Diário de Um Nelliw

13 Triste Verdade


Aquela visão do monge ressuscitando com o brilho azulado da magia Kaizel, da qual permitia que sua alma não saísse de seu corpo, e o regenerava parcialmente, me deixou atormentado. Acertei-o várias vezes com a minha magia mais poderosa, e a usei em potência máxima, arriscando a minha vida e mesmo assim, ele estava ficando de pé. Senti o sangue em minha barriga ir para pernas e braços, para poder correr para longe, mas algo em minha mente me segurava no lugar, dizendo que eu tinha mais coisas para fazer. Nunca senti tanto medo na minha vida, exceto talvez em minha última campanha, mas naquele momento, eu já estava entregue nos braços da morte. Shen ia se erguendo, apoiando-se nas pedras que se desprenderam do muro, e estava encharcado de sangue, porém, seus ferimentos se fecharam, e mesmo um pouco fraco e ofegante, estava com seu olhar sério, parecendo um deus ressurgindo em meio ao caos.

-Então você sabe que magia é essa? – Ele perguntou-me, vendo que eu expressava surpresa. Embaracei-me um bocado com esta pergunta, pois só a conheço por que certas coisas ocorreram.

-De fato, eu conheço. Dormi com uma Espiritualista bonitinha. Ela estava tão bêbada que começou a me jogar suas magias, e mais algumas coisas de seu corpo.

Ele ficou com uma cara de nojo e reprovação na hora. Fazer o quê, eu sempre tinha essa sorte de conseguir mais do que o necessário das mulheres. Ele ficou ereto mais uma vez, e eu caí apoiado no meu joelho. Doía muito a ferida embaixo do braço e estava muito exausto, mas agora teria de lutar de novo, e teria de achar um modo de ganhar muita energia em pouco tempo, pois para mim já não restava mais nada.


Mas para minha surpresa, a sorte sorriu para mim novamente. Shen estava sem energias também, o que me garantia algum tempo de vantagem para correr, ou poderia arriscar lutar no corpo-a-corpo, mesmo que seja contra um monge. Mas não foi essa a surpresa, mas o que eu percebi foi uma pequena figura atrás do monge, que estava só a espera de um comando, pronta para ajudar. Com todas as minhas forças, eu gritei.

-Julianna!

Shen não teve tempo de virar a cabeça e ver quem estava atrás dele, pois recebeu um forte chute de alguém que se locomovia por entre a poeira que ainda estava no ar. A algoz o acertou com força, e o jogou para fora da muralha, enquanto eu ia me erguendo aos poucos, e andava a passos lentos e ruidosos, com pouca força para correr.

-Senhor Uriu! – Ele chamava enquanto corria em minha direção. –Senhor Uriu!

-Julianna. Onde está Kathryne?

-Ela se juntou ao seu grupo. Estão lutando nas redondezas da favela.

Ao menos eu tinha notícias boas para ouvir. Deixei o grupo para trás e vim com Kathryne para invadir pelo portão norte, e também onde encontraríamos o suposto laboratório que, agora eu acreditava estar no subterrâneo, e houve esse contra tempo. Ao menos ela veio para me ajudar. A algoz colocou o meu braço por trás de seu pescoço e começou a me carregar, me levando para dentro da cidade, mas forcei a parada, exatamente ao lado de onde Shen estava caído, ofegante. Eu caí sentado ao lado dele, e refleti por algum tempo. Peguei duas garrafas pequenas com líquidos brancos e bebi uma. A outra, eu dei para Shen.

-Mas...

-Relaxe. Quero ouvir com calma o que você tem a dizer. Agora já não adianta lutar.

Ele devia estar pensando muito, pois me olhou por um tempo, julgando se eu era digno de saber sua verdade e ser confiável. Aparentemente, eu era. Ainda deitado, ele olhou para o céu e ficou assim durante toda a conversa.

