentada à mesa com uma xícara de chá. As três brincavam, correndo umas atrás das outras. Reiko tinha seis anos, Ruka cinco anos e Rikae três anos. Por um momento Chiasa abaixou o olhar para beber o chá e parou de ouvir a risada de Reiko. Ao olhar para o jardim, viu Ruka e Rikae correndo uma atrás da outra, gargalhando docemente. E Reiko, parada em frente ao túmulo.

Chiasa semicerrou os olhos e levantou, aproximando-se e parando ao seu lado. O túmulo de sua filha agora era verde e tinha algumas flores, porém ainda não possuía nome.

— O que houve, meu amor?

— O que é isso?

— É um túmulo.

— Mas não deveria estar no cemitério da família? – perguntou ela, docemente, olhando para a mãe.

Chiasa ajoelhou-se ao seu lado, segurando gentilmente a mão da filha e olhando para a lápide.

— Quem está aqui... É sua irmã mais velha.

— Irmã? – perguntou em dúvida.

— Sim. Ela morreu ao nascer. A enterrei no jardim para sempre estar ao seu lado.

— Então eu tinha uma irmã mais velha? – olhou as flores no túmulo – Por isso falam que sou a segunda filha?

— Sim. Seu pai oficializou, não sei a razão. – mentiu.

— Como ela era?

— Bonita e delicada, assim como você.

— Queria tê-la conhecido. – disse Reiko, abaixando o olhar.

Chiasa sorriu suavemente, abraçando-a.

— Não fique assim. – disse ela, mexendo em seu curto cabelo – Quer saber um segredo?

— Sim. – ela sorriu, animando-se.

— A mamãe vai te dar mais um irmão ou irmã.

— Jura? – Reiko perguntou, empolgada.

— Juro. – ela sorriu, cochichando em seguida – Mas mantenha segredo, pois vou contar ao papai no jantar.

— Papai vai ficar muito feliz!

— Vai. – sorriu.

E Ryouya amou a notícia. Porém alguns meses depois, nasceu uma menina que eles chamaram de Rina. Possuía cabelos como da mãe e olhos vermelhos, era parecida com Rikae. Ryouya decepcionou-se mais uma vez, mesmo vendo o sorriso feliz de Chiasa. Começou a achar que provavelmente seu pai tinha razão em achar que a culpa era dela por não lhe dar um menino. A cada nascimento Ryouya ficava mais e mais confuso, perdido. Ele desejava ter uma grande família e agora possuía, percebeu que seu pai o mudou de tal forma que ele temia que estivesse se tornando o próprio pai.

Chiasa notava essa mudança, Ryouya não era mais o mesmo. Não era mais tão carinhoso e gentil, e após o nascimento de Rina, ele ficava cada vez menos amoroso com as filhas. Começou a se preocupar que o marido estivesse ficando infeliz, era o que ela menos desejava.

Bateu na porta de seu escritório, ouvindo as risadas das filhas pela casa e notando que seu pensamento ao entrar pela primeira vez na mansão se tornara realidade. Ela estava repleta de crianças. Ryouya permitiu que entrasse e ela o viu em sua cadeira, pensativo.

— Ryouya. – sorriu, aproximando-se e pondo-se ao seu lado – O que está fazendo? Reiko e Ruka disseram que você queria nos levar à praia.

Ele a olhou, despertando e sorrindo.

— Estava. – falou – Percebi que elas nunca foram à praia.

— E quem sabe... – Chiasa cantarolou, sentando-se em seu colo – Não concebemos enfim nosso menino? Na praia.

Ryouya sorriu, porém abaixou o olhar e segurou sua mão, acariciando-a.

— Eu estava pensando... – disse ele – Vamos parar por algum tempo.

— Por quê? Eu sei que posso lhe dar um filho. – disse ela, entristecida.

— Vamos aproveitar a viagem e pensar nisso depois.

Ela assentiu. A família partiu em viagem e por uma semana foram inteiramente felizes. As meninas corriam na areia, Chiasa ficava debaixo da sombra com Rina nos braços e Ryouya observava o mar, sentado na areia. Ao notarem que o pai distraído, aproximaram-se dele por trás, pulando em cima dele de forma surpresa. Chiasa sorriu enquanto Ryouya gargalhava e brincava com elas, um dos poucos momentos felizes que tiveram.

