Diário de uma paranormal

18 Mal entendidos e mentiras


Notas iniciais
Sem comentários, sem comentários. Esse capitulo foi demorado porém longo.

–Meu Deus! Porque não me disse antes? – Harry suspirou aliviado.

Naquele momento me senti muito envergonhada. Não contei as circunstancias do acontecido para o loiro e ele pensou mesmo que eu havia beijado Liester. Para deixar claro, eu nunca faria isso! Ele é namorado da minha melhor amiga! Isso é tudo um mal entendido horrível.

–Não acredito que você acha que sou esse tipo de garota! – falei me levantando da cadeira. Nós conversávamos na cozinha já que os outros cômodos estavam ocupados. Todos faziam algo mais útil que a gente no momento. Tentei não pensar que eles trabalhavam em trazer minha irmã de volta. Sua recaída era até esperada, não deve ser fácil expulsar um demônio do seu próprio corpo.

–O que? – o garoto replicou – foi você que me disse isso!

Isso tecnicamente era verdade, mas porque ele estava tentando virar o jogo para o lado dele?

–Que droga, garoto! Você não me deixou explicar. –tripliquei irritada.

Harry desceu do balcão e reclamou como eu era maluca.

Cruzei os braços, me segurando para não bater nele.

–Vai me deixar explicar ou não? –falei alterada.

O idiota marchou até a mesa onde eu estava sentada e sentou-se dramaticamente, gesticulando para que começasse a falar. Levantei uma sobrancelha e então foi o que fiz.

– Tudo que precisa saber é que eu não estava responsável pelos meus próprios atos. Liester apareceu lá, jogou um papinho e eu caí. Claro, era um sonho. – destaquei a ultima frase. – Mesmo que...

Minha garganta travou, não consegui falar nada. Forcei que as palavras saíssem, mas serviu para que eu tivesse um ataque de tosse.

–Mesmo que, o que? – Harry perguntou – Parecia ser algo importante.

Minha tosse não havia parado por um instante. Experimentei todo o ar dos meus pulmões serem colocados para fora. Segurei minha barriga com força, sentindo uma dor pelo esforço. Uma nova crise me atingiu, me pegando de surpresa, e cai de joelhos no chão.

–Hm, Katherine? Você...tá bem? – O loiro indagou tentando não parecer preocupado.

Uma resposta acida tava na ponta da minha língua, mas resolvi não discutir. Sai da cozinha e fui buscar algum lugar vazio. Talvez aquele engasgo tinha sido um sinal divino para que eu calasse a boca. Uma pontinha da velha desconfiança em meu amigo emergiu. Será que podia confiar nele? Isso não era realmente uma visão, mas...

Não! Esse sentimento era totalmente paranoico. Confio minha vida a ele. Não só a ele, como a todas as pessoas que me acompanham nessa jornada.

Acabei escolhendo o banheiro como o meu local de reflexão, querendo um momento sozinha. Uma observação estranha veio a minha cabeça. Esse banheiro daria uns dois de tamanho do meu. Tudo – não só o banheiro – da casa de Liester parecia ser desenhado por um arquiteto de luxo. Bem, quando o vimos na praia ele não parecia tão rico e tal. Se nós soubéssemos de cara, eu havia jogado Amber nos braços dele um tempão. Qual foi? To pensando no futuro da menina. Seus pais se orgulhariam.

–Katherine? – a porta abriu e a cabeça de Miguel surgiu espiando com um olho aberto. – Posso entrar?

Sorte dele que estava sentada no balcão onde ficava a pia. Senão alguém levaria um soco por entrar sem bater. Reparei como Miguel tinha um ar cansado, seus olhos azuis que antes eram arregalados perderam um pouco a sua infantilidade. Sua roupa estava amassada mais que antes e era a mesma de quando o conheci.

–O que você quer? – indaguei, percebendo logo após que havia soado meio rude. Mas quando não soava?