Eu, ele começou, não sou natural de Umbala, e sim de Lighthalzen. Há muito tempo, depois de uma revolta da população, meus pais morreram, enquanto eu e meu irmão mais novo fomos deixados para morrer, jogados no meio da favela. Por minha fé ser de grande valia, os deuses deviam ter me recompensado, pois pouparam nossas vidas e as mãos caridosas dos habitantes de lá nos ajudaram. Tínhamos comida, roupas e abrigo, mas eu ainda continuava a não entender a humanidade e tomei rumo para o desconhecido. Eu deixei a cidade, e pelo que soube meu irmão mais novo também saiu à procura de sua própria verdade. Mas eu não achava saída, e cada vez mais o mundo estava prestes a entrar em decadência, por causa de tantos conflitos.

-Foi aí que você encontrou Umbala, não é? – Interrompi, já presumindo sua resposta. Ele assentiu.

-Sim. Lá, treinei durante longo tempo e aprendi a lutar, a viver e apreciar os deuses. E foram eles que me jogaram no meio dessa guerra, para acabar com ela. Para isso, as almas de muitos mortos que perambulavam na noite foram depositadas em mim, e com a magia antiga do povo de Umbala, eu consegui essa força. Eu novamente saí pelo mundo, mas não para encontrar a verdade, e sim para espalhá-la.

-E que verdade é essa? – Mais uma vez eu perguntei para ele. Ele parou um pouco, respirou fundo e recomeçou.

-A verdade é que muito em breve, o mundo entrará em caos. Conhecerão a dor, o sofrimento e o domínio dos deuses já não será mais seguro. Por isso, me obriguei a matar aqueles que se opuseram a minha verdade, e também aqueles que de algum modo a quere. – Ele ergueu o punho direito para o céu, e pude ver as tatuagens mais de perto. – É possível alcançar esse poder, o poder da verdade. Basta sacrificar uma ou mais pessoas que tenham muitas mortes nas mãos.

Eu senti uma pontada muito forte no cérebro, e de repente comecei a ter arrepios. De algum modo, eu fiquei nervoso e pensei em algo relevante a aquele momento, algo que me deixou desconfortável.

-Então, se você estava aqui para impedir alguém de obter a verdade – Eu não queria ter pensado naquilo, mas a coisa parecia mais horripilante a cada instante. – e esses revolucionários não passam de meros peões, significa que...

-Significa que o os seus amigos estão correndo grande perigo.

Aquela resposta me tomou com um choque de realidade potente. Agora tudo fazia sentido. O projeto dos humanóides perfeitos, a revolução, os pobres homens usados como experiência a tanto tempo,os guardiões. Além de ser uma pesquisa para construir robôs e criar o ser perfeito, alguém ainda estava secretamente agindo e coletando informações para obter esse poder surpreendente. E agora, eu sabia quem eram os sacrifícios. De súbito, me pus de pé, mas não conseguia correr como eu queria, e Julianna precisou me ajudar. Ela, como algoz, sabia desse perigo, pois era seu dever como membro da guilda que jura guardar em igualdade a ordem e o caos, mas ela não suspeitava que a coisa fosse tão grande assim.

-Senhor Uriu, tem que descansar. Ou não vai conseguir ajudar seu grupo.

Nós fomos lentamente para a muralha, então, parei mais uma vez. Esperei um pouco e relembrei das palavras de Seyren no passado. Eu não tinha pensado nisso, mas agora parecia tão claro pra mim, e daquele dia em diante, passei a encarar o mundo com outros olhos. Apenas virei meu rosto para olhar Shen, que ainda estava deitado olhando para o céu.

-Shen. Seu verdadeiro nome é...

-Meu sobrenome é Windsor.

Sorri. Agora eu sabia de tudo.

-E a partir de hoje, é meu aliado. Espere aqui, eu voltarei para levá-lo comigo.