Ao voltarem, continuaram sem tentar. Porém três anos depois, em uma das primeiras tentativas, Chiasa concebeu e deu à luz a gêmeas. Duas lindas meninas que foram chamadas de Raina e Rana. Possuíam cabelos marrons e olhos azuis, como Ruka. Eram tão semelhantes uma a outra que muitas vezes eram confundidas pelas irmãs. Ryouya segurou a mão de Chiasa como sempre fazia em todos os seus partos. Mas quando a notícia fora que ela tivera duas meninas, ele repentinamente se enfureceu e mudou completamente. Não era mais o homem que Chiasa conheceu e se apaixonou durante o casamento. Era agora um homem amargo, egoísta e infeliz.

O primeiro ano das gêmeas foi triste para a Chiasa. Alguns meses depois que nasceram, ela entrara em seu quarto e deparou-se com coisas quebradas e reviradas. Ryouya jogara um vaso no chão, enraivecido. Ela se assustou com o ato e fechou a porta sem compreender o que se passava.

— Ryouya?

Ele a olhou antes de jogar outro vaso no chão.

— Você prometeu. Você prometeu! – gritou.

— O que...?

Ele se aproximou e agarrou em seu cabelo, fazendo-a exclamar pela dor.

— Prometeu-me um menino! – gritou – Temos meia dúzia de meninas e nenhum menino!

— Ryouya, está me machucando!

— É sua culpa! Sua!

Jogou-a no chão. Chiasa encolheu-se, tremendo. Nunca o vira dessa forma.

— O que houve com você? O que aconteceu?! Isso é repentino!

— Não, não é! – disse ele – Penso nisso desde Rikae! Quando me dará um menino?! Quando?! – gritou.

Agarrou-a pelo braço repentinamente, levantando-a.

— Pare com isso! Você enlouqueceu! – exclamou ela, empurrando-o para longe.

Ele enfureceu-se mais e desferiu um tapa em seu rosto. Ela foi brutamente de encontro a parede, pondo a mão no rosto e olhando-o de forma surpresa. Ryouya nunca levantou a mão para ela. Porém agora, após o primeiro tapa, ele não parou. Batia nela quase todos os dias, dizendo para lhe dar um filho. Quando desejava possuí-la, pedia desculpas por tê-la batido. Porém sempre voltava a lhe dar surras.

Um dia Reiko a viu machucada, Ryouya acabara de bater nela. Sua maça do rosto estava com um hematoma e sobre ele um pequeno corte. Ela chorava, encolhida na cama. Reiko, com dez anos, fora ao seu quarto para perguntar algo e quando a viu, correu até o escritório do pai. Adentrou o lugar sem bater e o viu sentado à mesa.

— Papai, a mamãe está machucada! – exclamou – Ela se machucou. Vá ver o que é, por favor!

— Saia daqui! – ele gritou.

Reiko arregalou os olhos, assustada.

— Eh...?

Ele levantou da cadeira bruscamente e agarrou em seu braço.

— Não lhe dei permissão para entrar!

— O que você tem, papai?! – ela gritou, soltando-se.

— Cale a boca! – ele gritou, batendo em seu rosto e derrubando-a no chão.

Passos rápidos foram ouvidos e Chiasa surgiu em sua porta, vendo a cena e indo em direção à Ryouya, enfurecida.

— Não se atreva a bater nela! – gritou, tentando bater nele, porém apenas recebendo outro tapa.

Ela caiu sentada e virou-se, abraçando a filha, que estava assustada.

— Cale a boca. Não você tem o direito de falar!

Após o acontecido, Reiko estava em seu quarto. Chiasa pegara uma pequena bacia de água e um pano, molhando-o e ajoelhando no chão para pô-lo no rosto de Reiko.

— Mamãe... – ela chorava – Por que ele te bateu? Por que ele bateu em mim?

Ela a olhou, entristecida. Como explicaria que seu marido enlouquecera?

— Seu pai... Ele... Está chateado por que eu não consigo dar uma coisa a ele.

— Por que não diz pra ele que vai passar? – ela perguntou de forma inocente – Como você faz com a gente.

— Porque... É complicado, meu amor. – Chiasa a abraçou – Mas não se esqueça. Papai é bom, ele é bom sim.

Reiko assentiu, porém Chiasa dizia isso para si mesma. Não queria deixar de acreditar que o marido deixara de ser bom.

Ryouya não parou de bater nas duas. Chiasa era surrada quase todos os dias e quando Reiko perguntava por que ele fazia o que fazia ou tentava impedir as surras, ela também passava a ser um alvo. Porém ele passou a surrá-la de maneira privada, indo até seu quarto em alguma hora do dia e batendo nela de forma repentina. Após a surra, ela ficava deitada no chão e encolhia-se, repetindo por longos minutos o que sua mãe lhe dissera na primeira vez. “Não se esqueça. Papai é bom, ele é bom sim”.

