Dia e Noite: Uma História da Criação
2 Segundo Pergaminho
Notas iniciais
As eras passaram como horas e rapidamente a vida na terra prosperou exuberante e diversa, com aves singrando os cinco céus, baleias cruzando os sete mares e os répteis gigantes vagando pelas florestas, montanhas e savanas. Tsunade se regozijava em alegria e grandeza, agradecida e orgulhosa da vida de sua criação, esquecida que estava daqueles que se sacrificaram por seu sucesso.
A Mãe de Pedra tecia despreocupada e satisfeita mais um tapete de flores, para ser estendido sobre os campos na primavera quando algo tomou sua atenção. A Donzela Luminosa voltava para seu palácio de cristal no limiar do horizonte após mais um longo dia de trabalho pelos céus.
Só então a Mãe da Vida percebeu que havia algo errado. Os longos cabelos rosados estavam desgrenhados e sem brilho, nos olhos de esmeralda não havia mais aquele brilho alegre e jovial que tanto encantava os Elementais; a pele perolada e macia, agora assemelhava-se à de um cadáver, ressequida e opaca.
Tsunade percebeu que aos poucos, a luz e a vida da Donzela Luminosa esvaíam-se e ela definhava, ficando cada vez mais fraca, a chama imortal de Sakura se apagava rapidamente, tornando cada vez mais próxima a realização da profecia de Jiraya.
A Deusa cerrou os punhos e, sentindo o peso da culpa em seus ombros, embrenhou-se no labirinto infinito que era o reino de Sasuke, Senhor das Trevas e da Noite, adentrando bravamente nas terras onde imperava a noite eterna e o silêncio sempre igual, cujo chão era macio como as plumas de uma ave e onde o Feitiço do Sono das criaturas que ali habitavam convidava os visitantes ao eterno descanso.
Tsunade sentia os olhos pesados e o próprio corpo amolecer aos poucos, praticamente implorando para que se deitasse ali mesmo e tirasse um longo cochilo. A poderosa Senhora de Pedra lutava bravamente contra as tentações daquela terra, entretanto, após horas e horas de caminhada, sentiu os joelhos lhe faltarem e desabou sobre o solo convidativo e perfumado. Foi neste momento que um jovem Espírito da Noite chamado Hinata a encontrou e carregou até o palácio do Lorde da Escuridão e Senhor da Lua.
A Senhora de Pedra abriu vagarosamente os olhos, deparando-se com os orbes perolados e o toque suave dos longos cabelos de sua salvadora em seu rosto.
— Oh, minha Senhora! Graças ao céu que a encontrei a tempo! — Exclamou a jovem em tom aliviado; sua voz assemelhava-se ora ao toque hipnótico da lira dos bardos, ora ao sussurrar suave do vento sobre as flores de cerejeira na primavera.- Permita-me conduzi-la à meu senhor, ele saberá receber-lhe adequadamente.
Tsunade assentiu e passou a seguir a menina de cabelos negros e vestes vaporosas, que praticamente flutuava como um fantasma por aqueles infinitos corredores do Palácio da Escuridão Eterna, até que chegaram a um grande salão, cujo teto alto e abobadado refletia o céu noturno, emprestando a beleza dos salões estrelados do Firmamento e do Castelo Celestial do Lorde dos Cabelos de Prata.
O Lorde da Noite encontrava-se em seu trono e Tsunade pode perceber que seu estado não era muito melhor do que da Donzela Luminosa.
— Que fazeis aqui, Tsunade, Senhora de Pedra?- Sua voz rouca e ameaçadora reverberou pelo palácio adormecido, fazendo com que até as bestas noturnas da floresta negra que circundava aquele lugar estremecessem e voltassem à seus esconderijos.- Já não lhe basta ter-me separado de minha senhora e ainda vens aqui vangloriar-se de meu infortúnio?
A Mãe de Toda a Vida, no entanto, manteve-se firme e fez ecoar sua voz por todo o salão estrelado.
— Acalma-te, Sasuke, Lorde das Trevas; pois não vim até aqui vangloriar-me de nada! Fiques sabendo que meu propósito é repleto de virtude! Vim até teu reino pois estou preocupada com a saúde de tua amada! — Tsunade disse, vendo os orbes cor de ônix do Senhor da Noite se arregalarem consideravelmente. — Oh, Tenebroso! Sakura definha mais a cada dia e sua luz se apaga lentamente! Eu vos suplico, ajudai-a!