Atrás do anjo estava o quarto onde Emma era mantida presa. Pensei em pedir que ele entrasse e fechasse a porta, mas seria desconfortável para nós dois ficarmos mantidos em um lugar que de repente parecia pequeno. Porém quando o garoto-celestial percebeu os meus olhares acima do seu ombro, ele mesmo teve a atitude de entrar.

Depois de hesitar, disse:

–Eu vim saber se está bem.

Levantei uma sobrancelha. Serio? Porque ele se importaria? Sempre dei vários motivos para que Miguel não gostasse de mim. Pelo que eu sabia essa criatura só me suportava porque tenho o colar que o obriga a me proteger, porém agora – por culpa minha ele havia perdido sua graça — e era meio humano. Mais um motivo para me detestar.

–Meu dever é cuidar do portador...

Um fato me atingiu rapidamente.

–Espera, eu perdi o colar a eons de anos. –falei exagerando um pouco no tempo. –O que te prende aqui?

Observei a testa do moreno franzir. Isso não fazia nenhum sentido. Ninguém mais lembrava mais daquela coisa porque Miguel ainda me seguia. Porque ela havia de repente se tornado desnecessária?

–Nunca ouvi falar disso antes. Isso é muito curioso.

Tentei me lembrar da ultima vez que havia visto o acessório. Veio na cabeça aquela festa que Bygron e eu havíamos morrido. Não foi uma boa noite. Como vou poder pegar aquilo de volta? Não é somente algo que pertence a Miguel – estou disposta a devolver a ele – , também é um presente dos meus pais.

Tive uma ideia.

–Vou falar com Emma. – falei pulando do balcão.

Miguel pareceu confuso – como sempre. Expliquei rapidamente que precisava descobrir quem era aquela mulher que tinha posse do meu colar. Mas nós tínhamos um pequeno problema. Aquela moça estava morta.

Atravessei o espaço entre os dois cômodos, abri a porta e entrei sem hesitar.

Dei de cara em uma porta trancada. Obvio. Fico feliz que as pessoas tenham uma logica melhor que a minha em nos manter segurar da irmã da Katherine metade demoníaca.

Miguel esperou que eu fosse dar algum tipo de escândalo porque disse que iria chamar Josh para trazer a chave e saiu de fininho. Na verdade, não faço ideia onde ele tirou essa ideia. Estou até bem calma.

Alguns instantes depois, Josh veio acompanhando Miguel ao meu encontro.

–Não acho uma boa ideia – ele falou serio.

Revirei os olhos. Seria bem legal se às vezes ele não desse uma de responsável. O anjinho deveria ter explicado a situação.

–Não perguntei o que você achava – repliquei malcriada.

Miguel suspirou e como o pacificador que era tentou aliviar para o meu lado. “Só vai levar um instante, é algo que precisamos descobrir”. Josh não gostava nenhum pouco da ideia, mas liberou porque –só porque — Miguel havia pedido. O anjo não colocaria a minha vida em risco.

Lutei contra a porta para que ela abrisse, porém parei antes que pudesse entrar realmente no quarto, chocada com a cena.

Emma, minha irmãzinha de 13 anos, estava amarrada em uma cadeira no centro do cômodo. Haviam marcas arroxeadas em seu pulso – mostrando que ela tentou se soltar – e seu rosto havia hematomas demais para que fosse um acidente.

–Emm! – corri para o seu lado, se abaixando para desamarrar as cordas em sua volta. Os nós eram muito difíceis de se desfazer, talvez fossem de marinheiro. Minha mente se perguntou um segundo quem havia feito isso a ela. E isso me deixava com muita raiva. Foi um dos meus amigos que fez isso! Porém era mais importante acordar minha irmã e saber se ela está bem.

Pouco antes de terminar o meu trabalho Emma acordou parecendo confusa. As cordas caíram a sua volta. Minha irmãzinha experimentou mexer os membros, que estavam doloridos por ficarem presos há tanto tempo.