Entretanto, três anos se passaram e as surras continuavam. Durante esse tempo, Reiko se perguntava se o pai realmente às amava. Ele não bateu nela até aquele momento em seu escritório. Ele deixou de amá-la naquele momento? Ela pensava constantemente e a cada vez que pensava, sua expressão alegre mudava, assim como seu interior. Uma noite, sua mãe fora até seu quarto. Segurava seu colar de pedras vermelhas e lhe disse que aquele colar lhe daria forças para aguentar qualquer coisa, não importasse o que fosse. Reiko o pegou e enrolou no braço, assim poderia vê-lo e se acalmar sempre que fosse enlouquecer.

Porém mesmo após o colar, Reiko se tornou apática. Era difícil vê-la demonstrar algo ou se emocionar com algo. Ela passou a sempre estar com os olhos semicerrados. Podia até sorriu, mas seus olhos eram sempre os mesmos. E Chiasa viu o que o marido fizera com a filha. Ele estava destruindo-a.

Ela invadira seu escritório, vendo-o sentado com papéis na mão.

— Pare de bater nela. – ordenou.

— Do que se trata? – perguntou sem olhá-la.

— Você está... Destruindo Reiko. – as lágrimas escorriam por seu rosto – Você por acaso a viu esta tarde? Ela parece não sentir mais nada! Olhe o que está fazendo com sua própria filha. Ela tem apenas treze anos!

— Controle-se, Chiasa. Ela tem apenas essa aparência, somos vampiros. E estou apenas educando-a.

— Não, não está. Com surras? Eu vi o que fizera à ela há três semanas. Suas costas estavam vermelhas, cheia de hematomas. E a mim? Meu braço melhorou agora. Eu posso aguentar, mas deixe-a em paz. Eu lhe imploro.

— Implora? – disse ele, voltando-se para ela – Foi o que disse quando ela nasceu. E eu permiti que ela vivesse com a condição de você me dar um filho. Você deu? Parou de tentar e quando fazemos, parece sempre dar um jeito de não conceber de novo.

Chiasa cerrou os punhos, franzindo as sobrancelhas.

— Não quero pôr outra criança no mundo para você bater nela.

— Você deve cumprir seus deveres como esposa.

— Não. – disse severamente.

Ryouya levantou bruscamente, indo ao seu encontro e agarrando seu braço. Ela estremeceu, olhando-o.

— Você vai me dar um filho. – disse ele, furioso – E vai me dar agora.

Ele a levou para fora do escritório, indo em direção às escadas e subindo para o terceiro andar. Chiasa tentava soltar-se, negando, porém Ryouya a levou para o quarto e trancou a porta. Reiko estava no outro corredor e viu o que se passou. Seu cabelo marrom passava dos ombros e ela caminhou calmamente, até se aproximar da porta do quarto deles.

De frente para a porta, ouviu sua mãe gritar e dizer “não” repetidas vezes. Porém minutos depois, ouviu passos e saiu do caminho da porta, que se abriu. Seu pai saiu, ajeitando a roupa e descendo as escadas. Reiko aproximou-se, espiando o quarto e vendo sua mãe deitada. Ela estava encolhida sobre a cama, chorando agarrada às suas roupas rasgadas.

Reiko aproximou-se, olhando-a e, sem emoção, dizendo:

— Ele a machucou de novo.

Chiasa assustou-se, sentando-se e cobrindo o corpo com a coberta.

— Reiko... Não devia estar aqui.

Ela se aproximou, esticando a mão e limpando as lágrimas de seu rosto. Chiasa acalmou o olhar, pegando em sua mão e a beijando.

— Ele não é bom, mãe. – disse Reiko – Não mais.

— Querida... Não importa o que ele faça ou o que você veja... Nem todo homem é assim. Tudo bem?

Reiko assentiu e saiu do quarto da mãe em seguida. Enquanto caminhava, seus olhos ficaram ainda mais vermelhos e intensos. Ela estava com raiva, seu pai machucara sua mãe da pior forma possível. Porém meses depois, Ryouya em fim conseguiu o que desejava. Chiasa descobrira que concebera e dera à luz a um menino. Ele ofereceu sua mão à ela no momento do parto como todas as outras vezes, porém mesmo com relutância, ela a pegou. Ele segurou seu filho e o olhou de forma admirada. Possuía os cabelos de cor caramelada de Chiasa.

