Dia dos Pais

1 Dário, Bruno e Júlio


Notas iniciais
Oiiie :3 Este capítulo é sobre o Dário. Gente, quase que não sai o capítulo hoje. Foi difícil escrevê-lo e ainda não sei se está digno, mesmo assim eu gostei e entrou pra lista de projetos favoritos. hehe :3

Eu estava sentado no sofá a assistir mais um jogo de futebol do meu time. Era um domingo fatídico, comum e rotineiro. Meu filho desceu do quarto aparecendo na sala, em frente a TV. Parecia tenso.

– Ei filho, sai da frente. – Peguei a garrafa de cerveja no pé do sofá e tomei um gole. Um gole que me desceu errado quando eu ouvi meu filho sentenciar:

– Pai, sou gay.

Engasguei. Engasguei bonito. A cerveja saiu pelo nariz e quase que eu não consigo respirar. Podia morrer ali.

– O QUÊ?! – Exclamei confuso. Depois eu ri, olhei para a cara preocupada com meu filho e cheguei à conclusão de que ele definitivamente estava brincando. – Deixa de besteira moleque.

Peguei o controle e aumentei o volume da TV. Ele se aproximou de mim, tomando o controle da minha mão com brusquidão e desligou-a. Encarou-me sério e eu podia ver um temor nos seus olhos. Foi nesse momento que a realidade me abateu. Caiu sobre mim como se fosse um balde de água gelada. Fitamo-nos e tudo que eu senti foi certeza e medo. Levantei num sobressalto. Bruno deu dois passos para trás.

– Escuta aqui. Você não é gay coisa nenhuma. – Disse apontado o dedo para ele.

Pouco me importou que o Bruno prendeu a respiração, ou o terror que ele sentia de mim naquele momento. Tudo a minha volta tornou-se preto e fúria tomou meu peito. Ofereci o primeiro golpe, que veio a doer em mim mais tarde, mas naquele momento eu senti ódio. Levantei a mão a desferi uma tapa forte em seu rosto, vendo-o cair no chão e ao vê-lo pôr a mão sobre a bochecha num típico gesto feminino, eu caí em perdição. Ajoelhei-me e comecei a desferir socos, depois levantei e chutei-o. Puxei seus cabelos, levantando-o do chão e jogando-o bruscamente no sofá. Bruno ofegou, segurando as lágrimas numa careta.

– Eu... Eu vou embora. – Ele disse, se levantando e mancando até uma mochila perto da porta. Abriu a porta de madeira e saiu da casa para um lugar do qual eu não sabia qual era.

Joguei a garrafa de cerveja na parede, quebrando-a e não me importando com mais nada. Liguei a tv e voltei a assistir o jogo. Não foi fácil e eu não consegui. Acabei por levantar e procurar ajuda num lugar perdido. O bar.

– segunda-feira

Acordei sentindo uma terrível dor de cabeça. Ressaca é uma das piores sensações e mesmo assim continuamos a cair no seu encantamento. É como se apaixonar. Você sabe que no fim vai dar errado mas você continuar a amar e amar, rezando pra que dessa vez dê certo. Não que eu seja apaixonado pela bebida.

Mesmo de ressaca eu levantei e fui honrar meu trabalho. Mal entrei na empresa e já tinha encomenda. Tirar fotos de um bairro perdido por aí. Todo esse tempo tirando fotos me deu espaço para refletir sobre meu filho. Ele sempre foi diferente. Eu nunca tinha reparado, ou eu tenha e nunca dei de fato atenção. Suspirei e passei o dia a suspirar. Mas eu não voltaria atrás, se é isso que você está imaginando. Demorou tempo para eu ceder ao meu amor de pai. Não tanto tempo, mas ainda sim tempo. Eu não queria ter filho viado. Nunca. Preferia morrer. Até aquela época, esse era meu pensamento.

Quando anoiteceu e eu voltei para casa, o vazio começou a tomar minha alma. Meu filho, meu companheiro não estava ali. A culpa começou a cutucar também, mas não dei atenção à ela. Desde que minha esposa morreu sempre foi eu e meu filho. Um cuidando e zelando o outro. E agora eu estava sozinho. Suspirei e fui dormir.

