Dia Chuvoso, Noite Ensolarada
1 Sol da meia-noite
Notas iniciais
Estava eu sentado na cadeira do ônibus. O clima estava um pouco frio, devido à chuva que caia preguiçosamente pelo lado de fora da janela e a sensação que a noite proporcionava. Ao meu redor, poucas pessoas.
Umas conversando sobre seu dia, colocando tudo que estava “entalado” para fora... Outras ouviam música, com seus discretos fones, ou até com aqueles mais “retrô” que, de onde esteja, dava para notar aquele negócio enorme tomando todo o topo de suas cabeças.
E mais a frente, havia uma pessoa, degustando com tanto gosto uma batatinha frita do seu pacote, que me bateu uma vontade de ir até lá somente para pedir uma e provar.
Com todas essas constatações, nem percebi que meu ponto se aproximava e perdi a hora de descer... Acabei tendo que sair do ônibus, umas três paradas após o meu destino. Essa é a vida.
Estava eu a pé, com uma forte chuva e ainda andava sem nada para me proteger da mesma. Esse momento... Essa situação. Era assim que eu estava me sentindo. Chorar toda a frustração, ou explodir de raiva por tudo que me aconteceu nessa droga de dia. Não sei o que seria “menos ruim”. Por enquanto, não estou com paciência ou motivação para decidir.
Quero somente chegar ao meu apartamento e aproveitar o que me resta dessa noite fria... Me deixar cair no sofá da sala e não pensar em mais nada, além de relaxar.
Este, para mim, foi o pior dia de minha vida. Mas também, a melhor noite.
Enquanto caminhava, pensando em tudo de errado que me aconteceu hoje... Eu “esbarrei” em uma pessoa. Ela estava brigando com alguém, o namorado talvez, em um carro. Ela em pé, do lado de fora. Bateu forte a porta do veículo e o mesmo deu uma “arrancada” forte do local, deixando-a para trás.
Ela perguntou: o que eu estava fazendo naquela chuva? E me ofereceu o guarda-chuva dela, que ela estava usando para não se molhar tanto e fomos juntos, até o que ela me disse ser a direção de sua casa, que ficava por perto.
— Me diz aí. Que cara é essa? Eu sei que andar debaixo de chuva é um saco, mas você está com uma cara muito ruim. O que foi? Aproveita que sou uma completa desconhecida e desabafa.
— Essa chuva foi o ápice. A materialização da droga que foi o meu dia. Ela tá fazendo exatamente o que eu deveria fazer. Extravazando, descarregando tudo, em forma de lágrimas.
Meu dia começou normal. Fui à faculdade pela manhã, almocei no restaurante próximo ao meu emprego na editora do jornal e peguei meu carro para ir para casa, depois do expediente.
Deste momento em diante, meu dia virou uma merda.
Bati o carro... Fui multado. Acabaram assaltando minha carteira, que nem tinha mais nada nela, pois fui chamado a voltar na faculdade antes e tive que pagar a droga de um reajuste na mensalidade. E isso nem foi o pior.
Após toda essa merda, eu ainda fui chamado ao meu escritório e fui demitido por “justa causa”. Meu chefe alegou que eu publiquei uma matéria falsa e sem aprovação. Disse que a matéria pode arruinar a credibilidade da editora e que ainda vai me processar.
Com isso tudo de problema no meu dia e ainda vou ser indiciado por uma matéria que nem tive participação... Não serei eu o indiciado, vou ferrar com aquela porcaria de empresa e processar o escambau de lá por calúnia!
Mas, como vou fazer isso? Sem carro, pois não tenho como pagar o conserto e o seguro não cobre, já que a droga da culpa foi minha. Se brincar, a dona do outro automóvel ainda vai me cobrar o conserto do carro dela. E agora, com toda essa babaquice na minha vida, ainda terei que me preocupar em pagar a prestação do meu apartamento.
Se isso tudo não bastasse, ainda começa a chover e eu não tenho sequer a porra de um guarda-chuva. Agora me diz: eu choro, dou risada da situação patética que me encontro ou me tranco no meu apartamento, pelos dias que ainda me restam dele e encho a cara, comendo feito um porco, uma porrada de batatinhas frita de baixo do meu cobertor, enquanto assisto um monte de séries porcaria que passam na tv? — Terminou de dizer todo o seu fatídico dia para a mulher que o acompanhava. Claramente estressado com tudo, mas ainda com vontade de rir. Rir de si mesmo, por ter chegado a tal ponto que precisava falar com uma estranha seu péssimo dia vivido.