Sasuke apertou com tanta força os braços de seu trono de mármore negro, que a pedra se rachou, esfarelando-se em seus dedos longos e brancos. Sakura entregava-se às trevas e cada vez mais ela enfraquecia, a maldição de Jiraya dos Cabelos de Prata mostrava seus mais trevosos efeitos.
O Lorde das Trevas não pensou duas vezes e se levantou, desceu a passos largos os pequenos degraus de pedra que o separavam de Tsunade e segurou com força seu pulso. Sasuke permitiu que a raiva, o ódio e o remorso o tomassem; os olhos agora cor de escarlate demonstravam toda a fúria do Elemental das Trevas.
— A culpa disto tudo é tua, Tsunade! Fiques, pois, avisada, Mulher de Pedra, se minha amada perecer; tu e todos os teus filhos perecerão também...- Dito isto, partiu; singrando a noite em sua carruagem enevoada.
Ele a encontrou à beira do abismo, pronta para se entregar. A Donzela Luminosa já não brilhava, pois, seu próprio espírito deixou de brilhar, o coração partido, o olhar distante, vazio e quebrado.
Imersa nas vagas lembranças de sua felicidade, Sakura, a Donzela da Luz caminhava para a morte, já que sua existência não mais fazia sentido, porque estava sozinha e não suportava mais a solidão de seus dias; ao observar o amor dos mortais, ela os invejou e seu coração se corrompeu consumindo completamente sua essência resplandecente.
Neste instante, as correntes que selavam as portas do Palácio Celestial se partiram, tendo seus resquícios caído sobre a terra na forma de milhares de estrelas cadentes, Jiraya dos Cabelos de Prata, Senhor do Universo Gélido atravessou os Umbrais das Trevas Eternas, trazendo consigo uma miríade de bestas do céu.
— Venha, minha senhora! Cumpra, pois, a profecia! Torne-se minha consorte e juntos espalharemos o caos por toda a criação! – A voz do Prateado soava hipnótica, fazendo com que a antes Reluzente Senhora, iniciasse uma dança cambaleante, vindo lentamente em sua direção.
Conforme a barreira entre o céu e a terra se rompia e caía, devastando todo o mundo recém-criado, causando secas, pragas e maremotos, Sakura ainda lutava em seu interior contra o caos do Senhor dos Cabelos de Prata, ainda tentava apegar-se aos últimos resquícios de felicidade que restavam em seu coração agora corrompido e gelado.
O sopro fervente de um dragão atingiu-a de raspão, fazendo com que seus olhos se abrissem e ela saísse de seu transe terrível, foi então que viu seu amado chamando por ela, flutuando em seu carro sobre o abismo para onde ela descia.
— Sasuke! – Chamou, voltando a subir a escadaria negra do Abismo do Mundo, em uma tentativa de escapar de seu trágico destino, fazendo com que a teia maléfica de Jiraya começasse a ruir.
Todavia, o corpo frágil de Sakura já não era mais capaz de exorcizar a Escuridão e o Mal que haviam se instalado no coração da Deusa Rosada, ela havia se corrompido, e já não poderia mais voltar à superfície se não se purificasse de alguma forma.
— Eu te amo...- Murmurou ela, antes de despencar dentro do Abismo.
— Não!- Berrou Sasuke tomado pela angústia e desespero.
E o dia ficou negro, pois já não havia mais luz no mundo, Jiraya soltou uma gargalhada sinistra, regozijando-se de seu poder. Ele caminhou até onde os Seres Primordiais estavam reunidos e estendeu a mão sobre a Terra.
— Cumpriu-se, pois, a minha profecia! Toda a criação deve se curvar à minha vontade! Que os cinco céus e os sete mares se rendam ao meu desejo! – E as criaturas e Elementais dos céus e dos mares se curvaram ante a fúria do Prateado. – Que a terra e todos os seus filhos obedeçam aos meus desígnios! – E todas as criaturas e Elementais Terrestres se ajoelharam ante o senhor do Universo. – Que as trevas e seu senhor se curvem a mim, que obedeçam minhas ordens! — Mas as trevas e seu senhor não se curvaram ante o Imperador do Palácio Cósmico. E então uma furibunda batalha começou.