– terça-feira

Essa terça parecia normal, parecia comum, mas não era comum. Eu já estava sentindo falta, muita mesmo, do meu filho. Onde ele estava? Ele estaria bem? Será que ele estava comendo? E se alguém o batesse? Quando eu imaginei alguém batendo no meu filho eu senti raiva e vontade de matar essa pessoa imaginária, mas bom... Essa pessoa imaginária era eu. A culpa nessas horas insistia em chegar, mas eu ignorava-a com maestria. Não por muito tempo. Naquela noite, eu não dormi. Fiquei acordado a pensar se eu devia ou não ter batido no meu filho. Se eu pregava que o amava tanto eu não deveria ter batido nele. E também, eu poderia ter sido preso se ele me denunciasse. Talvez ele gostasse tanto de mim que ele sequer me denunciou. Foi difícil suportar aquela noite. A dor de cabeça voltou.

– quarta-feira

Não era minha intenção visitar a escola do meu filho. Juro. Apenas tive um trabalho naquele dia que era por ali e acabei passando por lá sem querer. Foi estranho num nível absurdo quando entramos em contato visual. Eu olhava-o, forçando uma cara de desdém e ele me olhava com numa súplica. Triste. Fingi arrogância e ignorei. Então apareceram alguns rapazes que começaram a rir e caçoar dele, a dar leves tapas e chama-lo de coisas que eu não queria ouvir. Tive ânsia de ir até lá e espancar cada um deles, mas que direito tinha eu? Eu não era muito melhor, e estava pagando todo o preconceito que fiz com os gays da minha época de escola vendo meu filho sofrer o mesmo que eu fazia. A sensação de vê-lo acanhado e passivo àquela situação me era tão nostálgica e aterrorizadora. Vi um aparente amigo surgir e tirá-lo de lá e um alívio inegável tomou conta do meu corpo.

Saí de lá antes que eu fizesse qualquer besteira. Tornando a trabalhar. A tirar fotos. A ocupar minha mente.

Naquela a noite foi difícil dormir. Debaixo do chuveiro chorei amargamente. Daqueles choros altos e solitários. Infantis mesmo. Passei a mão pelo cabelo me perguntando perdidamente:

“O que que eu fiz?” “O que que eu fiz?”

Merda, com certeza.

– quinta-feira

A quinta foi o golpe final. Eu não conseguia mais me negar a culpa e a dor de não ter mais meu filho ao meu lado. A culpa assolou o coração. A culpa do presente e a culpa do passado. Foi assustador. Eu não tinha ninguém. Quando o dia amanheceu eu fiz minha primeira falta no trabalho. Pouco me importava faltar o trabalho. Fui à sua escola e perguntei por ele na sala de aula. Vi aqueles alunos que maltrataram meu filho. Senti vontade de ir lá e esmurrar cada um deles. Meu filho não estava lá e eu queria desesperadamente saber onde ele estava. Eu sempre fui desse tipo, se eu queria uma coisa eu conseguia, se eu pensava de uma forma eu fazia, se eu não gostasse eu cuspia. E foi isso que me levou a bater no meu bem mais precioso. Claro que teve também uma grande parcela de ignorância.

– Senhor! – Um aluno da turma dele, o mesmo que o ajudou anteriormente, me chamou quando estava prestes a sair da escola. – O que você quer com o Bruno? – Ele questionou bravo e se ele não tivesse defendido meu filho naquele momento, eu bateria nele por tanta impertinência.

Ele era alto, loiro, os olhos castanhos e bonitos. Parecia bravo. Deu-me vontade de rir.

– Quero meu filho de volta. – Disse mantendo a pose ranzinza. Nunca deixaria meu orgulho de lado.

– Bom... Então eu posso ajuda-lo. – Ele sorriu, ajeitou a mochila no ombro e saiu andando na minha frente. Eu meio perdido o segui.

– O Bruno mora com você? – Perguntei enquanto o seguia por uma ruela pouco pobre. Eu não era lá o homem mais rico do mundo, nem era rico na verdade, mas aquele lugar era um pouco acabado. Júlio acenou positivamente com a cabeça. – Vocês são... Namorados? – Perguntei. Ele riu e disse um “não” como se zombasse de mim. – Então por que você o ajuda?