— Cacete! E eu pensando que meu dia foi ruim. – Ela, sem reação, fala a primeira ideia que veio a mente.
— Há-há! Já te aluguei demais. Agora me conta. É sua vez de desabafar e libertar tudo que está travado em sua garganta.
— Acho que não viu, mas quando você estava descendo do ônibus, eu saí de dentro do carro do meu namorado. Ele, “super-romântico” comigo. Aquele cafajeste, filho de uma... No momento que ele estava ligando o carro, eu recebi uma mensagem no meu celular. Era uma “amiga” minha. Ela já estava cansada de fingir as coisas e me mandou uma foto dela dando um “amasso” no meu namorado e ainda comentou na foto. Lê aqui. – Disse ela, segurando por um instante o celular na mão, procurando a tal mensagem e mostrando o conteúdo para o homem que estava lhe acompanhando.
“Já cansei de brincar de sua amiga, piranha. Olha a verdade na tua fuça, sua tola! Agora dá um oi aí para esse merda do teu namorado. O trouxa te enganava enquanto estava comigo e me implorava para não te contar nada. Hoje, ele me disse que iria acabar com tudo, para ficar comigo. Só que ele é muuito frouxo! Nunca iria tomar atitude de macho... esse é o meu empurrãozinho meigo. Em nome da nossa amizade. Ah, é. Desculpa amiga, mas estou com o teu homem. E ele nem é grande coisa”.
— Quando você estava passando, eu estava me decidindo o que fazer com eles. Ir ao emprego dele, ferrar com sua imagem de “bom moço”... Arranhar todo o carro dele e furar todos os pneus. E espalhar por todo aquele lugar que ele é péssimo de cama e sempre broxa! Ir na casa da minha amigona. Desde o colegial, por sinal... E dar tanto na cara daquela vadia, até minhas mãos sangrarem. Ou me enfurnar no meu apartamento, chorar a noite toda e fugir dessa cidade. Humilhada e ridicularizada como estou, negando que tudo isso me aconteceu e dizendo ainda que a culpa foi minha! É assim que me sinto agora.
Do nada, um olha à cara do outro e começam a rir. Rir, sem sentido... Sem um porquê. Somente seus corações apertados sentiram a necessidade de extravazar assim.
— Que merda foi essa com esse dia. Pensei que fosse o único que tivesse ficado atolado, mas você também não está com sorte.
— Vamos fazer o seguinte: Eu não tenho planos ou coragem para sair hoje. Você está todo fudido e não tem porra de mais nada. Então, bora pro meu apartamento encher a cara e ferrar com o que ainda resta dessa droga de noite.
— Legal. Estou tão desesperado, que esta é a melhor ideia que já ouvi.
Dito isso, eles largam o guarda-chuva e deixam a melancolia da noite, junto dos pingos d’água lavarem o que resta de toda a amargura deste dia tão patético para ambos.
— Tá afim de encomendar uma pizza?
— Claro! Já estou completamente falido mesmo...
— Deixa que eu te ajudo nessa fossa... Eu pago.
Acabou somente após essa farra da noitada deles, o porre que estavam depois de encher a cara e se debulharem em lágrimas do dia tão ingrato que tiveram e sofreram. Eles curtiram “devidamente” a noite, com uma baita farra particular.
***
Ela não ferrou com o emprego do ex-namorado ou desgraçou com seu carro. Ou mesmo “enfiou” a mão na cara da “amiga da onça” que ela tinha. Não... Foi muito superior. Preservou sua dignidade como pessoa, como mulher.
Após alguns dias, ela mandou para o celular da amiga uma foto sua e do seu novo namorado e comentou também uma mensagem.
“Obrigada amiga. Sem sua ajuda, eu ainda estaria com aquele lixo de homem. Agora aproveita que você se interessa pelo resto dos outros e fica com aquele lá. Pode se dedicar completamente a ele. Não vou atrapalhar... Olha, um conselho: fica ligada, que se ele estava com duas, pode ter mais dez na fila... Ah, como não gosto de me misturar com podridão, nunca mais ouse cruzar com o meu caminho.”.