Ryouya aproximou-se dela, sentando-se ao seu lado e mostrando o filho.

— Olhe para ele... É perfeito. Nosso Ryuu enfim chegou.

Chiasa sorriu, feliz por enfim ter lhe dado o menino que tanto desejava. Porém infeliz pela forma como ele foi concebido.

Mesmo após o nascimento do filho, Ryouya voltou a bater em Chiasa em poucos meses. Não era mais pelo motivo de antes, mas agora por qualquer motivo. Ele facilmente se irritava e simplesmente lhe desferia um tapa no rosto ou um soco no corpo.

Reiko também continuava a ser um alvo. Ela encolhia-se no chão enquanto seu pai lhe dava surras e apertava o colar em sua mão, apenas esperando que ele terminasse e fosse embora. Porém numa noite, ela estava indo para o quarto e passou pelo quarto de Ruka, ouvindo seu choro. Voltou e parou em sua porta, vendo-a sentada na cama com a mão no rosto. Ela tinha agora 12 anos e longos cabelos marrons, que naquele momento estavam presos.

Reiko adentrou o quarto e sentou-se ao seu lado.

— O que aconteceu? – perguntou.

— Papai me bateu. – disse ela, chorando.

Reiko, em seus raros momentos, arregalou os olhos.

— O que?

Ela tirou a mão da irmã da frente do rosto e viu uma grande marca avermelhada.

— Perguntei se ele poderia pegar um livro da prateleira de cima na biblioteca e ele disse não. Quando perguntei por que, ele me bateu. – contou.

Reiko semicerrou os olhos mais uma vez, inexpressiva.

— Ruka...

Ela a olhou.

— Papai nunca mais vai te bater.

Ruka não compreendeu, sua irmã apenas saiu de seu quarto após dizer aquilo. Reiko foi para seu quarto e parou em frente à janela, olhando o jardim do lado de fora. Era inverno e nevava. Ela avistou seu pai no jardim, em frente ao túmulo de sua irmã. Ele usava um terno e sobretudo, roupas atuais. Ela franziu as sobrancelhas, lembrando-se desses três anos de surras e da cena de sua mãe, despida na cama e agarrada à roupas rasgadas. Ele fizera o pior à ela. E agora batera em sua irmã. Estava cansada disso.

Reiko saiu do quarto e desceu as escadas, indo até o escritório de seu pai. Ao entrar, direcionou-se para o armário de vidro onde ele guardava sua coleção de facas. Olhou cada uma delas e viu algo em especial. Um punhal de prata. Quando era pequena, seu pai já havia lhe contado sobre este punhal. Fora dado de presente à ele por um amigo e poderia matar até um vampiro se perfurasse o coração. Reiko o guardou em sua manga, saindo.

Ao chegar ao jardim, vestida em um vestido azul-marinho de mangas compridas e usando um cachecol vermelho, caminhou até próximo de seu pai. Ela parou logo atrás dele, vendo-o de costas. Ele ainda observava o túmulo, seu olhar estava entristecido.

— Ela morreu há muito tempo. – disse ela.

Seu pai não olhou para trás, reconheceu sua voz.

— Reiko. – disse ele – Sim. Mas a dor nunca passa completamente.

Ela olhou para a lápide.

— Por que não tem nome?

— Porque não queria carregar o peso de seu nome em minhas costas.

— Você fez algo a ela?

— Eu... A matei ao nascer. – confessou – Penso nela todos os dias. Ela logo estaria se formando e em algum tempo se casando. Nunca a vi sorrir ou dar uma risada. Ela nem abriu os olhos.

Reiko olhava em direção às suas costas, sem emoção. Naquele momento Chiasa entrou no quarto de Reiko, procurando-a. Foi até a janela e a viu no jardim com seu pai. Não compreendeu por que os dois estavam ali, porém arregalou os olhos ao vê-lo tirar um punhal de sua manga. Gritou seu nome, batendo na janela desesperadamente, porém ela não ouviu. Chiasa correu, saindo do quarto.

— Por que fez isso? – perguntou Reiko.

— Porque ela não era um menino. Foi a pior coisa que fiz, principalmente com sua mãe. – ele abaixou o olhar e se virou – Reiko, eu...

Ryouya arregalou os olhos, sentindo algo lhe atingir. Abaixou o olhar, sentindo o sangue escorrer por sua boca e viu o punhal em seu peito. Olhou para Reiko, que não demonstrava nada em sua expressão.

