Dia de tempestade
1 Não olhe!
Notas iniciais
Antes de tudo, eu gostaria de deixar claro que você vai viver essa história. Pense bem antes de continuar, por favor, nenhum aviso é dado em vão e deve ao menos ser responsável por fazê-lo pensar duas vezes antes de ir em frente. Eu gostaria que você, caro leitor, pensasse bem sobre isso, eu não vou falar mais nenhuma vez além desta...
Uma vez tomada a sua decisão, por gentileza, siga-me.
Primeiro, pense sobre um país qualquer, uma cidade desse país, uma esquina dessa cidade. Imagine ver uma criança olhando para o céu da noite, carregado com nuvens pesadas de um temporal que não chegou, mas já está mostrando os sinais de sua vinda. A criança é um menino, aparentemente oito anos, usa um cachecol marrom e uma touca, preta com listras brancas, ou branca com listras pretas, não importa realmente. As pessoas passam por ele sem realmente prestar atenção, mas você o nota, ele permanece olhando para o céu como se visse algo digno de sua atenção.
Você olha para o céu e não vê nada mais que nuvens, negras, opressivas, como se a qualquer momento o inferno fosse ser jogado na terra. Seus olhos voltam em direção a criança, mas ela já não está lá, o seu olhar passeia pela multidão, dezenas de rostos passando rapidamente sem distinção, mas... Nenhuma criança.
Algo toca sua mão. Seu coração quase para.
O susto faz com que você se afaste, colocando a mão no peito, mas sua alma volta lentamente ao corpo quando nota que era criança que você observava quem havia tocado sua mão, na intenção de chamar sua atenção. Com um sorriso grudado na face o menino pende a cabeça levemente para o lado, como se não entendesse o susto que havia lhe causado. Você abre a boca para perguntar o que ele queria, mas antes que pudesse pronunciar qualquer palavra o menino vira as costas e corre, a risada infantil parece abafar todos os barulhos da rua movimentada.
Você corre atrás do menino. Ele corta caminho entre as pessoas e você o segue, sem entender exatamente o porquê disso. Por entre casas e becos você segue a risada da criança, até que olha ao redor e percebe que não está mais na rua movimentada. Você, na verdade, não sabe onde está. A rua é estranhamente escura e vazia para ser o centro da cidade, a temperatura, que já estava baixa graças a tempestade, pareceu diminuir mais uns graus. Seus olhos vagam ao redor e lá longe, na esquina, já descendo a rua, o menino está sorrindo em sua direção, balançando a mão no ar com energia, a sua risada era tão contagiante que você quase podia ouvi-la ao lado de sua orelha.
Você abre a boca, pronto para gritar que ele esperasse ou que dissesse o caminho de volta, mas o menino só vira a esquina, fazendo com que você tenha que correr para encontra-lo. Ao chegar onde perdeu o menino de vista, você vira com as palavras irritadas na garganta, mas tem que engoli-las ao perceber que havia pessoas ali, grupos espaçados de pessoas sentadas no chão, cobertas com cobertores sujos, como se tentassem, em vão, encontrar algum calor. Você vê a criança mais na frente, andando de costas para você, dezenas de pares de olhos te observam, esperando seu movimento, enquanto o menino se mistura a paisagem sombria de um modo assustador... Nesse momento você já não sabe se quer segui-lo.
Mas ele vira confuso, e te olha, aquele rosto inocente questiona com o olhar por que você permanece parado ao invés de segui-lo. Você troca olhares entre as pessoas que te encaram e a criança, você sente como se estivesse sendo analisado, estudado até as suas células, como num microscópio. O menino para e espera, você pretende chama-lo para sair dali, mas antes que pudesse pronunciar uma palavra uma das pessoas cobertas, se levanta e corre em direção ao garoto, você não consegue reagir quando o indivíduo puxa a criança para a escuridão da rua e some de sua frente.
Desespero toma o seu corpo.
Você se força a correr atrás do menino, mas quando dá o seu primeiro passo algo puxa sua perna, é possível sentir a mão segurando seu tornozelo e você cai de cara no chão, seus olhos se fecham no momento da pancada de sua cabeça com o solo.
Mas não há dor.
Você abre os olhos, assustado, mas seu corpo simplesmente congela quando você percebe que você não está mais na cidade. O chão gelado em que você caiu não é asfalto, mas terra. Você fica de pé, olhando ao redor como se não acreditasse no que seus olhos viam. Não é possível. Árvores negras, tão altas que seus olhos não conseguem ver a copa, enfileiradas ao seu redor, mostrando uma trilha cheia de névoa, um silêncio sepulcral domina aquele lugar. Seus olhos vasculham ao redor até notar um movimento, não muito longe um homem corre carregando algo nos braços... Uma criança.
Você se lança numa corrida frenética em direção a ele, sua mão esticada segura no tecido da roupa do homem, você o puxa, fazendo com que se desequilibrem e caiam todos no chão: você, ele e a criança.
Seu corpo se move sozinho quando vai em direção ao menino para saber se ele está bem, você segura o corpo pequeno em seus braços e vira para o homem vendo seu rosto pela primeira vez. Ele está sorrindo, mas não é um sorriso malicioso e sim um sorriso aliviado. Seus olhos se enchem de lágrimas e ele se arrasta para longe de você, rindo de felicidade, antes de virar as costas e correr para dentro da floresta escura. E você fica ali parado, olhando-o ir embora, confuso.
O menino, ainda em silêncio, passa os braços pelo seu pescoço com lentidão e o abraça firme, suas mãos são lisas e frias, como as de um peixe, e travam em sua nuca. Naquele momento você sente como se todo o seu sangue tivesse se tornado água gelada. Seu corpo está paralisado e você simplesmente sabe que aquilo que está nos seus braços não é uma criança, mas não tem coragem de se mover e olhar para ele. Você não quer olhar, algo está dizendo que você não deve olhar. Continue segurando-o. Não olhe.
Você vira o rosto lentamente, os segundos parecem se arrastar, seu coração está batendo tão forte contra sua costela que você acha que ele vai sair do corpo. Não olhe. Não olhe. Você olha.
A criança vira o rosto em sua direção e você não vê nada.
Você olhou.
Você está de volta na rua movimentada.
A criança está ali, mais a sua frente, olhando para o céu carregado de nuvens de chuva.
Você olhou para o menino e ele olhou para você, ele sorri e anda em sua direção.
Seu corpo permanece ali parado, com medo de que tudo vá acontecer novamente, mas a criança passa direto por você e toca na mão de outro homem não muito distante de onde você está. O homem observa a criança com curiosidade e quando o menino se embrenha entre as pessoas o homem corre atrás dele.
Você abre a boca para chama-lo, mas não o faz.
Secretamente você está aliviado. Não era você ali. Você olhou.
Você puxa o capuz do casaco e vira as costas. Iria cair um inferno de tempestade hoje.
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