Ele a procurou muito, mas a única resposta que teve foi: A fila andou. E olha que nem perdi muito. Vai à tua mulher.
***
Ele não foi processado... Acabou que o redator da tal matéria divulgou erroneamente o nome dele no conteúdo e foi descoberto que nem participação na mesma ele teve. Recebeu uma retratação pública do jornal, em nota no mesmo e a oportunidade de reaver seu emprego, com um bom ajuste no salário e uma boa indenização pelos “danos morais”. Tudo para que o jornal não seja processado pelo rapaz.
Sobre a seguradora do carro... Obviamente, ele teve que arcar com os prejuízos.
Por estar com a cabeça repleta de problemas, ele causou o acidente. Por isso, é mais que sua obrigação pagar os consertos. Com tudo devidamente acertado, ele voltou à faculdade e descobriu que a dona do carro era nada mais, nada menos que uma universitária do mesmo local. Desculpou-se e explicou seus motivos, por ele ter feito tal burrice. Depois disso, eles se tornaram amigos e mais tarde sócios em um projeto. Montaram uma empresa de produtos e serviços, com maior abrangência na área digital.
Ele saiu, com respeito e merecimento do antigo trabalho no jornal.
Com esse momento tão conturbado em sua vida, a única coisa boa que lhe aconteceu, foi não ter desistido. Foi ter batalhado e mantido a honra.
***
Não pensem que acabou...
Ele se casou. E não é uma surpresa se for contado que a mulher mais louca e ferrada que ele conheceu naquela noite, se tornou na sua paixão e posteriormente, lhe deu uma família. Uma linda filha, que atualmente estuda em um colégio próximo a sua casa, com uns três quarteirões de distância.
Ela é igualzinha a mãe. E herdou a péssima pré-disposição a se meter em problemas da família. Precisando ficar em rédea curta. Sua mulher lhe contou que a filha deles está mudando e acha que tem haver com um jovem rapaz, da mesma turma dela.
Ela já ouviu sua filha resmungar diversas vezes a noite, sobre o quão bizarro e interessante o garoto era. Enquanto deixava trancava a porta do quarto, pouco antes de ir dormir.
— Se o moleque for outro daqueles rapazes cafajestes... – Falou a esposa.
— Eu sei. Vamos esperar para ver. Se pressionar demais, vai acabar dando merda. – Disse ele enquanto aparava a barba. Falando com ela, pela porta aberta do banheiro e olhando no espelho, para não errar no corte.
— Ela está demorando. E parece que vai cair muita água... Isso, essa sensação.
— Te lembra daquela noite, não é? – Falou ele, secando o rosto, enquanto saia de dentro do banheiro de barba aparada.
— Sim. Que droga! Foi uma das piores... Mas também foi a melhor.
— Espero que seja um bom sinal.
— Significa mudanças.
Ambos se abraçam, com ele a envolvendo por trás. Uma típica cena romântica. Vão se aproximando da varanda, vendo o por-do-sol bem nublado e a forte ventania que o acompanhava.
— Eu até gosto de chuva... Me fez conhecer você. Mesmo comigo todo ferrado. Foi como se tivesse visto o sol. Um sol, a noite. No meio da chuva. Nunca me esqueci disso.
— Acho que ter “caído” em um dia daqueles valeu a pena. Temos um ao outro e a nossa filha. Sou uma decidida empresária e você o dono de uma das melhores redes de serviço da região.
— Tudo isso, por conta daquela noite... Por termos um ao outro, naquele momento, não fizemos nenhuma burrada. E perseveramos.
— Tá afim de outra daquela farra? Acho que quero um pouco. Mesmo não sendo mais tão imatura. Quero me sentir aquela adolescente que não se importa com nada... Somente beber e farriar com o cara na “fossa” que conheci.
— Vamos! Até a chuva acabar. Até o céu ficar ensolarado. Somente nós dois.
— Eu dirijo. – Brincou ela – Não é um “bom momento” para você fazer isso.
— Tá legal. Eu levo o litro e encomendo a pizza. – Devolveu a “brincadeira”.
— Combinado.
FIM
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