Diário de uma adolescente
30 Pessoas desastradas não tem solução!
Eu e o Nate decidimos ir de taxi, para poder relaxar já que eram três horas e meia de distância daqui. No caminho até cochilei e cheguei a sonhar com o casamento do tio Hugo de tão ansiosa que estava. Não era sempre que minha família se reunia, sendo assim minha vó fez questão que a gente se “hospedasse” em sua casa. O problema é que além dos meus outros dois tios e suas famílias meu pai e sua ninhada também ficará lá. Por isso minha mãe está levando o plano de ter um namorado cada vez mais a sério.
O meu “padrasto” se chama Daniel, tem cabelo grisalho e é charmoso (pelo menos nas fotos). Tem quarenta e cinco anos e é advogado. A crise deve estar feia mesmo para ele estar trabalhando como “namorado de aluguel”. Conforme combinei com minha mãe eu serei a mais legal possível para que convença meus avós e meu pai desse plano.
Assim que passamos pelo portal da cidade lembranças da minha infância aqui se passaram pela cabeça. A cidade estava praticamente a mesma coisa, nunca se desenvolvia. Era pequena e litorânea, o centro comercial se resumia em uma rua. Meus antepassados foram uma das famílias fundadoras e deve ser por isso que grande parte das pequenas empresas e comércios que tem aqui é do vovô.
Liguei para eles afirmando que estava chegando para que mandassem a lancha nos buscar já que o taxista veio pelo lado mais difícil e eu não tinha percebido. O motorista tirou as nossas malas do bagageiro e entregou para o empregado que colocou no barco com uma facilidade que eu não imaginaria. Paguei o taxista e logo ele foi embora e agora todos estavam na lancha só faltava eu subir, coloquei uma perna do lado de dentro do barco e a outra ficou no deque e aquilo foi mexendo e minhas pernas se esgaçando.
Eu travei, minha boca formava um perfeito 0 e meus olhos estavam quase saltando e nem para gritar eu servia até que Nate me socorreu, puxou pela minha cintura e eu cai (ó que novidade para uma pessoa desastrada) e ele caiu por cima.
Ele deu aquele sorriso de lado e comentou:
—Até parece aquelas cenas de filme.
—Vai lá ver se minha perna ficou pendurada. – falei no bom humor.
Ele deu uma gargalhada relembrando a cena. Acabou com o espaço que existia entre nós e me beijou.
—Vem. – se levantou e me mostrou a mão para que eu fizesse o mesmo.
—Só vou levantar quando a gente chegar lá, ta legal amor? –falei com uma expressão constrangida.
—Vai dizer que você não quer ver essa vista.
Aquilo era bonito mesmo, meu avô tinha escolhido cada árvore para plantar ao redor desta lagoa. Este sitio era seu “paraíso” como ele chamava.
—É que o chão está molhado. –sussurrei pro Nate.
Ele olhou minha meu macacão branco e deu outra gargalhada.
—Estou ansioso pelo resto deste fim de semana.
Senti o motor da lancha desligar e o cara fez as paradas lá para que ela ficasse no lugar depois colocou nossas malas no trapiche e nos ajudou a descer da lancha.
Eu tinha levantado, mas nenhum dos dois tinha me visto de traz ainda. E nem eu, mas minha mão me fazia imaginar tudo molhado, juntar roupa branca com água não fica legal, sabe porquê? Você fica praticamente nua.
Puxei minha mala e fui andando, Nate ficou para trás dando gorjeta pro cara.
Senti uma mão na minha bunda e me virei para trás permitindo que Nate chegasse mais próximo ao meu ouvido para sussurrar:
—Está de calcinha fio é? Sua gostosa.
Apenas esse cochicho fez coisas que meu corpo não pode explicar. Ele me entregou sua jaqueta para que eu amarrasse na minha cintura e entramos em casa. Assim que abri a porta , pude reviver a loucura de que tanto sentia falta. Minha grande família. Vovó teve trigêmeos Henzo, Hugo e Haurora (minha mãe), apesar da descendência alemã os fazerem muito parecidos quanto á aparência, eles eram totalmente diferentes na personalidade.
