Diário de uma Balzaquiana 01
1 Diário de uma Balzaquiana 01
Notas iniciais
Querido diário..., não claro que não, uma pessoa que acaba de fazer trinta anos, não pode chamar seu diário de “amado”. Isso é coisa para adolescente que tem problema de relacionamento ou é extremamente tímido a ponto de ter que recorrer a um caderno para poder desabafar.
Como uma pessoa adulta, tenho que ir a um analista para falar e contar meus problemas, bom..., mas, como estou sem grana para pagar um psicanalista, tenho que recorre a um diário, que me custou dezenove reais, o que é muito mais barato que uma consulta de uma hora com um terapeuta.
Sem falar em outra vantagem, posso escrever no diário quanto quiser, sem nenhum tipo de relógio para contar o tempo, como acontece em uma consulta.
Bom..., senhor diário, é assim que irei chama-lo, até porque ainda não somos amigo íntimo e preciso me acostumar com a ideia de escrever ao invés de falar e falar...
Ao contrário de muitas pessoas supersticiosas, no qual creio que são assim por falta de informação, adoro o mês de agosto, tenho um forte e bom motivo para gostar. Agosto é o mês que nasci, porém, esse ano, estou desanimada.
Vinte de agosto, terça-feira, dia do meu aniversário. No escritório de contabilidade onde trabalho, meus colegas fizeram uma festinha “quase surpresa”, digo isso por que, sempre que alguém faz aniversário, todos se reúnem e é feita uma vaquinha para comprar bolo, salgado e refrigerante, à única diferença é que o aniversariante não colabora.
Quando cheguei a minha sala, todos estavam amontoados em volta da minha pequena mesa, que normalmente vive bagunçada, até que tento deixa-la arrumada, mas, creio que deve ter um casal de papel se procriando como coelho, pois, os papeis se multiplicam de forma assustadora.
A "festinha" foi àquela coisa xôxa de sempre. O pessoal não tem entusiasmo para parabenizar o aniversariante, o interesse maior é comer a maior quantidade possível de bolo e salgados, acho que era para justificar a marrequinha que dão. .
Fiquei agradecida pela falta de ânimo do pessoal, ao menos não tinha que fingir estar feliz. Paola, tinha perguntado quantos anos estava fazendo, respondi que era vinte e nove. Sei que menti logo eu, que levanta a bandeira da verdade e se orgulha de ser uma pessoa honesta, sincera e verdadeira, mas..., não consegui falar a palavra trinta.
Não me sinto preparada para ter trinta anos, vinte e nove soa bem melhor aos meus ouvidos. Tampouco, tenho orgulho de ter mentido, orei no banheiro a Deus pedindo perdão pela mentira.
O resto da manhã foi tranquilo, no almoço me contive no restaurante self-service, apesar de ser meu aniversário não tiver ânimo para comer nenhuma porcaria, à tarde acessei meu e-mail pessoal, nossa..., fiquei ainda mais depressiva, somente as lojas que fiz compra on-line havia me enviou mensagem de feliz aniversário.
Para que ter mais de trezentos e cinquenta e dois “amigos virtuais”, se no momento que você deseja ao menos receber um “oi”, ninguém se lembra de que você existe. Acho que devo ser a pessoa mais horrível e sem graça do mundo.
O dia parecia se rastejar, estava insuportável assim como meu humor. Quando finalmente o expediente encerrou, fui para casa, antes dei uma passada no supermercado, comprei um pote de sorvete de baunilha com pedaços de biscoito de chocolate, iria me esbaldar, afinal era meu aniversário e eu tinha direito de comer a porcaria calórica que quisesse. Dane-se a dieta!
Quando estava entrando no elevador um garoto que deveria ter, uns quinze ou dezesseis anos no máximo. Com um medonho boné verde florescente na cabeça, vestindo uma camisa de uniforme do colégio Objetivo, falou em voz alta no hall do prédio.
“Tia segura o elevador para mim”
Ouvi o que o menino disse, porém, meu celebro levou um longo tempo para processar aquelas palavras. O moleque me chamou de tia? Como posso ser tia de um garoto daquele tamanho? Ele devia ser mais alto do que eu! Será que estou com a aparência de velha a ponto de um marmanjo me chamar de tia?
Preferia que ele tivesse gritado que era um assalto. Roubaria minha carteira, tinha apenas cinquenta e um reais e vinte centavos, meu celular, talvez os meus brincos de prata. Seria apenas bens materiais, que com trabalho se recupera, aquele garoto naquele momento me roubou a juventude, que pensei que ainda tinha, e isso nunca mais teria como recuperar.
Fiquei sem ação e não segurei o elevador, nossa..., estava atônica com os olhos arregalados. Arrastei-me para dentro do meu apartamento, estava me sentindo deprimida e velha.
Na frente do espelho estiquei o rosto com as mãos, caramba..., acho que devo começar a considerar a ideia de juntar uma grana para fazer aplicações de Botox. Amargura e triste, golpeada cruelmente com uma inevitável verdade, estava envelhecendo e nem tinha me dado conta disso.
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