Diário de uma Mente Perturbada

6 23 de Abril, Quinta-Feira


Notas iniciais
Esse chapter só vai ter o resumo da minha vida basicamente ;-; / Desculpa, "diário", pela ausência.

O dia hoje passou lentamente. Em parte, fico feliz por isso. Em parte, angustiada.

Quando eu era pequena, de acordo com a minha mãe, todos os dias, desde que eu ganhei uma fantasia pra criança da Super-Moça (Uma versão feminina do Super-homem), eu acordava cedo, a vestia e então saía para brincar no chão de terra do sítio onde morava.

Eu saía por aí para salvar o mundo e coisa e tal. Subia nas árvores de goiaba, corria com a capa esvoaçante sobre o chão de terra dura e pedras pontiagudas, escalava as rochas altas em alguns pontos do sítio.

Ao final do dia, eu voltava pra dentro de casa cheia de terra nas botinas, o rosto coberto de poeira, o sorriso marrom de sujeira, as mãos esfoladas e os joelhos ralados.

Isso foi a muitos e muitos anos atrás, nem me pergunte como eu me lembro. Mas sim, eu me lembro.

Eu amava o sítio, gostava do cheiro puro de ar, que rodeava as árvores cheias de frutos.

Quando eu possuía 3 anos, meus pais se separaram. Minha mãe me disse mais tarde, que se não fosse pelas bebidas, pelo estresse por conta do trabalho, as brigas sem razão, eles estariam juntos até hoje. Enfim, aos 5 anos eles venderam o sítio, a casa, os carros, doaram os cachorros pro vizinho.

Meu pai se casou novamente com a mulher que hoje é minha madrasta. Ele não é mais o mesmo de antes.

Antigamente, lembro-me que ele era sorridente, brincalhão, um cara magro de cabelo sempre bagunçado. Um pouco bêbado, até (isso não mudou ainda).

Hoje, eu vejo meu pai sempre com um terno, a barriga cresceu. A barba rala, o rosto sério. O olhar de desprezo a qualquer merda de errado que faço. E toda sua atenção, todo o papo de eu ser a melhor filha do mundo, se transferiu para o filho dele e da minha madrasta.

Ele não brinca mais, vive com seu rosto sério. Quando fala comigo, é para corrigir minha postura ou criticar meu comportamento.

Minha mãe ficou com a loja, antiga fonte de renda deles. A gente sempre fica se mudando de casa, alugando uma, depois se mudando, alugando outra. Já perdi as contas dos lugares onde já moramos.

Ano passado, a loja teve uma crise financeira e ela planejou vender a loja para podermos se mudar para Sorriso, a cidade onde minha irmã mais velha se mudou devido ao trabalho, uns 3 anos atrás.

Meu pai não nos deixou ir. Me pergunto que direito ele tem de mandar na vida dela, sendo que eles já se separaram faz muito tempo. Minha mãe permanece obedecendo as ordens dele. Sou a única que enxerga o quanto a situação é ridícula?

Enfim, ela não vendeu a loja. Arrendou para um cara lá, e agora trabalha pra ele. Ela possui posse de creio que apenas Um Terço da loja, mas ok.

Tenho raiva do quanto meu pai mudou depois que se casou com a minha madrasta.

Ela não é realmente má comigo, mas também não é tão boa. Ela controla meu pai.

O defeito do meu pai, é que ele é muito ambicioso. O Outlet grande que ele abriu aqui, em nossa cidade, deu uma renda muito boa, maravilhosa. Então, ele resolveu abrir outro em Sinop. O outro faliu e então o daqui começou a bancar o de lá. Ano passado, o Outlet de Sinop faliu e ele teve de fechar ele. Esse ano, teve de fechar o daqui porque também faliu. No mesmo ano, ele teve várias crises devido à pressão alta. Um dia uma veia do pescoço dele estourou e ele foi parar no hospital.

Recentemente, se tornou comum os períodos em que ele passa mal, desmaia.

Meu pai só dorme e acorda com remédios tarja preta.

Minha mãe me disse. Ele não consegue mais dormir a noite sem tomar um remédio tarja preta. Ele simplesmente não consegue.

E claro, isso foi destruindo a cabeça dele com o tempo.

Ano passado, ele tentou se suicidar.

Eu lembro de tudo.
Meu pai tinha excluído o Whatsapp, desligou o celular e sumiu.

Foi um desespero, ligações da minha madrasta, da minha mãe e do meu padrinho entre si, tentando descobrir aonde ele foi. Eu tava junto quando meu padrinho ligou pra minha mãe, contando que ele sumiu e ninguém sabia onde estava.

Quando ela começou a chorar, eu imediatamente soube o que tava acontecendo.

Mais tarde, descobrimos aonde ele foi. Em um rio que ficava a 50 km daqui onde moramos. Ele foi de carro, planejando se jogar no rio. Ninguém acharia o corpo e a herança iria para mim e seu filho, garantindo a todos uma vida feliz.

Que tipo de vida feliz teríamos se ele estivesse morto?

Uma hora, ele atendeu a ligação da minha madrasta. Foi isso que o impediu de se jogar no rio.

Foi isso que o impediu de virar o jantar de sexta-feira das piranhas.

Até hoje ele não sabe que eu sei sobre isso. Ele implorou pra minha mãe não me contar. Mas eu sei, claro. E então, todos os dias quando olho para ele eu me lembro disso, e eu sei que ele não sabe que eu sei. É bem engraçado isso, na realidade.

Esses dias ele teve seu segundo infarto.

Minha mãe já teve conversas comigo sobre o assunto.

Ela já me disse que, meu pai não vai viver muito tempo. Que eu devo estar preparada se um dia ele tiver um derrame, ou um infarto que definitivamente o mate.

Eu concordei com ela. Já estou com isso em mente, então, se um um dia ele morrer, eu não vou ficar surpresa.

Alguém tem ideia do que é sentir esse sentimento? De saber que seu pai pode morrer a qualquer momento, que não vai ser surpresa. Que é possível. Que vai acontecer.

Meu pai, nos melhores dias da nossa relação, me prometeu que iria estar vivo para ver minha formatura. Que me ajudaria a erguer o diploma. Ele disse que estaria lá.

Hoje em dia, não tenho mais tanta certeza disso.