Nessa hora ele parou do nada e eu, me sentindo uma criança, o olhei, demonstrando pela primeira vez curiosidade e inocência.

– Porque eu sou uma boa pessoa. Porque seu filho é meu amigo. – Ele estava bravo. – Você deveria pensar assim também.

Voltei a segui-lo e murmurei um “desculpe” amuado.

Chegamos à uma pequena e humilde casa. Ele abriu a porta, já entrando e dizendo:

– Bruno, eu tenho uma surpresa pra você.

Quando eu entrei naquela pequena casa, eu vi meu filho sentado no sofá, a fitar o nada, depressivo. Marcas roxas ainda eram visíveis no seu pescoço e braços.

– Vamos lá, anime-se. – Júlio falava, acariciando seus cabelos. – É uma surpresa boa.

Eu não conseguia sair da sola da porta. A garganta já estava apertando e o choro batendo no meu cérebro. Quando Bruno levantou do sofá e me olhou com medo e incredulidade, quando eu vi os lábios inchados, o olho roxo e a bochecha também marcada, eu já não pude conter o arrependimento. Chorei. O ar preso na garganta, o medo de perdê-lo, medo do ódio que eu senti dele, medo de nunca mais na minha vida voltar a tê-lo nos fins de tarde de um domingo assistindo à Piratas do Caribe. O medo dele era meu medo. E as pancadas que eu dei nele, doeriam cem vezes pior em mim se ele simplesmente me mandasse embora.

– Perdão! – Fora a única coisa que eu consegui proferir. As pernas padeceram e o rosto não tinha mais orgulho para erguê-lo. Fitava o chão, sem realmente vê-lo, cego pelas lágrimas tórridas. – Me perdoe.

Senti seus passos o aproximando de mim. Ajoelhou à minha frente e me abraçou, chorando em meu ombro. Dando-me o perdão que eu sequer merecia.

– Eu sempre soube que você voltaria. – Júlio sentenciou. Quando o olhei ele estava chorando, junto a nós dois. Fechei os olhos, me permitindo chorar de alegria, arrependimento e alívio.

Puxei o rosto do meu filho com as duas mãos, uma de cada lado, e lhe distribui selos. Demonstrando minha alegria.

– sexta-feira

Na sexta Bruno já havia voltado para casa. Tudo havia voltado a seu normal, com a exceção que agora eu conhecia meu filho, mais e mais. Aprendi mais sobre ele sem estar ao seu lado do que nos anos que vivemos juntos. Passei a ir busca-lo na escola e cobrar providências dos responsáveis. Ele não gostou muito quando eu fiz isso, mas era o melhor pra ele. E pra minha sanidade também, não queria ser preso por espancar pirralhos com 14 anos.

Estava sentado no sofá, assistindo mais uma vez Piratas do Caribe e o Baú da Morte. Meu filho entrava na sala com o pote de pipoca, quando eu comecei dizendo:

– Esse cara é um vi – parei a palavra na metade e olhei meu filho, este encarava o chão e ainda se aproximava com o pote de pipoca. Admito que eu iria dizer viado, mas eu era um mero iniciante e muita coisa mudou em mim depois desse episódio. – viscoso. Você vê? Ele vive caindo.

Bruno levantou o rosto sorrindo aberto, colocou o pote no meu colo e se jogou no sofá, pondo cabeça no meu ombro e me abraçando. Aí foi quando eu recebi um dos meus melhores momentos com meu filho. Não houve muitas palavras, mas nós dois sempre fomos assim. Nosso pouco era tão muito.

– Obrigado, pai.

Pouco tempo depois meu filho arrumou um namorado. Nunca senti tanto ciúme na minha vida. Acredito que nem se minha falecida Cátia me traísse eu me sentiria daquele jeito. Coincidentemente ou não, esse namorado era o Johann, mas isso é conversa para outra história.

Notas finais
Deve ter alguns errinhos aqui ou ali, qualquer coisa me avisem. :3 Eaí, curtiram? Sinto-me de alma lavada ao postar o capítulo hj hahaPra quem leu e gostou, sugiro que deem uma passada em Dia das Mães.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!