E assim, deixei o atônito monge para trás e fui carregado por Julianna até dentro da cidade. Muitos moradores vinham ver o que se passava, pois agora tinha uma cratera no muro norte da cidade, e dela saia um homem ferido e cheio de sangue carregado por uma algoz. A cidade era praticamente habitada somente por gente com influência, cheia do dinheiro e riquezas, e me olhavam de canto enquanto eu passava com Julianna pelas ruas da cidade. Povo esnobe, e pensar que Seyren nasceu aqui, e ainda quis a paz com essa raça mesquinha. Andamos até os limites da cidade, onde começava a favela. Só tinha um guarda bloqueando o caminho, e ainda estava dormindo, por isso atravessamos sem nenhum problema. Andamos um bom pedaço de terra e eu vi a batalha que havia acontecido ali, somente por que ainda havia rastros dela. Vários corpos jogados no chão, todos feridos de formas surpreendentes. Golpes de uma espada muito afiada, flechas precisas que atravessavam o corpo, ataques constantes de uma lâmina que cortava e esmagava por causa do peso, cortes tão bem feitos e precisos que pareciam ter sido feitos sem a consciência do alvo, e um grande número de feridas causadas por vários elementos. Além disso, havia dois guardiões, robôs de alta tecnologia, destruídos no chão. Eu procurei com os olhos pelos corpos de algum conhecido, mas eu não achei nem Seyren em os outros.

-Viu? Parece que eles conseguiram se salvar. – Julianna falou tão inocentemente, mas essa não era a questão. Vivos ou mortos, eles precisavam sair de lá o mais rápido possível. Um grande número de pessoas estava aglomerando o local, então perguntei a uma delas.

-Você viu um pequeno grupo de pessoas lutando por aqui? Por favor...

-Ah, eu vi sim. – Era um homem já de cabelos grisalhos e pele macilenta, mas tinha o rosto confiável. – Um era o Lorde Seyren. Eu os vi lutar aqui. Foi algo sinistro.

-Sim, mas o que aconteceu com ele?

-E lutaram bravamente, senhor, lutaram como nunca. – Eu comecei a soltar algumas lágrimas, sabendo que a verdade era inevitável. Julianna ouvia com atenção tudo, enquanto me segurava e me apoiava firmemente. – Mas deve saber senhor que esse guardiões são muito fortes.

-O que houve com eles? Diga-me! – Eu comecei a me desesperar, e de repente fiquei sem chão.

-Eles foram mortos, senhor. Eu sinto muito, mas um a um, eles tombaram.

Senti o mundo freando e parando naquele instante, o ar parar de percorrer o espaço, escutei as batidas do meu coração ficarem baixas, e ouvir a respiração da algoz. Minhas pernas amoleceram e fiquei caído. Julianna precisou me segurar com muita força.

-Então...onde estão os seus corpos? – Julianna, com muita calma perguntou ao velho. Ele pensou um pouco e balançou a cabeça negativamente.

-Eles foram recolhidos e levados pela guarda da cidade. Certamente serão levados para o hospital, mas nenhum deles sobreviveu. Eu sinto muito.

E naquela tarde, nós voltaríamos para Prontera. Voltaríamos, todos juntos, se não fosse por essa triste realidade. Graças a Julianna, pude ter certa ajudar para voltar para fora da cidade, onde encontrei e Shen, já recuperado e pronto para partir. Quando ele me viu, ele ficou sério, e eu balancei a cabeça negativamente, com o rosto corado e lágrimas incessantes. A reação dele foi apenas firmar o olhar, e por um instante, eu vi um brilho em seu olho, e esse brilho escorreu uma única vez pelo seu rosto. E então, nós três partimos de volta para Prontera. Eu iria, é claro, providenciar para que Shen fosse inocentado ou tivesse uma pequena pena, confiando que meu julgamento era de bom tamanho par ao Rei Tristan, porém, eu também iria levar a terrível verdade que eu estava carregando no peito. Nós chegamos à manha do dia seguinte aos portões da cidade, e ao chegar, notei que a nossa volta era esperada por nossos amigos e familiares, e vendo aquela cena, eu me desesperei. Os que esperavam por nós ficaram surpresos ao ver o monge e a algoz, mas quando notaram a falta do restante do grupo e me viram ficar jogado de joelhos no chão, muitos puseram suas mãos na boca, impedindo as palavras de se espalharem, fecharam os olhos e pude sentir o coração de todos bater mais rápido. Palavras eram desnecessárias para saber.

-Meu amigo...- Foi a única coisa que pude dizer naquele instante, pois estava com lágrimas nos olhos, e tinha minha respiração fraca. Chorei pelo meu senhor e amigo, e todos sabiam. Seyren, Howard, Cecil, Eremes, Margaretha e Kathryne. Todos estavam mortos...