–Pronto. — falei para mim mesma e depois perguntei a ela. — Está bem? Quem foi que fez isso?

Tentei controlar minha voz quando disse a ultima frase. Não queria transparecer o ódio.

Ela piscou, tentando assimilar o que acontecia a sua volta. “Está tudo bem, está tudo bem agora.”, eu não parava de repetir. Emma parecia levemente assustada, mas o meu estado de espirito parecia me deixava perturbada. Não conseguia prestar atenção a minha volta, o barulho que zunia no meu ouvido fazia isso. Nem minha irmã choramingar. Só queria bater em quem tinha feito isso, mas em seguida me segurei tentando acreditar que talvez isso não fosse verdadeiro. Isso tudo era tão surreal que não seria difícil.

Ainda ajoelhada abracei minha irmã, mergulhei meu rosto no seu cabelo espetado. Seu pescoço estava rijo. Fiquei preocupada. Tinha algo de errado?

–Ems? Está tudo bem? – perguntei me afastando para ver sua expressão. Seu olhar estava desfocado. Suas mãos que ainda estavam no antigo abraço correram para o meu pescoço. E aquelas mãos pequeninhas mostraram que tinham uma força sobrenatural. Emma — de um instante a outro — apertou para valer minha garganta, me deixando sem ar. Minha visão ficou turva rapidamente. O que ela estava fazendo?

–Katherine!? – um voz disse abrindo a porta – KATHERINE!

Tentei afastar o corpo de Emma sem machucá-la. Porém estava muito difícil, como de repente ela ficou tão forte?

Meus olhos rolaram para o alto, pronta para desmaiar. Minhas unhas apertaram em seus braços tentando implorar que ela parasse. Deus, eu nunca conseguiria bater nela! Porém Emma mostrou que ela não tinha a mesma ideia sobre mim.

–Pare de tentar se aproximar dela! – ela gritava e senti suas lagrimas caírem em mim.

Com a voz esganiçada falei:

– Emma, eu vou te ajudar. –tossi sentindo um gosto acobreado no fundo da goela — Por favor, me deixe te ajudar.

– Todos que se aproximam de você morrem.

–Cale a boca! – empurrei-a, logo depois cobri minha boca com a mão.

Antes que minha irmã tivesse qualquer tipo de reação, alguém me arrancou dela e outras duas pessoas a seguraram grosseiramente. Harry e Liester apertavam o braço da garotinha, sei bem que –como ficava em mim – ia ficar marcado na sua pele o excesso de brutalidade. Um aperto mais leve vinha de Miguel. Ele mais parecia estar me contendo para não fazer nenhuma besteira.

–O que vocês estão fazendo? – perguntei nervosa para os garotos. — Ela só está assustada! Vocês estão assustando ela!

Informações que eu não fazia ideia da onde vinham, invadiram a minha mente como um vulcão em erupção. Transtorno pós-traumático. Emma estava traumatizada. Ela tinha respostas exageradas a coisas que a assustava e tinha explosões de raiva. Se encaixava perfeitamente. Repeti isso em voz alta.

–Me solte! –mandei. Miguel o fez prontamente. – Agora a solte!

Ninguém deu importância a minha exigência. Liester e Harry esperaram a aprovação de Josh, que se encontrava no vão da porta.

–Preciso falar com você. – Josh saiu, esperando que eu o seguisse.

Suspirei, irritada e fui até o corredor.

Encostei na parede, nenhum pouco interessada no sermão que iria levar. Meu primo começou calmamente. Era uma boa ideia porque mal conseguia escutar com todo aquele fluxo de sangue fazendo barulho no meu ouvido.

–Você sabe que eu quero ajudar Emma, não sabe? Mas você tem que saber que a Emma se foi. A sua irmãzinha que você conhecia está morta...