Primeira pessoa que vi foi tio Hugo jogado no sofá como se fosse qualquer dia menos seu casamento. Chamando atenção com aquela barba enorme e nojenta que deixava de fazer há um bom tempo assim como o corte de cabelo. Seus onze filhos fruto do “amor” de quatro casamentos estavam fazendo bagunça. Vitória de seis anos e Valentina de nove amarravam o cabelo da vó Maria com prendedores de várias formas e cores. Valéria, Vinicius e Joaquim pintavam o dálmata do vovô com tinta guache. Julia de doze e João de quatorze estavam no tablet e celular com fones de ouvido certamente no volume máximo. Otávio é o mais velho e tem 17 que segundo a vovó estava no quarto com a Brenda, que é a única filha da sua atual relação e tem seis meses. E ainda tem a Olivia e o Otto que deviam estar cavalgando.
Tio Hugo é aquele que deixa a vida passar sem se mexer, leva tudo de barriga, não gosta de trabalhar e sei que isso foi as principais causas dos divórcios. Também sei que ele só distingue as mães dos seus filhos pela primeira letra do nome de cada um. Tipo: o Otto, a Olivia e o Otávio são do primeiro casamento.
Depois dessa “poluição visual” mais no fundo da sala percebi meu tio Henzo arrumando o cachecol do seu namorado. Ele era o melhor, era charmoso e sabia exatamente como usar os olhos azuis e o tom do cabelo pra realçar sua beleza. Por exemplo, hoje ele estava com uma blusa gola polo de listras do tom de seus olhos. E outro fato sobre ele: não conseguia parar de falar.
—Vê se não é minha menininha chegando! –ele foi o primeiro a me ver depois de um tempão parada observando todo mundo.
—Oi tio. –fui em sua direção cumprimenta-lo, mas acabei tropeçando e caindo em cima de um brinquedo idiota.
—Ah querida, eu te ajudo. – O namorado dele me deu a mão para levantar.
—Que tal você me ajudar a convencer seu vô a financiar uma Vasectomia pro Hugo? – falou tio Henzo brincando sobre as crianças e gargalhando da própria piada com aquela risada escandalosa.
—Acho uma boa tio. Que tal aconselhar isso pro meu pai também? – falei entrando na brincadeira.
—Ele e aquela cobra ainda não chegaram. – ele falou baixo mostrando seu ódio pela minha madrasta. O fato é que ele nunca aceitou o divórcio da minha mãe. – Mas garanto que três é mais fácil de aguentar do que onze, né amor. Falando nisso eles vão chegar daqui a pouco também. Não sei como vai ter quarto pra todo mundo –ele falou revirando os olhos.
—E que fique claro que eu quero um só pra mim. –falei alto pra minha vó ouvir também, afinal foi ela e a falta de hotéis nessa cidade que me obrigaram a aturar esse pessoal um final de semana inteiro.
—Não se preocupe. – falou e deu uma piscadinha – mamãe soube que você estava namorando e lhe deixou a cobertura. E olha que sou mais velho! –falou fingindo indignação- E titio Henzo precisa ter aquela conversinha bem séria com a sobrinha preferida – ele cochichou a última palavra pras pessoinhas ao redor não começarem com ciúmes.
—Eu sei me cuidar tio. – falei revirando o olho.
—Hm, sei. – ele duvidou, na cabeça dele não entrava mais nada além de eu ser uma adolescente e nessa hora ouvi um pigarro alguém tentando chamar atenção. O namorado dele nos olhava perdido na conversa. –Ah fiquei tão animado com você que até tinha esquecido de apresentar. Esse daqui é o Luiz –apontou para o cara – meu ..... –ele ficou gaguejando como se essa palavra fosse uma coisa nova pra ele.
—Namorado. –falei cansada de tanta gaguice. – Prazer, eu sou a Améllia Cattarina. E esse é o Nate.
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