— Rei...ko...

Cambaleou e caiu para trás. Ela se aproximou, vendo-o agonizar na neve. Ele a olhou e semicerrou os olhos, sentindo aquela profunda dor.

— Me per..doe...

Reiko franziu as sobrancelhas, vendo-o acalmar o olhar e sorrir levemente, dizendo:

— Obrigada...

Ao ver a luz deixar seus olhos, Reiko ouviu sua mãe chamá-la. Ao virar, avistou-a correndo em sua direção.

— Não! – exclamou, caindo ajoelhada na neve – Ryouya...

— Não se preocupe, mãe. – disse ela – Ele não vai mais bater em você e nem em Ruka. Ele nunca mais vai nos machucar.

Chiasa olhou-o com o punhal em seu peito. Pôs as mãos em seu rosto, chorando. Reiko aproximou-se dela e a abraçou, compreendendo sua reação.

Poucos dias depois, aconteceu o enterro de Ryouya. Chiasa chorava, assim como suas filhas. Reiko apenas olhava o caixão. Sua mãe não contou a ninguém o que ocorrera, apenas que alguém assassinara seu marido.

Após o enterro, ela se encontrava no jardim, ainda usando seu vestido preto. Pensava sobre o que acontecera e principalmente sobre o que Reiko fizera. Sua filha mudara, mas era compreensível o motivo. Ryouya a fez sofrer demais, ela sofria sem contar a ninguém. Porém Chiasa sabia que alguma de suas filhas mataria o pai. Se Ryouya havia batido em Ruka, logo bateria em todas. Alguém poria fim a sua vida. Com certeza.

— Chiasa-sama. – disse uma empregada – Maeda-sama acabou de chegar e quer vê-la.

— A mãe de Ryouya?

A empregada assentiu e Chiasa pediu que a trouxesse até o jardim. Ao chegar, ela viu uma mulher de longos cabelos escuros e vestido preto. Se aproximou e Chiasa a abraçou.

— Maeda-sama.

— Chiasa, minha querida. – disse ela – Vim para lhe fazer companhia. Acabara de perder o marido.

— E você um filho. – sorriu suavemente.

Ambas sentaram-se.

— Quero apenas dizer que, como meu amado filho falecera, agora é responsabilidade sua a criação e educação de suas filhas. Elas logo se tornarão belas jovens e cabe a você ensiná-las a maneira certa de agir para que casem com bons homens.

Chiasa abaixou o olhar, aceitando a responsabilidade.

— Sim, eu sei, Maeda-sama.

— Entretanto... Eu a ajudarei com o que necessitar.

Ela a olhou, surpresa. Maeda-sama sorriu suavemente.

— Nós, mulheres da família Maeda, sabemos mais que ninguém como é estar casada com um homem que nos faz sofrer ao tirar-nos nossas filhas por simplesmente não terem nascido homens.

Chiasa arregalou os olhos.

— Maeda-sama...?

— Meu marido morreu há décadas, como bem sabe.

— Sim, mas... Houve apenas rumores de que desapareceu.

— Não, tenho certeza de que morreu. Pois ele prontamente veio visitá-los quando a pequena Reiko nasceu.

— O que? Não, ele... Ele nunca veio aqui.

Ela sorriu.

— O cocheiro deixou-o aqui e poucas horas depois meu filho lhe disse para ir embora e não contar a ninguém. Porém quando lhe perguntei quando ele chegaria, ele me contou o ocorrido. Eu soube naquele momento que meu filho enfim descobriu o que o pai fez, e o matou.

— O que... Ele fez?

— Minha querida... – tocou sua mão – Sei que sua primogênita vingou naquela noite. Infelizmente meu filho sucumbiu às ordens do pai. Ele sempre foi obediente à ele. Naquela noite meu marido chegou em casa, dizendo que o filho era um homem de verdade e sabia o que queria. – recostou as costas na cadeira de ferro, olhando-a – Você, Chiasa, não imagina quantas filhas perdi pelo pensamento obsessivo dele. Porém aprendi a conviver com essa dor. Agora, não culpe Reiko por ter feito o que fez, eu sei que foi ela. Ela apenas se cansou de vê-la sofrer.

Chiasa abaixou o olhar, assimilando. Maeda-sama levantou, sorrindo levemente.

— Não se esqueça. O que necessitar, apenas me chame.

Aproximou-se e beijou sua cabeça, dizendo:

— Você não é verdadeiramente minha filha... – sorriu – Mas a tenho em meu coração como uma.