Meus olhos se encheram de lágrimas. Porque ele estava falando essas coisas? Involuntariamente abracei a mim mesma me sentindo muito sozinha. Mesmo que fizesse tantos anos que fiquei longe de minha irmã, eles pareciam melhor que perde-la completamente.

Josh que ainda não havia acabado de dizer tudo o que queria se apressou em continuar:

–Ei, ei Kath. Escute, eu não quis dizer literalmente. Ela não está totalmente morta. Nós só precisamos de tempo para traze-la de volta. Nós não fazemos ideia como, mas nós vamos. Eu prometo a você.

Houve uma pequena pausa e ele voltou a ser o mesmo Josh realista de sempre.

– Mas não fique muito esperançosa.

O primo fez uma careta por ter dito isso. Estranhamente sorri pela sua reação. Era incrível como o seu estado de espirito me influenciava. Se eu não soubesse que a sua função era levantar coisas pesadas, com certeza pensaria que era apaziguar qualquer um.

–O que vamos fazer com ela? – perguntei pensativa. –Ah! Quase esqueci, tenho algo importante para perguntar a Emma.

Josh engoliu em seco, tentando esconder algum sentimento.

–Não a chame de Emma, porque aquilo que vai ficar preso nesse quarto – ele apontou para a porta fechada. — não é sua irmã.

Não questionei o que Josh iria fazer, eu até concordava de certa forma. Aquela não parecia a minha irmã, tinha algo inumano nela. Mas eu não vou desistir, o que puder fazer para trazê-la de volta, vou fazer. É outra coisa que entrou na minha lista para “fazer antes que tudo isso acabe”.

–Deixa que eu cuido de perguntar a ela.

Deixei que Josh fosse falar com os garotos, eu precisava nesse momento urgentemente de normalidade. Aquela cena no quarto foi muito confusa. Então caminhei para a sala e encontrei Becky e Amber conversando tranquilamente no sofá.

–...ele foi tão fofo, eu queria que você tivesse visto.

Antes que ela continuasse a falar entrei em seu campo de visão dramaticamente.

–Só ela? – indaguei.

Pois é, adoro entradas triunfantes. Sorri com o canto da boca, sou muito idiota. Era muito possível delas terem concordado mentalmente.

Amber me deu um olhar repreensivo pela minha fixa ideia de que elas duas nunca me contam tudo. Como se fosse alguma mentira...

–Senta aqui, a Ambs tava contando o que aconteceu ontem entre ela e Liester. –Becky apontou com o queixo para uma poltrona no lado delas.

Em qualquer demonstração espontânea de amizade vindo de Becky e Amber quando eu estou com raiva – como sempre — me fazia esquecer da raiva e acusações. Sou muito besta mesmo.

–Kath, eu tava contando de ontem, o que aconteceu. Sorte que ainda estava no começo.

Amber contava com entusiasmo o dia de aventura e romance que ela teve com seu namorado. Os dois foram buscar Miguel que estava no hotel que havíamos nos hospedado no dia da festa de Halloween.

O anjo tinha ficado furioso comigo pelo fato de precisar me trazer de volta a vida. Não na hora, naquele momento ele estava tão preocupado comigo que simplesmente agiu por impulso, porém depois quando percebeu que esse ato não havia agradado nenhum pouco a galera lá de cima o garoto preferiu não seguir viagem conosco e se isolar. Entretanto não podíamos dar a ele o luxo de ter um tempo para ficar com raivinha da gente – quer dizer de mim. Eu reencontrei minha irmã que até alguns dias atrás eu achava que estava morta. E precisávamos de sua ajuda – correção novamente, eu precisava da sua ajuda. Isso tudo era incrivelmente egoísta da minha parte, sei muito bem disso e um dia – eu prometo – vou recompensa-lo por todas as merdas que já o fiz passar.

Enfim, minha amiga loira contou nos mínimos detalhes sobre a viagem de carro para ir buscar Miguel. Desde todas as coisas melosas que seu namorado fez para agrada-la, tenho que dizer que foi até bem fofo da parte dele, até o probleminha em encontrar Miguel.