Os exércitos da Noite e das Estrelas se digladiaram durante sete dias e sete noites, até que, durante o combate terrível, O Lorde da Noite foi ferido pelo Senhor de Prata.
— Chegou a tua hora, Sasuke, Senhor da Lua e General da Noite! – Berrou Jiraya, empunhando a espada de relâmpago que tomou de seu oponente agora de joelhos diante de si. — Prepare-se para desaparecer, Tenebroso!
Neste momento, uma grande luz dourada despontou no horizonte, cegando as Bestas Celestes do Senhor de Prata e trazendo fogo e calor a todo o mundo.
— Já basta, Jiraya! – Disse a figura incandescente, cuja armadura de fogo e metal reluzia gloriosa contra a luz do sol nascente. Era Sakura, que agora transfigurada na própria luz, chegava ao campo de batalha.
— Sa...Sakura?- Indagou Sasuke, erguendo-se com alguma dificuldade e se aproximando da amada que julgava ter perdido
A rosada sorriu ternamente e tocou-lhe a face, curando as feridas que lhe rasgavam a carne.
— Desci até o mais profundo abismo do Mundo Inferior, submeti a Escuridão ao meu desejo e tornei-me forte. Finalmente, venci a morte para poder criar a vida e fazer renascer minha Chama Eterna. Agora, tenho poder e sabedoria para derrotar o Senhor do Cosmos!
Sakura juntou em suas mãos uma esfera de luz incandescente, cujos raios arroxeados transformaram-se em sete lâminas serpenteantes e o núcleo fervente moldou-se à mão delicada da Senhora da Luz, formando uma empunhadura.
A Donzela Luminosa agitou sua arma terrível e suprema criando ondas de choque que empurraram as bestas celestes de volta aos salões e masmorras do infinito, prendendo-as para sempre no firmamento, formando bonitos desenhos que mais tarde seriam conhecidos como “Constelações”.
A movimentação das lâminas chicoteantes da espada de luz dissipou a cortina de fumaça criada pelo combate sangrento e trazendo também a vida ao Novo Mundo que havia sido criado em meio a tanta violência, revelando os novos seres que nele habitavam.
Jiraya tremeu diante da cólera da Senhora da Luz e montou em sua carruagem de prata, açoitando com violência os cometas que a puxavam e iniciando uma corrida desenfreada até a segurança de seu palácio estrelado no mais alto dos céus.
A Donzela não se importou, apenas materializou uma lança de fogo e a atirou, transpassando o peito do Prateado, que desabou de seu carro, iniciando uma queda lenta até o chão.
— Que a partir de agora, o Senhor dos Cabelos de Prata seja para sempre confinado a seu palácio, que seja restaurada a divisão entre céus e terra e que todos que tentem cruzá-la conheçam a cólera de minha espada. — Ela atirou sua arma para o alto, fazendo com que as lâminas se estendessem pelo céu, refletindo os raios do sol em cores de verde e rosa.- Que os poderes do Lorde de Prata sejam limitados ao vácuo de seu reino, onde os Filhos da Terra não podem viver. Que assim seja agora e para sempre!
E o mundo se iluminou fortemente. Jiraya dos Cabelos de Prata foi atirado e trancafiado para sempre nos salões de seu palácio, lá ficando pelo resto da eternidade, preso ao chão pela lança de fogo.
Durante eras, a paz reinou, mas Dia e Noite seguiram separados. Contudo, apiedada dos amantes para sempre fadados à separação, Tsunade, A Mãe de Pedra, reuniu o conselho supremo dos Deuses Primordiais e juntos, criaram uma ocasião onde Dia e Noite poderiam se encontrar nos campos sempre floridos do paraíso, o Eclipse. A data onde a Senhora do Sol, Grande Mãe de Toda a Luz e o Senhor da Noite podem se amar novamente.
E assim, o amor venceu a treva e a inveja. E dois Jovens Deuses tornaram-se maduros, assumindo com responsabilidade os papéis que lhe foram outorgados no ciclo da Eterna Criação e Renascimento e finalmente, Sakura e Sasuke venceram todas as dificuldades, provando que dia e noite podem sim formal um bonito casal.
FIM!
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