Ela se foi e Chiasa abaixou o olhar. Não culparia Reiko nem se Maeda-sama não houvesse vindo até sua casa. Apenas esqueceria o sofrimento e manteria na memória a felicidade que Ryouya lhe proporcionou durante o pouco tempo do começo de seu casamento.

Após três anos, Chiasa viu Reiko se tornar uma linda moça. Ela completara dezesseis anos e em alguns meses recebera o convite para o baile de apresentação dos filhos do Rei Vampiro. Ela perguntou se realmente gostaria de ir, porém Reiko insistiu em ir. Ela vestiu seu melhor vestido e arrumou o cabelo da melhor forma possível. Sua mãe pensou que ela não seria escolhida por sua personalidade indiferente e desanimada. Porém quando um dos empregados lhe entregou a carta de convite que acabara de chegar, surpreendeu-se.

Chiasa fora até o quarto de Reiko, onde todos os seus filhos se encontravam. Elas jogavam um jogo de tabuleiro e era a vez de Reiko, que tinha em seu colo Ryuu, de 3 anos. Ele era a imagem da mãe, possuindo cabelos de cor caramelada e olhos azuis. De todas as meninas parecidas com o pai, ele veio para lembrá-la de si mesma.

— Reiko, olhe o que tenho. – disse ela.

Ela olhou a carta, surpreendendo-se ligeiramente.

— Jura?

Ela assentiu e a abriu, lendo-a para todas e em seguida lendo a carta anexo. Mesmo sabendo que apenas na mansão Sakamaki descobriria quem seria seu noivo, ela aceitou tornar-se noiva de um deles. Pensava no que Kanato dissera no baile e em como lhe tratara.

Dias depois, os empregados levavam sua mala para o carro que a esperava e Reiko se despedia da família. Beijou a testa de cada uma. Disse à Ruka, de 15 anos, que agora ela seria a mais velha e precisaria ajudar sua mãe com as outras. Disse à Rikae, de 13, para parar de sujar o chão de tinta quando pintasse, mas que esperava que ela ficasse cada vez melhor. À Rina, de 10, que parasse de importunar as gêmeas, pois alguma hora elas iriam cortar seu cabelo enquanto dormisse. Disse à Raina e Rana, de 6, que não cortassem o cabelo de Rina, mas brincassem e lessem muito, pois havia ótimos livros na biblioteca.

Disse à sua mãe, Chiasa, que honraria à ela e à família ao casar-se. Ela emocionou-se e abraçou Reiko, que em seguida agachou e olhou para Ryuu, que estava agarrado à saia do longo vestido da mãe. Ele não queria olhá-la, estava com raiva dela por ir embora e deixá-lo.

— Ryuu... – chamou-o, docemente – Eu vou embora, Ryuu. Vai me deixar ir sem se despedir?

Ele a olhou com seus olhos cheios de lágrimas.

— Olhe só, está molhando sua camisa. – disse ela, passando levemente o dedo em sua camisa azul.

— Não bá... – pediu com seu dedo na boca.

— Preciso ir. Mas em breve nos veremos.

Ele voltou a chorar e Reiko o abraçou, afagando suas costas.

— Calma, já vai passar.

Ryuu a abraçou, acalmando-se. Reiko levantou, segurando-o e o deu para sua mãe. Ao ir para o carro e entrar, Chiasa apressou-se e bateu levemente no vidro. Reiko o abaixou, olhando-a em dúvida.

— Querida... Não se preocupe em ficar noiva de um deles, eles com certeza devem ser bons e educados.

Reiko acalmou o olhar e sorriu, dizendo:

— Tudo bem, mãe. Lembra do que me disse?

— O que?

— Nem todo homem é assim.

Chiasa arregalou ligeiramente os olhos, surpresa.

— Você fez tudo por nós. Agora está na hora de eu retribuir. – disse Reiko.

Ela sorriu, fechando os olhos. Chiasa admirou seu sorriso, que não via há muito tempo. Reiko partiu naquele momento, porém ela sabia que sua filha ficaria bem. Olhou para Ryuu, que ameaçava chorar mais uma vez e sorriu, beijando sua bochecha.

— Né? Quer que eu faça um doce pra você? – perguntou docemente.

— Sim. – disse ele, abraçando-a e repousando a cabeça em seu ombro.

Chiasa entrou em casa com ele, que viu o carro onde Reiko estava se distanciar e logo desaparecer ao fecharem a porta.

Notas finais
Prevejo reviews gigantes B)