–Quando nós estávamos na estrada de volta para cá, e Miguel estava dormindo no carro, Liester e eu paramos em uma sorveteria. Depois de comprarmos uma banana Split , a melhor que já comi , sentamos juntos em uma calçada e ficamos vendo o sol se por. Foi como fossemos pessoas normais tendo uma tarde romântica. — E ela logo acrescentou — com um bebe no carro, Katherine. Não me olhe assim, nós não desgrudamos dele.

Becky acompanhou olhar de Amber. Logo percebi que a minha cara deveria ter denunciado algo, mostrado demais. Essa cena que minha amiga havia descrevido era algo muito próximo do sonho que me perturbava, o que Liester e eu havíamos nos beijado – quer dizer ele me beijou, mas no final acredito que isso não faça muita diferença. Tenho que admitir que fiquei com um pouco de inveja e até raiva de que ter acontecido com outra pessoa. Mas quase no mesmo momento me recuperei, isso não fazia nenhum sentido! Não sou apaixonada por Liester, ele é o namorado da minha amiga! Estranhamente esse sonho me afetava mais que eu gostaria. Provavelmente um dos efeitos da minha habilidade de ver o futuro ser ligado aos sonhos, então tudo que passa na minha cabeça durante o sono fica muito confuso e vivo quando estou acordada. Mesmo que isso esteja me perturbando esses últimos dias – e ficar perto de dele estar ficando cada vez mais insuportável – isso é só ilusão da minha mente.

–Porque você tá com essa cara estranha, Kath? – Becky indagou e Amber ficou me analisando.

Essa pergunta boba normalmente levaria ser um segundo para que eu respondesse qualquer coisa, mas algo me deixava desconfortável em mentir mais uma vez para elas.

–Minha irmã – era mais forte que eu. – Ela me deixa preocupada.

Esperei que as duas trocassem olhares ou fizesse coisas que fazíamos quando achávamos que uma de nós estamos escondendo a verdade. Porém não aconteceu, as garotas só assentiram com um sorriso amarelo, se sentindo fúteis por estarem felizes com o encontro de Amber. Essa culpa delas não me fazia sentir melhor, principalmente pela a minha desonestidade.

–Emma vai ficar bem, Josh vai conseguir achar uma saída para ela. Seu primo é muito esperto, ele vai conseguir.

Eu não aguentava mais ficar aqui, me sentindo muito culpada. Me levantei da poltrona e com o passo apertado cheguei a porta, ignorando as perguntas de minhas amigas e sai dali. Respirei fundo caminhando pelo jardim da casa. O cheiro de maresia era forte. Eu amava o fato de que a casa de Liester estava praticamente dentro da praia. Arg, eu estava pensando nele novamente. Olhei para a mureta que dividia a areia de um lado e o jardim de outro e percebi que alguém estava sentado lá, não muito longe de onde estava.

–Harry? –chamei.

O loiro virou a cabeça quando cheguei ao seu lado. Sua expressão parecia pensativa. Deu um meio sorriso quando sentei junto a ele. Harry não era daquelas pessoas que ficavam forçando que eu dissesse algo quando me sinto mal, o que me deixava mais a vontade para falar.

– Ela estava certa. Todos que vivem comigo morrem. – falei, mexendo com as mãos.

Com o canto do olho, vi Harry me observando. A luz dourada do fim de tarde marcava as feições do seu rosto, ele parecia serio.

–Ela quer que você desista de Emma, você sabe disso. Ela vai dizer qualquer coisa para que queira... Katherine, tu nem teve possibilidade de salvar sua irmã. Você foi pega de surpresa, nas duas vezes.

O meu amigo olhou para as mãos, tentando esconder sua expressão, eu sabia em quem ele estava pensando.

–Tudo bem, se eu não pude fazer nada então você não pode se culpar pela morte da sua tia. – segurei sua mão para que ele olhasse para mim. — Eu sei que você pensa nisso sempre, mas já vingamos a morte dela, dos meus pais. Agora acabou. Temos que seguir a nossa vida, era o que eles iam querer.

Sua expressão se suavizou, como estivesse aceitando a ideia. Não sei quando tempo passou até que Harry falasse novamente. O tempo suficiente para que nós dois nos sentíssemos melhor.

–Sinto falta de surfar – o menino disse observando as ondas do mar, virem e voltarem repetidas vezes.

Nunca achei o mar algo super atraente. Na verdade preferia muito mais o céu. E as cores dela que nesse momento ainda eram azuis. Com mais algum tempo elas se tingiriam em laranja e rosa, uma das partes mais fascinantes — para mim — da tarde.

–Você surfa? – perguntei em um tom divertido. – Você tem que me ensinar um dia desses.

Ele soltou uma risada. Provavelmente me imaginando escorregar de uma prancha. Rá, que engraçado.

Um longo silencio se formou. A testa de Harry estava franzida, o que significava que estava pensando. Entendo, deve ser um esforço muito grande para ele fazer isso. Ao contrario da dele, na minha cabeça só tocava uma musiquinha de elevador. Eu estava evitando todos os assuntos que me preocupavam. E era isso que restava, não pensar em nada.

–Como você iria aprender se nem sabe nadar? –Harry perguntou de repente.

Meus olhos escancaram. Minha surpresa escapou.

–O que!? Quem lhe contou isso? Josh... Que primo fofoqueiro esse meu. — com a voz estridente, continuei. — Eu pensei que você estivesse pensando em algo serio.

Harry gargalhou, me surpreendendo que não fosse para zombar de mim. Depois bagunçou o meu cabelo. Ele não achava que fosse humilhante alguém com 17 anos não soubesse nadar. Qual é? Na cidade onde sempre morei não tem praia.

–Eu posso te ensinar. Agora. O que você acha?

Engasguei, gaguejei e tentei sair de fininho, porém antes que eu respondesse que não era necessário Harry puxou pelos pés me jogando em seu ombro.

–Vamos! –ele disse animado.

Comecei a ri desesperadamente, eu queria pedir que ele não fizesse isso, que nós íamos nos molhar, mas fazia tempo que não me sentia tão normal e inexplicavelmente feliz.

–Me solta! Me solta! – gritei, batendo em suas costas.

As poucas pessoas que estavam na praia durante o fim de tarde encararam essas duas crianças barulhentas e aparentemente não gostaram da perturbação. Aparentemente. Pode ser que por dentro eles estivessem sorrindo e nos admirando. É uma possibilidade.

Harry entrou no mar, molhando a barra de sua calça jeans. Comecei a ficar em pânico, estávamos entrando cada vez mais, a agua chegava a sua cintura. O loiro tentou me tirar de seu ombro, mas agora eu que me prendia a ele. Segurei com as minhas unhas em suas costas, tentando não arranha-lo. Porém ele não se importava com o meu esforço e me puxou com mais força, fazendo que as minhas unhas quisessem sair de minha própria pele. Desisti de lutar, caindo na agua. Num primeiro momento me distrai com o impacto de atingir a superfície. Logo após percebi quanto era desesperador afundar. Minhas roupas pesavam muito para que eu pudesse boiar. A agua me cercando invadia os meus pensamentos e meus instintos gritavam por saber minha limitação aquática. Ele esperou o tempo para que eu visse a luz do sol se tornar distante, então me puxou para fora d’água e disse:

–Você achou mesmo que eu ia deixar que se afogasse?

Sinceramente, achei sim. Porém fiquei feliz em estar errada.

Notas finais
Não foi um final brilhante mas ainda tinha mais algumas paginas e ninguém ia aguentar terminar de ler até o final então... foi até justificável. Estou muito feliz que essa bagaça esteja chegando ao fim ~sem ofensas ~, não aguento mais escrever isso kkk